sexta-feira, 13 de maio de 2011

DOIS ENFOQUES DO DRAMA DE MASSAFUMI YOSHINAGA

Em tempo de novela sobre os  anos de chumbo, a revista Piauí publica as memórias do economista Pérsio Arida, sobre a revolução que passou em sua vida antes de ele decidir que queria mesmo era  aperfeiçoar o capitalismo por meio de mirabolantes (e fracassados...) congelamentos de preços.

Trouxe à baila o drama dantesco de Massafumi Yoshinaga e, na minha opinião, negou-lhe a compaixão  ("Mas quem chora a morte de um traidor?") que ele próprio, Pérsio, tanto tentou inspirar.

Eis os trechos referentes ao Massafumi no depoimento do Pérsio:
"A rotina daqueles tempos [em que o Pérsio estava preso no DOI-Codi/SP] só foi quebrada uma única vez. Todos fomos reunidos sem aviso no pátio para ouvirmos a preleção de dois ex-terroristas. Por um instante sequer entendi a expressão – se haviam sido presos, eram ex-terroristas por definição. Outro, no entanto, era o significado – eram terroristas arrependidos.
Massafumi Yoshinaga, disse um dos militares. Um patriota que se arrependeu dos assaltos a bancos e da guerrilha. Ele, que conhece o terror por dentro, quer transmitir a vocês uma mensagem importantíssima. Ouçam e meditem. É um pregador que presta um serviço à pátria, alertando a juventude brasileira para os riscos do comunismo e as ilusões da luta revolucionária.
Fiquei branco. Era o nissei da pesada que se hospedara na minha casa. Estava exatamente na minha frente. Impossível que não me tivesse reconhecido.
O nissei pediu a palavra logo depois do discurso do militar. Parecia ansioso por começar a falar. Discursou como numa assembleia estudantil. No meio da sua arenga, trocamos olhares furtivamente. Na linguagem oculta dos olhares, ele me disse que se lembrava de mim com tanta certeza quanto eu me lembrava dele. Terminada a falação, fomos encaminhados de volta para nossas celas. Não nos foi permitido conversar com eles.
Passei aquela noite em claro, esperando o momento em que fossem me chamar para uma sessão de torturas, de vingança. Havia escondido um terrorista em minha casa, portanto era cúmplice do terror, e não havia dito nada sobre o nissei no meu depoimento. Os caras iriam me bater para saber quem mais se escondera na minha casa.
O dia raiou, mais um dia inteiro se passou e outro e outro. Nada. Reinterpretei a situação: Massafumi Yoshinaga deve ter sido barbaramente torturado, pensei, faz esse papel de arrependido só para se livrar dos suplícios. É tudo fingimento. Por isso não me denunciou, por isso não nos permitiram conversar com ele a sós. Aquele discurso tinha sido um vexame público, vergüenza ajena, expressão concisa e intraduzível do espanhol, mas nada além de um vexame, uma estratégia de sobrevivência.
Ou será que os torturadores haviam penetrado por alguma fissura da alma do nissei? Diziam que ele tinha delatado vários companheiros. A convicção com que ele falava tinha algo de genuíno, e também de perturbador. Não eram as frases em si. Algumas poderiam perfeitamente ser verdadeiras (como seu raciocínio sobre a inviabilidade da luta armada), enquanto outras estavam encharcadas de constrangimento. Somente coagido alguém falaria bem da Transamazônica. Não eram as frases em si que me incomodavam – era a intuição de que a tortura poderia, em alguns casos, destruir o indivíduo, fazer com que ele deixasse, de certa forma, de ser quem era.
...Um dia encontrei, largada num canto e amarelada pelo passar do tempo, uma Veja com Massafumi Yoshinaga na capa e o título “O terror renegado”. A reportagem contava que o presidente Emílio Garrastazu Médici expressara, em audiência com dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil, sua satisfação com o depoimento público e espontâneo do ex-terrorista. Depois de preso, Massufumi Yoshinaga teria tido a oportunidade de familiarizar-se com as grandes obras de seu governo, como a Transamazônica e a extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas. Como recompensa pelo seu arrependimento, teve sua prisão condicional revogada, ganhando assim a liberdade. No momento, estava retido em um quartel por razões de segurança. As Forças Armadas o protegeriam contra a vingança dos terroristas ainda em liberdade.
Li depois num jornal que terminou se suicidando. Suicídio de vergonha, de culpa e arrependimento, haraquiri de uma alma que não encontrava mais lugar neste mundo. Terrível como todo suicídio. Mas quem chora a morte de um traidor? Da minha parte, prefiro guardar dele apenas a memória daquele encontro furtivo de olhos no qual, mesmo tendo me reconhecido, nada revelou ao militar que com tanto orgulho o apresentou como um verdadeiro patriota".
Estranhei que Pérsio evitasse identificar o Marcos Vinícius Fernandes dos Santos, a quem conhecia desde o movimento secundarista, como o segundo "arrependido" que fez uma preleção a ele e outros prisioneiros do centro de torturas da rua Tutóia. Receio de ter, eventualmente, de responder à interpelação de um vivo?

