O QUE É O PODER POLÍTICO-ESTATAL
O poder social da atualidade é, fundamentalmente, econômico. Poder impessoal, abstrato, insensível, cruel, reificado, destrutivo e, por fim, autodestrutivo; e que, na sua agonia autofágica, tenta nos arrastar de roldão para o abismo.
O poder econômico é uma invenção da mente humana, que dela se apropriou e passou a lhe dar ordens. Trata-se do exemplo mais explícito e abrangente da criatura tomando conta do seu criador.
Mas, para existir, o poder econômico faz uso de instrumentos sem os quais não existiria. São as categorias capitalistas, agindo interativamente, que lhe dão vida e sustentação.
Podemos dividir tais categorias em dois segmentos:
1. as primárias, quais sejam o trabalho abstrato, a mercadoria e o dinheiro, sínteses da forma-valor, a santíssima trindade dos tempos modernos; e
2. as categorias secundárias, mas fundamentais para a manutenção das sociedades mercantis, quais sejam o Estado (seu instrumento regulamentador e controlador) e a política (seu canal de legitimação jurídica).
Vamos, sucintamente, tratar do significado do Estado, complementando a análise teórica com um relato de experiência concreta; precisamos conhecer bem nosso inimigo (as garras segregacionistas da reificação fetichista da vida social mercantil) para termos êxito êxito na luta para dele nos emanciparmos.
UMA REFLEXÃO SOBRE O ESTADO — O Estado é uma instituição voltada para o exercício do poder verticalizado; e todo poder, ainda que se pretenda horizontalizado, é opressor. Portanto, constitui-se o Estado numa forma político-jurídica da opressão do poder econômico, o mais verticalizado dos poderes, e como, tal, seu servo sem soberania de vontade.
Disse Marx, na sua Crítica da Economia Política, que somente com a superação de todas as categorias capitalistas, dentre elas o Estado, poderemos chegar à emancipação humana; e n'A Ideologia Alemã, que os proletários teriam que suprimir as condições de sua existência, que são as condições de toda a sociedade, configuradas na categoria trabalho.
Por isto, afirmava ele, os proletários se encontram em oposição ao Estado (a forma pela qual os indivíduos deram a si mesmos uma expressão coletiva fora de si) e têm de deitar abaixo o Estado para impor a sua personalidade.
Segundo Marx, o Estado moderno é o guardião da liberdade do trabalho, ou seja, da livre concorrência dos trabalhadores entre si (a liberdade de escolha da escravização pela divisão do trabalho); então, a questão que se coloca não é libertar o trabalho, mas sim nos libertarmos do trabalho.
Marx defendia a superação do trabalho enquanto categoria capitalista que é, pois referia-se ao trabalho abstrato (produtor de valor) e não à ontológica interação metabólica entre a ação humana e a natureza.
O Estado é a expressão regulamentadora e protetora da segregação da lógica capitalista, cujo substrato primário é o trabalho; portanto, obedece e serve precipuamente a tal interesse, não podendo servir ao povo, como querem os equivocados adeptos do Estado dito proletário.
O proletário, aliás, não passa de um servo voluntário ou involuntário da capital, não tendo de buscar a sua afirmação como tal, mas, ao contrário, almejar a própria superação existencial: sua inserção, como indivíduo social, numa sociedade sem classes sociais.
A emancipação humana devolverá ao ser humano, uma vez empoderado de todo o saber adquirido pela humanidade, o domínio sobre as coisas: ou seja, ele não mais se submeterá ao domínio das coisas, como acontece na sociedade mercantil, reificada, na qual prevalece o fetichismo da mercadoria.
Fica, portanto, implícita a superação do Estado que vive da mercadoria e para a mercadoria (cujo valor é a coagulação em si do trabalho abstrato), mesmo porque todos os adeptos do Estado, sob as mais variadas formas políticas, mais não são do que servos voluntários ou involuntários do capital.
| Maria Luíza: 1ª prefeitura petista numa capital |
LIÇÕES DA ADMINISTRAÇÃO DE FORTALEZA — Em 1986, Maria Luíza Fontenele iniciava sua gestão à frente da primeira prefeitura de capital conquistada pelo PT e me escolheu para o posto de secretário de Finanças de Fortaleza.
Deparei-me com um cenário caótico das finanças públicas. Tínhamos uma despesa básica, já orçamentada, que era 20% superior à receita; as prefeituras de então eram financeiramente dependentes dos governos governos estaduais e federal; e nossa dívida pública era impagável.
Antes de nós, os prefeitos eram nomeados pelos governadores e referendados por Legislativos absolutamente submisso a tais nomeações.
Além do déficit das contas correntes, cujo ajuste implicava a redução financeira do atendimento às demandas sociais, os juros da dívida pública eram impagáveis na sua totalidade, o que nos colocava à mercê dos presidentes do Banco do Brasil e do Banco do Nordeste do Brasil, que haviam sido nomeados pelo presidente achado José Sarney, a quem fazíamos oposição (diferentemente do que queria a direção do PT).
Compreendemos que tudo se processava na base do ou dá ou desce. E eu me perguntei muitas vezes se compensava administrarmos tal aparelho de estado, tentando lhe dar equilíbrio financeiro e governabilidade.
Rebelamo-nos contra as rígidas ordens fetichistas da administração desse pequeno aparelho de estado capitalista, e a consequência da nossa rebeldia foi o descontentamento de todos:
— dos pobres, a quem queríamos fazer uma opção preferencial de governo, pela incapacidade de justo atendimento pleno das suas demandas sociais;
— dos ricos e seus partidos, porque com eles não conciliamos e, assim, aos seus olhos, nos tornamos radicais intolerantes, merecedores de boicotes; e
— dos partidos de esquerda, por não fazermos o jogo sujo da conciliação política, o tradicional é dando que se recebe.
| Outras expulsões injustas e chocantes viriam... |
Resultado: fomos expulsos do sistema (e literalmente, pelo PT) como o vírus nefasto a um poder que nos era estranho.
Foi a explicitação de um exemplo básico, que me levou a questionar algo maior, o marxismo do movimento operário, estatal e mercantil.
Anos depois, tomaríamos conhecimento da reinterpretação de Marx da crítica do valor, e com ela se operou minha reconciliação pessoal com esse gênio das teses sobre a emancipação humana. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)



Nenhum comentário:
Postar um comentário