sábado, 16 de outubro de 2010

A COMPANHEIRA ANA PEDE AJUDA

A companheira Ana de Cerqueira César Corbisier, que lutou contra a ditadura militar como militante da ALN de Carlos Marighella, acredita que matérias falaciosas da revista Veja teriam influenciado o Tribunal Superior do Trabalho a decidir contra ela um processo julgado no último dia 13.

Tudo começou em 14/10/2009, quando a Veja publicou O esquema da bolsa guerrilha, utilizando a inaceitável designação de  ex-terrorista  para se referir a Ana, que, como Dilma Rousseff, bravamente resistiu ao terrorismo de estado imposto ao País pelos déspotas que usurparam o poder em 1964.

Eis o cerne do repulsivo texto da Veja:
"...Ana pleiteia também uma milionária compensação trabalhista: quer receber os salários que deixou de ganhar na Fundação Padre Anchieta por ter abandonado o emprego para pegar em armas.

"Caso ganhe a ação, ela poderá embolsar nada menos que 70 milhões de reais, segundo os cálculos da Fundação Padre Anchieta, responsável pela rádio e TV Cultura".
Na ocasião, respondi à revista com meu artigo "Veja" repete os slogans das viúvas da ditadura contra as reparações, pulverizando TODAS as demais  afirmações (informações, no verdadeiro sentido do termo, não havia nenhuma...), como meras panfletagens reacionárias que eram.

Mas, não encontrando a versão de Ana em parte alguma, acabei concluindo que ela estaria mesmo fazendo um pleito descabido.

Eis alguns trechos da contestação que ela então enviou à Veja e, como é praxe da mídia golpista, foi olimpicamente ignorada:
"Conforme esclareci à jornalista, por telefone, o valor da minha causa, depois de 27 anos na Justiça, está muito longe dos 70 milhões de que fala a matéria. Assim, muito me estranha que a Fundação Padre Anchieta tenha chegado a esta cifra, que vai tão contra os seus interesses.

"Como o documento que faz parte da [ilustrou a] matéria foi rasgado, a impressão que fica do que foi montado é que eu matei pessoas, o que, como declarei à Comissão da Anistia, em 1995, nunca aconteceu.

"Em 1969, o Prof. Soares Amora, diretor da Fundação Padre Anchieta, que fora meu chefe na Diretoria de Ensino daquela Fundação, preocupado com minha segurança, recomendou que eu não voltasse ao trabalho, pois 'a polícia esteve aqui e deu uma batida em sua mesa”'(palavras dele). Pedi, então, formalmente, uma licença para tratamento de saúde, visando evitar a prisão, como faculta a Lei brasileira, a tortura e talvez, a morte. Ou seja, não 'abandonei o emprego', mas fui orientada e obrigada a afastar-me, sob pena de ter a mesma sorte do jornalista Wladimir Herzog, também funcionário do Canal 2.

"Atendendo ao que me permitia a Lei da Anistia, promulgada em agosto de 1979, solicitei reintegração a meu cargo na TV Cultura. O mesmo Prof. Soares Amora, já então seu presidente, recusou minha reintegração. Estávamos ainda no Governo Maluf e a Fundação recusou também o outro direito que a Lei da Anistia me dava, o de contar os 10 anos em que estivera fora como tempo para aposentadoria. Assim, como não existia Comissão de Anistia, fui obrigada a entrar na Justiça para obter esta contagem de tempo.

"Em 1995, tendo o processo mais de 10 anos percorrendo várias instâncias, varas, cidades (São Paulo e Brasília), e tendo sido criada a Comissão da Anistia, recorri a ela, solicitando a indenização a que tinha direito. Depois de muitos anos em que a Fundação Padre Anchieta sempre se recusou a informar, inclusive à própria Comissão da Anistia, o valor do salário de um produtor em fim de carreira, para cálculo da indenização, este cálculo foi feito com base no salário da TV Educativa de Brasília, muito inferior ao de São Paulo (...). Seja como for, a indenização que passei a receber é paga pelo Tesouro Nacional, nada tendo a ver com os recursos da Fundação Padre Anchieta. Mas, se eu vier a ganhar o processo, é de supor que o valor que eu já tenha recebido seja descontado daquele a que vier a fazer jus.

"Não fui presa, felizmente, mas não desejo a ninguém, nem à jornalista Sandra Brasil, a tortura de viver 10 longos anos longe dos filhos, não acompanhando sua alfabetização, infância e adolescência, com pavor que qualquer contato comigo viesse a transformá-los em reféns dos militares, como estes fizeram com outras crianças, cujos pais também lutavam por um Brasil melhor".
Marcado, enfim, o julgamento desse processo, a Veja voltou à carga na edição da semana passada (09/10/2010) com o texto O segundo assalto da terrorista, cujo subtítulo parece saído da mais repelente imprensa marrom: "Uma ex-comunista que flanou por Paris pode levar uma bolada de 70 milhões de reais. Quem paga é você".