Aliás, igualmente significativa é a omissão de que,  bem antes da vez em que o abrigara e  do  reencontro no DOI-Codi/SP, o Pérsio já conhecia muito bem o Massafumi,  como seu companheiro na Frente Estudantil Secundarista e seu adversário quando a FES rachou, cada um ficando de um lado.

As desavenças se aguçaram no tempestuoso congresso da União Paulista dos Estudantes Secundários do final de 1968, em que os dois foram figuras destacadas de suas respectivas tendências, não podendo descartar-se a hipótese de o Pérsio haver conservado até hoje rancores... de um morto!

A este  racha  seguiu-se, em outubro de 1969, outro em que os nervos ficaram à flor da pele, de parte a parte: o da VAR-Palmares. O Massa e o Pérsio não participaram do Congresso de Teresópolis, mas depois se posicionaram novamente em campos opostos.

Ou seja, ou a explicação se encontra nos lapsos de memória que o Pérsio diz terem sido nele causados pelas torturas, ou preferiu deixar convenientemente de lado os antecedentes do fato narrado, começando pelo ano de 1968, quando o Massa (e também o Marcos Vinícius e eu) foi seu companheiro e depois antagonista nas jornadas estudantis. Deixo aos leitores o julgamento.

Eis o artigo que, em outubro/2009, eu escrevi sobre o Massafumi -- menos rebuscado,  contudo honesto e bem mais compassivo:

ANOS DE CHUMBO: MASSAFUMI YOSHINAGA (1949-1976) 

Com a identidade covardemente encoberta por um nick zombeteiro (Recordar é Viver), algum internauta reacionário postou no Centro de Mídia Independente um manifesto da Vanguarda Popular Revolucionária, de setembro de 1970, que começa com uma dupla mentira:
"Delatada por Massafuni(1N) e Lungareti (2N), a área de treinamento de guerrilha da VPR sofreu ataque das forças armadas a partir de 21 de abril, enquanto os agentes do Dops e Oban já estavam em Jacupiranga desde o dia 19."
Como a falta de inteligência às vezes caminha ao lado da falta de caráter, o repulsivo fake nem sequer notou que 1N e 2N remetiam às notas de rodapé que ele excluiu do texto, por não servirem a seus propósitos.

No site que publicou o documento histórico por ele copiado, os responsáveis tiveram a atitude digna de acrescentar atualizações históricas, informando que Massafumi se matou em 1976 e que eu consegui restabelecer a verdade dos fatos em 2004:
 "...descobrindo em relatórios saídos dos arquivos secretos militares as provas de sua inocência no episódio de Registro, apelou ao historiador Jacob Gorender que, após aprofundada pesquisa, atestou, em carta à imprensa, que Lungaretti não era culpado pela "queda" do campo de treinamento de Lamarca, cuja localização inclusive desconhecia".
A meu próprio respeito, contentei-me em reproduzir e dar o link da carta do Gorender, que considero definitiva para dirimir quaisquer dúvidas.

Quanto à acusação feita ao Massafumi Yoshinaga, de haver também delatado a área, foi uma das maiores infâmias cometidas pela esquerda brasileira em todos os tempos!

Ele fazia parte da equipe precursora de Registro, assim como eu. Quando a primeira escolha de área se revelou inadequada, ele resolveu sair da Organização, por não suportar mais a vida militarizada e sem calor humano que um militante era obrigado a levar. Era jovem (20 anos) e sentia muita falta da efusiva camaradagem a que se habituara no movimento estudantil.

Eu também fiz a opção de sair, não da Organização, mas do trabalho de campo, pois estava traumatizado pela morte recente do Eremias Delizoicov, meu amigo de infância.

Sentia-me culpado por não estar zelando por aqueles a quem conduzi para dentro da VPR. Eu tinha mais informações e mais poder, então poderia até salvar algum deles, eventualmente. Queria voltar à cidade, para evitar, tanto quanto possível, que outro(s) morresse(m).

Deixamos ambos Registro em dezembro/69.

A única condição em que a VPR permitiria que dois participantes do trabalho da frente principal de luta voltassem à cidade (um deles para desfiliar-se), correndo o risco de serem presos a qualquer momento, era exatamente essa: a de que a área não fosse mais ser utilizada. Pudemos sair por não sabermos onde seria dada continuidade ao trabalho.

