No início de abril finalmente foi relaxada a última das minhas prisões preventivas por haver militado na VPR e na VAR-Palmares, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Um dos juízes auditores considerou desnecessária a medida., os outros três seguiram a diretriz oficial.
Mas eu estava lá para sofrer e continuaria sofrendo até o momento de recuperar a minha liberdade. Estava no DOI-Codi/SP e, certo dia, me mandaram juntar a tralha que tinha, pouca coisa, e ir esperar a soltura na entrada daquela unidade.
Passei uma tarde inteira no que seria um estacionamento, vendo viaturas chegarem e partirem, à espera do fim do pesadelo. Em vão. No fim da tarde me encaminharam de novo para a cela, porque faltava resolverem algum detalhe burocrático.
Dia seguinte, a mesma coisa. Mas, depois da algumas horas, fui finalmente libertado. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, sem a mínima ideia do que faria dali em diante.
Decidi-me pelo vestibular de jornalismo e comecei a fazer o cursinho que levava um semestre. Mas, no meu primeiro julgamento, fui sentenciado a seis meses de prisão e o juiz não quis aceitar que o tempo já havia sido cumprido nas prisões preventivas. Argumentou que não fora ele quem as decretara.
Voltei para o DOI-Codi/RJ, tendo de aguentar as piadas sem graça dos torturadores, tipo o bom filho à casa torna. De quebra, estava livre das torturas, mas obrigado a ouvir os berros de presos sendo torturados, móveis tombando ou ysendo arrastados, gritos dos algozes para amedrontá-los, etc. Não há palavras para relatar quanto me machucou ter retornado àquele local maldito.
Depois de umas duas semanas o advogado consegui dobrar o juiz teimoso e voltei para a rua. Curiosamente, entre a prisão e o repique, acabei totalizando um ano exato de encarceramento.
Retomei o cursinho e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria se tornando a minha primeira esposa. E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.
Estavam prestes a se formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.
Sem grana nem vontade de fazer análise, a comuna foi minha salvação. Acabei exorcizando sozinho meus fantasmas, mas vivendo novamente em grupo, num momento em que a bestialidade da ditadura grassava solta. Passei pelas experiências que me faziam falta, como ter um amor incandescente com uma das meninas, a V.
Quando ela viajou a Minas Gerais para visitar os pais e decidiu ficar por lá, fui atrás quase sem grana, numa última tentativa de convencê-la a mudar seus planos. João, meu melhor amigo naquela comunidade, fez questão de ir junto, temendo algum descontrole da minha parte. Fomos de carona em caminhões e voltamos com um empréstimo do pai dela, após passarmos uma tarde inteira tentando descolar uma carona.
Como quase todos nessas comunidades, experimentei as drogas. A maconha e os remédios que davam barato (como o Artane) não me entusiasmaram, mas o LSD sim. Não pelo início da viagem, que chegava a ser desagradável, mas pelo final.
Conforme o efeito ia passando, eu sentia uma calmaria extrema, como se fosse um espírito observando a faina insensata dos vivos. Anotava a esmo o que me vinha à cabeça e mais tarde transformava os apontamentos em poesias, algumas boas, outras más. Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.
Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma revivi o drama histórico de Stálin contra Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade.
Finalmente, uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura.
Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.
A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu, que fazia alguns meses já trabalhava em comunicação empresarial, aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, da qual me reaproximara.
Esgotado pelo frenesi em que levara a minha vida nos últimos anos, decidi conceder-me o repouso do guerreiro.
Desinteressei-me da realidade sufocante da ditadura, que grassava lá fora, e passei a me restringir ao aqui dentro da minha toca, dividindo a existência entre o trabalho alienado durante o dia e, á noite, os rocks de terceira geração que escutava: King Crimson, Pink Floyd, Yes, Focus, Genesis, etc.
Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha muitas páginas a escrever no livro da vida. (por Celso Lungaretti)
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