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domingo, 3 de março de 2024

AVENIDA PAULISTA EM UM MISTO DE CIRCO, CULTO E MUITA BAGUNÇA

 

Pela televisão, no celular ou ao vivo, a atração permanece: o povo brasileiro gosta de circo, mesmo se os atores e o palhaço não estão fantasiados. Bom mesmo é o circo com trapézio e picadeiro, mas mesmo em cima de uma jamanta, fechando o trânsito num domingo pode atrair muita gente. E ir ao circo vestido de canarinho excede de longe toda beleza da cafonagem.

A palhaçada da mulher saltitante, do homem que chora, de outros que berram, todos indo e vindo em cima da palco restrito e elevado para saudar o público, como animais encurralados num quadrado de grades - seria premonição? -, é melhor do que Morte e Vida Severina no Municipal. Não há mugidos, mas a longa e larga avenida parece um curral.

É mais do que ridículo, grotesco e insano ouvir a periquita Michele Bolsonaro, mas poderia até ser blasfêmia falar na perseguição sofrida por ter um marido perseguido por exaltar e colocar Deus acima de tudo! Tudo parece pacífico, mas - poucos crentes devem ter percebido - ali não se fala em mensagem cristã de amor, mas no Deus potente e guerreiro do Velho Testamento bíblico, ao qual se deve entregar a política do país. Uma maneira discreta de se semear a perigosa ideia de uma teocracia evangélica.

Nessa altura, o circo já se transformou também em show e igreja, no estilo importado norteamericano, sem procissão, mas com oração. Tudo parece irreal, nada do que Michele falou se refere às reais necessidades do povo, são apenas palavras, invocações e glórias, como se o povo sofrido só precisasse mesmo de céu...

A apoteose veio com o pastor Malafaia, cujos gritos, a ponto de provocar-lhe uma rouquidão, se confundiam com acessos histéricos de santo ódio, no seu desafio ao poder temporal constitucional e judicial. Teriam sido assim os gritos de Antônio Conselheiro levando à destruição o crédulo povo em Canudos?

Qual o papel do grito num discurso ou numa pregação? Intimida o ouvinte e provoca o acordo e a adesão? Desejoso de ser preso, imaginando assim se tornar um símbolo e líder, Malafaia lança o desafio a Moraes e ao STF para que venham prendê-lo. Machão ou farsante? Com essa linguagem de ódio, seria um mensageiro de Deus ou do Capeta? Ou de um profeta enfurecido? Seria uma versão soft do Rasputin?

O tom baixa com Bolsonaro fazendo uma confissão golpista e decidido a propor o entendimento e a pacificação, até com Moraes! e mesmo uma anistia geral...Para  quem? Para os condenados às duras penas por envolvimento no quebra-quebra de prédios dos Três Poderes. Mas principalmente e por tabela, essa anistia seria para ele mesmo, diante do risco crescente e próximo de prisão.

Terminado o show, vê-se que a força da extrema-direita bolsonarista não acabou, talvez nem tenha diminuído. As últimas declarações de Lula sobre Gaza foram muito exploradas por seus inimigos e parecem ter revitalizado os evangélicos. E custado até uma fatia no eleitorado de Lula.

Durante a queda do comunismo na URSS, alguns líderes procuraram amenizar o discurso anticlerical, porém o resultado foi um fortalecimento da igreja ortodoxa russa dentro de um quadro semelhante ao brasileiro - devoção religiosa com nacionalismo.

Quantos canarinhos encheram algumas quadras da avenida Paulista? Muitos. De acordo com um método e tecnologia usados pela Universidade de São Paulo, implicando uso de drones, fotos dos quarteirões e um software para contar cabeças, havia 185 mil pessoas. A metodologia usada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, dirigida pelo bolsonarista Guilherme Derrit, o temido ex-comandante do Pelotão da Rota, aponta um resultado exagerado de 750 mil...

Depois de terminada a manifestação, menor do que a esperada pelos bolsonaristas - eles esperavam mais de milhão -, apareceu numa rede social anti-bolsonaro uma perigosa hipótese para 2026: Silas Malafaia e Michele Bolsonaro para presidente e vice, com a missão de anistiarem o ex-presidente Bolsonaro e trazerem o Reino de Deus e a teocracia para o Brasil. Com o apoio de Donald Trump que, nessa altura, já seria de novo presidente.

