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sábado, 4 de março de 2023

DALTON ROSADO REFLETE SOBRE A BELEZA DE SE ESTAR VIVO


A
pós 8 dias de cama por conta de uma virose forte num corpo de quase 73 anos, finalmente dormi por umas boas horas de sono reconfortante e me dei conta de como é bom estar voltando à plenitude da vida. A sensação é de alegria, apesar de tudo que vivemos neste início de século vinte e um, o que demonstra, implicitamente, que tenho esperança. 

Conheço uma historinha engraçada ocorrida em Mossoró, cidade onde vivi de 1960 a 1970, na qual nasceu a minha descendência materna dos Rosados, de presença política marcante na região e Estado do Rio Grande do Norte, e que bem demonstra o apego que em geral temos à vida.

Meu pai era mineiro de Mariana, militar de baixa patente e de alta compostura humana, herói da segunda guerra mundial quando patrulhou o Atlântico Sul como radiotelegrafista de voo recebendo medalha e promoção, o que o fez chegar a primeiro tenente da aeronáutica após ir para a reserva, daí as minhas múltiplas andanças Brasil afora após o nascimento no Rio de Janeiro.

Em Mossoró, um bispo velhinho, de 95 anos, aposentado por invalidez episcopal, estava muito doente. O Bispo Diocesano colocou três seminaristas para acompanhar a evolução da doença que acometia o velho pároco, para confortá-lo diante de seu definhamento físico. 

Os seminaristas começaram por relembrar ao velho pastor as benesses do Céu e, principalmente, as regalias que lhe seriam ofertadas de direito por Deus, como reconhecimento de sua santa vida terrena. 

Começaram falando sobre sua entrada triunfal no Céu, que seria acompanhada de tapete vermelho cardinalício e anjos trocando trombetas; seria recebido pessoalmente por São Pedro que o levaria ao trono majestático de Jesus, filho de Deus tornado homem, e por aí vai.

Mas ao invés do conforto desejado, à medida em que os seminaristas discorriam sobre a boa vida espiritual que o esperava, o velho ordenador de discípulos ficava cada vez mais tenso e ansioso, ao que um dos seminaristas preocupado, perguntou: 

“Senhor Bispo: por que o senhor está ficando tão nervoso?" 

O bispo então respondeu: "estou sentindo que essa conversa toda é porque estou perto da morte, mas queria ficar um pouco mais no calor de Mossoró, aqui é tão bonzinho...”

Salvo os casos de suicídios, por circunstâncias extremas, sejam patológicas do corpo, da alma, ou outras insuportáveis, todos damos graças de estarmos vivos, como disse Mercedes Sosa interpretando a bela música da chilena Violeta Parra na música Gracias a La Vida

Há outra história que mostra a alegria e inspiração poética havidas a partir de uma recuperação da saúde. Consta que o compositor Paulo Soledade, após sair do hospital onde esteve internado por longo período e às portas da morte, compôs, no trajeto para a sua casa, a música Estão voltando as flores,  uma marcha rancho que se tornaria um clássico na voz de sua mulher Helena de Lima, enquanto ela dirigia o carro que os levava para casa, e que dizia versos como estes:

“Vê, estão voltando as flores;

Vê, nessa manhã tão linda;

Vê, como é bonita a vida;

Vê, há esperança ainda...” 

A linda e leve música de Roberto Menescal, O barquinho, um clássico da bossa nova, que fala de um 

“dia de luz, festa do sol, e o barquinho a deslizar no macio azul do mar... volta do mar, desmaia o sol, e o barquinho a deslizar, e a vontade de cantar...” 

e que nos induz a uma visão de momento de amor e felicidade na praia de Ipanema, resultou de uma situação crítica que resultou posteriormente na alegria de voltar após seu barco ser resgatado do mar por uma embarcação que passava por ali acidentalmente e prestou socorro àquela onde o compositor e muitos amigos estavam e que ficara à deriva rumo à África após pane mecânica.

Como disse o poeta paraibano Ariano Suassuna, tão rústico e suave como uma flor de mandacaru, “a tarefa de viver é dura, mas fascinante.” É a volta a esse mundo da vida, ao mesmo tempo dura e fascinante, que me reporto à alegria da recuperação da saúde. 

Num momento em que se fala tanto em guerra nuclear, cujos artefatos atômicos capazes de acabar com a vida no Planeta Terra estão à mão de um governante qualquer de um país que detenha tal poder bélico, fico a pensar em como nós estamos à mercê destes no topo do poder político e que são movidos por sentimentos mesquinhos de perpetuação de seus privilégios, teleguiados por uma ordem capitalista genocida os impelindo à manutenção de uma relação social escravista e predatória da vida humana como zumbis da lógica abstrata e esquizofrênica da forma-valor.

Nunca é demais repetir que o capitalismo é genocida, e o poder político que a ele serve, formatado à sua imagem e semelhança, precisa ser superado porque a nossa vida não pode estar à disposição de sua lógica e dos políticos que a ela servem.

Os governantes não governam, mas são governados por uma ordem social que vive seus estertores pela própria disfuncionalidade, mas que quer se manter vigente, e que coloca mãos nervosas e vaidosas próximas em centímetros do botão da morte por bomba atômica. 

Muitas vezes e, repetidamente, fico a me perguntar o que faria Adolf Hitler, no fundo sombrio do seu bunker situado no coração de Berlim, ao ouvir o estourar das bombas do exército vermelho, e se preparando para cometer suicídio, caso tivesse o poder atômico a ser acionado dali mesmo?

