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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

GRAÇAS À MARIA LIÍZA FONTENELE, O PT CONQUISTOU EM 1985 SUA PRIMEIRA PREFEITURA DE CAPITAL. AÍ A EXPULSOU...

Era dia 17 de novembro de 1985 e terminava a apuração de votos: concretizara-se o primeiro triunfo de uma candidata do PT a um cargo executivo da importância da prefeitura de Fortaleza, quinta maior cidade do Brasil. A vitoriosa foi a simpática Maria Luíza Fontelenle (1921-2009).

Uma multidão exultava diante do local de apuração, o Ginásio Paulo Sarasate. Tendo participado da coordenação da campanha (juntamente com Jorge Paiva, o coordenador geral, e outros menos votados, como o atual deputado federal José Guimarães, do PT), eu assistia àquela profusão de contentamento da multidão com um misto de alegria e preocupação. 

Lembro-me que estávamos em cima de uma Kombi, eu e o então deputado federal do PT José Genuíno (cearense radicado em São Paulo, que viera para o evento à última hora). Ele, percebendo minha alegria contida, que certamente transmitia certa dose de contrição, perguntou-mevocê não está feliz?  
Respondi-lhe que sim, mas também preocupado com o day after, pois aquela multidão estava se sentindo redimida e a nossa vitória não significava, obviamente, a redenção.    

Nosso triunfo se devera ao caos que marcara os governos de prefeitos nomeados por governadores que, por sua vez, eram escolhidos pela ditadura militar. 
A simpatia pessoal da Maria Luiza não bastava para
obter êxito governando em circunstâncias tão adversas.



Ainda por cima, as prefeituras daquela época não tinham autonomia financeira, pois esta só viria quando a Constituição de 1988 passasse a vigorar, no ano seguinte.

No nosso caso particular, as dificuldades eram evidentes: não dispúnhamos de nenhum vereador do PT ou de qualquer partido de esquerda; nenhum deputado estadual; e nenhum deputado federal na bancada cearense. 

Eu viria a ser o secretário de Finanças, incumbido de administrar a falência da prefeitura de Fortaleza.

Os meus receios não tardaram a ser confirmados pelo desenrolar dos acontecimentos:

— com 15 dias de governo, as categorias profissionais que haviam conquistado o piso salarial correspondente (graças, em grande parte, à nossa luta) estavam prontas para cobrar a implementação de tais conquistas, embora o orçamento já fosse deficitário; 

 — a empresa de ônibus de propriedade da prefeitura exigia o aumento do preço das passagens, como forma de cobrir o déficit que vinha sendo subsidiado pela receita da própria prefeitura, cujas finanças estavam combalidas; 

— os empresários de ônibus, idem; 
Reunião com o secretariado: abacaxis para descascar
— as empresas de coleta de lixo, pressionando ao máximo que fossem efetuados os pagamentos em atraso, deixavam, premeditadamente, de cumprir sua tarefa, de forma que o lixo se amontoava nas ruas, tornando insuportável o mau cheiro e o desconforto; 
— para completar o quadro, naquele início de ano vieram as chuvas particularmente e precocemente regulares, que aumentavam os buracos sem que as tradicionais verbas federais (era assim que funcionavam as prefeituras ao tempo da ditadura) chegassem. Era uma deliberada tentativa de fazer passar por ineficiente a administração popular recém-instalada. 
As dificuldades administrativas tradicionais eram enormes e intermináveis.  Ademais, a prefeita Maria Luíza Fontenele, além de ser a primeira mulher eleita para uma prefeitura de capital, pertencia à ala marxista do PT, que sofria um processo de perseguição interna (éramos adeptos do marxismo tradicional, do movimento operário, só posteriormente evoluindo para o marxismo esotérico da crítica ao valor/dissociação de gênero.

A dose era muito forte para o sistema, e até mesmo para o PT.

A ideia de assumir um cargo executivo na esfera política do capitalismo liberal burguês era e é um equívoco para quem se propõe a ser anticapitalista. 

