quarta-feira, 6 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 9)

Quando eu me encontrava preso
na cela de uma cadeia
foi que eu vi pela primeira vez
as tais fotografias
em que apareces inteira.
Porém lá não estavas nua
e sim coberta de nuvens
Caetano Veloso/Terra, música que
 compôs na solitária do DOI-Codi/RJ,
pela qual eu também logo passaria

Eu contava os dias transcorridos desde que eu havia sido preso. Não posso precisar exatamente quando quebraram a minha incomunicabilidade, mas tinham se passado dois meses e meio. 
.
Na Lei de Segurança Nacional que eles próprios  inventaram, os militares limitaram a fase operacional (sem visitas de parentes nem de advogados) a 30 dias. Ou seja, eles próprios desrespeitavam as regras do jogo que impunham pela força.

Meus pais puderam enfim me visitar. Ficaram estarrecidos com minha magreza; perdera uns 30 quilos. Mais tarde me disseram que eu estava parecendo os esqueléticos prisioneiros soltos dos campos de extermínio nazistas.

De lá até a libertação eu estaria salvo das torturas, a menos que algum companheiro recém preso lhes dissesse que eu conhecia uma informação importante. Não foi o caso.

O desafio para mim passou a ser o de suportar dias e mais dias sem nada para fazer. Procurava esticar as minhas lembranças o máximo que conseguia. Cada hora que passava era uma hora ganha contra a depressão que me assediava,

Hoje me recordo mais da fase operacional do que desse período intermediário, no qual as novidades eram apenas a de ser levado a São Paulo para comparecer às audiências nas auditorias militares e ser devolvido para o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, eu permanecia até que os milicos tivessem outro companheiro para enviar ao Rio de Janeiro. Então, me mantinham ou na sede do DOI-Codi ou no quartel da Polícia do Exército.

Do quartel, uma das minhas principais lembranças é a de que, quando estava sendo transportado para alguma das duas auditorias da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o carro ficou preso num congestionamento exatamente diante de uma banca de jornais. 

Nela estava exposto para os transeuntes um que destacava a morte de mais integrantes do Movimento Revolucionário Tiradentes que supostamente tinham reagido à prisão.

O oficial que comandava o destacamento disse que eu tinha sorte de haver sido preso no semestre anterior, caso contrário  dificilmente escaparia com vida. Era o que eu deduzira da sequência de óbitos dos militantes do MRT. Mas serviu como confirmação de que havia prisioneiros sendo executados já no segundo semestre de 1970. Depois a prática se generalizou.

Quando cheguei pela primeira vez na central de torturas paulista, quem a comandava era o coronel Audir Santos Maciel, antecessor do coronel Brilhante Ustra. O Santos Maciel me recebeu dizendo de imediato que eu poderia ficar tranquilo, pois era prisioneiro do DOI-Codi/RJ, que proibira torturas contra mim (provavelmente por ainda temer que eu infartasse).

Mas fez questão de me conduzir num tour por aquele local maldito. Percebi que ele queria era me mostrar o trono do dragão, uma cadeira metálica na qual os prisioneiros eram atados para receber choques.  Irônico, disse algo na linha de olha aí do que você escapou

Recriminou-me, brincalhão sem graça, por ter ido ser preso no Rio de Janeiro, depois de todo esforço que seu órgão fizera para me agarrar. Inclusive, sabendo que eu frequentava a Biblioteca Central, designou agentes para me esperarem lá. Terão aproveitado para ler algum livro? Duvido,

Mas, fiquei desolado ao saber exatamente quem dera tal informação para o inimigo, ajudando-o a me perseguir. Tratava-se de  um dos integrantes da minha base secundarista 

Outra recordação marcante foi a de que dois prisioneiros cuja libertação já estava decidida concordaram em levar mensagem para meus pais, que sabiam da minha saída da Vila Militar, mas foram mantidos na ignorância de para onde eu fora transferido.

Até duvidei de que eles, após passarem por aquele inferno, arriscassem sua liberdade para me fazerem tal favor. No entanto, meu pai contou que haviam cumprido o prometido, visivelmente assustados, mas com muita coragem.

Também lembro com enorme respeito dos recrutas que, mesmo escutando os urros dos companheiros torturados, ousavam trazer-me sobras das refeições quando eu mais precisava desses reforços para ir recuperando o peso perdido. Não o faziam por convicções revolucionárias, apenas por compaixão.

No DOI-Codi paulista era pouco o espaço livre, daí terem amiúde  me colocado na mesma cela de prisioneiros ainda submetidos à tortura. 

Era muito deprimente eu ouvir os gritos lancinantes de quando levavam choques, insuportáveis, apesar da distância que existia entre as celas no térreo e as torturas no primeiro andar. 

Certa vez o coronel Brilhante Ustra mentiu que nunca havia escutado os ruídos da pancadaria e os berros dos torturados. Respondi que isto só seria possível se ele fosse surdo, pois aquela barulhada se ouvia até na rua.  

Lá fiquei conhecendo a triste história do sargento Kogi Kondo, cuja cela ficava próxima da minha. Ouvia os oficiais indo até as celas para xingá-lo de covarde e vergonha da farda, então perguntei qual era o motivo desse tratamento.

O pobre coitado era da Intendência e levava víveres e munição para as tropas durante o cerco de Registro, quando o veículo foi dominado pelos companheiros fugitivos e os militares tiveram de ceder suas fardas. 
Eu estava só com  recos  [recrutas] inexperientes. Os terroristas nos renderam, obrigando-nos a transportá-los, no nosso caminhão, para fora do cerco. Disseram que nos matariam se não colaborássemos. Então, passamos as barreiras calados, sim. É graças a isso que estou vivo. Prefiro aguentar ofensas e zombarias do que morrer.
Acabou servindo, claro, como o principal bode expiatório do fiasco da operação que mobilizou inutilmente quase três milhares de militares. O sargento ficou preso por algum tempo e depois o libertaram, expulsando-o do Exército.
Já no DOI-Codi/RJ, nauseava-me  escutar o relato das indignidades a que eles haviam submetido Caetano Veloso e Gilberto Gil. Não lhes perdoavam a fragilidade, comparada ao comportamento mais firme dos militantes. E se orgulhavam, p. ex., de terem arrancado lágrimas de um deles ao tosar-lhe a cabeleira com máquina zero, por pura maldade.

Levando uma rotina tediosa, velhos sargentos adoravam ter os subalternos e nós presos como ouvintes compulsórios de seus  causos  e bravatas.

Um deles contou que a PE/RJ estava incumbida do policiamento do bairro em que se localizava a Vila Militar. Então, ao prender um estuprador de menores, o matou batendo nas solas dos seus pés com uma palmatória e obrigando-o a correr. 

Após tal procedimento ser repetido várias vezes, ele teria expirado. Eu nunca consegui confirmar se uma pessoa poderia ou não ser executada dessa maneira,

Por último, um episódio pitoresco. Cumprindo sua missão de policiar a área de Deodoro, na véspera de uma data festiva qualquer os bravos soldados aprisionaram perigosas... prostitutas. Duas ou três dezenas delas foram trazidas para onde estavam nossas celas. 

Então ouvi uma boa alma propondo que alguma delas fosse colocada na minha cela e o sargento respondendo que seria perigoso. Caso eu contraísse uma doença venérea, como iriam explicar isso para os oficiais? (por Celso Lungaretti)

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