A tentativa golpista acabou sendo prejudicial ao próprio Eduardo, mas isso não desestimulou seu irmão Flávio, agora candidato à presidência, de continuar no mesmo caminho.
A atração exercida sobre os filhos de Bolsonaro pelo golpismo levou o próprio Estadão a elaborar a teoria de ser genética essa tendência.
Na verdade, seria mais que uma simples tendência natural, e sim uma estratégia empregada diante de resistência e obstáculos contrariando seus desejos e objetivos.
É importante assinalar essa posição do Estadão, uma espécie de mea culpa por ter se aliado aos militares golpistas em 1964. Lembro-me bem do telegrama recebido do Júlio de Mesquita Filho, quando secretariava, ao lado de Mário Martins, a última grande reunião pública de crítica e protesto contra a ditadura, o Encontro com a Liberdade, em janeiro de 1967, no Teatro Paramount abarrotado, em São Paulo.
No telegrama, o velho Mesquita se solidarizava com o Encontro contra a Lei de Imprensa. Enquanto eu lia o telegrama, esperava uma reação positiva daquele grande público formado, na grande maioria, de jovens. Mas veio, para minha surpresa, uma enorme vaia contra o Estadão e contra os Mesquitas.
No dia seguinte, o jornal deu algumas linhas ao Encontro sem mencionar as vaias. Sempre me ficou a impressão de se ter perdido ali uma grande oportunidade de união contra a ditadura, mas os ânimos estavam excitados e a moçada universitária de esquerda não perdoava o apoio do Estadão ao golpe, três anos atrás.
Tantos anos depois, o candidato da dinastia Bolsonaro à presidência, Flávio, não aceitou a derrota golpista do pai e foi aos EUA, como já fizera seu irmão, pedir apoio da extrema-direita, direita, evangélicos dos EUA, para uma nova tentativa golpista, desta vez com o apoio do Trump.
Indiretamente, Flávio sugere que Trump poderia repetir a extração do presidente Lula do Palácio do Planalto em Brasília, como fizera com Maduro em Caracas.
O argumento é o mesmo já empregado por Trump e por Bolsonaro: se Flávio Bolsonaro ganhar em outubro, as eleições terão sido livres e corretas, mas se Flávio perder, terá havido fraude nas eleições e os EUA deverão intervir! E como reagem os patriotas vestidos com a bandeira ou com as cores da nossa bandeira?
Isso é grave, não se trata de uma hipótese de pressão contra o Brasil, mas sim de um pedido quase direto de intervenção de um candidato à presidência, considerado pelas primeiras sondagens em situação de empate com Lula.
Ou seja, se perder poderá provocar um novo 8 de janeiro para justificar uma intervenção estadunidense. Se ganhar, vai governar como um vassalo de Trump, um lacaio, um vendido, um entreguista de nossas riquezas e um traidor.
| por Rui Martins |
O próprio Estadão não deixa por menos no seu editorial com o título Tal pai, tal filho. O jornal se reporta ao discurso de Flávio Bolsonaro no recente encontro da extrema-direita em Dallas, onde não pronunciam só discursos mas se tramam golpes.
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