terça-feira, 20 de setembro de 2016

A DITADURA CAPITALISTA DO TEMPO

"Tempo é dinheiro"
(Benjamim Franklin)
Uma das características da vida moderna é a constatação de que não sobra tempo para se viver. 

Paradoxalmente, os que têm tempo ocioso por estarem excluídos do processo produtivo de bens e serviços, veem-se de mãos atadas para o ócio produtivo (atividades artísticas, literárias, esportivas, melhorias comunitárias, etc.), justamente porque qualquer delas requeria dinheiro para ser exercida; então, como não têm dinheiro, eles são condenados ao ostracismo e ao desprezo social. 

Poucos são os que, sem dinheiro, conseguem transformar o seu tempo ocioso em algo útil para si e para a comunidade. Chamo a isto de tacocracia, que é a ditadura capitalista do tempo.

Na vida mercantil, toda a produção de bens e serviços é quantificada pelo tempo. A jornada de oito horas diárias de um trabalhador, que lhe garante um salário em dinheiro, é aquilo que possibilita a acumulação do capital pelo capitalista, uma vez que:
  • nestas oito horas, ele produz um quantitativo de valor pelo qual somente recebe uma parte (a que Marx chamou de trabalho necessário, porque indispensável à reposição da força de trabalho do trabalhador); 
  • a outra parte, por sua vez, representa trabalho não remunerado pelo capital (segundo Marx, trata-se de trabalho excedente, apropriado pelo capital e que propicia a acumulação deste mesmo capital. 
Os juros bancários são mensurados pelo tempo; os aluguéis idem, e por aí vai.  

Na última 2ª feira (19), vi e ouvi um grande empresário brasileiro afirmar para a jornalista Miriam Leitão que tinha imenso prazer em proporcionar 60 mil empregos em suas empresas no Brasil e no exterior, considerando-se, por isto, um benfeitor social. 

Como no capitalismo tudo é o inverso do que parece ser, tive vontade de entrar na televisão e dizer que, além do prazer, ele extraía lucro de cada um destes 60 mil trabalhadores, apropriando-se do tempo de trabalho não pago de cada um deles como único modo de obtenção do de suas riquezas e inigualável conforto material.
Não é o capital que presta um serviço ao trabalhador, mas é o trabalhador quem serve e produz o capital enquanto forma cumulativa do dinheiro. Portanto, o capitalista privado ou estatal (como todos os outros da sua estirpe) não é um benfeitor social, mas um usurpador do valor produzido pelo tempo de trabalho alheio e promotor da segregação social. 

Agora, o uso predominante da máquina em substituição à força de trabalho humana está inviabilizando o tempo-valor como produtor e medida da riqueza abstrata, e este é o ponto nodal da falência sistêmica. 

O capital necessita usar o tempo de trabalho abstrato em seu benefício, pois é daí que acumula valor (dinheiro); portanto, não está fazendo favor nenhum aos trabalhadores. Caso o mercado sinalize negativamente nas vendas, como agora ocorre de modo generalizado graças ao limite interno da reprodução do capital (vide demissões na indústria automotiva no ABC paulista), o capital simplesmente reduz a produção e demite aqueles que antes lhe deram lucros.

Os quais não terão nenhuma gordura para queimar, pois não detêm riqueza acumulada (toda riqueza abstrata acumulada é tempo de valor-trabalho acumulado), já que o tempo de trabalho no qual ele produziu valor excedente lhe foi roubado. O desespero bate à porta do trabalhador. 

Tempo é dinheiro. Essa frase mundialmente conhecida corresponde a uma verdade, mas somente sob a relação social mediada pelo dinheiro, que tem na questão do uso do tempo linear (aquele medido em segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos) uma interferência negativa, direta e significativa no modo de ser da própria vida dos indivíduos sociais. Esta é mais uma negatividade do capitalismo, ao invés de ser um aspecto positivo, como se costuma pensar.  

Tudo sob a lógica capitalista gira em torno da viabilidade econômica como forma de sobrevivência na concorrência de mercado, que depende cada vez mais de um nível de produtividade. 