Será que já não está na hora de descentralizarmos o poder político e superarmos a forma de relação social que o engendra? 

Como disse John Lennon, “a guerra acabou! Se você quiser”(por Dalton Rosado




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ELOGIO À ALEGRIA COMO CONTRAPONTO À ELEGIA DA TRISTEZA

"Sem lenço, sem documento,
nada no bolso ou nas mãos,
eu quero seguir vivendo, 
amor, eu vou.
Por que não? Por que não?"
(Caetano Veloso, Alegria, Alegria)
Que bom se a alegria habitasse em nossos sentimentos de modo mais permanente do que a tristeza, e se esta última somente existisse de maneira fugaz! 

Como é bom poder dar um testemunho da existência da alegria como, por exemplo, daquela que invadiu a alma do compositor Paulo Soledade ao sair do hospital aos 40 anos, curado de uma tuberculose, e que em 15 minutos de alegria incontida compôs o clássico da música popular brasileira Estão voltando as flores, gravada na voz belíssima de Helena de Lima, e que evoca a alegria de viver, nas suas frases:
"Vê, estão voltando as flores;  
Vê, nesta manhã tão linda;   
Vê, como é bonita a vida;  
Vê, há esperança ainda.
  
Vê, as nuvens vão passando;   
Vê, o novo céu se abrindo;   
Vê, o sol iluminando;   
Por onde nós vamos indo." 
Que bom poder falar da alegria! Porque, afinal, como diz a conhecida, repetida e bela metáfora: "ainda que o sistema insista em roubar as rosas dos nossos jardins, ele não pode impedir a chegada da primavera". 

Que bom poder falar da alegria! Porque, afinal, a nossa denúncia do mal não é para exaltar a miséria social, a ignomínia, o egoísmo, a prepotência do poder político e econômico, a mesquinhez, mas o seu contrário, ou seja, a esperança e a crença no ser humano.  

Quero falar de alegria, porque o revolucionário é um ser que vive um milhão de anos de felicidade no momento fugaz em que se recusa a se ajoelhar diante da injustiça, ainda que isso lhe custe caro, pois, afinal, o amor e a solidariedade moram nos corações revolucionários, e não o ódio e a ambição. 

Quero falar da alegria simplesmente porque ela somente é integralmente possível numa consciência em paz.

Quero falar da alegria porque existem pessoas que conseguem enxergar beleza num gesto simples de fraternidade e se emocionar com ele. 

Quero lembrar com alegria que a bomba de Hiroshima formou uma rosa de fogo como a nos avisar que a vida é mais importante do que a morte, e que a morte, após uma vida fraternalmente bem vivida, é suave, e o é exatamente pelo exemplo que encerra e fica.
O lendário jornal alternativo Sol

Quero falar da beleza da alegria do menino negro e de origem humilde que vai superar todas as dificuldades e chorar de alegria com a conquista da medalha de ouro nos jogos olímpicos, pois no esporte (ainda que transformado em mercadoria e com o uso desonesto do doping) pode prevalecer a capacidade física de um filho do povo sobre o poder instituído, tal qual o do jamaicano Usain Bolt.

Quero falar da alegria tropicalista preguiçosa, do jornal Sol em que trabalhava a namorada do Caetano Veloso, vivo contraste com a caretice dos que só traziam amargas bem comportadas, enquanto o sol, astro-rei, batia em cheio nas bancas de revistas...

Quero falar da alegria do riso sarcástico da música
A banca do distinto, de Billy Blanco para Dolores Duran, sua namorada de então, ironizando o ricaço arrogante que sempre a tratava com injúria racista durante o show, e sob o beneplácito do dono da boate, e que sequer percebeu a crítica que lhe fora feita nos versos ferinos:
"Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor
Pra que esse orgulho
A bruxa que é cega esbarra na gente
E a vida estanca
O enfarte lhe pega, doutor
E acaba essa banca
  
A vaidade é assim, põe o bobo no alto
E retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal
Todo mundo é igual quando a vida termina
Com terra em cima e na horizontal" 
Quero dizer que a alegria é riqueza sensível à alma, imaterial, a exemplo do conteúdo da letra da música Testamento de Vinícius de Morais na qual ele ironiza a avareza da riqueza abstrata e real dizendo: 
"Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje 
Embaixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão! 

(...) Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso! 

Como é bom parar
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar
  
Você que só faz usufruir 
E tem mulher pra usar ou pra exibir 
Você vai ver um dia 
Em que toca você foi bulir!
A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

(...) Você que não gosta de gostar 
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar 
Você vai ver um dia 
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje 
Embaixo a escuridão 
É fogo, irmão! É fogo, irmão!"
Quero que a alegria seja perene na sua eterna capacidade de ser retomada, transformando a sua inevitável finitude num breve lapso de tempo apenas para nos mostrar que existe, e contrariando o poeta, que não nos seja breve como "a gota de orvalho numa pétala de flor que brilha tranquila, e depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor".  

Quero, por fim, que a alegria seja um estado de permanência, ainda que entremeada de momentos de tristeza, e que da mesma forma como o grande só existe como referência do pequeno, que a tristeza seja apenas o perecedouro tempero existencial da própria alegria e da felicidade! (por Dalton Rosado).

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