Com d. Helder Câmara, detestado pelas elites brasileiras
Uma vez investido no poder, e sendo obrigado a conviver com todos os antagonismos sistêmicos institucionais decorrentes do imperativo de manutenção da ordem capitalista, um governo que possua norte revolucionário, ou mesmo reformista sério, passa a ter de administrar não somente a crise financeira do aparelho de Estado na atual fase de depressão econômica capitalista, como se vê obrigado a revogar as conquistas sociais adquiridas na fase de ascensão capitalista. 

No caso da nossa administração popular de 1986/1988 em Fortaleza, os problemas se agravaram pelo fato de não aceitarmos a política de conciliação com os políticos tradicionais e com donos do PIB tupiniquim. Isto o que nos colocou em rota de colisão com a descaracterização 

ideológica do petismo, já em curso (corrupção à parte, pois naquela época ela ainda não era tão visível).

Este foi o verdadeiro motivo da expulsão de Maria Luíza e seus apoiadores (inclusive eu, por ela escolhido para ser seu candidato à sucessão). 

De tudo ficou a lição não apenas da ingovernabilidade de qualquer governo que se proponha a ser pró-povo (a máquina estatal não foi concebida e aperfeiçoada para isto), bem como de quão incoerente é, para quem denuncia a falência vindoura do capitalismo, tentar administrá-lo em proveito desse mesmo capitalismo.

Tal foi, em linhas gerais, a trajetória que nos levou ao amadurecimento político e consequente opção pelo Marx esotérico, que se contrapõe em tudo ao Marx exotérico, do movimento operário, marcado pelo politicismo inconsequente. 

A concepção de luta social a partir da crítica da economia política e da dissociação de gênero difere completamente:
— dos métodos e objetivos teleológicos da luta eleitoral; 
— da luta pela inserção administrativa no aparelho de Estado; e 
— das concepções e objeto teleológico das atuais lutas do movimento sindical (movimento feminista do movimento dos sem-terra e dos sem-teto, etc).    
Estão equivocados os que defendem os sucessivos mandatos do Lula como se fossem atos de resistência anticapitalista. 

Destarte, não tenho saudades da nossa experiência da administração popular, mas confesso que aprendi com ela. (por Dalton Rosado). 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

COMEÇA AMANHÃ EXPOSIÇÃO SOBRE A DITADURA MILITAR NO SESC BELENZINHO; GRUPO CRÍTICA RADICAL SERÁ DESTAQUE.

Este blog está ideologicamente irmanado com os partidos, organizações, entidades, forças políticas e militantes que lutam pela superação do capitalismo e pela liberdade plena, sem vinculação orgânica com nenhum deles e sempre pronto a apoiar a todos em suas causas e iniciativas justas.

Assim, passa a divulgar as informações recebidas do Grupo Crítica Radical, sobre sua participação na semana de lançamento da exposição  Meta-Arquivo: 1964-1985. Espaço de Escuta e Leitura de Histórias da Ditadura, que começa nesta 5ª feira (22) e vai até o dia 24 de novembro, no Sesc Belenzinho (rua Padre Adelino, 1.000, próximo à estação Belém do metrô, na capital paulista), aberta diariamente a partir das 10 horas, menos nas segundas-feiras. 

Com curadoria e pesquisa de Ana Pato e em parceria com o Memorial da Resistência, a exposição reúne nove obras inéditas, elaboradas por Ana Vaz, Grupo Contrafilé, O Grupo Inteiro, Giselle Beiguelman, Ícaro Lira, Mabe Bethônico, Paulo Nazareth, Rafael Pagatini e Traplev. Além disso, serão complementarmente realizados programas públicos, com uma série de atividades propostas para aprofundamento e reflexão, dialogando com os assuntos abordados pela exposição.

Segundo os organizadores, a iniciativa pretende oferecer "um espaço expandido de aprendizado, cujo objetivo primordial é despertar a reflexão acerca da documentação pública arquivada pelo Estado Brasileiro". 

