terça-feira, 16 de junho de 2026

prólogo: por um destino insólito

Fui leitor de biblioteca circulante desde cedo e, em 1967, aos 16 anos de idade, eu sonhava com um dia escrever  livros como os de Sartre, Dostoiévski, Kafka e Camus. 

Cuidado com o que você deseja, pode tornar-se realidade. Não sabia o preço que teria de pagar para tanto. Nem imaginava que os meus livros seriam tão cheios de acasos e coincidências que pareceriam histórias inventadas, não vividas.

A primeira coincidência foi quando eu tentava encontrar um desígnio na vida que fosse além das ambições banais dos jovens de classe média. O Eremias Delizoicov, que eu conhecia desde o primário, apresentou-me sua nova colega de classe, a Maria das Graças Lima. 

Era filha de um militante do partidão  que teve de sair da Bahia com a família porque corria o risco de ser preso. Mal chegada a São Paulo ela se enturmou com ativistas do movimento universitário e deles recebera a tarefa de garimpar secundaristas promissores para sua causa. 

Sentindo-me atraído por ela, passei a ler os escritores brasileiros engajados que a Maria recomendava, como o Jorge Amado, o Graciliano Ramos e o Guimaraes Rosa.  Conclui que minha praia deveria ser aquela, pois queria fazer parte de uma turma com interesses semelhantes, mas  de nada adiantaria seguir no Brasil os passos dos existencialistas europeus, meus favoritos.

Mudei muito a minha vida. Fazendo exames de adaptação, transferi-me nas férias escolares para o segundo ano Clássico. Herdei o jornal do colégio, já que o editor se cansara da tarefa. Comecei a fazer a cabeça da moçada com iniciativas como um concurso de poesias e uma enquete sobre se os EUA ajudavam ou prejudicavam o Brasil

Em dezembro, participei, com o Eremias e dois outros recrutas, de uma semana de estudos do marxismo. No final, fomos todos  convidados a ingressar numa entidade que estava sendo formada e atuaria principalmente como força auxiliar da Dissidência do PCB. Aceitei. Tal opção revolucionária acabou sendo uma decisão para a vida inteira.

Meu ano de 1968 foi o de quase todos: passeatas, ocupações, descobertas como as de que eu levava jeito para falar em público e que era veloz quando se tratava de escapar da polícia: duas vezes correram atrás de mim mas não me alcançaram,

Percebendo que haveria um endurecimento do regime, os oito que liderávamos o movimento secundarista na zona Leste discutimos se iríamos adiante ou desistiríamos. A votação foi unânime em favor de partirmos para a luta. Então começamos a dialogar com quatro organizações, acabando por optar pela Vanguarda Popular Revolucionária, uma das duas mais poderosas do Brasil. A outra era a Aliança Libertadora Nacional, do Carlos Marighella.

Os acasos continuaram. Havia bem poucos dirigentes  revolucionários com a minha idade (mal completara 18 anos), mas acabei sendo beneficiado por duas improbabilidades: nosso grupo foi convidado a escolher  um integrante para comparecer como observador ao congresso que a VPR estava prestes a realizar em Mongaguá. Fui eu. E mal começavam os trabalhos, os 12 delegados decidiram me conceder direito de voto. Tornei-me informalmente um delegado a mais.

Era gratificante, após ter passado 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e ligeiramente desdenhoso que os militantes universitários dedicavam a nós, secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha.

[Caso, p. ex., de nos terem escolhido para panfletar a cidade de Osasco ocupada pela Polícia Militar em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Deops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não respeitava melindres legais.]  

Quando a minha sorte de principiante acabou e a realidade crua da luta armada começou a desabar sobre mim, isso me abalou mais do que imaginava. Primeiro foi a morte de um companheiro da VPR a quem não conhecia, Carlos Zanirato, em junho. Preso, ele resolveu dar um fim às torturas pela via do suicídio. conduzindo a repressão a um ponto falso e atirando-se sob um veículo pesado. 

No mês seguinte vieram o Elias e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo de quem eu muito ouvia falar quando ele fazia movimento estudantil: o Fernando Ruivo (Fernando Borges Ferreira). 

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que empacou logo quando passava por uma boca quente paulistana. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. 

O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando submetido a torturas prematuras.

Em setembro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos sete quadros que conduzi para as fileiras da VPR, Eremias Delizoicov. 

Ainda em tal mês, havia sido realizado o Congresso da VAR-Palmares no qual se deu o racha dos sete

Tudo começou com uma incompatibilidade entre nós, comandantes estaduais, e os dois comandantes nacionais que faziam o meio de campo entre a guerrilha urbana e a preparação da guerrilha rural. 

