A proclamação da República é um dos feriados menos festejados por nós, brasileiros: completa hoje 134 anos de matanças impunes, desigualdades aberrantes e esperanças nunca concretizadas de que nosso país saltaria da lama para a fama. É como se estivéssemos condenados à lama. Seremos carrapatos?
Então, nada melhor para expressar nossos sentimentos com relação a este feriado ferrado do que República dos Assassinos, sobre o repulsivo Esquadrão da Morte do qual derivaram as milícias do Rio de Janeiro, caldo de cultura do maior assassino de brasileiro de todos os tempos, responsável pela morte agônica de centenas de milhares de idosos, pobres e marginalizados. Trata-se, portanto, de um símbolo perfeito da efeméride desta 4ª feira.
Eis alguns trechos mais marcantes da excelente resenha deste filme policial dirigido por Miguel Faria Jr. e baseado no livro homônimo de Aguinaldo Silva. Seu autor é Pedro "Pepa" Silva e foi publicada na revista Geni:
"Ao contrário do que muita gente pensa, o Esquadrão da Morte não é uma criação do período da ditadura militar. Suas raízes se localizam na segunda metade dos anos 1950, durante a gestão do general Amaury Kruel como chefe de polícia do Rio de Janeiro.
Ao que parece, não consistia numa instituição com unidade –em São Paulo, p. ex., o Esquadrão esteve ligado à repressão política do delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Elevada ao status de grande problema nacional, a impunidade esteve no cerne da criação desse grupo de extermínio e uniu policiais, comerciantes, bicheiros, traficantes – e criminosos. O Esquadrão atribuía a si mesmo uma função moralizadora da sociedade: limpar o banditismo a partir da execução dos delinquentes (na prática, o alvo era sempre o pequeno ladrão, o vilão das classes médias).
Na imprensa da época, as ações do grupo eram enaltecidas, especialmente depois que o secretário de Segurança da Guanabara Gustavo Borges (que promovia a morte de mendigos como política de limpeza da cidade…) declarou apoio ao Esquadrão.
Numa longa reportagem em julho de 1970, a revista Veja apresentava o resultado de uma pesquisa feita em São Paulo e no Rio: 46% dos entrevistados se disseram a favor da atuação do Esquadrão.
O prazer de matar ficava evidente nas ações do Esquadrão. Para citar dois exemplos: em 1962, o bandido Mineirinho era assassinado com 13 tiros; em 1964, bandido Cara de Cavalo era assassinado com 52 tiros. Mineirinho foi tema de crônica de Clarice Lispector; Cara de Cavalo estampou a obra mais famosa de Hélio Oiticica, sob o slogan Seja marginal, seja herói.
Os nomes e entrechos são fictícios, mas há muita realidade por trás do livro e do filme. A começar por Mateus Romeiro (interpretado por Tarcísio Meira), que é a síntese do ex-policial Mariel Mariscot, conhecido como o Ringo de Copacabana.
Mariel pertencia à Scuderie Le Cocq e também ao grupo de elite Homens de Ouro, da polícia civil do Rio (frequentemente enaltecido no programa do fascistinha Flávio Cavalcanti na TV Tupi). Tanto a Scuderie quanto o grupo de elite estiveram diretamente ligados ao que ficou conhecido como Esquadrão da Morte.
Na década de 1970, o Esquadrão ia aos poucos sendo visto como um problema da justiça e da polícia no Brasil. Embora se percebesse uma mobilização da opinião pública para pensar o problema, as execuções e os requintes de violência continuaram.
Numa matéria de capa da revista Status, em 1986, dois repórteres acompanharam integrantes do Esquadrão na Baixada Fluminense, descrevendo a rotineira desova de corpos no Guandu, um rio manchado pelo sangue de sabe-se lá quantos mortos…
Nessa época, falava-se em pelo menos 30 mil mortes na conta do Esquadrão. A caveira com tíbias cruzadas, símbolo do grupo, seguia conhecida dos moradores".
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