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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

O QUE NÃO MATA, ENGORDA?

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e repente me lembrei daquela marchinha de Carnaval bem sugestiva para o tema do agronegócio, Yes, nós temos bananas, na qual o malicioso Braguinha elogiava nossa fruta natural, cujo preço, na época, era bem barato para qualquer um comprar: Banana, menina, tem vitamina, / Banana engorda e faz crescer.

Será? No fim dos anos 30, quando foi composta essa marchinha, banana realmente deveria ter só vitamina. Hoje, com o desenvolvimento dos pesticidas, é bom a banana ter casca grossa para não ficar também contaminada com algum desses pesticidas da Bayer ou da Monsanto usados nas plantações. 

Mas não são só as frutas de casca como abacates, abacaxis ou laranjas as submetidas aos agrotóxicos; o mesmo ocorre com os morangos e as saladas, numa mistura talvez não indigesta, mas perigosa, principalmente para as crianças.

No entanto, alguém como o Leandro Narloch, colunista da Folha de S. Paulo que  defende os agrotóxicos ou pesticidas como o glifosato, poderá me puxar a orelha e lembrar que, sem o surgimento da agricultura moderna, incluindo-se a criação e utilização dos pesticidas, as colheitas não teriam sido suficientes para alimentar a população do planeta. 

Meia verdade, porque a evolução dos pesticidas acabou nos levando à produção de pesticidas sintéticos excelentes no combate a todo tipo de pragas no cultivo agrícola, porém com o risco de não só provocarem doenças e malformações em crianças e adultos, como também de serem cancerígenos.
Como se costuma dizer no meio agrícola, não são venenos, exigem cuidado na dose a se utilizar nas irrigações ou vaporizações, porém tendem a ser tóxicos para o ser humano.

Então, como fazer para se garantir grandes safras e, no caso do Brasil, ter boas colheitas para aumentar as exportações ou mesmo atender o consumo interno? Isto sem esquecer-se da poluição da água destinada ao consumo humano, poluição esta decorrente do uso de pesticidas ou agrotóxicos na lavoura. 

Os europeus, na sua maioria, são zelosos e procuram controlar a fabricação e o uso desses agrotóxicos. Mas, e o Brasil?

O tema é atual, ainda mais agora, com a recente aprovação pela Câmara do registro e uso no Brasil de novos agrotóxicos, lei proposta pela bancada ruralista, com o apoio do presidente Bolsonaro. 

Objetivando reduzir ao máximo a perda nas plantações, tais agrotóxicos poderão contaminar os trabalhadores rurais, sem se falar no risco de contaminação dos consumidores das colheitas agrícolas. Uma das artimanhas usadas para mascarar a periculosidade do projeto foi a de evitar-se o uso da palavra agrotóxico, substituída por pesticida ou produto de controle ambiental.

Os países europeus com legislações mais severas estão vigilantes quanto às importações brasileiras. 
No caso de Leandro Narloch, cai melhor outro
  chavão: "em boca fechada não entra mosca"
 

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Le Monde já havia alertado, faz dois anos, quanto à liberalização ou homologação de mais de duas centenas de tipos de pesticidas pelo governo Bolsonaro. 

O fundador e CEO de uma rede de supermercados orgânicos sueca decidiu, logo depois, suspender a importação de produtos originários do Brasil. 

No comunicado divulgado aos seus consumidores, Johannes Cullberg dizia:
"Pessoas morrem, outras se tornam inférteis, crianças nascem com malformações como consequência desses pesticidas".
Um dos pesticidas mais utilizados no mundo é o glifosato, produzido pela Monsanto, um herbicida barato, eficaz e de fácil utilização, daí ter a preferência dos agricultores.

É tido, contudo, como provavelmente cancerígeno pelo Centro Internacional de Pesquisa contra o Câncer, ligado às Nações Unidas. O uso do glifosato está autorizado na Europa até o fim deste ano, devendo então os dirigentes europeus proibir, restringir ou renovar a permissão de uso.  

No Brasil, a defesa do chamado pacote de veneno e do glifosato por parte de Narloch provocou fortes reações entre ambientalistas, pesquisadores e movimentos populares de esquerda. 
Tal articulista é classificado por seus críticos como divulgador de ideias negacionistas e adepto do revisionismo histórico.

Numa época de chavões populares, Bolsonaro, a bancada rural e Narloch talvez pudessem concluir este texto com um chavão tóxico: O que não mata, engorda!. 
                                        (por Rui Martins)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

OS ABUTRES ANINHADOS NA ESQUERDA E O CALVÁRIO DOS SEM-TETO

Por Celso Lungaretti
Os posts (1 e 2) recém-publicados sobre moral revolucionária acabam de ganhar um complemento inesperado: notícia da Folha de S. Paulo desta 4ª feira (9), de autoria do mestre em Filosofia, escritor e jornalista Leandro Narloch, revela quão baixo podem descer os integrantes de um partido dito de esquerda quando voltam as costas aos valores éticos que sempre respeitamos.

