domingo, 4 de setembro de 2011

BATTISTI: "EIS O QUE ACONTECE QUANDO SE DEIXA O DIABO APROXIMAR DA GENTE"

Queridos amigos (as) e companheiros (as),

Sinto necessidade de dirigir-me a todos vocês, depois de ler a enésima ópera de desinformação, perpetrada pela Folha de S. Paulo, publicada hoje, domingo, 4 de setembro de 2011.

 A covardia desse jornal e de seus redatores, não conhece limites.

Apesar de ser a Folha de S. Paulo, recebi o “jornalista” João Carvalho Magalhães por ter uma boa recomendação.

A expectativa era que este jornalista iria provar que a Folha iria resgatar a sua “imparcialidade”, que nunca demonstrou em todas as suas matérias anteriores sobre mim.

Eis que vendo a matéria tenho que admitir a grande ingenuidade. O acordo com este suposto jornalista era que eu não queria tratar assuntos polêmicos com o governo italiano, nem com autoridades brasileiras e que ele centraria a matéria sobre o homem e o escritor.

O trabalho de desinformação e de manipulação foi feito de maneira cientifica: de um lado, ele permite que se coloque na primeira pagina uma foto aonde eu apareço feliz da vida com gargalhadas e cervejas, cujo titulo e legenda “La dolce vita clandestina” serve para dizer a Itália que eu estou me lixando dos dramáticos anos 70; por outro lado, ele tenta quebrar o inegável apoio a minha causa dada pelos companheiros de vários países, titulando a pagina 10 do primeiro caderno “Revolução, isso é uma piada”.

Agora vem a safadeza: ele mesmo me levou ao bar só na intenção de tomar essa foto, em seguida, a pergunta se acredito ainda na revolução pela via das armas, ele distorce propositalmente a minha posição - “a luta armada não é mais viável hoje, em países como, por exemplo, o Brasil” - para fazer-me parecer aos olhos do movimento revolucionário um cínico que só aproveitou da solidariedade de companheiros.

 Eis o que acontece quando se deixa o diabo aproximar da gente.

Tenho a precisar que a responsabilidade desta imprudência é só minha e por isso peço desculpas a todos vocês que me acompanharam irrepreensivelmente desde o início desta história.

Um abraço,

Cesare Battisti

ESPONTANEIDADE É IGUAL A INGENUIDADE

No fundamental, a entrevista publicada pela Folha mostra um homem que lutou por grandes ideais quando era jovem, pagou sua cota de sofrimento (como a maioria dos que então fomos fundo nas tentativas de mudar o mundo) e depois deu outro rumo à vida, que já estava direcionada para preocupações menores e para a profissão de escritor quando a perseguição inquisitorial, kafkianamente, recomeçou.

Erigido em troféu que a pior direita européia queria empalhar e exibir na parede, mergulhou num pesadelo que o fez fugir de país em país até ser salvo pelos esforços de cidadãos justos e solidários do Brasil.

Agora, só pensa em reatar os fios de sua existência, voltando ao ponto em que se encontrava antes do novo pesadelo. Quer tornar a ser um homem comum, cuja única militância idealista se dará no campo da literatura.

Tem todo direito a seu repouso do guerreiro e a seu lugar tranquilo no campo (ou na praia, ou na cidade). 

E nós, que movemos céus e terras para livrá-lo dos linchadores, continuaremos nos orgulhando de haver impedido um crime comparável à condenação e destruição da carreira militar do inocente Alfred Dreyfus, à execução dos também inocentes Sacco e Vanzetti, à execução dos  laranjas  Julius e Ethel Rosemberg.

Quanto aos detalhes, eu até entendi o  espírito  da (infeliz e inoportuna) afirmação de que "se eu continuasse um revolucionário hoje, seria um idiota". 

O que Lula disse certa vez foi pior, por representar uma crítica direita a quem mantém seus ideais na velhice. A frase do Cesare pode, pelo menos, ter a leitura de que perserverar na luta revolucionária seria idiotice especificamente no caso dele

Mas, uma pessoa tão visada como o Battisti não pode se dar ao luxo de, entrevistado pelo jornal da   ditabranda, expressar-se de forma tão açodada. Nessas situações, espontaneidade é igual a ingenuidade. Melhor encarar a situação como uma partida de xadrez.

O mal está feito. Agora, é dar a volta por cima, efetuando a chamada  autocrítica na prática

Ou seja, o Cesare precisa ter bem claro o que almeja nesses contatos com a imprensa, e passar a conduzir a entrevista no sentido que lhe convém, ao invés de se deixar levar pelo repórter para armadilhas óbvias, como a foto e o vídeo feitos no boteco.

Certa vez o Paulo Francis contou que presos políticos brasileiros recém-trocados por um diplomata foram dar uma coletiva num país do 1º mundo e, sentindo-se  constrangidos  ao relatarem as torturas que haviam sofrido, sorriam, sem jeito.

Os jornalistas estrangeiros, por desconhecerem nossa forma de ser, concluíram que eles mentiam, porque uma pessoa que tivesse sido vítima de sevícias tão escabrosas não estaria alegre ao tocar nesse assunto...

