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sábado, 13 de agosto de 2011

AS FALHAS DA 'FOLHA': LINCHAMENTO

Jornal mata gente?

Não estou me referindo àquela prática da Folha da Tarde (SP), de noticiar a morte de pessoas ainda vivas para favorecer as tramóias da repressão, durante a ditadura de 1964/85. Parafraseando o grande Leonard Cohen,  everybody knows  que isso aconteceu e eu não gosto de chover no molhado.

Refiro-me a assassinato, mesmo.

Bem, é difícil imaginarmos uma empresa jornalística atingindo alguém com... rotativas? as pesadas máquinas-de-escrever de outrora? o conservadorismo petrificado de seus diretores?

Mas, a imprensa tem uma arma mortal: a capacidade de destruir reputações. Que o digam aqueles pobres coitados da Escola Base, levados à falência e quase linchados porque a mídia trombeteou uma falsa acusação de pedofilia.

Então, um episódio na história da empresa Folha da Manhã, nos idos de 1967, justificaria uma interessante discussão em escolas de jornalismo e cursos de Direito: se alguém sofre um ataque cardíaco fulminante após ter sido alvo da sanha persecutória de uma empresa de comunicação, isto caracteriza homicídio culposo? 

Ou, mais diretamente: os jornais do Grupo Folha e o então governador Abreu Sodré foram os responsáveis pela morte do diretor de trânsito Américo Fontenelle?

Que os leitores decidam.

COMPETENTE, MAS TRUCULENTO

A satanização do coronel Fontenelle
pelo Grupo Folha antecedeu sua morte
O coronel Fontenelle construíra sua reputação no governo de Carlos Lacerda (RJ), quando obtivera resultados excelentes por abordar o trânsito com metodologia sofisticada de diagnóstico e planejamento de ação, o que ninguém fizera até então no Brasil.

Ao mesmo tempo, inclusive por ter formação militar, era um atrabiliário ao colocar as medidas em prática, chegando a mandar os guardas esvaziarem os quatro pneus de quem estacionasse em locais proibidos e colarem no vidro do carro mensagens a respeito da infração cometida (as quais tinham de ser pacientemente removidas, pois bloqueavam a visão do motorista).

O governador Abreu Sodré o contratou a peso de ouro para pôr ordem no trânsito caótico e congestionado de São Paulo. Eis como o jornalista e radialista Afanásio Jazadji evocou sua atuação, no Repórter Diário:
O Coronel Fontenelle montou sua equipe e começou a trabalhar, localizando o engarrafamento em São Paulo em dois pontos: 1 – estacionamento desordenado nas principais ruas; e 2 – carga e descarga o dia todo, durante 24 horas, impedindo os carros de se locomoverem.

Atacou logo os dois pontos com total sucesso, criando ‘bolsões’ e também ‘rotatórias’. Proibiu carga e descarga em toda a cidade, a não ser de meia-noite às 6 da manhã.

Suas medidas radicais colocaram o trânsito no seu devido lugar. (...) Suas medidas atingiram os maiores empresários do setor de transportes, que com caminhões congestionavam praticamente o dia inteiro a região do Mercado Central, espalhando a paralisação por todo o centro e bairros adjacentes.

Fontenelle mandava rebocar até mesmo o carro de vereadores e deputados que atravancavam tudo.
O menestrel Juca Chaves chegou a compor uma sátira bem-humorada a seu respeito: “O Seu Fon-Fon chegou/ O Seu Fon-Fon chegou/ Mudou, mudou, mudou/ E agora, pra que lado eu vou?”.

A grita contra Fontenelle era tanta que ele teve de enfrentar a furibunda deputada Conceição Costa Neves num debate televisivo mediado por Aurélio Campos. Embora também tivesse pavio curto, fez esforços titânicos para conservar-se aparentemente calmo, limitando suas respostas às ofensas e grosserias da adversária a um comedido "isto, na sua opinião!".

Ganhou de goleada, segundo as rudimentares pesquisas de opinião da época: a virulência de Conceição se voltou contra ela, levando os telespectadores a simpatizarem com o cavalheirismo à moda antiga de Fontenelle.

A RODOVIÁRIA DA DISCÓRDIA

Menos sorte o coronel teve, entretanto, quando enfrentou o Grupo Folha de Octávio Frias e Carlos Caldeira.