Revirou-me o estômago tomar conhecimento de como atuam os aproveitadores do desespero dos pobres e dos marginalizados, abutres que acharcam e oprimem alguns dos coitadezas mais sofridos de uma sociedade assentada sobre gritante desigualdade econômica.

É com enorme desalento que reproduzo abaixo tal notícia. Depois de meio século travando o bom combate, vejo o povo brasileiro descrente de tudo e a esquerda incapaz de apontar-lhe uma saída.

E a pergunta que não quer calar é: o que mais precisamos ficar sabendo sobre o PT para nos darmos conta de que, ou a esquerda rompe com suas práticas espúrias e se reconstrói sem ele ou se desqualificará como representante dos explorados, humilhados e ofendidos, passando a ser apenas mais um naco podre de uma carcaça política podre. 

A estrela se apagou, mas precisamos acreditar que ainda seja possível darmos um fim à exploração do homem pelo homem, antes que a ganância capitalista nos conduza à barbárie ou ao extermínio da espécie humana. 

Voltarmos a nos guiar pela moral revolucionária é fundamental para resgatarmos a nossa credibilidade, primeiro passo para sairmos do fundo do poço em que ora nos encontramos.
Por Leandro Narloch
PELO WHATSAPP, ASSESSORA DO PT COBRA ALUGUEL DE SEM-TETO E AMEAÇA DESPEJO

“Quem está aberto em abril, eu aconselho vir urgente acertar. Quem não vier, à noite estarei na porta. Nem se for 2h da manhã eu vou bater para cobrar.”

“Senhores porteiros da rua Marconi: a Conceição, do 4º andar, o prazo dela acaba no domingo. A partir de segunda ela não entra mais no prédio, só se for para retirar as coisas.”

As frases acima estão no grupo de WhatsApp de moradores e coordenadores do Movimento Moradia Para Todos (MMPT). A autora dos áudios é Ednalva Franco, líder do movimento que controla quatro prédios —na Bela Vista, na Mooca e no Centro (rua Marconi e Capitão Salomão).
Moradia para todos que aceitam ser tratados a pontapés

Filiada ao PT desde 1990, Ednalva Franco é assessora da deputada estadual Marcia Lia (PT-SP) e conhecida ativista sem-teto de São Paulo. É Ednalva que aparece num episódio de 2013 do Profissão Repórter saindo com uma SUV nova da garagem de um prédio da Praça da República.  

“Porteiros, eu vou passar todos os nomes das pessoas que o prazo acaba até domingo. Inclusive a Luciana, do 309”, diz ela em outra mensagem do grupo. “Vou passar toda a lista pra vocês na portaria assim que eu terminar.”   

Depois que escrevi sobre o modelo de negócio dos líderes de movimentos sem-teto, na semana passada, ex-moradores me procuraram denunciando abusos, ameaças e a cobrança de aluguel de R$ 200 a R$ 500 por parte dos coordenadores.

“Além do aluguel, a coordenadora sempre inventa uma taxa nova para o pessoal pagar”, me disse um ex-morador do edifício São Manuel, na rua Marconi, que não se identifica por temer represálias. Ele calcula que os alugueis só desse edifício rendem pelo menos R$ 35 mil por mês ao movimento.
Quatro anos e meio depois desta reportagem do Profissão Repórter,
Ednalva Franco continua na ativa, dando péssima imagem ao MMPT

Conta ainda que era obrigado a participar de atos em defesa do ex-presidente Lula. “Quando tinha um ato, eu colocava a camiseta do movimento e ficava perto dela [Ednalva]. Fazia questão que ela me visse várias vezes, para eu marcar presença. Depois trocava a camiseta e ia embora.”

Conversei com Ednalva Franco sobre as denúncias. Ela admitiu a autoria das mensagens e afirma que cobra uma taxa de no máximo R$ 200 por morador. Alega que o dinheiro serve para custear o escritório e a creche do movimento, além do salário de porteiros, a manutenção dos elevadores, extintores e outras despesas. Negou expulsar moradores por falta de pagamento, apesar do conteúdo evidente dos áudios.
“Se o morador não tiver dinheiro para pagar a contribuição, nós chamamos para conversar e parcelamos até ele arranjar um emprego”, diz.

O ex-morador contesta. “Ela e o marido costumavam gritar de madrugada com quem estava devendo. A creche não funciona há muito tempo. E, na Marconi, o elevador quebrava toda hora e ficava meses sem conserto.”

Sobre a exigência de participação em protestos, Ednalva afirma que “cada movimento social tem suas regras. Apresentamos nossa rotina quando a pessoa ingressa no movimento. A partir de então, se quiser continuar, precisa seguir as regras do grupo”.

Invadido em 2012, o edifício São Manuel é considerado uma ocupação-modelo dos sem-teto. Recebe oficinas culturais, reuniões políticas e já abrigou um escritório coletivo de doutorandos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

O ex-morador, porém, reclama da falta de liberdade (o portão fecha à 0h; depois desse horário só é possível entrar ou sair do prédio às 6h) e da quantidade dos eventos de conscientização política. “Nenhum morador aguenta mais tanta reunião”, diz.
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