domingo, 14 de fevereiro de 2010

GASPARI: UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA

Já flagrei o jornalista e historiador Elio Gaspari na posição simplesmente indefensável de considerar fidedignas as informações acerca de resistentes contidas nos dossiês ensanguentados e emporcalhados da ditadura militar.

Por dar crédito àquele lixo, ele andou lançando acusações injustas e até levou puxão de orelha público, na sentença de um juiz.
Gaspari continua repetindo, como papagaio, a falácia que um escrevinhador de segunda categoria introduziu e os serviços de informações das Forças Armadas encamparam, martelando-a à maneira de Goebbels, durante o auge do terrorismo de estado no Brasil: o de qualificar como "terroristas" ações características dos movimentos de resistência à tirania.

Pelos mesmos crítérios, teriam de ser considerados
terroristas os quadros da Resistência Francesa que dinamitaram pontes, explodiram quartéis, atentaram contra nazistas, executaram colaboracionistas, etc., derramando sangue (inclusive de inocentes, pois um ou outro sempre apanha as sobras) em escala infinitamente superior à dos resistentes brasileiros.

Os franceses discordam, honrando-os como os heróis e mártires que realmente foram.

Só no Brasil é que há tamanha ingratidão em relação àqueles que salvaram a dignidade nacional, travando uma luta praticamente suicida, tamanha era a desigualdade de forças. Pelo menos, não foram todos os brasileiros que se resignaram a viver debaixo das botas.

Mas, voltando a Gaspari, seria injusto impugnarmos tudo que ele escreve em função desse preconceito contra os resistentes que trilharam o difícil caminho das armas.

Vai daí que, com exceção da referência a um "surto terrorista" que não houve nem serviria como justificativa para as atrocidades cometidas pelo regime militar, é das mais oportunas a análise de Gaspari sobre o último episódio de insubordinação fardada, na sua coluna dominical. Tanto que a reproduzirei na íntegra:
A ANARQUIA MILITAR É PRAGA
DO SÉCULO PASSADO


Indisciplinas como a do general Maynard começam com palavras, mas acabam em golpes, tortura e morte


A EXONERAÇÃO do general Maynard Santa Rosa do Departamento-Geral de Pessoal do Exército veio bem e veio tarde. Ele deveria ter sido disciplinado quando criticou a conduta do governo na demarcação da reserva indígena de Roraima. Um cidadão tem todo o direito de achar que a Comissão da Verdade será uma "Comissão da Calúnia", mas militar, de cabo a general, não pode expressar publicamente suas opiniões políticas. Muito menos atacar um decreto presidencial.

Foram muitas as pragas da vida brasileira no século passado. Uma das piores foi a anarquia militar. Entre os 18 do Forte de 1922 e a bomba do Riocentro de 1981, ocorreram pelo menos 20 episódios relevantes de insubordinação militar, um a cada três anos. Alguns fracassaram, outros prevaleceram. Uns tiveram apoio popular, outros foram produto da pura vontade dos quartéis. Uns agradaram à esquerda, outros, à direita.

Em mais de meio século de anarquia, a pior bagunça ocorreu precisamente durante os 21 anos de ditadura militar. Em 1969, o país virou uma casa da mãe joana. O presidente Costa e Silva teve uma isquemia cerebral, seu sucessor legal, o vice Pedro Aleixo, foi impedido de assumir o cargo e a cúpula militar resolveu escolher seu sucessor.

Os generais entendiam que o povo não tinha a educação necessária para escolher um presidente. E aí? Quem escolhe? Os comandantes militares? Nem pensar, assim como voto do enfermeiro não podia valer o mesmo que o de um médico, o de um general que comandava uma mesa não valia a mesma coisa que o de um comandante de tropa. Fez-se a eleição mais manipulada da história nacional. Tão manipulada que não se conhecem nem sequer as regras do processo que escolheu o general Emilio Medici. Sobrevivem apenas duas tabelas que não fazem nexo.

Durante a ditadura, a anarquia produziu e institucionalizou um aparelho repressivo que se deu à delinquência da tortura, do assassinato de cidadãos e do extermínio de militantes de organizações esquerdistas. Começaram combatendo os grupos que, entre 1966 e 1973, se lançaram num surto terrorista. Terminaram com um pedaço dessa máquina fazendo seu próprio terrorismo, botando bombas em instituições acadêmicas, bancas de jornais e entidades como a OAB e a ABI.

Quem namora pronunciamentos militares deve contemplar duas fotografias: a dos 18 do Forte, heroica, com os oficiais caminhando desafiadoramente pela avenida Atlântica, alguns deles para a morte, e a do Puma do Riocentro com o corpo dilacerado do sargento do DOI. São cenas diferentes, mas têm a mesma nascente.