Ocorre que outro negócio de Caldeira era a Rodoviária de São Paulo, absurdamente localizada bem no centro da cidade (av. Duque de Caxias) e foco dos maiores congestionamentos. O trabalho de Fontenelle não estaria completo se não extirpasse essa chaga. E, como contrapartida à personalidade despótica, ele tinha muito senso do dever e coragem pessoal.

Percebendo que, se anunciasse antecipadamente a desativação da rodoviária, seria tolhido pela politicalha, Fontenelle a executou nos moldes de uma operação militar, colhendo o inimigo de surpresa e criando um fato consumado: da noite de domingo para a manhã de segunda-feira, fechou a rodoviária e transferiu todos os ônibus, precariamente, para o Parque D. Pedro.

Foi vítima, como retaliação, de uma das mais tendenciosas e exageradas campanhas já desencadeadas por órgãos de imprensa contra um administrador público. Páginas e páginas eram utilizadas diariamente nos jornais do grupo para detonar o trabalho de Fontenelle e dar voz às suas vítimas (como os viajantes que perdiam o ônibus por desinformação).

Em nenhum momento aqueles veículos de imprensa tiveram a dignidade de informar aos leitores que estavam longe de ser parte isenta na questão, já que seus interesses haviam sido contrariados.

O governador Sodré, que não tinha a simpatia do Grupo Folha, de repente acertou os ponteiros com Caldeira e Frias: demitiu Fontenelle e passou a receber rasgados elogios nos jornais da empresa.

Pouco tempo depois, ao dar uma entrevista no programa Roleta Paulista, Fontenelle foi indagado a respeito de sua demissão. Em resposta, disse que iria falar tudo que até então silenciara sobre o comportamento desleal e indigno do governador.

De repente, parou, como se tivesse perdido o fio da meada. Fitou a câmara, seu olhar ficou esgazeado; cambaleou e, ao desabar no chão, já estava duro como pedra.

O pessoal do estúdio correu para socorrê-lo, a câmara tremeu, a transmissão foi interrompida. Logo depois, um locutor informou que o coronel tivera uma ligeira indisposição, mas passava bem.

Na verdade, estava agonizando. Morreu a caminho do pronto-socorro.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

COMEÇA A TEMPORADA DE DEBATES: EIS UM QUE MARCOU ÉPOCA

Debates eleitorais são recentes no Brasil, começaram em 1982.

E os que reúnem apenas dois candidatos vêm desde 1989, quando foi introduzido o segundo turno nos pleitos para presidente da República, governador e prefeito.


Infelizmente, já deu tempo para as assessorias especializadas capacitarem-se a preparar qualquer indivíduo que não seja um completo idiota para ter desempenho razoável nos debates, dando respostas decoradas para os questionamentos óbvios, driblando as questões inoportunas, lançando provocações para desestabilizar o(a) adversário(a), abusando das falsas emoções, etc.

Daí a previsibilidade que ora caracteriza os debates.

Mas, como a eleição 2010 está polarizada entre um homem e uma mulher, a chamada caçapa cantada para o 2º turno, vale darmos uma relembrada no primeiro grande debate televisivo entre os dois sexos, em São Paulo.

Não foi exatamente eleitoral: teve como contendores o diretor de trânsito Américo Fontenelle (foto acima) e a deputada Conceição Costa Neves, em 1967.

No governo de Carlos Lacerda (RJ), o coronel Fontenelle conseguira resultados excelentes por abordar o trânsito com metodologia sofisticada de diagnóstico e planejamento de ação.

Ao mesmo tempo, até por sua formação militar, era um atrabiliário ao colocar as medidas em prática, chegando a mandar seus comandados esvaziarem os quatro pneus de quem estacionasse em locais proibidos ou colarem espessos papéis no vidro da frente, difíceis de remover, especificando a infração cometida pelo motorista.

O governador Abreu Sodré o contratou a peso de ouro para pôr ordem no trânsito caótico e congestionado de São Paulo. Eis como o jornalista e radialista Afanásio Jazadji evocou sua atuação, no Repórter Diário:
“O Coronel Fontenelle montou sua equipe e começou a trabalhar, localizando o engarrafamento em São Paulo em dois pontos: 1 - estacionamento desordenado nas principais ruas; e 2 – carga e descarga o dia todo, durante 24 horas, impedindo os carros de se locomoverem.