Este, por sua vez, se traduz numa quantidade de mercadorias produzidas por um mesmo indivíduo num determinado lapso de tempo; isto significa que cada indivíduo social produtor de mercadorias (tangíveis ou intangíveis) é induzido a produzir cada vez mais em menor tempo (extração de mais-valia relativa) e, em muitos, casos a uma carga horária de produção cada vez mais extensa (extração de mais-valia absoluta). 

Aqueles que estão inseridos no sistema produtor de mercadorias sentem que o tempo lhes é cada vez mais escasso para a vida e se veem obrigados a: 
  • enfrentarem uma estafante jornada diária de trabalho; 
  • estudarem para a sua qualificação profissional; 
  • pagarem as contas; 
  • suportarem o trânsito engarrafado em ônibus e trens lotados (recente pesquisa demonstrou que o trabalhador paulistano padece uma média de três horas diárias em condições de transporte degradantes); 
  • fazerem exercícios físicos; 
  • levarem os filhos para a escola, etc. 
A vida dá lugar ao trabalho, principalmente para as mulheres trabalhadoras que sofrem com a relação tempo/trabalho abstrato/gestão da vida familiar.

Paradoxalmente, quem não consegue alcançar alto nível de produtividade fica fora do mercado e é condenado ao ostracismo. A contradição entre o uso do tempo na produção de mercadorias e serviços e a própria vida social se expressa no fato de que há um contingente populacional assoberbado de tarefas enquanto há outro contingente (cada vez maior) na ociosidade tediosa que o leva à marginalidade como vítima da segregação social do próprio sistema produtor de mercadorias.
Por Dalton Rosado
Como o tempo é dinheiro e o próprio dinheiro hoje se tornou um meio anacrônico de obtenção da vida, é a própria vida que entra em colapso. 

Expressão da relação social forma-valor no atual estágio de sua implosão interna, a tacocracia é a negação da própria vida

12 comentários:

SF disse...

Dalton,
Enquanto a maioria vê este momento como algo assustador, alguns comemoram.

Dois caras podem ser fundamentais para aqueles que quiserem escapar da debacle anunciada da vida citadina.

No capítulo "Economia" de "A Vida nos Bosques", Henry David Thoreau demonstra como trabalhou 2 meses e viveu um ano sem precisar trabalhar.

Outro cara foi o John Seymour, com o seu "Manual Prático da Auto-suficiência", onde mostra que em 5000 m2 pode-se viver muito bem.

Livros inspiradores!

Peter Tompkins e Christopher Bird com "A Vida Secreta das Plantas", onde descrevem a experiência bem sucedida de transformar um terreno baldio em fonte de vida.

E o nosso Hiroshi Seo - da Ecovila Clareando - com o seu "Manual de Agricultura Natural-Unidade da Vida. O Policarpo Quaresma que deu certo.

José Antônio Kroeff Lutzenberger que transformou uma pedreira abandonada em um aprazível sítio lá no Rio Grande.

E tantos seguidores de Thoreau que, desde muito, tem mostrado a importância da auto-suficiência e da vida no campo.

Todo esse conhecimento sempre esteve disponível e factível.

Quase ninguém o pôs em prática.

Prefiriram a vida de cidade, suas distrações e relativo conforto.

Delegaram a outros a decisão sobre suas vidas.

Agora estão percebendo que talvez não tenha sido uma boa idéia, pode não ser tão bom trabalhar "de alugado", como dizem os caboclos.

Comer pela mão dos outros, achar normal pagar por frutas num país tropical, demonstra o grau de displicência das populações urbanas quanto a questões fundamentais para sua sobrevivência.

Mas o jogo não está terminado, já tem gente começando a viver de maneira "alternativa".

O desemprego generalizado na europa tem feito surgir novas comunidades auto-suficientes.

Permacultores, arquitetos descalços, difusores e compartilhadores de sementes.
Esse pessoal já começa a comemorar o fim do modo de vida burguês e dos seus burgos fétidos e barulhentos.

celsolungaretti disse...

