quarta-feira, 25 de março de 2026

COSTA RICA SE ARRASTA AOS PÉS DE TRUMP

gilberto lopes
ExTRADIÇÃO DE NACIONAIS
A imagem dos cidadãos entregues à polícia estadunidense em solo nacional simboliza a abdicação do Estado à sua função soberana de aplicar justiça, num gesto humilhante que nenhuma potência hegemônica admite para si.

Na sexta-feira (20), foram extraditados para os Estados Unidos os dois primeiros costarriquenhos, Celso Gamboa e Edwin López, acusados de narcotráfico, na sequência da reforma constitucional que revogou a disposição que impedia tal procedimento, em vigor até o ano passado.

A Costa Rica deixou de ser um paraíso para o crime organizado, afirmou um jornal, citando políticos nacionais. Na manhã daquele dia, na imprensa, podia-se ver a foto dos dois nas mãos dos agentes da DEA estadunidense, com seus uniformes laranja, prontos para embarcar no avião que os levaria para o Texas.

A foto dizia muitas coisas. Era, para mim, a foto do Estado costarriquenho abdicando de uma de suas funções básicas: a de aplicar justiça. 

Fazia-o de uma maneira humilhante, entregando dois cidadãos a uma potência estrangeira. Uma potência que não entrega seus cidadãos a qualquer Estado estrangeiro.
Também não entrega criminosos estrangeiros que encontraram asilo em seu território, a tribunais nacionais que os exigem. Existem muitos, responsáveis por graves crimes. 

Gostaria de destacar duas coisas que este caso evidencia: uma é o circo para as massas, o tipo de cobertura jornalística, a exploração da tragédia humana.

A outra é que, longe de servir à aplicação da justiça, o pedido de extradição será uma poderosa ferramenta política utilizada de acordo com os interesses de Washington. Ou alguém pensa que isso funciona, por lá, de forma alheia aos interesses políticos?

A extradição de nacionais tem pouco ou nenhum impacto na luta contra o narcotráfico. É preciso refletir um pouco. Não é fácil, quando os fogos de artifício explodem, quando tudo é circo e festa.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a extradição de nacionais tem pouco – ou nenhum – impacto na luta contra o narcotráfico. Veja-se a situação do México ou da Colômbia. 

Ou, de certa forma, a própria situação dos EUA, principal mercado das drogas, ou da lavagem de dinheiro, onde o crime organizado sempre atuou com certa comodidade. Ou não?
"Os entreguistas gostariam mesmo é que a Costa Rica 
se tornasse outra estrela na bandeira dos EUA"

O desenvolvimento e a implantação do crime organizado em nossos países – incluindo os Estados Unidos – têm muitas razões, como um modelo de desenvolvimento cada vez mais excludente na Costa Rica. 

Tal modelo está baseado na implantação de zonas francas, cujas consequências para o crescente desemprego, sobretudo entre os jovens, e o déficit fiscal são bem conhecidas, estimulado pela privatização dos serviços públicos. 

Trata–se de um modelo que o país vem promovendo há mais de 40 anos, incluindo o governo atual.

Não surpreende, de qualquer forma, a posição do governo e do Ministério das Relações Exteriores. Não deram mostras de qualquer independência em seus quatro anos, que terminam agora em primeiro de maio, nem contribuíram em nada para a necessária reflexão sobre o lugar da América Latina na reconfiguração da ordem internacional que está atualmente em desenvolvimento.

Não consigo dissociar a imagem de dois cidadãos costarriquenhos entregues a funcionários da DEA em território nacional, com a desordem política no país, com a vergonhosa unanimidade com que a medida foi aprovada na Assembleia Legislativa, com a necessidade de reivindicar as funções de um Estado Nacional que promova a indispensável solidariedade social, que assuma suas funções não delegáveis, como a de julgar seus cidadãos que devam ser julgados. 

Será exatamente o contrário. Creio que muitos daqueles que ordenaram a entrega de cidadãos nacionais à justiça estadunidense, aqueles que sonham em dolarizar a economia, não conseguem imaginar destino mais feliz do que transformarmo-nos noutra estrela da bandeira dos Estados Unidos. (por Gilberto Lopes,  jornalista e doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica)
Clique aqui e conheça o hino oficial 
das Repúblicas das Bananas americanas

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails