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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

WOODY ALLEN E A LÂMINA SINISTRA QUE CAI SOBRE QUALQUER CABEÇA SÓ PORQUE ALGUÉM SOLTOU UM GRITO

Por João Pereira Coutinho
"...em 2014, em carta para o New York Times, Dylan Farrow, a filha adotiva de Woody Allen, acusou o pai de a ter molestado sexualmente na infância.A história era conhecida desde 1992. Mas também era conhecido o veredito da justiça: Woody Allen estava inocente.

Pior: o irmão de Dylan acusou Mia Farrow, então em pleno divórcio litigioso com Woody, de ter manipulado a filha para que esta acusasse o pai desse repugnante crime.

Fim de história?

Longe disso: Hollywood descobriu agora que Woody Allen, 25 anos depois, tem lepra. Perdi a conta aos atores —passados e presentes— que rasgam as vestes em público e mostram arrependimento por terem trabalhado com ele.

Outros, preventivamente, declararam que jamais trabalharão com o diretor. Desse coro, Alec Baldwin foi uma exceção: depois de relembrar que Woody Allen foi ilibado das acusações, o ator declarou que ter trabalhado com ele foi das melhores coisas da sua carreira. (E foi, Alec.)
Gostariam que Allen passasse pelos mesmos apuros...

Entenda, leitor: a questão não está em saber se o abuso de crianças é coisa séria. Claro que é. Mais: é um crime invulgarmente repugnante, que deve ser punido com uma dureza exemplar.

A questão é outra: será que devemos abandonar os princípios básicos de um Estado de Direito e linchar em público alguém que foi acusado por outro de uma conduta reprovável?

Cuidado com a resposta. Se ela é afirmativa, esse é um mundo em que eu não quero viver. Até porque eu conheço esse mundo: é o mundo típico dos regimes totalitários, que executavam dissidentes sem provas, sem julgamento, sem nada.

É um mundo destrutivo, sim. Mas também é um mundo autodestrutivo: faz parte da dinâmica totalitária devorar os seus próprios filhos.

Os jacobinos souberam disso durante o Terror da Revolução Francesa. Os bolcheviques também com as purgas de Stalin na década de 1930.
...do seu personagem em Um assaltante bem trapalhão.
Por outras palavras: os carrascos de hoje podem ser facilmente as vítimas de amanhã. Basta que alguém, algures, siga os mesmos métodos duvidosos.

E, quando esse momento chegar, a que tipo de defesa terão direito? Presunção de inocência? Mas como, se eles aboliram essa presunção com seus comportamentos histéricos?

Tentar acabar com o abuso reinante na indústria de cinema é um objetivo meritório. Um objetivo que, convém lembrar, vem com anos de atraso, depois do secretismo covarde e provavelmente criminoso de muitos puritanos de agora.

Mas ao lado dessa luta ergue-se uma outra guilhotina: uma lâmina sinistra que cai sobre qualquer cabeça só porque alguém soltou um grito."
Por Celso Lungaretti
O escritor e cientista político português João Pereira Coutinho também ousou ir contra a corrente dos linchamentos morais descabidos. Somos poucos. Infelizmente, quando encontra alguém sendo apedrejado, a maioria vai logo catar pedras.

Vi esta canalhice se voltar contra muita gente boa, começando pelo grande Monteiro Lobato, a quem iletrados tentaram inculpar pelos insultos racistas da personagem Emília contra a Tia Nastácia. Não tinham a mais remota noção da grandeza daquele a quem tentavam atingir, tanto como escritor quanto como guerreiro que travou o bom combate nos tempos sombrios de outra ditadura.

E o ridículo supremo foi quando militantes fanáticas do feminismo tentaram colar a etiqueta de estupro no fato de a atriz Maria Schneider ter aceitado fazer uma cena de sodomia simulada que não constava do roteiro da obra-prima O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. 
Seu estupro sem penetração faria a delícia do saudoso Sérgio Stanislaw Ponte Preta Porto, talvez até o convencesse a lançar um livro sobre o festival de besteiras que assola o mundo...

