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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

TV = BREJO DE TIRIRICAS

Na mesma linha de meu recente artigo TV = 60 anos de devastação cultural, Luiz Fernando Vianna, colunista da 'Folha', faz nesta 5ª feira (23) uma análise exemplar do lodaçal em que se transformou a TV aberta brasileira.

Merece ser reproduzida na íntegra:


Luiz Fernando Vianna

Fartamente repisado na imprensa nos últimos dias, o espanto com o sucesso da candidatura Tiririca é um tanto espantoso.

Parece que não temos contato diário com o ninho de onde saiu Tiririca: a TV aberta brasileira.

O humorista despontou e permanece em programas em que o riso nasce do grotesco, a mesma matéria-prima de boa parte do que as grandes emissoras veiculam.

Visto por dezenas de milhões de pessoas, o que é o 'Domingão do Faustão' senão um monturo de cenas violentas oferecidas ao sadismo coletivo, poluição publicitária e, com exceções, música ruim? (O prefeito do Rio, Eduardo Paes, é um político que elege as videocassetadas como o que há de melhor para ver, o que diz muito sobre ele e sua classe.)

As alternativas dominicais na TV aberta são Silvio Santos, Gugu Liberato, 'Pânico na TV'... Um brejo de tiriricas.

E, para ficar no mesmo dia da semana, ainda há o 'Fantástico', no qual alguns momentos de bom jornalismo se misturam a tribunais extrajudiciais, reality shows em que adultos berram com crianças e outras excrescências.

O horário eleitoral gratuito está compulsoriamente encaixado na grade das emissoras. Não deixa de ser, portanto, um programa de TV.

No vazio da política em que vivemos, fenômeno global identificado pela perda de credibilidade do sistema de representação e dos partidos - mas que é mais profundo -, os protagonistas das campanhas são aqueles já reconhecidos pelo espectador massificado e/ou os que dominam as armas do grotesco.

Em Rio ou São Paulo, já foram campeões de votos Agnaldo Timóteo, Clodovil, Enéas... Neste ano, entre outras 'celebridades', serão Tiririca, Netinho, Romário, Wagner Montes. Não adianta fazer cara de nojo. Eles são a zorra total que deixamos esse país virar.

sábado, 18 de setembro de 2010

TV = 6O ANOS DE DEVASTAÇÃO CULTURAL

"Telas falam colorido de crianças coloridas
De um gênio televisor
E no andor de nossos novos santos
O sinal de velhos tempos
Morte, morte, morte ao amor


Eles não falam do mar e dos peixes
Nem deixam ver a moça, pura canção
Nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol
E eu apenas sou um a mais, um a mais
A falar dessa dor, a nossa dor"
(Milton Nascimento)

A comemoração dos 60 anos da  máquina de fazer doido (definição genial de Sérgio Porto/Stalinslaw Ponte Preta) me levou a refletir sobre as criações artísticas que melhor a definem.

Veio-me logo à lembrança a letra de Milagre dos Peixes, canção de 1973, com a qual Milton Nascimento e Fernando Brant expressaram magistralmente o asco dos seres humanos dignos desse nome, face à utilização de crianças na nefanda propaganda televisiva. O símbolo da inocência colocado a serviço da indecência.

Depois ocorreu-me a marcante carga simbólica do filme Poltergeist: o Fenômeno (d. Tobe Hooper, 1982), no qual uma criança é atraída para dentro do televisor por um espírito maligno.

Realmente, o espírito maligno do capitalismo se utiliza da TV para incorporar nos incautos, tornando-os zumbis do sistema.

E não poderia faltar a mais devastadora crítica cinematográfica à televisão em todos os tempos: Rede de Intrigas (d. Sidney Lumet, 1976)

Há muitas passagens memoráveis nesse filme sobre um âncora que enlouquece no ar, com a emissora, ao invés de prover-lhe tratamento, preferindo mantê-lo a falar diariamente suas bobagens, pois dá audiência, transformado num guru dos  videotas.

A melhor delas é quando, ao romper com a produtora ambiciosa e amoral (Faye Dunaway), o veterano diretor de jornalismo (William Holden) a define como a própria essência da TV: gananciosa, manipuladora, superficial, fútil e nociva.

Infelizmente, não encontrei imagem ou trecho para destacar do maior clássico literário sobre a TV -- O Videota, de Jerzy Kosinski, retrato sem retoques do indivíduo infantilizado e imbecilizado pela telinha.

O filme nele inspirado -- Muito Além do Jardim (d. Hal Ashby, 1979) -- nada manteve da ironia corrosiva de Kosinski contra o carro-chefe da indústria cultural. Preferiu tornar simpática a figura do pateta, para o que contribuiu a escolha inadequadíssima de ator (o público tendia sempre a gostar do inesquecível Peter Sellers, fosse qual fosse seu personagem).

Mas, por que tanta bronca da TV? -- perguntará alguém.

Na verdade, ela surgiu no exato momento de, e corporificou uma, transição importante do capitalismo.

Até a primeira metade do século passado, seus meios de comunicação reforçavam os valores da sociedade patriarcal: colocavam os diversos públicos girando em torno de exemplos edificantes e do culto às grandes individualidades, que apontavam o caminho a ser seguido.

Tentavam tornar as pessoas conformistas em termos sociais e determinadas a melhorar, em termos individuais.

Com o advento da sociedade de consumo, a ênfase mudou. Não se quer mais compelir ninguém para a frente, mas, apenas, induzi-lo a adquirir produtos e serviços.

Então, os consumidores passaram a ser mimados de todas as maneiras. Se são imbecis, a TV lhe provê a programação mais imbecil possível. Se querem ver destacados outros imbecis iguais a eles, é assim que a TV os mostra, nas telenovelas.

De quebra, o cotidiano insípido sob o capitalismo é apresentado como interessante, as banalidades parecem não ser tão banais porque estão na telinha.

Antes, na  era do cinema, os personagens principais tendiam sempre a ser de exceção: viviam aventuras que o mortal comum não vive, eram brilhantes como o mortal comum não é.

Quem conseguiria encarar Sherlock Holmes como um igual? Não, era alguém muito superior, a ser  admirado  e  copiado.

Mas, na sociedade de massas, todos são Neymares: meninos mimados e pirracentos, que só tem olhos para si mesmos e só querem estar rodeados de espelhos nos quais se mirem, embevecidos.

Foi este o parâmetro pelo qual que se nivelou tudo, na TV; ou seja, cada vez mais por e para baixo.

Até chegarmos ao  inferno pamonha  atual -- o monumento construído, principalmente, pela TV, em suas seis décadas de faina como instrumento de devastação cultural.

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