O foco é a ditadura militar de 1964/85, com a proposta de aprofundarem-se questões tais quais:
— como ler esses arquivos?
— como construir memória a partir deles? 
— como aprender coletivamente sobre a história do país e de seu povo, a partir de sua análise?
— como preservar esses acervos e, como consequência, a memória dos processos civilizatórios que alicerçam a sociedade atual?

O Crítica Radical estará participando das seguintes atividades que terão lugar no Sesc Belenzinho (além da marcada para o 6ª feira, 23/08, no Memorial da Resistência, que fica no largo General Osório, 66, onde será gravado às 10 horas o depoimento de um de seus fundadores, o ex-preso político Jorge Paiva):
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5ª feira, 22/08
— 15h15, conversa com os educadores da exposição;
—18h, encontro do Grupo de Trabalho Meta Arquivo, com a participação de todos os artistas, na Sala de Espetáculos 2; e 
— 20h, abertura da exposição e performance Inquérito de Paulo Nazareth, no Galpão.
sábado, 24/08 
— 15h, Memória e Resistência (encontro com Ícaro Lira e o grupo Crítica Radical), no Galpão, seguido de confraternização com outros artistas.

O companheiro Dalton Rosado, que desde fevereiro/2016 integra a equipe de redação do blog Náufrago da Utopia e já teve mais de 400 artigos de sua autoria publicados, é um veterano companheiro de jornada do grupo Crítica Radical e estará acompanhando toda a programação.
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HÁ 45 ANOS TRAVANDO O BOM COMBATE
O Crítica Radical tem início no final de 1973, quando Rosa Fonseca, após sair da prisão, constitui, juntamente com Jorge Paiva, Maria Luiza Fontenele, Célia Zanetti e outros(as) militantes, o grupo, que contribuiu de forma significativa para a reorganização dos movimentos sociais no Ceará.
Em 1975, o Crítica Radical desempenhou um papel destacado na fundação do Movimento Feminino Pela Anistia que, a partir de 79, com a promulgação da Lei de Anistia, encerra suas atividades, tendo várias de suas integrantes fundado a União das Mulheres Cearenses

Contribuiu também para a fundação da Associação dos Sociólogos do Ceará e da CUT daquele Estado, que chegou a ser presidida por Rosa Fonseca. 

Atuando fortemente no movimento dos professores, metalúrgicos e outras categorias profissionais, o grupo participou também da fundação ou reestruturação de alguns sindicatos cearenses.

O grupo se fundamentava no marxismo tradicional, até que, a partir do início da década de 90, com a descoberta de um duplo Marx, passou a desenvolver um processo de revolução teórica e prática, assumindo então a identidade de Grupo Crítica Radical. 

Desde então vem realizando uma ruptura total com a política e as práticas de partidos e entidades que querem administrar a crise do sistema, arbitrando perdas. Propõe-se, pelo contrário, a contribuir para a construção de um novo movimento social, numa perspectiva emancipatória.

Neste sentido, organiza seminários (ou deles participa), promove estudos, debates, visitas de autores importantes e outros eventos,  tendo recentemente lançado o livro Dinheiro Sem Valor – Linhas Gerais para uma transformação da crítica da economia política, de Robert Kurz. 

Atua sempre com a perspectiva de contribuir para a organização de um novo movimento social, tendo em vista suplantar o moderno sistema patriarcal produtor de mercadorias e construir a sociedade da emancipação humana.

Além disso, do ponto de vista prático, desenvolveu atividades como as campanhas pelo Não Voto, contra a violência, contra a criminalização dos movimentos sociais e pelo direito à memória e à verdade sobre torturas, mortes e desaparecimentos do período da ditadura militar, tendo participado de forma destacada da campanha pela liberdade de Cesare Battisti. 

E está empenhado na implementação de uma experiência prática inovadora para dar início à construção de uma sociedade pós-capitalista (o Sítio Brotando a Emancipação, em Cascavel, CE). 
Tudo sempre inserido em sua proposta básica: a consolidação de um novo movimento social de ruptura com o capitalismo, com vistas à construção de uma sociedade da emancipação humana e ambiental. 
(por Celso Lungaretti)
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