Depois do circo, show de igreja, oração, gritaria, canarinhos e cafonalha, seria a hora para se sentar e ver a versão apocalíptica de um filme de terror! (por Rui Martins) 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

NÃO HOUVE LEVANTE QUANDO BOZO FICOU INELEGÍVEL E NEM HAVERÁ


 Havia um temor no ar: e se os bolsonaristas saíssem às ruas quando o Tribunal Superior Eleitoral decidisse pela inelegibilidade de Bolsonaro? Como agir caso os evangélicos se colocassem de joelhos nas rodovias, nas ruas e bloqueassem Brasília e as principais cidades? E se houvesse manifestações no Exterior? E se Deus interviesse como acontecia no Velho Testamento?

Ora, foram temores desnecessários. Nada ocorreu nas ruas e, se houve protestos, ficaram confinados às redes sociais, às fake news, às pregações nos púlpitos ou às conversas de pastores nas portas das igrejas, como constatou e conta o correspondente do jornal suíço Le Temps, da porta da igreja do Engenho Velho, em Salvador da Bahia. O pastor local, Antônio Marcos, contou mesmo ser eleitor de Bolsonaro, "pois ele defende os valores da família e respeita a palavra de Deus".

Na falta de manifestações públicas nem nas portas das igrejas, conta ainda o correspondente do jornal suíço, circulou pela rede Instagram um apelo do mais jovem deputado federal bolsonarista, o mineiro Nikolas Ferreira, para os evangélicos orarem pelo Brasil. Esse apelo foi mais tarde formalizado pelo deputado, para se transformar numa espécie de rede de oração noturna pelo ex-presidente e pelo Brasil.

Não se sabe dos resultados concretos dessa prática, porém essa cadeia de orações pode assegurar uma espécie de união entre os fiéis, a fim de manter vivo o culto pelo Messias crucificado pela inelegibilidade por oito anos.

Resistirá o movimento bolsonarista, que não tem o formato próprio de uma ideologia política mas é um subproduto de ideias e conceitos fascistas, ao passar dos longos oito anos, sabendo-se da volubilidade do eleitorado populista brasileiro? O janismo, exemplo de um movimento populista, embora tivesse conseguido mobilizar o eleitorado e criar o mito do combate à corrupção, valendo-se da simbologia da vassoura, durou alguns anos, mas não passou de um fogo de palha.

Jânio se deixou levar pelo desejo de ter plenos poderes e seu golpe da renúncia acabou por lhe ser mortal. Esperava uma mobilização popular que não houve. Porém, a história só se repete até aí: Bolsonaro foi derrotado nas eleições e foi condenado à inelegibilidade, sem que isso provocasse reações populares, e talvez tenha amargado pessoalmente a mesma decepção do Jânio Quadros.

Entretanto, o populismo janista era frágil por se basear apenas no seu prestígio pessoal e no seu carisma. Jânio não dispunha de um partido ou de uma estrutura de apoio e nem utilizou dos quatro anos do seu mandato presidencial para construí-la, ao provocar o choque abortivo da renúncia ao seu mandato.

Ora, o populismo bolsonarista pode parecer uma conquista pessoal, mas não é. Bolsonaro acabou sendo escolhido por ter um formato que se adaptava a um projeto maior, elaborado pela extrema direita norte-americana, contendo negacionismo e conspiracionismo como fatores desestruturantes da sociedade, ancorados num fundamentalismo religioso primário, capaz de substituir reivindicações sociais da vida cotidiana por ilusões espirituais e recompensas pós mortem.

Por isso, o populismo vivido por Bolsonaro nesta primeira fase, pode sobreviver encarnando-se em um (ou uma) outro líder com linguagem ou postura parecidas, desde que mantido o revestimento religioso. Zema e Michelle parecem, no momento, os mais capazes de herdar os 30% desse tipo de eleitores bolsonaristas. Em síntese, a extrema direita se tornou atraente para as camadas populares, com sua roupagem fundamentalista evangélica, seus slogans Deus acima de tudo, Deus, Pátria e Família e mobilizam suas forças, entre salmos e hinos, contra o pecado, contra os homossexuais, contra o aborto e ignoram as reivindicações sociais.