RESPOSTA ENVIADA PELO DALTON:

Caro SF,

Está provado que com os recursos da ciência e da tecnologia, o esforço humano bem dividido e assentado em bases fora da ilogia da mediação social feita pela forma-valor (dinheiro e mercadorias), que se tornou anacrônica e de impossível continuidade por variados fatores, poderíamos ver supridas todas as necessidades humanas com relativa comodidade. Isso propiciaria mais tempo e condições para que todos nós pudéssemos desenvolver atividades prazerosas de acordo com nossas vocações, gostos e afetos, o chamado ócio produtivo. Para isso é necessário superar a lógica do sistema produtor de mercadorias, luta que tem a oposição dos acomodados beneficiários (benefícios apenas relativos) e dos muitos dos seus serviçais voluntários.

As cidades são um ganho da humanidade, embora tenham nascido sob a influência dos burgos (pequenos aglomerados mercantis, ou feiras), derivando daí o completo desvirtuamento dos seus atributos benéficos (basta dizer que a terra urbana é uma mercadoria cara, e as construções mais ainda, tornando a habitação um negócio acessível a poucos). As cidades propiciam o desenvolvimento de atividades importantes para a vida, tais como hospitais e desenvolvimento de recursos da medicina; desenvolvimento do saber nas escolas e academias; industrialização de produtos variados, inclusive aqueles úteis às técnicas agrícolas do campo; e muitos outros produtos e serviços importantes à vida. O problema não está nas cidades em si, mas no modo mercantil como elas desenvolvem suas vidas urbanas.

O campo, ou as terras no interior de cada país, são fundamentais para a produção de alimentos e recursos minerais e energéticos, de modo que a interação cidade/campo é fator de sustentabilidade da vida. Uma coisa não nega a outra, e a vida em todos esses espaços pode ser prazerosa. A questão a ser resolvida é como se dá a mediação social nesses dois espaços, discussão que é escamoteada por medo, ignorância ou conveniência do poder.

É o que penso sobre o que considero como uma falsa contradição entre a vida citadina e campesina.

Um abraço e mais uma vez abrigado por suas sempre sugestivas intervenções (inclusive com citações de autores por mim desconhecidos e que me incitam a conhecê-los).

Dalton Rosado

Mauro Julio Vieira disse...

O Homem não precisa de "cultura", de acesso às "artes, "disso" ou "daquilo" criados e determinados pela mente humana.

"O HOMEM JÁ ESTÁ PRONTO" - SHAKESPEARE.

Milhões de anos: DNA (único) + interação com a realidade = alma (única)......em cada uma.
Coletivismo = renunciar ao que somos = absurdo, loucura, demência, ..........TARA

Ninguém consegue determinar nada com respeito a intimidade de ninguém. Nem dentro da própria casa. Nem mesmo nas piores ditaduras como as de Cuba hoje e da Coreia do Norte, embora elas tentam.
Já, ao contrário, nas democracias capitalistas, é parte delas não se cobrar do outro procedimentos além do que já determinam as leis.
Embora ninguém nasce para cumprir regras, temos que ter algumas, mas poucas, para viver em sociedade: para inibir algum desconforto como matar e roubar. Mas, mesmo assim isso acontece (coisas do DNA de cada um)

O corpo é a verdade. A mente.....mente.
Quanto ao prazer , temos o corpo para determinar o que nos diverte. Coisa pessoal. Conheço muitos, com muito dinheiro, com acesso a tudo que está aí, mas que está sempre mau humorado, ao contrário de outros, que vivem alegres e felizes com o pouco que têm e que por sorte não têm acesso à essa "cultura" e às essas "artes" criadas pela mente de alguém.

O indivíduo só precisa de dinheiro para comer, morar e vestir e, até agora, o capitalismo é o caminho. E, com o bom e velho consumismo, que tanto prazer dá a todos nós, sem exceção, hoje a indústria produz tanto, do barato ao caro, que em muitos países sobram roupas, só para citar um bem, praticamente sem uso e de boa qualidade, que são dadas de graça às pessoas que as querem. O mesmo acontece com alimentos, que têm até provocado obesidade nas classes com menos dinheiro.
Enfim, o caminho é esse e está sempre melhorando, desde que começou há mais de um século, com o que é próprio dele, a concorrência e a tecnologia: alimentos e outros bens de consumo cada vez mais baratos.