Massafumi não recebeu dinheiro para sua subsistência. Era um dos resistentes mais procurados do País, pois a repressão o confundira com "o japonês da metralhadora" das expropriações da VPR (o verdadeiro era o Yoshitame Fujimori). Isso vazou para os jornais. Criou-se um folhetim barato em torno de seu nome.

Então, como nem a própria família ousasse acolhê-lo, passou por sérias privações. Foi colher laranjas no interior paulista, depois voltou para a Capital e ficou dormindo nas barracas do Mercado Municipal, como mendigo.

Finalmente, desesperado, contatou seu guru Marcos Vinícius Fernandes dos Santos, que acabava de liderar o primeiro "arrependimento" de presos políticos (os cinco do Presídio Tiradentes). A irmã do Marcos, que o visitava na prisão, serviu como pombo-correio.

Marcos Vinícius aconselhou-o a render-se e fez os acertos: o Deops assumiu o compromisso de não torturar o Massafumi e de libertá-lo rapidamente.

O motivo da primeira concessão é óbvio: a repressão sabia muito bem que, depois de meio ano afastado da VPR, ele não teria mesmo nada de importante a revelar.

O que não impediu uma equipe do DOI-Codi de tentar apossar-se dele, quando da rendição. Mas, neste caso, o delegado que firmou o acordo com Marcos Vinícius (não foi o próprio Fleury) manteve-se firme, negando-se a entregar seu prisioneiro.

Então, na verdade, o Massafumi nada foi obrigado a declarar que prejudicasse pessoas. Consentiu apenas em servir como trunfo propagandístico.

O tio dele garante que o Marcos Vinícius fez uma chantagem emocional: mandou a irmã dizer ao Massafumi que, caso ele se rendesse, a libertação dos cinco que fizeram o primeiro "arrependimento" seria agilizada.

Então, além de ser uma saída para sua situação insustentável, o   pacto sinistro   pareceu ao Massafumi uma oportunidade para ajudar outros companheiros por ele estimados, principalmente aquele que o recrutou e introduziu na militância revolucionária (o Marcos Vinícius).

O Massafumi apareceu na TV, deu entrevistas à imprensa escrita, foi depor na Auditoria Militar, fez palestras em escolas e depois o soltaram mesmo.

Mas, por estar sendo apontado pela VPR como um dos culpados pela derrota da luta armada, foi discriminado e não conseguiu reconstruir sua vida.

Seus últimos seis anos foram um terrível martírio. Delirando, acreditava que seus pensamentos estivessem sendo captados pela repressão. Ia para o litoral, afirmando que, estando ao nível do mar, seria mais difícil o monitorarem.

Fez tratamento psiquiátrico, isolou-se de amigos e conhecidos, passava dias inteiros lendo a Bíblia.

Tentou duas vezes o suicídio (atirando-se sob um ônibus e jogando-se de uma janela) e, na terceira, obteve êxito, enforcando-se com uma mangueira, em 1976.

Eu o vejo como um coitado que tinha as melhores intenções, caiu numa armadilha da História e foi destruído.

Meu livro Náufrago da Utopia foi, ao que eu saiba, a única tentativa séria para estimular as pessoas a refletirem um pouco menos preconceituosamente sobre seu drama.

E essa afirmação mentirosa no manifesto da VPR teve muito a ver com seu inferno pessoal, ao atribuir-lhe responsabilidade por algo de que era sabidamente inocente.

Pior: foi só uma retaliação premeditada, já que a própria VPR não ignorava a inexistência da mais remota verossimilhança.

A operação militar em Registro foi desfechada entre 19 e 20 de abril de 1970, a partir, como é mencionado num relatório secreto de operações do II Exército, de informações obtidas pelo DOI-Codi/RJ como consequência de uma prisão efetuada no dia 18.

Ora, a rendição do Massafumi se deu no final de junho, dois meses e meio depois!!!

Quanto à terceira pessoa, verdadeiramente responsável pela entrega da área, foi identificada pelos remanescentes da VPR no exílio e seu caso chegou a ser discutido. Não houve, entretanto, a mínima preocupação em isentarem de culpa os falsamente acusados.

Finalmente: fiquei chocado e indignado ao ver recolocada em circulação, de forma tão leviana, uma falsidade que custou a vida de um ser humano.

Para quem viveu esses acontecimentos, é doloroso vê-los tão cinicamente manipulados para servir a objetivos difamatórios.

Pior: são tantos (e tão sórdidos!) os que assim procedem, que se torna humanamente impossível responder a todos.

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