O bom ou mau desempenho numa entrevista depende de uma infinidade de pequenos detalhes como este. Para alguém ligado à política, não deixar que lhe registrem a imagem com copo de bebida na mão é um dos mais óbvios.
 
Em tempo: eu continuarei na luta por uma sociedade igualitária e justa, já que o Brasil de hoje ainda está bem distante daquele com o qual eu sonhava no longínquo 1967, quando comecei a percorrer o caminho das lutas sociais. Seja eu um sujeito teimoso (como escreveu um jornalista amigo) ou idiota, seguirei perseguindo meus velhos ideais. (Celso Lungaretti)

10 comentários:

Anônimo disse...

Cadê a assessoria do Battisti? É inacreditável que tenham se deixado levar como crianças inocentes pelo jornal da ditabranda! Battisti dando entrevista pra Piauí, pra Folha, dizendo que mora em Cananéia... O que estão querendo com isso?

J.Eduardo R. de Camargo disse...

A Carta Capital também desferiu outro petardo contra Battisti essa semana na forma de uma matéria intitulada "As provas Irrefutáveis", a qual transcreve uma entrevista com o jurista italiano Giuliano Turone, autor de O Caso Battisti, livro lançado recentemente naquele país. Nesse livro o citado magistrado aposentado, juiz de instrução na época dos fatos, "prova" que Battisti, além de ladrão e assassino, é um mentiroso contumaz. O que reforçaria a tese (ou seria Cruzada?) defendida há tempos por Mino Carta e Wálter Maierovitch de que Battisti não passa de um bandido comum. Resumo da ópera: Battisti ainda viverá um bom tempo sendo perseguido pelos cães-de-caça da mídia daqui e da Itália, pelo visto! Talvez ele devesse mudar-se para a gélida, porém calorosa, Islândia onde talvez possa ser finalmente deixado em paz. Uma lástima!

Celso Lungaretti disse...

A "Folha de S. Paulo", infelizmente, é importante. A "Carta Capital", felizmente, é irrelevante.

E o Mino Carta jamais poderá ser levado a sério por alguém de esquerda enquanto não tiver a hombridade de responder aos desafios que o Rui Martins, o Carlos Lungarzo e eu lhe lançamos várias vezes.

A marca da nossa luva continua estampada na cara dele. Não a ergue porque sabe que não daria nem para a saída numa polêmica com qualquer um de nós três.

Sonia Amorim/ABC! disse...

Não gosto de julgar, mas estou inclinada a achar que Battisti, como intelectual e militante revolucionário, por tudo o que passou na Itália e no Brasil, não tinha o direito de ser tão "ingênuo"... Ele não é nenhum adolescente. Battisti deveria dar entrevista a este querido blogueiro-jornalista-revolucionário do Náufrago da Utopia, Celso Lungaretti, que lutou brava e incansavelmente pela libertação do ativista italiano. Foi lamentável ver o "ingênuo" Cesare rindo e sorvendo goles de cerveja, fazendo poses pro repórter da fsp etc. etc.

Celso Lungaretti disse...

Agradeço, Sônia, mas a repercussão da Folha é infinitamente maior.

O que ele deveria é ter feito isso sob controle -- inclusive não atendendo pessoalmente o repórter, mas pedindo o envio de uma pauta e a devolvendo respondida.

Anônimo disse...

Fui favorável à libertação de Battisti e creio que sim, ele deve permanecer no Brasil. Agora, receber a Folha e ir tomar um "chopis" com o repórter e ainda "por cima" se deixar fotografar. Sei lá, por isso a geração 68 fracassou em seus intentos revolucionários.

ismar disse...

Primarismo revolucionário ou o Cesari ainda não conhece os ardis da imprensa brasileira?

J.Eduardo R. de Camargo disse...

Antes de atacar a Carta, de longe a melhor semanário do país (na falta de coisa melhor!), sugiro a leitura da entrevista e, se possível, do livro, que não li por ser muito recente. Ao que parece, o autor levanta questões muito sérias as quais Battisti nunca respondeu.

Celso Lungaretti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Celso Lungaretti disse...

O Carlos Lungarzo, que está para lançar um livro enorme, definitivo sobre o Caso Battisti, garantiu-me que nada traz de novo ou importante, embora não seja tão primário como a tralha habitual do Mino e do Maierovitch.

De resto, não posso respeitar um veículo que fez campanha rancorosa e sistemática contra uma pessoa, por puro preconceito do dono. No auge do Caso Battisti, foram umas 10 SEMANAS SEGUIDAS com as falácias do Mino, do Maierovitch ou do Mino assinando "da redação" (embora o uso daquela inconfundível terminologia pernóstica deixasse evidenciadíssimo quem era o autor...).

Esse tipo de campanha se fazia na década de 1950. Hoje é de um ridículo atroz.

Outra coisa: já chamei o Mino para a polêmica e já contestei incisivamente a CartaCapital por um procedimento calhorda numa matéria de capa sobre a anistia política.

Que dizer de um medalhão que foge de um desafio desses e de uma revista que, com todo seu poder de fogo, não ousa publicar e responder a contestação de um sem-mídia?

Aliás, não foi só de mim que o Mino fugiu. Também dos leitores do próprio blogue dele, quando preferiu encerrá-lo do que dialogar com seu público.

Patético.

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