Só quem não vive nas ruas não percebe isso. Por isso e mais algumas, não temos que melhorar o capitalismo aqui, temos é que aplicar o capitalismo aqui, que nunca existiu , com menos interferência do estado na vida dos cidadãos, com menos impostos, com liberdade econômica e garantia jurídica.
Só assim, o que interessa às pessoas, sem exceção, que é dinheiro no bolso, pode acontecer.

Mauro Julio Vieira disse...

Só para não deixar passar: todo poder tem um pouco ou muito de ditatorial.
Ele sempre existirá:
Em casa, na rua, nas instituições.

celsolungaretti disse...

RESPOSTA ENVIADA PELO DALTON:

Caro Mauro,

Se você é a favor da inibição do roubo deveria começar pelo combate ao capitalismo, que é o roubo original e fundamental nas sociedades mercantis, capitalistas, pois o capital somente se acumula a partir da apropriação indébita de parte do produto do trabalho abstrato objetivado pelo trabalhador, que é a única fonte de produção do valor (dinheiro e mercadorias). Os demais roubos são as partes menores e derivados desse roubo colossal e original perpetrado contra a humanidade.

Dalton Rosado

Mauro Julio Vieira disse...

Sim , sou contra o roubo. Mas, ele existe e não há sistemas perfeitos que o eliminem. O fato é que no capitalismo, numa democracia, ele, o roubo é criminalizado e aind se tem a chance de pelo menos reclamar (Lungaretti mesmo reclama aqui o que lhe cabe por direito, e eu me solidarizo nisso com ele, contra o não pagamento, por parte do governo, de indenização por danos físicos e morais).
De qualquer jeito, temos que basear em fatos concretos e um deles é que não há e nem haverá mundo perfeito, anão ser em ideologias ou religiões políticas; então, dos males o menor, que é o capitalismo numa democracia, que já acontece há mais de um século e, apesar dos pesares, tem mostrado muitos avanços.
Enfim, no capitalismo, com aquilo que lhe fundamenta, que é a concorrência e a tecnologia, é a opção menos pior e viável, por ter compatibilidade com a alma humana.

Sady Fernandes disse...

Dalton,
A bem dizer, não há qq oposição entre a vida citadina e a vida autossuficiente.
Essa (autossuficiência) seria o primeiro estágio para sair da dependência absoluta. No quesito alimentação, por exemplo: cultive suas ervas aromáticas (coentro, cebolinha, salsinha, hotelã e majericão) num vasinho, no peitoril da janela do apartamento.
Ou compre uma bike e faça alguns trajetos com ela.
Se puder compre uma placa solar (ou faça um aquecedor solar) e se torne minimamente auto suficiente em energia.
Perguntam o quer de presente? Poderia responder "uma ferramenta"!

Lentamente as pessoas podem começar a ver que alimentar-se, vestir-se e morar não precisa ser tão complicado e nem tão caro.
É bem capaz alguém lotear uma terra em chácaras...
Acostumado ao trabalho de produzir alimento e construir, pode ser que queira ocupar-se em plantar árvores para lenha, fruteiras, nozes, furar um poço... e, aos poucos, ir preparando a saída da cidade para um outro tipo de vida.

Se algum dia ficar desempregado tem onde viver e esperar dias melhores.

As pessoas compram imóveis na planta e não tem coragem de investir num terreno fora do frenesi da cidade.

Parece que é uma questão de valores e de eleger prioridades.

Ou a ainda não caiu a ficha do fim de um modelo.

Ah! Não há incompatibilidade alguma entre fazer ciência e e viver no campo.
Várias universidades tem campus que são fora das cidades.

Mauro Julio Vieira disse...

