O MORDOMO DA CASA BRANCA
O senador Flávio Bolsonaro empenhou-se em conseguir uma foto ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, com o objetivo de provar, aos que duvidam de sua candidatura no campo da direita, que é forte o bastante para ter acesso à Casa Branca, espécie de Meca dos reacionários de todo o mundo, mesmo sendo apenas um parlamentar brasileiro medíocre.
Nesse sentido, pouco importa se o encontro durou um minuto ou uma hora, conforme diferentes versões. O que interessa, para o clã Bolsonaro, é que aconteceu e foi registrado numa imagem que pode dar sobrevida a uma candidatura questionada mesmo por alguns dos mais fiéis adeptos do bolsonarismo, graças aos enroscos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista de um dos maiores escândalos da história recente do País.
Dito isso, a imagem vale muito mais do que mil palavras. Fora os fanáticos seguidores de Jair Bolsonaro, ninguém consegue enxergar ali alguém que pretende ser chefe de Estado no Brasil. Pelo contrário: na pose de mordomo da Casa Branca, Flávio transpira subserviência a Trump. Tal comportamento é o exato oposto do que se espera de um presidente da República, que representa o Estado brasileiro nas relações internacionais e, por isso, deve ser sempre altivo.
Mas ali Flávio Bolsonaro não representava o Brasil e, caso seja eleito, continuará sem fazê-lo. O único propósito de Flávio é representar sua família, sobretudo seu pai, hoje em prisão domiciliar em razão de uma tentativa de golpe de Estado.
Por isso se comportou como um orgulhoso sabujo de Trump: para deixar claro que, uma vez presidente, colocará o Brasil a serviço do trumpismo.
Coisas assim deveriam horrorizar os bolsonaristas que se dizem patriotas.
Mas o bolsonarismo que Flávio herdou do pai e que tenta manter, de maneira um tanto atabalhoada, não hesita em sacrificar os interesses brasileiros se isso representar a manutenção do poder do clã Bolsonaro.
Ao lado de Flávio no encontro com Trump estava o irmão Eduardo, certamente o responsável pela visita. Deputado que perdeu o mandato por faltas, Eduardo, autoexilado no Texas, há tempos trabalha para envenenar as relações entre Brasil e EUA com o objetivo de fustigar Trump a intervir aqui em favor de Jair Bolsonaro.
Como se recorda, a traição dos Bolsonaros ao País funcionou num primeiro momento, quando Trump impôs draconianas tarifas comerciais ao Brasil como forma de pressionar o País a rever a condenação de Jair Bolsonaro. Depois, no entanto, o instinto transacional de Trump falou mais alto e ele percebeu que faria melhor negócio se dialogasse com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva – a quem chamou de presidente dinâmico.
Mas esse revés não parece ter desanimado a família Bolsonaro, que continua empenhada em envergonhar e prejudicar o Brasil usando suas relações com a extrema direita americana para ter acesso a Trump e usar essa suposta proximidade com o presidente americano como trunfo eleitoral.
Todo esse esforço, contudo, resultou apenas numa foto que rapidamente serviu de matéria-prima para todo tipo de piada nas redes sociais. Não poderia ser diferente, considerando-se que nada a respeito desse encontro deve ser levado a sério, pois só serviu para dar um respiro a Flávio em meio ao escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro.
Se a campanha de Flávio tivesse produzido a imagem com inteligência artificial, ou se o aflito senador tivesse posado com um Trump de papelão, teria obtido o mesmo resultado e ainda pouparia o dinheiro da viagem a Washington.
Mas Flávio adicionou pilhéria à bazófia. C onsiderando-se que o senador mentiu seguidas vezes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, é muito difícil acreditar em qualquer coisa que ele diga a respeito do encontro com Trump – ainda mais porque só temos a sua versão sobre a reunião.
A julgar pelo que ele relatou aos jornalistas pouco depois do encontro, Flávio falou de tudo com o presidente americano, desde terras raras até crime organizado, passando por tarifas e a saúde do pai. E ainda deu dez minutos de lambuja para Trump comentar sobre as obras para o salão de baile na Casa Branca. Já a julgar pelo site da Casa Branca ou pelas redes sociais de Trump, que ignoraram o encontro, a coisa toda se resumiu mesmo à imagem embaraçosa de Flávio. (editorial d'O Estado de S. Paulo de 20/05/2026)
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