Porém, essa versão religiosa fundamentalista da extrema direita brasileira tem seu calcanhar de Aquiles. Na prática, ela é inoperante. E com isso não contava Bolsonaro, que havia tudo planejado: aliança com os militares, armas para o povo, discurso do ódio e indicação dos inimigos a serem derrubados.

Por mais desvirtuada que tenha sido a mensagem evangélica, ela continua sendo pacífica. A principal arma continua sendo a oração. Ora, oração com ou sem jejum não derruba governo e nem faz revolução.

De nada adiantaram os apelos diretos ou indiretos de Bolsonaro para seus fiéis partirem para a luta, destruírem seus inimigos no STF e o ajudarem a tomar o poder.

Os evangélicos podem ser manipulados, enganados, apatriotados mas, e isso é inerente à sua formação ideológica ou religiosa, eles são pacíficos. E foi aí que falhou o projeto insurrecionista de golpe de Estado armado do ex-presidente Bolsonaro. Seus soldados não eram de guerra.

E lá foram eles, no dia 8 de janeiro, para tomar as sedes do governo, do parlamento e do judiciário. Mas ninguém tinha nem estilingue. Podiam quebrar coisas, mas seriam incapazes de matar. E foi assim que Bolsonaro armou o povo, tomou os prédios, mas perdeu a guerra. Seus seguidores tinham se tornado fanáticos, mas são incapazes de matar porque Cristo proíbe. Ainda bem. Exército e seguidores de Bolsonaro formavam a enorme tropa que atacou Brasília, dirigida por covardões escondidos nas areias de Orlando, nos EUA.

E por que não houve manifestações por Bolsonaro, ao ser declarada sua inelegibilidade? Porque não houve patrocinadores que pagassem os ônibus, distribuíssem sanduíches e lanches, montassem barracas com colchões e cobertores, como antes diante dos quartéis! (por Rui Martins) 

segunda-feira, 6 de março de 2023

OU SE INVESTIGA A FUNDO O CASO DAS JOIAS SAUDITAS OU SERÁ APENAS MAIS UM CAPÍTULO DO UDENISMO NACIONAL

 


Q
ue a família Bolsonaro é macomunada em todo tipo de banditismo, não é novidade. Desde as rachadinhas, espécie de acumulação primitiva bozoísta, até a ladroagem na compra de vacinas, descoberta pela CPI da Pandemia, a lista é grande. 

Contudo, o recente escândalo das Joias Sauditas parece mais uma forma de ocultar o essencial do que de apanhar a famílicia em mais uma maracutaia. Não me interpretem errado, Bozo e sua turma são sim perfeitamente capazes de se apropriar de uma coroa de diamantes, porém o que ninguém questiona é o motivo do ditador da Árabia Saudita - considerado pelo ex-presidente fujão como um irmão - ter dado tal caríssimo presente.

Pura amizade sincera de dois déspotas, um imaginário o outro concreto? Cortesia diplomática? Paixão do  Príncipe pela Princesa Micheque? Ou algo muito mais efetivo e relacionado à venda de uma Petrolífera para aquele país a preço inferior ao de mercado e outros possíveis investimentos sauditas no setor brasileiro de petróleo?

 Inclusive, seria coincidência o record de funcionários do governo federal indo visitar a Árabia Saudita? Quem teria se beneficiado de tais acordos? Existem atravessadores no alto empresariado brasileiro? A ditadura saudita pagava propina a funcionários do governo?

Nada disso, no entanto, parece interessar à nossa imprensa ou mesmo ao governo Lula. Reitera-se apenas o contrabando da coroa, algo de menor importância em um país onde fraudar o fisco é esporte nacional. E, aliás, o que é fraudar a Receita Federal perto da morte de um milhão de brasileiros durante a pandemia, um crime do qual não há sequer sombra de possível punição a Bolsonaro?

Então, ou se investiga a fundo o caso da Coroa, com todas as consequências possíveis não apenas para a família Bolsonaro, mas também para membros graúdos do empresariado nacional, ou este caso será mais um exemplo do undenismo típico de nossas elites, que sempre usam o moralismo para esconder o essencial. (por David Emanuel Coelho) 

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