O insistente lobby resultou, segundo Ana:
"...foi julgado em Brasilia o meu processo quanto ao mérito e perdi por 7 a 5. (...) O julgamento fora adiado por falta de quorum da outra 5ª feira [07/10] para esta [14/10]. Entrementes, (...) a Veja publicou exatamente um ano depois, outra matéria contra mim, mais desrespeitosa, caluniosa, agressiva e virulenta ainda do que a primeira, repetindo o mesmo chavão dos 70 milhões.
"E (...) antes do julgamento, a Procuradoria do Estado de São Paulo apresentou 'n' papéis, mencionando até o dinheiro que recebi quando da saída incentivada da Cesp, como elementos de prova de que estou pretendendo 'assaltar' os cofres públicos. Isto provocou o adiamento do julgamento, da manhã para a tarde, para que os advogados tivessem tempo de tomar conhecimento dos tais papéis. Achei todo esse processo - o primeiro adiamento, matéria da Veja, manifestação da Procuradoria, muito estranho".
Como não sou jurista nem tenho os meios para apurar o caso com rigor jornalístico, estou apenas tornando conhecida a versão de Ana, na esperança de motivar cidadãos com expertise e espírito de justiça a averiguarem tudo que ocorreu e, se tal couber, tomarem providências para corrigir a injustiça que ela garante ter sofrido.

Sendo Ana uma ex-resistente e sendo a Veja o que é, não tenho dúvida nenhuma sobre o que ocorreu. Mas, para reverter uma situação dessas, é preciso mais do que nossa convicção íntima.

Espero que quem tiver possibilidade de lhe prestar solidariedade efetiva, não deixe de o fazer.

6 comentários:

Nanda Tardin disse...

Muito importante lutarmos TODOS por esta causa. parabens Celso por mais esta. Avante

Francisco Lima disse...

Estarrecedor, mas não surpreendente. A sanha em assassinar reputações dessa putrefata revista não tem limites. A denúncia só não é o bastante, é preciso, além de providências jurídicas em nivel internacional, criar uma corrente contra esse esgoto que jorra da editora Abril. Constitui mais um episódio a ser relatado pelo Nassif naquela já extensa lista de excrescências da Veja.

Roberto de SP disse...

Bem, a Veja e a Editora Abril não valem nada e o título apelativo e altamente ofensivo da matéria já deixa bem claro o intuito de desmoralizar a pleiteante.

No entanto se a mesma não foi presa e se exilou por vontade "própria" em Paris e JÁ RECEBE indenização da comissão da anistia, me parece um pouco demais que a mesma ainda esteja querendo mais indenizações.

Tenho muito respeito pelos que tão jovens resistiram bravamente naqueles duros tempos, mas este tipo de coisa só leva água ao moinho de sujos como a Veja.

Porque nem perto de R$ 70 milhões quer dizer exatamente quanto?

E já recebendo outro tipo de indenização?

Desculpe, mas me parece um pouco exagerado tanta indenização para alguém que sequer foi presa e torturada.

Tem gente nesse país muito mais necessitada de auxílio do dinheiro público.

Bom senso é bom de todas as partes.

Celso Lungaretti disse...

Roberto,

a ação trabalhista è anterior à instituição da Comissão de Anistia.

Ela teve de deixar seu emprego para não ter o mesmo destino do Vladimir Herzog. A repressão estela lá procurando a Ana e seu chefe recomendou que ela sumisse.

Ou seja: a ditadura impediu que ela continuasse exercendo sua profissão. Pelas leis vigentes, ela tem todo direito de receber os atrasados relativos a todo esse período, sim.

Como esse processo não andou, ela teve de exercer o direito que tinha de obter uma reparação da Comissão de Anistia.

Então, pelos conhecimentos que eu tenho do assunto, o certo seria:

1) ela ter ganho de causa na ação trabalhista;

2) a Comissão de Anistia rever o valor da reparação que lhe concedeu ou até considerá-la JÁ ABRANGIDA PELA REPARAÇÃO TRABALHISTA.

De resto, o valor é o de menos. Que os gorilas fiquem sabendo que, da próxima vez que derrubarem um governo legal e implantarem um reinado de terror, gerarão direitos onerosos. Eles é que deveriam pagar! Infelizmente, eles deixaram para a democracia também a tarefa de limpar toda sua sujeira.

Então, o que realmente importa é que haja Justiça. E que não se deixe de fazer o certo por causa da pressão indevida de uma revista fascistóide.

Abs.

antonio barbosa filho disse...

Num país realmente democrático tais barbaridades são inimagináveis.É incrível o atraso da direita e das instituições brasileiras, especialmente o Judiciário.
Por pouco não temos a escravidão como Lei - porque a temos ilegal. Os direitos da mulher apenas começam a ser reconhecidos.
E a censura à Imprensa está em vigor, determinada pelas sete ou oito famiglias que mandam no Brasil (inclusive no Lula).
Todo apoio à companheira jornalista, embora eu possa fazer quase nada, além de escrever a respeito na minha região.

Anônimo disse...

Celso,
Se tiver acessso, agradeço passar meu endereço eletrônico para a Ana, pois gostaria de ampliar a divulgação de sua resposta à Veja para os atuais e ex-trabalhadores da CESP pois pelas listas de lá, por maldade ou desinformação circula a notícia da revista. Por hora indico seu link e matéria. Parabéns e obrigado pela verdade.
Rogério da Silva
roi@uol.com.br

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