Parecia-nos que ambos  tentavam exumar a tendência massista (a integração da VPR com os movimentos de massa urbanos).  Justificável na teoria, tal integração nos vulnerabilizaria em termos de segurança, tornando-nos presas fáceis para a repressão.

Começávamos a cogitar a anulação da recente fusão entre a VPR e o Comando de Libertação Nacional, da qual resultara a VAR-Palmares, mas sabíamos que nos faltava força política para  tanto.

Aí o acaso mais uma vez interveio. Ao receber o documento com a proposta para o congresso elaborada por um militante que não estava sendo valorizado desde que voltara depois de passar vários anos na Europa, percebi que continha a resposta perfeita de todos os desafios que a VPR enfrentava. Eram as Teses de Jamil

Redigi um documento de circulação interna para explicar à companheirada o que o Ladislau Dowbor/Jamil  propunha com sua retórica sofisticada. Foi assim que eu e o José Raimundo da Costa/Moisés iniciamos uma luta interna que culminaria no racha da VAR-Palmares e reativação da VPR.

Após quase um ano fui preso e, em meio àquele pesadelo, a mão do destino me salvou do pior. Numa reunião de uns 30 oficiais para planejarem a Operação Registro, um deles suspeitou que eu estivesse passando mal, chamou o enfermeiro e constatou-se que a minha pressão estava extremamente elevada. Fui medicado e passei alguns dias em paz, sem torturas.

Mas, o acaso não foi tão benéfico assim. Após quase dois meses e meio de incomunicabilidade (licença para torturarem à vontade), quando as investigações terminaram e eu deveria ser transferido a uma unidade civilizada para finalização do inquérito, escolheram a Polícia do Exército da Vila Militar. Fui da pior unidade do RJ para a segunda pior, onde me estouraram o tímpano e me impuseram o arrependimento forçado.

Injustiçado e estigmatizado, passei o restante do século limitado a lutas e atividades menores, mas sonhando, como o Augusto Matraga (personagem do João Guimarães Rosa), que ainda chegaria meu dia e minha hora.

Depois da tempestade veio a bonança. Desempregado desde o final de 2002, percebi que a única chance de dar a volta por cima era a reparação que o Ministério da Justiça estava concedendo aos militantes que haviam sofrido graves prejuízos durante a ditadura militar de 1964/1985, governo ilegal por resultar de um golpe de estado.

Como o julgamento do meu caso nunca era pautado, li toda a documentação referente à instituição da Comissão de Anistia e descobri que o regulamento estava sendo descumprido escandalosamente: o primeiro requisito para priorização dos casos era a condição de desempregado e eu, ao perder o emprego, tinha anexado uma comprovação disto ao processo. Só depois vinham a idade avançada e os danos físicos, intelectuais e morais. 

Tanto em lutas idealistas quanto nas que travara  administrando crises dos clientes em agências de comunicação empresarial, eu aprendera a lidar sozinho com esses trâmites. E denunciei as irregularidades que estavam cometendo contra mim em órgãos oficiais, na imprensa e nas redes sociais.

Mais uma coincidência valiosa surgiu em meu favor: graças às ferramentas de busca, encontrei na internet uma edição antiga do Coojornal  na qual estava publicado o relatório de atuação do Exército na Operação Registro, um documento secreto que o valente jornal gaúcho obtivera e havia publicado na íntegra, por sua conta e risco. 

Não deixava nenhuma dúvida quanto a que ser outra a pessoa que entregou à repressão a localização exata da área 2 da VPR.

Levei essa prova ao melhor historiador da luta armada, o Jacob Gorende que, após consultar outros documentos secretos que possuía, enviou cartas aos jornais inocentando-me de tal acusação. A Folha de S. Paulo publicou.

Tanto barulho fiz e tão pertinentes eram minhas queixas que a Comissão de Anistia teve de pautar o julgamento do meu caso. Não só conquistei a pensão vitalícia que pleiteava por direito e por estar afundado em dívidas, como passei a ser visto como um homem que amargara 34 anos de estigmatização como consequência de uma acusação falsa.

Mas, de nada adiantaria ficar lamentando o tempo que haviam roubado de mim. Ainda pude defender no Orkut a memória da luta armada e dos que dela participaram; travar (e vencer) polêmicas com viúvas da ditadura como o Olavo de Carvalho e com jornalistas mal informados a meu respeito como o Marcelo Paiva; duelar na Justiça com o Boris Casoy. que me queria preso como difamador mas teve de engolir a exceção da verdade, etc. 

