Empedernidamente stalinista, até a morte do déspota bigodudo só divergia da URSS quanto a interesses nacionais conflitantes.
Mas, adorava aquela deturpação troglodita do socialismo.
Quando Nikita Khruschev denunciou os crimes de Stalin, em 1956, Mao Tsé-Tung se manifestou de forma furibunda contra a liberalização do regime, por ele designada como "revisionismo".
E, com sua revolução cultural, tentaria na década seguinte resguardar a China de quaisquer contágios de idéias libertárias (por mais tímidas que fossem...). Queria manter o país fechado numa redoma, como um bunker de fanáticos.
O maoísmo não sobreviveu a seu criador, mas o que veio depois foi ainda pior: um amálgama com o capitalismo na economia e a manutenção da ditadura do partido único na política.
No processo produtivo, os chineses de hoje estão submetidos a rigores comparáveis aos que padeceram os primeiros proletários nas minas (aqueles abusos denunciados com tanta veemência por Marx!).
E o regime continua tão boçal e atrabiliário que acaba de condenar a 11 anos de prisão um professor de literatura tão somente por haver subscrito um manifesto pedindo reforma da Constituição, eleições livres, pluripartidarismo, liberdade de expressão e de culto.
Repito: reivindicar direitos que os civilizados conquistaram a partir da Grande Revolução Francesa custa 11 anos de prisão na China de hoje! Está dois séculos atrasada e tenta de todas as formas engessar a História.
Não conseguirá, claro.
Quanto à imprensa burguesa, é reveladora sua omissão ante tais descalabros. Parece não ligar muito para a liberdade, quando quem a espezinha é uma nação que mantém sólida parceria com o mundo capitalista...
7 comentários:
Fui a uma exposição fotográfica no RJ, não me recordo qual museu. Chamou-me a atenção a forma como os trabalhadores chineses são tratados: meras peças de uma engrenagem de produção, mutilações físicas, pessoas enfileiradas como se fossem joguetes, bonequinhos, tudo padronizado, uma racionalização extrema.
O que você denomina de "O Pior País do Mundo" é um país em que vivem, comem, dormem, amam, sonham, jogam futebol, soltam, pipas, se divertem 1,3 bilhão de pessoas - de gente. Perto de 22% da população mundial de 6 bilhões de almas, ou de corpos somente, como quiser.
Gente exatamente como nós, como você e eu. A diferença está na cara. A minha cara e a sua são completamente diferentes para mim e para você. As caras de dois chineses são exatamente iguais pra mim e para você, mas não para eles próprios...
Portanto, a aceitar seu ponto de vista,que respeito, quase um quarto da humanidade vive no 'pior país do mundo'...
Pobre humanidade!
Desses 1,3 bilhão, 350 milhões vivem nas cidades e tem um nível de renda igual ao do povo dos EUA, onde vivem quase exatamente 350 m de pessoas com a mesma renda dos chineses que vivem nas cidades.
Daí que cerca de 30% dos 'piores cidadãos do mundo' tem uma renda per capita igual a dos cidadãos mais adiantados cientificamente do mundo, mais bem alimentados, que possuem o maior PIB do planeta e que vivem na maior democracia do mundo - se desconsideramos as deposições dos presidentes à la americana, pelo assassinato político, o racismo, o expansionismo, a interfência nos assuntos internos de outros países do mumdo, a guerra sem quartel, que movem constantemente contra outros países do Globo na esperança de fazê-los engulir a democracia americana e encontrar petróleo, a pena de morte e a forma de governo que, para mim e tantos outros, não tem nada de democrática...
Os americanos do norte querem impor a forma de governo deles, de um jeito ou de outro - pela força, se necessário, como vemos e vimos - aos outros povos do mundo, com desprezo arrogante e impiedoso pelo desenvolvimento histórico próprio de cada povo, como se houvesse apenas a História Americana moderna.
É preciso respeitar o desenvolvimento histórico, social e econônomico da cada povo do mundo em particular.
Os egípcios exploravam o trabalho escravo para construir palácios para os mortos; os romanos faziam o mesmo para construir estradas pelas quais podiam deslocar mais depressa os exércitos para conseguir mais escravos; os maias extraíam o coração dos sacrificados aos deuses na certeza se que os sacrifícios eram necessários para assegurar a existência dos deuses, repondo o consumo periódico de energia da divindade. Os chineses inventarm a cerâmica, a fundição do ferro, o sistema decimal, o arado, a bússola, o carrinho de mão, a besta, o papel, o estribo, o sismômetro, a porcelana, a pólvora, o papel-moeda,a impressão, o ábaco, o navio de carga, cujo casco era segmentado, como o bambu, para evitar o alagamento de todo o casco.