14 comentários:

Jean Scharlau disse...

O artigo do Gaspari é um sofisma. Condenar a manifestação do general principalmente por indisciplinada, tentando colocar sua origem na mesma fonte da ação dos 18 do Forte e dos resistentes à ilegalidade e imoralidade do golpe militar é bobice (ou a pior esperteza, coisa que não creio ser o caso).

O jornalista supervaloriza a formalidade e despreza o mérito, quando deve ser de conhecimento universal que este é superior e prevalente àquela. Ordens criminosas não devem ser cumpridas. Aí está um princípio fundamental que clama a cada indivíduo o julgamento do mérito de cada ordem. Criminosos devem ser legalmente punidos, não obedecidos. A disciplina é uma regra de método e organização, portanto secundária. Primeiro os princípios!

A origem e significado das ações de homens que se rebelam contra a opressão de ditadores que dão ordens criminosas é muito diferente das origens e significados dos atos daqueles que pretendem, criminosamente, suprimir a prevalência do comando democrático institucional estabelecido pela livre manifestação da vontade da maioria do povo.

O governo eleito e estabelecido nas condições democráticas e constitucionais buscar a lei para a correta punição de criminosos fardados ou de pijamas, de quepe ou máscaras, não é motivo para rebelião ou descontentamento de ninguém que não os próprios criminosos ou seus achegados.

Celso Lungaretti disse...

Jean,

as intervenções militares na vida política brasileira foram tão desastrosas que haverá um grande ganho se eles, como tais, nunca mais meterem o bedelho nas coisas dos civis.

Que fiquem nos quartéis e só saiam deles para combater tropas estrangeiras.

E os idealistas como o Lamarca, que tirem a farda e venham atuar politicamente como paisanos, correndo os riscos que os paisanos correm.

Será o melhor para todos.

Abs.

Marcos D. disse...

É inacreditável a insistência deste pessoal da Direita em classificar como 'terroristas' os que lutaram contra a Ditadura Militar. Esta, prendeu ilegalmente, torturou, assassinou e desapareceu com os corpos das vítimas, além de ter aniquilado com qualquer resquício de democracia ou de liberdade no país. Mas, os que lutaram contra isso é que foram 'terroristas'? É o fim da picada.

É por essa e muitas outras mentiras e absurdos que a Grande Mídia divulga que não acredito em mais nada do que ela e seus empregados dizem.

Jean Scharlau disse...

Caro Celso, não sou favorável a essa separação entre civis e militares, soa-me como separar brancos, negros, índios. Civis e militares são cidadãos de uma mesma nação.

Lembro também que outra atribuição das Forças Armadas, além e aquém da defesa contra agressão externa, é ser a última instância de garantia constitucional e das instituições democráticas, onde deve obviamente barrar os agentes de seu desmantelo e não promovê-los ou defendê-los.

Acho que a maior interação entre civis e militares, a maior cooperação e afinidade de ações é o que melhor pode resultar positivo para a nação, a democracia, a cidadania. É perceptível isto em muitas ações emergenciais e construtivas, conjuntas e cooperativas entre militares e civis, bem como na resistência interina a ilegalidades e crimes.

Celso Lungaretti disse...

Jean,

a tese é bonita, a prática foi aquilo que se viu no Morro da Providência: quatro jovens estupidamente assassinados.

A minha geração, escaldada que foi (e como foi!), hoje tem justificado medo de água fria.

Prefere que os militares fiquem alertas para impedir que sejamos invadidos pelos "poderosos" inimigos que nos rondam e se dediquem à proteção de nossas fronteiras.

E NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM VOLTEM A DESEMPENHAR ALGUM PAPEL LIGADO À ORDEM INTERNA. Isso acaba sempre em DOI.

aBS.

Haroldo M. Cunha disse...

Jean, concordo em gênero, número e grau. Quanto ao gato escaldado do Celso, que trate de verificar a temperatura da água, pois não podemos e não devemos ficar preso pela geração passada e por fatos ocorridos nesse passado. O tempo não volta atrás, os fantasmas devem exorcizados (nunca esquecidos, veja muito bem), todos tem o direito de mudar e melhorar, mesmo as instituições ião, com o tempo e nossa vigilância, se transformarem em verdadeiras defensoras do povo. Não há motivos para que fiquemos presos a dogmas antigos e ultrapassados, se há tantos novos a nos desafiar. Presumir que elas jamais se modificarão, isso é o que parece quando não acreditamos em nós mesmos, em nossa capacidade de mudar observando realmente os erros cometidos.

Celso Lungaretti disse...

E você notou alguma melhora nas instituições, Haroldo? Conte para mim, qual? Fiquei curioso...