Por último, uma observação sobre vítima recente, o William Waack. 

Salta aos olhos que o episódio foi uma armação, não havendo a mais remota base para qualificá-lo de racista apenas por conta de uma piada de mau gosto que fez no intervalo do trabalho e foi exumada um ano depois, com evidente má fé, pelos que queriam desqualificá-lo por outros motivos.

Devemos defender injustiçados a despeito do seu (mau ou duvidoso) caráter, para que a injustiça não prospere; tais linchamentos são nocivos e execráveis, devendo, portanto, ser incondicionalmente repudiados pelos justos.
Bertolucci, Schneider e Brando. Estuprada?! Falsa sério...

Mas, a Globo procedeu da maneira mais abjeta com Waack e, mesmo assim, ele firmou um acordo podre, que vem cumprindo à risca, de passar uma borracha em cima da postura de quem, demitindo-o, avalizou a arapongagem, o roubo de uma gravação para fins crapulosos e o atentado contra sua reputação.

Só existe uma explicação possível e imaginável para ele não ter ido à luta contra a Globo, tanto na Justiça quanto nas entrevistas e nos artigos que escreve: é sonante e, certamente, possui muitos zeros. 

Se Waack não chutar o pau da barraca, dando a público os termos de seu pacto com o diabo... quer dizer, com a Globo, eu continuarei defendendo-o da acusação que serviu como pretexto para seu apedrejamento, mas perderei o respeito por ele como cidadão e como ser humano.
Aos 16 anos assisti a uma peça sobre Galileu Galilei, encenada por um grupo teatral amador, cuja frase mais marcante nunca saiu da minha memória, inspirando-me até hoje:
"Há um mínimo de dignidade que não se pode negociar, nem mesmo em troca da liberdade, nem mesmo em troca do sol".
Muito menos em troca de uma mega-sena acumulada...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

BESTEIROL FEMINISTA: O SEXO SIMULADO DO CINEMA VIROU ESTUPRO...

Encontrei num blogue de cinema inflamada discussão sobre o incrível, fantástico e extraordinário estupro que a atriz Maria Schneider teria sofrido durante as filmagens de O último tango em Paris (1972), a obra-prima de Bernardo Bertolucci.

Vale a pena esmiuçar este episódio, pois dá uma demostração cabal da inconsequência e puerilidade de certos círculos feministas. Antes, eram os moralistas rançosos que grasnavam perversão!, por causa da rápida cena em que Brando sodomizava Maria utilizando manteiga como lubrificante; agora são as caçadoras de fantasias de violação que grasnam estupro! Durma-se com um barulho desses...

Comecemos pelo que realmente importa no filme, a história (pois as controvérsias que ele desde o início despertou se ativeram a um trecho ínfimo no contexto da obra).

Logo após o suicídio da esposa, viúvo (Marlon Brando) procura onde ficar por uns tempos, pois no antigo domicílio do casal as lembranças dolorosas o deprimem ainda mais. Ao visitar um apartamento disponível, cruza com uma jovem (Maria Schneider) que também o está avaliando. Depois de trocarem umas poucas palavras, fazem amor furiosamente.
Brando: no auge da depressão.

Paul (Brando) aluga o apê e Jeanne (Schneider) passa a frequentá-lo para transarem e curtirem suas fantasias. Ele lhe impõe a regra de não revelarem seus nomes, nem falarem sobre suas vidas.

Ela, portanto, não tem consciência do quanto a relação entre ambos está sendo determinada pelos remorsos e tormentos de Paul. Ser viúvo(a) de suicida é atroz para qualquer ser humano sensível. 

Quando, finalmente, ele sai da fossa e se propõe a iniciar um relacionamento convencional com ela, quebra-se o encanto e Jeanne o repudia; o desfecho é trágico.

