segunda-feira, 4 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 8)

O Capitão Guimarães virou
bandido. Seguiu sua vocação

Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também pudera: desde a juventude eu tinha tal sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando fazia uma ligação nos telefones de ferro espalhados pela cidade e quando viajava em ônibus elétrico. 

Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente  indefeso.

A falta de informações também me angustiava. Pensava que o choque passando pelo pênis e escoto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas, que talvez ficasse com problemas mentais. Bobagem.    

Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, porque a equipe de torturadores da PE da Vila Militar tinha sido privada da tarefa de caçar revolucionários e se ressentia muito da perda de tudo que roubava de nós ao sermos presos e dos generosos prêmios em dinheiro concedidos por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.

Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade, que repercutiu pessimamente no Brasil e em vários outros países, levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a  PE da rua Barão de Mesquita manteve o privilégio, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando o dedo.

Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava os torturadores, teve a má ideia de arrancar informações inéditas  de mim e de outros presos da Inteligência da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar.

Resultado: o gigantesco Marcio Antônio Povorelli (que pesava 140 quilos e praticava judô), num dia em que era o cabo da guarda, ao invés de me levar para a solitária, após uma sessão de torturas, no meio do caminho me deu um tapa de mão aberta no meio do caminho  estourando o tímpano do meu ouvido direito; e uma aliada do meu setor cortou os pulsos, mas foi socorrida em tempo.
O Presídio Tiradentes, de triste memória.
O tenente Ailton decerto seria punido, então dobrou a aposta: inspirado no arrependimento voluntário de quatro presos políticos do Presídio Tiradentes e no arrependimento televisado do companheiro Massafumi Yoshinaga, exigiu que eu escrevesse uma carta aconselhando os jovens a não morrerem naquela luta perdida. 

Eu a redigi com a aliada recebendo choques e gritando na sala ao lado. Torturadores entravam e saíam o tempo todo, esmurrando-me de passagem.    

Pensei que seria apenas uma besteirinha pouco influente do setor de Guerra Psicológica do Exército, para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo. 

Estava errado. Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte. 

A TV era a Globo, no Jardim Botânico. E uma competente maquiladora conseguiu fazer desaparecerem quase  que por completo as manchas roxas no rosto. 
Na fase das torturas

Não fiz acordo nenhum com a repressão nem fui libertado logo em seguida, como meus cinco antecessores. 

Fiquei confuso durante alguns meses, mas o hábito da leitura me devolveu a racionalidade: o companheiro Wellington Moreira Diniz, que também estava preso na PE da Vila Militar, passou a ler os livros da biblioteca do quartel para desanuviar, já que era doente cardíaco.

Consegui pegar carona nesse esquema e os dois lemos principalmente a coleção completa do Julio Verne, várias vezes cada volume, pois a alternativa eram os intragáveis livros militares,

Quando minha última prisão preventiva foi finalmente revogada, eu estava tão normal quanto possível, irritadiço como nunca e sem saber o que faria do resto da vida, já que meus melhores sonhos haviam se dissolvido no ar. (por  Celso Lungaretti)

3 comentários:

Angelo Genovesi disse...

Me entristece muito, saber que você e outros companheiros foram forçados a serem submetidos as piores condições nas prisões e ainda saber que outros companheiros não suportaram tanta violência, a ponto de acabarem falecendo durante as infernais sessões de torturas ou após não suportar traumas psicológicos como aconteceu com Frei Tito e outros companheiros, como a Maria Auxiliadora Lara Barcelos, ainda tão jovens, com uma vida inteira pela frente.
Apesar de não ter sofrido torturas físicas, já fui obrigado a suportar torturas psicológicas e após contar toda a minha história a um psicólogo no hospital psiquiátrico em que estive internado, ele reconheceu que eu estava sendo incompreendido, por mais que eu tentasse explicar as pessoas que eu estava prestes a enlouquecer, com tanta pressão psicológica, isso realmente acaba com qualquer ser humano. Consegui ficar livre do maldito Olanzapina, já há um bom tempo, estou passando pelo desmame do Clonazepam e no próximo dia 11 realmente espero ter a alegria em poder dizer ao psiquiatra que estou conseguindo seguir firme com o desmame. Além disso, me trouxe todo o ânimo, quando o psiquiatra disse que poderei conseguir um atestado escrito por ele, em que ele vai me considerar novamente apto a voltar ao trabalho. Isso realmente está me fazendo a voltar a me sentir útil. Tudo isso poderia ter sido evitado se um alcoólatra que deveria zelar pelo próprio filho, não houvesse insistindo em inventar uma esquizofrenia que nunca tive em minha vida. Apesar de ter perdido muitos anos em minha vida, sinto-me feliz em saber que ainda terei tempo em reconstruir a minha vida e poder esquecer um deprimente passado que quase me enlouqueceu. Resistir é realmente poder mostrar que ainda estamos vivos. Gosto muito de escrever romances, porque isso só me traz bons pensamentos, durante o dia-a-dia. Poder pensar que ainda existem seres humanos solidários, que são ainda capazes de demonstrar amor e compreensão, ao invés de demonstrar ódio e desprezo por outro ser humano. Sinto-me realmente feliz quando saio pelas ruas e ainda encontro seres humanos que são capazes de ter uma conversa agradável, que ainda prezam pela paz, mesmo num mundo tão confuso em que estamos vivendo.

celsolungaretti disse...

Isso aconteceu há muito tempo, Angelo. Não fico pensando nos anos de chumbo todo dia. Mas eram a melhor opção para o Náufrago da Utopia 2. Se bombar, eu levarei adiante uma carreira de escritor.

Angelo Genovesi disse...

Nem faria bem, pensar o tempo todo em algo que foi terrível, concordo com você. Para esquecer o que já precisei suportar, me mergulho, escrevendo romances, porque é um tema que sempre chamou a minha atenção. Escrever é uma coisa que realmente me faz sentir muito bem. Não tenho a menor dúvida do quanto você se sairá muito bem como escritor, é realmente formidável poder acompanhar toda a sua habilidade, ver o quanto você é esforçado e se dedica totalmente ao que você sempre considera importante deixar registrado. Sempre terá todo o meu respeito, meu verdadeiro amigo.

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