sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

DALTON ROSADO DISSECA "O RETROCESSO ETNO-NACIONALISTA DE TRUMP" (parte 1)

"O direito ao solo e à terra pode se tornar um dever quando um
grande  povo, por falta de extensão, parece destinado à ruína.
Ou a Alemanha será uma potência mundial ou então não
será. Mas, para se tornar uma potência mundial, ela
precisa dessa grandeza territorial que lhe dará na
atualidade a importância necessária e que dará
aos seus cidadãos os meios para existir. O
próprio destino parece querer nos
apontar o caminho."
(Adolf Hitler)
Nada mais denunciador da segregação capitalista contida no conceito de nação (o nacionalismo é uma criação do capitalismo na sua fase adulta) como forma regulamentadora da coerção tácita do capital, do que o slogan America first, de Donald Trump. 

Qualquer semelhança com Adolf Hitler não é mera coincidência, mas identidade de convergência com os conceitos capitalistas mais profundos, trazidos a lume sob o manto nacionalista.   

Ao invés de convergir com o ideal civilizado de solidariedade entre os povos, tal afirmação propõe, de modo cínico e arrogante que o interesse nacionalista estadunidense (*) deve vir em primeiro lugar e os outros que se danem. 

Trump é o mandatário maior de um país que detém o status de emissor da moeda internacional que é por todos aceita por convenção desde o pós-guerra (daí todos a aceitarem como o equivalente monetário que serve como padrão mundial).

Como tal, se dá ao luxo de admitir publicamente que, entre o interesse econômico estadunidense e o mundial, prevalece o primeiro e, implicitamente, a incompatibilidade entre o regime de concorrência do sistema produtor de mercadorias e a fraterna e solidária convivência entre os povos! 

Como presidente, Trump é tão desastrado com um elefante numa loja de cristais. Contudo, mostra-se mais sincero do que os cínicos políticos tradicionais estadunidenses, que sempre procuraram dourar a amarga pílula do sistema produtor de mercadorias capitalista. 

Sob Trump é arrancada a máscara que tenta dar ao capitalismo uma feição social pretensamente civilizatória e capaz de proporcionar o bem estar e a fraternidade geral. Agora salta aos olhos a sua verdadeira identidade de regime sub-repticiamente escravagista, beligerante e ditatorial.     

Vale acrescentar que não é a nação que fez o capitalismo, mas o capitalismo que fez a nação, e ambos são conceitos políticos em processo de saturação.

Assim, o capital criou o conceito de nação (e, consequentemente, de nacionalismo) para atender a um interesse específico seu: em determinados países ou regiões, a manutenção do nível de produtividade na produção de mercadorias (nível médio de extração de mais-valia relativa), dentro do sigilo industrial e dos instrumentos fiscais e monetários nacionais, tornava necessária uma proteção, não apenas nos primórdios do capitalismo mas, em alguns casos, até hoje.

Portanto, embora o nacionalismo seja alardeado por ingênuos como dever patriótico saudável e virtude da autodeterminação dos povos, não passa de construto da xenofobia de um modo de ser social individualista e racista, cuja função vazia de sentido virtuoso é a expressão cumulativa ad infinitum da riqueza abstrata excludente.  
Tal desiderato é impossível de se manter no longo prazo, pois o capitalismo tem regras próprias que se alteram de acordo com a sua evolução irracional, destrutiva e autodestrutiva.

Como o capital necessita de redução de custos de produção para fazer face à concorrência de mercado ele migra de região para região, dando um adeus para o nacionalismo quando é isto que convém aos seus interesses. 

Um dos fatores que forçam a migração dos capitais é a busca de trabalho abstrato barato que viabilize a relação entre trabalho necessário (aquele remunerado como forma de manutenção da sobrevivência precária da maioria dos trabalhadores) e trabalho excedente (aquele não remunerado durante determinado tempo de faina do trabalhador, do qual o capital indevidamente se apropria). É isto que tem provocado a globalização da produção de mercadorias. 

Trump, transmutado de mega-empresário em político outsider bissexto, tenta aplicar ao Estado do seu país regras de defesa nacionalista que batem de frente com a dinâmica do próprio capital, para obter oxigênio nesta fase de limite interno absoluto de sua auto-reprodução. 

A sua xenofobia etno-nacionalista também se revela quando trata as nações pobres como os ricos prepotentes tratam aqueles que exploram: a maioria dos africanos, El Salvador e o Haiti são tidos por ele como países de merda.

Não é diferente o tratamento que ele dá aos muçulmanos pobres e latino-americanos que tentam entrar nos EUA; já aos noruegueses, celtas e escandinavos só falta estender um tapete vermelho...
      
O capitalismo mostra as suas contradições existenciais, numa prova inequívoca de sua inviabilidade como modo de mediação social capaz de promover tudo aquilo que se alardeou estar nele contido.

Para os grandes contingentes populacionais dos países periféricos, principalmente, ele mostra a sua face mais cruel e degradante! (continua aqui) 

* Nota do editor: a coisa começa errada já na utilização do nome do continente inteiro para se referir a apenas uma das 35 nações que o compõem. É mais uma manifestação da extrema arrogância dos estadunidenses em geral e de Trump em particular...

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