Uma coisa que vi aí em cima é a palavra modelo. Na minha humilde opinião não vejo modelo algum no capitalismo numa democracia. Sendo ele por si só dinâmico - tecnologia e concorrência - que está sempre se modificando. Talvez até possa ser chamado de um caminho.
Modelo mesmo tem as ideologias ou religiões, políticas ou não, para enquadrar todos, país e povo, num sistema rígido.
O capitalismo é isso aí: um caos que está dentro de nós e por isso funciona, apesar dos pesares. Faz parte da alma humana: eu trabalho e ganho prá isso, bem ou mal. Mas trabalho escravo hoje não há: é crime.
No capitalismo de verdade não se pode ter um estado como o brasileiro, em que a maioria não trabalha e ganha muito. Ganham criminosamente um dinheiro que deveria ir para os nossos necessitados. E pior, nesses 13 anos de desgoverno, foram repassados para as ditaduras cubana, africanas e outros países do gênero mais de 150 bilhões de dólares, enquanto aqui tem miseráveis morrendo sem remédios e alimentação adequada. Isso não é HEDIONDO? Numa país sério, os responsáveis por isso já teriam cumprindo pena de mais 50 anos de prisão, sem direito a recurso.
Já se prevê que, neste sistema de liberdade econômica, como o capitalismo, num futuro não muito distante , que os alimentos serão gratuitos. Eu tenho dúvidas disso, mas ao mesmo tempo não as tenho.
Quem iria prever há 50 anos o temos hoje, como por exemplo: há mais celulares aqui neste país miserável do que o número de habitantes.

Temos que crescer pelo menos triplamente, para melhorar o dinheiro no bolso de cada um de nós, porque agora o nosso PIB é igual ao do estado da Califórnia, que tem 48 milhões de habitantes e nós 205 milhões.
Para isso temos que fazer igual a China , abrir geral, sem preconceitos ideológicos, o país para o mundo, pois até agora só participamos com 1% do comércio mundial.

celsolungaretti disse...

Caro Mauro,

quando digo que a lógica da mediação social pela forma valor aprisiona o pensar é porque ela só nos permite raciocinar a partir dos seus critérios tacanhos.

Um exemplo disto é justamente o seu texto. Você quer que todos os países tenham alto nível de produtividade e alto volume de produção californiano e isso é impossível porque a medida do consumo humano é finita enquanto que a necessidade de reprodução aumentada e contínua do valor é infinita. Isso causa um descompasso na economia mundial na qual somente quem consegue a junção desses dois fatores (alto nível de produtividade e alto volume de produção) consegue sobreviver. Quem não ganha a guerra nessa concorrência de mercado está fadado à pobreza.

O capitalismo é intrinsecamente segregacionista e inumano. E esta é apenas uma das contradições que está travando o capitalismo (existem muitas outras que podem ser inferidas dos meus textos e de textos de muitos outros pensadores mais habilitados do que eu), que é uma forma de relação social que agora se tornou inviável seja do ponto de vista social ou ecológico.

Mas, felizmente, como não há mal que dure para sempre, ela não é a única forma de vida social possível (e é até recente, em termos de história) e terá que ser superada sob pena de sucumbirmos junto com ela.

Um abraço, Dalton Rosado.

Mauro Julio Vieira disse...

Obrigado Dalton, mas o mundo está caminhando assim e, por mais defeitos que tenha o capitalismo, e ele os tem, com crise ou sem crise, ele tem sido, na prática, o que de menos pior tem-se mostrado para suprir a maior parte das necessidades da população mundial.

Mas, como você já deixou claro sua posição contra o que temos hoje, eu pediria se for possível, uma explicação com exemplos práticos de alternativas a isso. De como deveria ser a sociedade em termos de produção, consumo e empregos.
Mais uma vez, obrigado

celsolungaretti disse...

RESPOSTA ENVIADA PELO DALTON:

Caro Mauro,

Como já disse anteriormente em outros artigos, não podemos ter um detalhamento do tipo receita de bolo sobre a organização da produção e distribuição dos bens e serviços indispensáveis à vida. Mas como não há um grama sequer da mercadoria dinheiro em cada produto e serviço, anatomicamente falando, a produção de bens e serviços, obviamente, não depende para existir do dinheiro, que se mete nessa história para existir como modo de exploração de uns sobre os outros.

Cada região tem uma vocação e potencialidades de produção. O sal do Rio Grande Norte serve para o gado do centro-oeste brasileiro e para a indústria química do sul; a industrialização de São Paulo pode abastecer com artefatos tecnológicos o Brasil inteiro; a água abundante da Amazônia pode suprir a seca periódica do nordeste através de canalização; a energia eólica dos ventos do nordeste pode produzir energia limpa para toda a região; a soja de Mato Grosso pode abastecer o Brasil e o mundo; e por aí vai.

