A exceção ficou por conta do outro ex-craque da bola que agora nos brinda com atuações magníficas no teclado: Tostão.
Semelhante a Sócrates pela maneira inteligente de jogar, pela profissão fora dos gramados (ambos médicos), pelas posições políticas esclarecidas, por ter o que dizer e saber expressar-se muito bem.
Brilhou no futebol quando uma ditadura terrível estava no auge. Talvez por isto, talvez por ser naturalmente tímido e discreto, Tostão nunca deu declarações contundentes nem subiu a palanques.
Mas, com sua extrema dignidade, é um exemplo de homem que não se deixou distorcer pelos holofotes. Continua mineiramente transmitindo sua sabedoria a quem tem o privilégio de o escutar.
Sua coluna dominical, cujos principais trechos reproduzo, é um dos melhores diagnósticos que já li sobre os motivos pelos quais o melhor futebol do planeta hoje se joga na Espanha e o Brasil está seriamente ameaçado de novo fiasco no Mundial que sediaremos:
"...quando, onde e como começou o fascínio dos técnicos pelo jogo aéreo, pelos chutões, pelos lançamentos longos e outros detalhes?
Imagino que os treinadores, influenciados pelo tecnicismo mundial em todas as áreas, pela busca de conhecimento científico que poderia desvendar os segredos de um jogo, e pela busca do ouro, do prestígio e do poder, características do ser humano, adotaram uma maneira de jogar mais segura, previsível e mais fácil de ser treinada e repetida.
Todos os técnicos passaram a fazer e a falar as mesmas coisas. Criaram milhares de conceitos e chavões repetidos por torcedores e imprensa.
Com isso, passaram a ter o controle das partidas e dos jogadores. O sonho dos treinadores é transformar o futebol em um jogo programado, sem surpresas. Isso os torna mais importantes. Os comentaristas passaram a analisar todos os jogos a partir da conduta dos técnicos.
É mais seguro dar um chutão, para se livrar da bola, e fazer um lançamento longo, mesmo para um companheiro marcado, do que trocar passes no meio-campo, ainda mais na defesa. Isso evita perder a bola e levar o contra-ataque.
É mais fácil cruzar a bola na área do que fazer triangulações. Para isso, basta ensinar jogadores medianos a cruzar e a cabecear bem. Daí, surgiram os 'cai-cais', que tentam cavar faltas, enganar os árbitros, para jogar a bola na área.
É mais seguro colocar zagueiros encostados à grande área, para diminuir os espaços nas costas, do que adiantá-los. Por outro lado, aumentam os espaços entre zagueiros e volantes. Se esses ficam muito atrás, o time fica muito longe do outro gol quando recupera a bola.
Por essas e várias outras condutas, os técnicos tomaram conta do jogo e se tornaram estrelas do espetáculo. Quanto mais rígida a estratégia, mais difícil é formar jogadores inventivos e habilidosos. Com menos craques, há menos chances de mudar a maneira de jogar. Cria-se um círculo vicioso negativo.
A única justificativa para tanta mediocridade era e é o resultado, como se, para vencer, fosse essencial jogar feio e com menos riscos. Nem o resultado mais existe".
Se queres um monumento, olha para as últimas competições importantes: o Campeonato Brasileiro foi vencido pelo Corinthians, que deve ter entrado para o Guiness como recordista de vitórias por 1x0, enquanto no Mundial de Clubes o Barcelona goleou o Santos por 4x0, numa partida cujo placar mais justo seria 7x1.



Um comentário:
Meu caro Celso,
Li seu artigo como se fosse uma justa homenagem ao Tostão, a quem eu não vi jogar, mas comecei a admirar depois de ler os artigos que escreve sobre futbol e vendo os videos da copa de 1970. Naquela copa ele foi um dos grandes dentro de campo.
Eu acho que na época (1970) quando a dkitadura começou a assassinar qualquer tipo de opositor mais contundente, era muito dificil criticar. Mesmo Sócrate se estivesse jogando em 1970, não faria as mesmas contestações ou fez em 1980; se fizesse seria preso ou morto com certeza.
Legal o teu artigo.
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