Se a forma de governo imperante na China do século 21 tratasse os professores de literatura que querem eleições livres, pluripartidarismo, liberdade de expressão e de culto, ou seja, uma macaqueação de democracia ocidental, de maneira diversa da que faz e fez, ou fará, ainda restaria o pequeno problema de alimentar 1,3 bilhão de pessoas e levar um país recém saído da opressão capitalista para o futuro incerto.
Ainda está por se provar se é possível em país tão vasto e diverso se ter o mesmo patamar de direitos e democracia que nos países ocidentais.
Hanna Arendt achava que não.
Os mecanismos internos de cada sociedade se desenvolvem por processo autônomo, são fruto de uma evolução própria e resulta de um consenso entre os indivíduos de que algum comportamento é útil e deve ser lei entre eles.
Portanto, se a Alemanha nazista queria ser nazista então ela foi nazista.
Se a China de Mao queria ser uma ditadura, isso é lá do foro íntimo daquele povo que julgou adequado ser assim naquele momento.
A China não tem tradição histórica de democracia para se referenciar, não tem tradição de dar ao seu povo uma vida fácil (e são tantos), e tem tradição de ser uma burocracia inflexível, autocentrada e fechada.
Isso tudo não a impediu de ser o centro do mundo há mil anos atrás e pode voltar a ser daqui a 50 anos.
É demasiadamente populosa, multicultural, multiracial, os EUA à incendiarem suas minorias e uma catástrofe ambiental à espreita que chega a espantar investidores.
Dá para atender divas "democráticas" e vontades frívolas se estão sentados em um barril de pólvora ?
Ou democracia começa pela sobrevivência da sociedade ?
É uma visão autoritária "branca-ocidental" achar que a história é uma linha única onde existem "atrasados" e "adiantados".
Só falta cobrar tolerância do mundo árabe, depois de 100 anos de intervenções, traições e vilanias ocidentais que colocaram o que tem de mais retrogrado no poder.
É um olhar condescendente, leviano e opresssor que diz: "Olha como tratam mal os gays e as mulheres no Afganistão". Muito gozado escutar isso dos gringos depois de passar 15 anos alimentando o Talibã para expulsar os russos.
Cada povo tem seu tempo.
Hoje botam o carinha na cadeia, gáudio para um intelectual, mas podem muito bem estar "cozinhando" uma versão chinesa do ideário humanista para ser adotada depois que o clima estiver equilibrado e os peixes voltarem ao Yang-Tsé.
A China é um caso complicado, pois é um país enorme com a maior população do mundo e diversas etnias. O país tem no seu histórico a luta pela união (forçada) dos povos da China. Mas com ctza, é um absurdo o q eles fazem por lá com os trabalhadores principalmente. Por isso q o Capital adora a China, pois lá não tem direitos,então eles podem explorar a vontade. Mas ainda acho q o pior país do mundo é a Coréia do Norte, q é uma verdadeira dinastia.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ex%C3%A9rcito_de_terracota
Sou revolucionário formado na tradição marxista: desde os 16 anos acredito que nossa luta é para conduzirmos a humanidade a um estágio superior de civilização: o "reino da liberdade, para além da necessidade", a que se referiu Marx numa de suas mais belas frases.
Outra definição marxista que me acompanhou sempre, nessas quatro décadas e tanto de lutas: estamos aqui para tornar fazer com que os explorados se tornem os sujeitos da História, não para submetê-los eternamente a homens (ou camarilhas) providenciais que se propõem a dar-lhes "o que é melhor para eles".
Neste sentido, considero que esse híbrido de capitalismo selvagem (pois há uma mobilização avassaladora dos seres humanos para o trabalho) e ditadura de um partido único é, sim, a receita do pior dos mundos possíveis: em suma, uma nova forma de escravidão.
Os argumentos de quem defende o governo atual da China em função do desempenho econômico são os mesmíssimos dos que defendiam os governos de Médici e Pinochet -- aliás, os três têm mais pontos de semelhança do que de diferenciação.
País que sentencia professor a 11 anos de prisão por reivindicar liberdade é odioso, retrógrado e despótico, uma aberração que sobreviveu ao colapso das ditaduras no século passado.
Deve ser incansavelmente combatido pelos seres humanos dignos desse nome.
Ponto final.
perfeito texto Celso.
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