Pedro disse...

"todos tem o direito de mudar e melhorar, mesmo as instituições ião, com o tempo e nossa vigilância, se transformarem em verdadeiras defensoras do povo"

O processo acima descrito me parece distante da realidade atual das Forças Armadas Brasileiras.
As mesmas, infelizmente, continuam sendo trincheiras de torturadores e ultra-direitistas.

"os fantasmas devem exorcizados "
Os "Brilhantes Ustras" da vida me parecem bem vivos e amparados, talvez estejam mais para dinossauros?

Pedro disse...

Fazendo das Forças Armadas Brasileiras nada mais que um Jurassic Park 4, onde os fósseis ainda caminham sobre a terra sem a devida autorização.

Haroldo M. Cunha disse...

Pedro, você usou o mesmo que e desgraçado mal que usa a mídia, cortou minha minha palavras e usou o que lhe convia. Celso, jamais falei que as coisas são as mil maravilhas, só que temos que dar tempo para que as coisas mudem, acho que fui bem claro nisso. Conheço diversas pessoas das forças armadas para lhe dizer que existe uma grande mudança interna, mas o problema, ainda, é o espírito de corpo que não deixa passar isso para além dos muros (e nem sei se deveria mesmo). As mudanças são propostas de diversas formas e você ou eu temos que acitar as que forem as escolhidas pela população, não importa se eles tem o conhecimento suficiente para isso. O tempo fará com elas aconteçam, idenpedente de mim ou de você (genelarizado). Cara, você lutou tanto para isso, agora vai querer parar no tempo? O mundo não é como a gente quer, mas será o que muitos de nós desejamos. As instituições são a cara de seu povo e assim que o povo saiba das coisas que se passaram nesse país, terão como julgar, mas isso não será por uma imposição revolucionária, não acredito em nenhuma revolução, todas um dia acabam, será pelo acerto das diferenças, pela aceitação do contraditório. Eu acredito nisso, sei que estamos longe de alcançarmos, mas se não lutar por isso, o que me restará?

Nazaro disse...

Haroldo, em nenhum momento tive a intenção de picotear a sua colocação para distorce-la a minha vontade.
Copiei sim um trecho onde ( ao meu ver) se demonstra claramente a sua ingenuidade em relação as superações de certos processos historicos ( sequestros, torturas, estupros e assassinatos) praticas adotadas pelas FAB.

A sua tese aponta o tempo como principal agente de mudança, uma vez que sabemos que as ações sim o são.
Ações como a abertura de arquivos da repressão e o expurgo dos torturadores que se mantem firmes e gordos dentro de suas fileiras.

Afinal de contas eles foram bem eficientes no expurgo dos militares considerados "subversivos". Poderiam demonstrar a mesma eficiência agora

O tempo por si só apenas enfraquece a memoria, e sem as medidas necessárias faz a historia repetir os mesmos absurdos.

Haroldo M. Cunha disse...

Nazaro, se você não colocou o que estava entre parentêses a frase fica sem sentido, veja que eu coloquei "...(nunca esquecidos, veja muito bem)..." e o responsável por este e os demais blogs sérios, jornalistas independentes verdadeiramente, as organizações da sociedade (Nacionais e internacionais) de Direitos Humanos, enfim, todos temos que fazer com os ditadores e ditaduras o mesmo que se faz com o horror nazista, não deixá-los cair no esquecimento. Temos que merecer o que vem depois, você não acha?

Pedro disse...

Desculpe, causei alguma confusão, o login do comentário saiu equivocado, o post com o nome "Nazaro" é referente a mim (Pedro).

"enfim, todos temos que fazer com os ditadores e ditaduras o mesmo que se faz com o horror nazista, não deixá-los cair no esquecimento. Temos que merecer o que vem depois, você não acha?"

Com certeza. Porem, uma transformação mobilizada por forte pressão de forças civis (o qual não é o caso atual) só demonstra que o agente dessa "renovação postural"* das Forças Armadas Brasileiras não se encontra dentro das mesmas.

Relembrando o fato que tal instituição protege membros que participaram ativamente nas praticas medievais levadas a cabo de 64 a 85( Se demonstrando claramente conivente com elas).

Agora a pergunta não respondida retorna (como "fantasma não exorcizado"):

Haroldo, poderia nos explicar qual é a mudança concreta dentro da linha ideológica das Forças Armadas Brasileiras?





*De torturadores sistemáticos para "defensores do povo"

Pedro disse...

"enfim, todos temos que fazer com os ditadores e ditaduras o mesmo que se faz com o horror nazista"

Pessoalmente, acredito que o destino de Mussolini seja mais eficiente.

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