A convite do candidato a prefeito do Psol, concorri a uma cadeira de vereador em 2012. Ingenuamente, acreditei que aquele partido, como o antigo partidão, ajudasse  a se elegerem pessoas como eu, que poderia ser uma pedra no sapato das legendas dominantes, devassando escândalos municipais e os trombeteando pela imprensa, com a ajuda de jornalistas que me apoiariam. 

Sofri uma derrota acachapante  e constatei que jamais conseguiria atingir os meus objetivos ao lado dos partidos reformistas. Foi a primeira e única eleição que disputei sob o jogo de cartas marcadas da democracia burguesa.

Minha grande cruzada depois de reabilitado acabou sendo a contribuição que dei à luta pela liberdade do escritor Cesare Battisti. Durou de 2008 e 2011 e o nosso comitê de solidariedade foi buscar a vitória na bacia das almas, quando tudo parecia perdido.

 

Capítulo 1: O ESTRANHO NO NINHO 

Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira. 

Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu dos de tantos outros companheiros que iam às ruas enfrentar a ditadura militar. Aceitávamos todas as missões e nos desincumbíamos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com o AI-5. Eles preferiram não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coisa: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela inesperada designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras refregas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), me tratavam, quanto muito, com condescendência.

Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  justificava uma promoção tão precoce

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.  E mesmo assim era um patamar com o qual nunca sonhara. Nunca tive fascinação pelo poder e, aos 18/19 anos, menos ainda

Aluguei um apartamento em parceria com outro comandante estadual, o José Raimundo da Costa/Moisés, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para  ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés, um remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, me familiarizei com a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. 

Houve, em seguida, um congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei recebendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.

O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão pouco depois com o Comando de Libertação Nacional, uma organização congênere, manteve o mesmo perfil: quatro comandantes incumbidos da luta principal e os outros dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

O Moisés e eu começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a união VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, preconizando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o fortalecimento da ala massista

Ademais, os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa/Bento e Carlos Franklin da Paixão Araújo/Max. Concluímos que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior do que nossas pernas se uma munição inesperada não houvesse caído do céu. Ao percebermos que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um texto que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato com um artigo que, sem ser brilhante, cumpriu a função de tornar mais compreensível o que Jamil (Ladislau Dowbor) teorizava.

A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas
Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 

Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. E, claro, atraí sobre mim os piores pesadelos.

Mas, toda vez que alguém me pergunta se isso valeu a pena, eu respondo que o Brasil seria um país patético se pelo menos uns 3 mil dos seus 94,05 milhões de habitantes de então não houvessem arriscado a vida na luta desigual contra uma ditadura bestial e infame. 

Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país. 

Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira. 

Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu dos de tantos outros companheiros que iam às ruas enfrentar a ditadura militar. Aceitávamos todas as missões e nos desincumbíamos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com o AI-5. Eles preferiram não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coisa: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela inesperada designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras refregas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), me tratavam, quanto muito, com condescendência.

Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  justificava uma promoção tão precoce

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.  E mesmo assim era um patamar com o qual nunca sonhara. Nunca tive fascinação pelo poder e, aos 18/19 anos, menos ainda

Aluguei um apartamento em parceria com outro comandante estadual, o José Raimundo da Costa/Moisés, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para  ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés, um remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, me familiarizei com a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. 

Houve, em seguida, um congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei recebendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.

O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão pouco depois com o Comando de Libertação Nacional, uma organização congênere, manteve o mesmo perfil: quatro comandantes incumbidos da luta principal e os outros dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

O Moisés e eu começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a união VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, preconizando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o fortalecimento da ala massista

Ademais, os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa/Bento e Carlos Franklin da Paixão Araújo/Max. Concluímos que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior do que nossas pernas se uma munição inesperada não houvesse caído do céu. Ao percebermos que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um texto que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato com um artigo que, sem ser brilhante, cumpriu a função de tornar mais compreensível o que Jamil (Ladislau Dowbor) teorizava.

A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas
Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 

Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. E, claro, atraí sobre mim os piores pesadelos.

Mas, toda vez que alguém me pergunta se isso valeu a pena, eu respondo que o Brasil seria um país patético se pelo menos uns 3 mil dos seus 94,05 milhões de habitantes de então não houvessem arriscado a vida na luta desigual contra uma ditadura bestial e infame. 

Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país. 


 

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