Meus pais puderam enfim me visitar. Ficaram estarrecidos com minha magreza; perdera uns 30 quilos. Mais tarde me disseram que eu estava parecendo os esqueléticos prisioneiros soltos dos campos de extermínio nazistas.
De lá até a libertação eu estaria salvo das torturas, a menos que algum companheiro recém preso lhes dissesse que eu conhecia uma informação importante. Não foi o caso.
Hoje me recordo mais da fase operacional do que desse período intermediário, no qual as novidades eram apenas a de ser levado a São Paulo para comparecer às audiências nas auditorias militares e ser devolvido para o Rio de Janeiro.
Em São Paulo, eu permanecia até que os milicos tivessem outro companheiro para enviar ao Rio de Janeiro. Então, me mantinham ou na sede do DOI-Codi ou no quartel da Polícia do Exército.
Do quartel, uma das minhas principais lembranças é a de que, quando estava sendo transportado para alguma das duas auditorias da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o carro ficou preso num congestionamento exatamente diante de uma banca de jornais.
Nela estava exposto para os transeuntes um que destacava a morte de mais integrantes do Movimento Revolucionário Tiradentes que supostamente tinham reagido à prisão.
O oficial que comandava o destacamento disse que eu tinha sorte de haver sido preso no semestre anterior, caso contrário dificilmente escaparia com vida. Era o que eu deduzira da sequência de óbitos dos militantes do MRT. Mas serviu como confirmação de que havia prisioneiros sendo executados já no segundo semestre de 1970. Depois a prática se generalizou.
Mas, fiquei desolado ao saber exatamente quem dera tal informação para o inimigo, ajudando-o a me perseguir. Tratava-se de um dos integrantes da minha base secundarista
Outra recordação marcante foi a de que dois prisioneiros cuja libertação já estava decidida concordaram em levar mensagem para meus pais, que sabiam da minha saída da Vila Militar, mas foram mantidos na ignorância de para onde eu fora transferido.
Até duvidei de que eles, após passarem por aquele inferno, arriscassem sua liberdade para me fazerem tal favor. No entanto, meu pai contou que haviam cumprido o prometido, visivelmente assustados, mas com muita coragem.
Certa vez o coronel Brilhante Ustra mentiu que nunca havia escutado os ruídos da pancadaria e os berros dos torturados. Respondi que isto só seria possível se ele fosse surdo, pois aquela barulhada se ouvia até na rua.
Lá fiquei conhecendo a triste história do sargento Kogi Kondo, cuja cela ficava próxima da minha. Ouvia os oficiais indo até as celas para xingá-lo de covarde e vergonha da farda, então perguntei qual era o motivo desse tratamento.
Eu estava só com recos [recrutas] inexperientes. Os terroristas nos renderam, obrigando-nos a transportá-los, no nosso caminhão, para fora do cerco. Disseram que nos matariam se não colaborássemos. Então, passamos as barreiras calados, sim. É graças a isso que estou vivo. Prefiro aguentar ofensas e zombarias do que morrer.
Levando uma rotina tediosa, velhos sargentos adoravam ter os subalternos e nós presos como ouvintes compulsórios de seus causos e bravatas.
Um deles contou que a PE/RJ estava incumbida do policiamento do bairro em que se localizava a Vila Militar. Então, ao prender um estuprador de menores, o matou batendo nas solas dos seus pés com uma palmatória e obrigando-o a correr.
Após tal procedimento ser repetido várias vezes, ele teria expirado. Eu nunca consegui confirmar se uma pessoa poderia ou não ser executada dessa maneira,
Por último, um episódio pitoresco. Cumprindo sua missão de policiar a área de Deodoro, na véspera de uma data festiva qualquer os bravos soldados aprisionaram perigosas... prostitutas. Duas ou três dezenas delas foram trazidas para onde estavam nossas celas.
Então ouvi uma boa alma propondo que alguma delas fosse colocada na minha cela e o sargento respondendo que seria perigoso. Caso eu contraísse uma doença venérea, como iriam explicar isso para os oficiais? (por Celso Lungaretti)
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