O problema atual do capitalismo é que tudo tem que passar pelo seu crivo de viabilidade econômica, e como nem tudo é viável sob esse ponto de vista, grassa a escassez e a predação ecológica irracional.

Se fossemos detalhar a ilogia das relações sociais sob o capitalismo que aflige a humanidade teríamos que enumerá-las um livro específico (o que pode e deve ser feito). Esse conceito pode e deve servir para o mundo todo, e de modo que as regiões sejam solidárias e unas, e não vivam em guerras pela hegemonia econômica. O capitalismo desenvolvido nasceu das guerras e justamente por isso que as guerras continuam com uma frequência irracional; o capitalismo é assassino.

A superação do capitalismo depende de uma organização social que potencialize a vocação de cada lugar de um modo que os critérios de uso das suas potencialidades sejam coletivos. O direito de posse utilitária individual e coletiva tem que superar e eliminar o conceito capitalista de propriedade privada. A vida nas cidades, sem a macrocefalia provocada pelo capitalismo que produz centros urbanos enormes e inviáveis sob todos os aspectos (o trânsito poluente dos carros a combustão é mais lento do que as carroças dos séculos passados), pode dar lugar ao uso do espaço urbano de modo mais cômodo e sem as favelas que tanto degradam a vida familiar (é incrível que muitos manauaras (habitantes de Manaus), situados nas imensidões amazônicas morem em palafitas por falta de terras urbanas).

É evidente que tal estágio de vida social requer códigos de convivência e conceitos a partir de cânones jurídicos e organizacionais completamente diferentes dos que historicamente vêm se plasmando para dar suporte a toda escravidão humana durante séculos. A revolução de costumes e conceitos desenvolver-se-á a partir de uma revolução do nosso próprio pensar e agir, que será estimulado por um modo de convivência social no qual os indivíduos sociais sejam solidários uns com os outros e não adversários competidores como hoje o são graças a autofagia capitalista.

O caminho far-se-á ao caminhar, embora possamos ter conceitos sobre o que historicamente nos foi ensinado para não fazer. Um desses conceitos é a abolição completa da escravização indireta da forma-valor. O valor econômico tem que dar lugar ao valor da virtude, e os homens devem ser admirados não pela riqueza abstrata que possuem, mas pelo que proporcionam à coletividade em termos de riqueza material e ciência (como mensurar economicamente o valor de Albert Sabin, que descobriu a vacina contra a poliomielite?).

Para lhe responder com mais consistência sobre propostas e princípios de modo mais abrangente precisaríamos elaborar um tratado sobre o tema, e ainda assim, certamente incorreríamos em erros e omissões.

Mas espero ter pelo menos sinalizado sobre o que tenho pensado sobre a superação dessa tragédia humana chamada capitalismo.

Um abraço e desculpe se não posso me alongar numa breve resposta como o assunto requereria.

Dalton Rosado

Mauro Julio Vieira disse...

Obrigado Dalton
Mas de qualquer jeito, na prática, e a história mostra, que toda tentativa de colocar as coisas no eixo da perfeição, do ideal, deram com os burros nágua, pois o fundamental foi deixado de lado: nossa alma caótica e insondável. Nossa curiosidade, nossa vontade individual, nossos impulsos, etc., dando prioridade total ao que os burocratas, em seus gabinetes fechados decidiam (enquanto isso quem vivia na realidade, como um agricultor, não mais podia seguir as leis da natureza e sim esperar suas "ordens"). Nem é preciso dizer que os resultados foram nefastos.. A URSS está aí para não nos deixar mentir com sua falência depois de 70 anos com esses equívocos. A economia foi para o brejo (o Mar de Aral que foi destruído e Chernobill que, com a falta de dinheiro para fazer a necessária segunda blindagem, explodiu na cara do povo, que viviam o ideal).
Enfim, regras hão de existir, porém dentro do razoável, desde que não interfira na individualidade das pessoas, pois é impulso humano que faz as coisas acontecerem (o computador que estamos desfrutando agora e tão barato, que todo mundo possui). E, elas, regras, estão aí : não matar, não roubar, não poluir, não praticar trabalho escravo,etc.

Mais uma vez obrigado, abraços.

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