Impossível não nos comovermos com o sofrimento de Paul, um homem dilacerado, em parafuso (a performance de Brando é magnífica!); nem deixarmos de admirar a maestria com que o grande diretor italiano retratou, em Jeanne, uma juventude frívola, superficial, disposta aos prazeres e até às humilhações sexuais, mas bloqueada para os sentimentos mais profundos, incapaz de verdadeiramente amar.

Como na época ainda havia muita hipocrisia com relação ao sexo, produziu-se um sucesso de escândalo. E quem fez de tudo para surfar nessa onda foi Maria, atriz francesa que estava com 20 anos e nada fizera de importante na carreira.

Ela passou, nas entrevistas que concedia e nas frases enviadas à imprensa por seus divulgadores, a dar declarações próprias de uma piranhinha, ou seja, nelas havia sempre uma intenção evidente de chocar leitores e espectadores com espalhafato sexual . 

Que, p. ex., trombeteasse toda hora haver transado com mulheres, vá lá, embora  fosse oportunismo utilizar relações homoeróticas (verdadeiras ou inventadas) como um trunfo para seu marketing artístico. 
Bertolucci dirigindo o par central
Mas algo que, na época, me enojou muito foi sua baixeza promocional de afirmar que o Marlon Brando, da barriga para cima, continuava bonitão; mas, da barriga para baixo, não impressionava mais...

O tempo passou, a moeda que caiu em pé não se repetiu na carreira de Maria (depois do Tango, só foi atriz principal de mais um filme importante, o Profissão: repórter de Michelangelo Antonioni, o qual, contudo, obteve sucesso artístico mas não comercial) e ela foi ficando cada vez mais esquecida.

Em 2007, quando só lhe restavam esporádicos papéis secundários em produções de segunda linha, foi entrevistada pelo jornal britânico Daily Mail e saiu-se com esta:
"Deveria ter chamado meu agente ou fazer meu advogado vir ao set porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas, naquela época, eu não sabia disso. Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, embora o que Marlon fizesse não fosse real [não houve penetração], eu chorava de verdade. Senti-me humilhada e, para ser honesta, um pouco violentada por Marlon e Bertolucci. Pelo menos foi só uma tomada".
Trocando em miúdos, propuseram-lhe que filmasse uma cena inicialmente não prevista, na hora ela aceitou, não passou de sexo simulado como tantos que atores e atrizes rotineiramente interpretam, mas, 35 anos depois, veio lamuriar-se de haver sido humilhada. 
As pessoas vão estranhar? É o que queremos!

Por que não disse isto antes? Porque, naquele tempo, a imagem que o público tinha dela ( e seus agentes se esforçavam ao máximo para projetar) era de uma moça sem pudor, desbocada a ponto de fazer comentários grosseiros sobre o pênis do ator famoso com o qual contracenara. Seu chororô de humilhada, naquela época, teria sido recebido com gargalhadas.

Maria morreu de câncer em 2011. Dois anos depois, Bertolucci comentou o episódio na Cinemateca Francesa, com a franqueza de quem falava com outros artistas, não adivinhando que sua declaração impactaria fortemente nos patetas do inferno pamonha, se dela tomassem conhecimento.
"Queria sua reação como menina, não como atriz. Não queria que Maria interpretasse sua humilhação e sua raiva, queria que sentisse".
Mas, nestes tempos bicudos, a indústria cultural está sempre atenta às oportunidades para fazer com que seus produtos bombem entre os patetas, alavancando o faturamento. Então, coube à revista Elle dar enorme quilometragem a tal besteirinha. 

Alertadas, patrulhas feministas no cinema e na mídia fizeram uma verdadeira tempestade em copo d'água, em cima de um estupro que não houve. Mas que, confundidas pela picaretagem e desonestidade intelectual, muitas pessoas crédulas acabaram tomando como real.

O planeta indo pro vinagre, a economia mundial derretendo e essa gente nada tem de melhor para fazer do que soprar trombetas nas batalhas de faz-de-conta...
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Para baixar o filme com legendas em português, clique aqui.
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