sexta-feira, 29 de maio de 2026

NÁUFRAGO DA UTOPIA 2 = MISCELÂNEA

 O ROCK GERMÂNICO NO BRASIL: 
ESTRADA PARA LUGAR NENHUM

O rock n’roll, coroamento de uma longa evolução musical na terra de Tio Sam, dificilmente poderia gerar desdobramentos criativos no continente europeu. No inicio dos '60, entretanto, os jovens músicos ingleses perceberam que havia grande identidade entre o protesto candente do rhythm’ blues e a angústia que eles próprios sentiam. Assim, mergulhando na raiz negra do rock, os Beatles, Stones, Animals, etc., começaram a sua aclimatação na Europa.

A Alemanha não participou sequer dessa evolução. Só foi tocada, mesmo, com a eclosão do rock progressivo. Por quê? Ora, devemos lembrar, antes de mais nada, que a Alemanha e o Japão foram os grandes derrotados da 2ª Guerra Mundial. As feridas custaram a cicatrizar. Ambos se atiraram compulsivamente ao trabalho - os japoneses para exorcizarem os horrores atômicos, os boches para esquecerem os genocídios nazistas - afinal, em seu caso, a humilhação do fracasso somou-se à vergonha pelos crimes contra a humanidade.

Além disso, a Alemanha emergiu do conflito dividida, como um dos palcos principais da Guerra Fria. Nena (cantora pop), em "99 Luftballons", dá uma idéia do que significava o muro de Berlim para os germânicos - símbolo tangível da derrota, obstáculo ao congraçamento de irmãos e, pior, farol que iluminava os temores/presságios de uma nova e definitiva contenda entre as potências nucleares (pois é lá que capitalismo e comunismo se encontravam frente a frente; é lá que os riscos eram mais evidentes e que por várias vezes já se pensou estar iniciando o duelo apocalíptico).

Que tal ser jovem num país que vive em ritmo de usina e se assemelha a um paiol, onde o fósforo aceso descuidadamente pode mandar tudo pelos ares? Os alemães respondem com sua arte: discos e filmes, o que mais nos chega, têm como ponto comum uma frieza de enregelar. 

A sociedade que se adivinha por trás deles é extremamente tecnológica, espantosamente robotizada e miseravelmente desumana. Neles não há piadas. Há uma total falta de perspectivas, mitigada pelas drogas e por remotos sonhos de evasão. A estrada é um símbolo primordial - escapar para longe, onde não existem fronteiras nem muros (vide os filmes de Wim Wenders; vide o LP Autobahn, que popularizou o Kraftwerk).
VIAS DE ESCAPE

Entende-se então porque os alemães só curtiram o rock dos anos 70, o rock da raiva e do desencanto. Antes havia alegria demais, e todos aqueles projetos de mudança do "flower power". Se o psicodelismo assumiu nos EUA e Inglaterra as feições risonhas do "paz e amor", na Alemanha tudo foram bad trips. 
A distância entre ambos é a que vai de Woodstock a Christiane F.

Não por acaso, a primeira leva de expoentes mais notórios do rock alemão veio na esteira dos LPs de 1969 do Pink Floyd e King Crimson ("Ummagumma" e "In The Court of The Crimson King"), discos-manifestos do rock espacial.

Seus atrativos: ofereciam também via de escape, já não através das prosaicas estradas de asfalto, mas sim pelas lisérgicas rotas do firmamento: e começavam a desvelar o mundo moderno como palco de dominação tecnológica (enfoque familiar aos germânicos, que já haviam vivenciado o sutil totalitarismo da sociedade regida pelo deus computador).

Um dos traços mais característicos do rock progressivo alemão seria exatamente a denúncia da tecnologia. E, bons estrategistas, eles voltariam contra o inimigo as armas do mesmo: abusariam ao extremo da parafernália eletrônica, como a enfatizar a artificialidade do ambiente transfigurado pela tecnologia. 
Nunca se ouviu tanto sintetizador, mas também nunca os sintetizadores foram acionados para produzir sons tão desagradáveis: estática, goteiras, serrotes, o diabo. 

Herdeiros de grandes experimentadores como Stockhausen e Kagel, os alemães criariam uma música destinada quase que exclusivamente ao cérebro, e que na melhor das hipóteses servia para embalar viagens por paisagens etéreas -- na maioria dos casos, parece trilha sonora de pesadelos ou de bizarros filmes undergrounds.

São Paulo, julho de 2011.

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