sábado, 13 de julho de 2019

MISÉRIA, DESALENTO E IGNORÂNCIA SÃO O CALDO DE CULTURA DO CHARLATANISMO RELIGIOSO EM QUE BOLSONARO SURFA

luís francisco carvalho filho
SUPERSTIÇÃO, FANATISMO, MILAGRE
A religiosidade exuberante do Brasil sempre despertou interesse de artistas, intelectuais e políticos. O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962) e Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964) são dois dos filmes brasileiros de maior prestígio internacional.

A Flip celebra Euclides da Cunha, escritor de Os sertões (1902), obra magnífica sobre o extermínio de Canudos. Além de Antônio Conselheiro, morto em 1897, outros beatos desgarrados reinaram em diferentes sertões, reprimidos com mais ou menos rigor, conforme a dimensão de seus desatinos.

Ao longo do tempo, sebastianismo, charlatanismo e imoralidade, assim como desvios de conduta ou de dinheiro, mobilizam a atenção de autoridades. João de Deus, padres, pastores e pais de santo são hoje detidos por abuso sexual.
Há uma guerra informal pela conquista de fieis e poder. O desfecho depende da capacidade de comunicação espiritual dos pregadores e de manejo dos mecanismos mundanos da isenção tributária, do dízimo e do próprio sincretismo.

A maioria da população brasileira é cristã (87%, segundo o Censo de 2010) e o catolicismo está em franco declínio. Segundo o IBGE, em 1970, 92% da população era católica: em 1991, 83%; em 2000, 73,6%; em 2010, 64,6%. No Rio de Janeiro, o percentual atingiu 45,8%. Evangélicos que, em 1940, representavam 2,6% da população, alcançaram 22,2% em 2010.

Pesquisa do Datafolha indicava 50% de católicos em 2016, anunciando que 3 em cada 10 brasileiros com mais de 16 anos eram evangélicos.

Em 1991, o papa João Paulo 2º, que depois viraria santo, alertava: O Brasil precisa de santos. Pois o Brasil não tinha nenhum e agora tem 36 santos (28 deles anônimos, é verdade, mártires de massacre calvinista holandês no século 17, em Pernambuco), além de irmã Dulce, que será canonizada em outubro.

Política e religião se entrelaçam. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade é parte da narrativa do golpe de 1964. 

Igualmente católicas, na década de 1980, as senhoras de Santana combatiam indecência e sexo na TV. A inspiração messiânica da Lava Jato interfere no tabuleiro eleitoral e populista.

O Vaticano pede perdão pelos pecados cometidos e fabrica santos em série. A Igreja Universal esteriliza pastores para gerenciar melhor o negócio. Brasília é capital mística do país.

Jair Messias Bolsonaro reclama dos males da ocupação ideológica do PT, mas tenta impor uma pauta moralmente primitiva e deletéria. De raiz familiar católica, o presidente circula pelos templos como venerável e não como servo.
O apoio evangélico ao escolhido tem preço e retribuição terrena: afrouxamento da vigilância fiscal. No Palácio do Planalto, onde se flerta com a ideia da terra plana, a nova era é comemorada: Deus vult (como Deus quer) é tudo nosso, pensam eles.

Segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça, o juiz brasileiro é homem, branco, casado, católico e pai. Não é só a vaga do Supremo: como informa o jornalista Frederico Vasconcelos, Bolsonaro nomeará, até o final do mandato, pelos menos 90 juízes em 35 tribunais. Terrivelmente.

Miséria, desalento e ignorância fazem florescer superstição, fanatismo, milagres, demônios e censura.

É de Otavio Frias Filho (1957-2018) o pensamento instigante: Só quando a fé diminui a tolerância aumenta. Ceticismo faz bem. (por Luís Francisco Carvalho Filho)

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