“Atacou logo os dois pontos com total sucesso, criando ‘bolsões’ e também ‘rotatórias’. Proibiu carga e descarga em toda a cidade, a não ser de meia-noite às 6 da manhã.

”Suas medidas radicais colocaram o trânsito no seu devido lugar. (...) Suas medidas atingiram os maiores empresários do setor de transportes, que com caminhões congestionavam praticamente o dia inteiro a região do Mercado Central, espalhando a paralisação por todo o centro e bairros adjacentes.

”Fontenelle mandava rebocar até mesmo o carro de vereadores e deputados que atravancavam tudo.”
O menestrel Juca Chaves chegou a compor uma sátira bem-humorada a seu respeito: “O Seu Fon-Fon chegou/ O Seu Fon-Fon chegou/ Mudou, mudou, mudou/ E agora, pra que lado eu vou?”.

Como havia muita grita contra Fontenelle, a deputada Conceição Costa Neves erigiu-se em porta-voz da oposição ao coronel, discursando inflamada e demagogicamente contra ele na Assembléia Legislativa. E a extinta TV Tupi (que fazia parte dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand), armou um debate entre ambos, mediado por Aurélio Campos.

Sendo Fontenelle um homem irascível, a deputada populista supôs que sairia bem na foto se mostrasse coragem de confrontá-lo, adotando uma postura extremamente agressiva.

Para sua surpresa, o coronel se apresentou como um autêntico gentleman, recusando-se a acompanhá-la num duelo de agressões. Respondia às piores acusações e insultos com apenas quatro palavras: “Isso na sua opinião”.

As rudimentares pesquisas de opinião da época lhe deram a vitória por goleada. Os telespectadores ficaram chocados ao verem uma deputada se comportando de maneira tão vulgar e, embora estivessem (por influência da mídia) predispostos contra Fontenelle, acabaram por admirar sua postura cavalheiresca. Aos observadores mais atentos, entretanto, não escaparam sua testa franzida, a raiva a duras penas contida...

CRUCIFICADO PELA IMPRENSA

Menos sorte Fontenelle teve, entretanto, quando enfrentou a empresa Folha da Manhã, pertencente a Octávio Frias e Carlos Caldeira.

Ocorre que outro negócio de Caldeira era a Rodoviária de São Paulo, absurdamente localizada bem no centro da cidade (av. Duque de Caxias) e foco dos maiores congestionamentos. O trabalho de Fontenelle não estaria completo se não extirpasse essa chaga. E, como contrapartida à personalidade despótica, ele tinha muito senso do dever e coragem pessoal.

Percebendo que, se anunciasse antecipadamente a desativação da rodoviária, seria tolhido pela politicalha, Fontenelle a executou nos moldes de uma operação militar, pegando o inimigo desprevenido e criando um fato consumado: da noite de domingo para a manhã de segunda-feira, fechou a rodoviária e transferiu todos os ônibus, precariamente, para o Parque D. Pedro.

Foi vítima, como retaliação, de uma das mais repulsivas campanhas já desencadeadas por órgãos de imprensa contra um administrador público. Páginas e páginas eram utilizadas diariamente nos jornais do grupo para detonar o trabalho de Fontenelle e dar voz às suas vítimas, como os viajantes que perdiam o ônibus por desinformação.

Em nenhum momento os jornais tiveram a dignidade de informar aos leitores que estavam longe de ser parte isenta na questão, já que outros interesses dos seus proprietários haviam sido contrariados.

O governador Sodré, que não tinha a simpatia do Grupo Folhas, de repente acertou os ponteiros com Caldeira e Frias: demitiu Fontenelle e passou a receber rasgados elogios nos jornais da empresa. Um imundo toma-lá-dá-cá.

Pouco tempo depois, ao dar uma entrevista no programa Roleta Paulista da então TV Paulista (Organização Victor Costa), Fontenelle foi indagado a respeito de sua demissão. Em resposta, disse que iria falar tudo que até então silenciara sobre o comportamento desleal e indigno do governador.

De repente, parou, como se tivesse perdido o fio da meada. Fitou a câmara, seu olhar ficou esgazeado; cambaleou e, ao desabar no chão, já estava duro como pedra.

O pessoal do estúdio correu para socorrê-lo, a câmara tremeu, a transmissão foi interrompida. Logo depois, um locutor informou que o coronel tivera uma ligeira indisposição, mas passava bem.

Na verdade, estava agonizando. Morreu a caminho do pronto-socorro.
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