Apesar das agressões explícitas e das armações de bastidores contra mim, tentei dali em diante manter uma coexistência pacífica com o PT.
Decidi só entrar em choque com quele partido quando ele espezinhasse valores fundamentais da esquerda. As medidas governamentais das prefeituras petistas e depois do Governo Lula eu poupava de críticas públicas.
Mas, o diabo é que o PT estava sempre mandando às favas aquilo no que a esquerda acreditava, então não pude deixar barata a injustiça cometida contra o Paulo de Tarso Venceslau, muito parecida com a cometida contra mim em 1970.
Continuavam vivas na minha memória as lembranças da excelente imagem da qual a esquerda desfrutava quando a ditadura militar foi atirada na lixeira da História
Éramos convidados a todo momento, para reuniões com a intelectualidade engajada e nelas recebidos com muito respeito, por termos aceitado o desafio de enfrentar o inimigo fardado mesmo sob um desembestado terrorismo de estado. Se não nossas propostas, pelo menos os enormes sacrifícios que fizéramos eram reconhecidos.
Então, quando dirigentes do PT começaram a chafurdar na mesma lama dos políticos profissionais, foi a gota que transbordou o copo.
Economista competente e petista abnegado, o PT Venceslau (como ele era apelidado) se revoltou com a vinda à tona de denúncias fundamentadas de conluios com a putrefata Odebrecht.
E mais indignado ficou quando, em duas prefeituras comandadas pelo partido (as de Campinas e São José dos Campos) seu excelente trabalho como secretário das Finanças foi interrompido porque ele se recusava a compactuar com a podridão.
O ex-guerrilheiro César Benjamin chegou a fazer, no 10º Encontro Nacional do PT, duras críticas às relações promíscuas do partido com a Odebrecht. Venceslau teve a paciência de aguardar durante dois anos que o Zé Dirceu, a quem ele recorreu, tomasse providências.
As queixas consistiram em que seu afastamento das duas prefeituras se deveu a ele ter-se negado a pagar valores exorbitantes à CPEM, por serviços de consultoria não prestados. A CPEM pertencia a Roberto Teixeira, compadre do Lula, a quem fornecia gratuitamente um apartamento de cobertura no ABC para morar com a família.
Aparentemente, tal desvio ilegal de verbas não se destinava aos bolsos de algum chefão do PT, mas, isto sim, servia para o financiamento de campanhas eleitorais. Mesmo assim, Venceslau tinha total direito de não envolver-se com falcatruas, ainda mais quando cometidas em pastas que estavam sob sua responsabilidade.
Cansado de esperar em vão, Venceslau botou a boca no trombone, em entrevista para o Jornal da Tarde. Como resposta ao escândalo, o partido criou uma Comissão Especial de Investigação, presidida por Hélio Bicudo (o homem que derrotou o Esquadrão da Morte), cuja salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser julgado como corruptor.
Mexeram-se os pauzinhos e tai decisão foi virada do avesso, com a punição do militante digno e a condescendência para com a maçã podre. O boato que então circulou amplamente foi o de que, caso Teixeira fosse expulso como deveria, o Lula ameaçava sair do PT junto com ele.
Acreditando que sua decisão prevaleceria, a Comissão de Investigação incluiu no relatório final este trecho que acabou soando hilário: Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
Fui o único esquerdista a solidarizar-se com o Venceslau m artigo da grande imprensa, embora houvesse muitos militantes renomados que gostariam de fazer o mesmo, mas preferiram permanecer em cima do muro.
Daí o carinho que tenho por esse episódio. Afinal, foi o instante em que o PT se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar (e revolucionário!!!) para preservar uma maçã podre.
Mesmo sofrendo perseguições, eu fiz o que era correto, além de ter acertado em cheio ao prever que a abertura desse precedente abrira a porteira para o desvirtuamento do PT.
Não deu outra e o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma delação premiada referente a corrupção.
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