sábado, 16 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/12

Venceslau, um homem decente até no visual.
Apesar das agressões explícitas e das armações de bastidores contra mim, tentei dali em diante manter uma coexistência pacífica com o PT. 

Decidi só entrar em choque com tal partido quando ele espezinhasse valores fundamentais da esquerda. As medidas governamentais das prefeituras petistas e, a partir de 2003, do Governo Lula, estas eu poupava de críticas públicas.

Mas, o diabo é que o PT estava sempre mandando às favas aquilo no que a esquerda acreditava, então não pude deixar barata a injustiça cometida contra o Paulo de Tarso Venceslau, muito parecida com a cometida contra mim em 1970. 

Continuavam vivas na minha memória as lembranças da excelente imagem da qual a esquerda desfrutava quando a ditadura militar foi atirada na lixeira da História 

Éramos convidados a todo momento para reuniões com a intelectualidade engajada e nelas recebidos com muito respeito, por termos aceitado o desafio de enfrentar o inimigo fardado mesmo sob um desembestado terrorismo de estado. Se não nossas propostas, pelo menos os enormes sacrifícios que fizéramos eram reconhecidos. 

Então, quando dirigentes do PT começaram a chafurdar na mesma lama dos políticos profissionais, foi a gota que transbordou o copo. 

Economista competente e petista abnegado, o PT Venceslau (como ele era apelidado) se revoltou com a vinda à tona de denúncias fundamentadas de conluios com a putrefata Odebrecht. 
Economista e ex-guerrilheiro, ele participou do sequestro 
de Charles Elbrick; acima os presos então resgatados.
E mais indignado ficou quando, em duas prefeituras comandadas pelo partido (as de Campinas e São José dos Campos) 
seu excelente trabalho como secretário das Finanças foi interrompido porque ele se recusava a compactuar com a podridão.

César Benjamin chegou a fazer, no 10º Encontro Nacional do PT, duras críticas às relações promíscuas do partido com a Odebrecht. 

Já Venceslau teve a paciência de aguardar durante dois anos que o Zé Dirceu, a quem ele recorreu, tomasse providências. 

As queixas consistiram em que seu afastamento das duas prefeituras se deveu a ele ter-se negado a pagar valores exorbitantes à CPEM, por serviços de consultoria não prestados. A CPEM pertencia a Roberto Teixeira, compadre do Lula, a quem fornecia gratuitamente um apartamento de cobertura no ABC para morar com a família. 

Aparentemente, tal desvio ilegal de verbas não se destinava aos bolsos de algum chefão do PT, mas servia para o financiamento de campanhas eleitorais. Mesmo assim, Venceslau tinha total direito de não envolver-se com falcatruas, ainda mais quando cometidas em pastas que estavam sob sua responsabilidade.

Cansado de esperar em vão, Venceslau botou a boca no trombone, em entrevista para o Jornal da Tarde. Como resposta ao escândalo, o partido criou uma Comissão Especial de Investigação, presidida por Hélio Bicudo (o homem que derrotou o Esquadrão da Morte). 
Teixeira: maçã podre até no visual

A salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser julgado como corruptor. 

Mexeram-se os pauzinhos e tai decisão foi virada ao avesso, com a punição do militante digno e a condescendência para com seu contrário. O boato que então circulou amplamente foi o de que, caso Teixeira fosse expulso como deveria, o Lula ameaçava sair do PT junto com ele.

Acreditando que sua decisão prevaleceria, a Comissão de Investigação incluiu no relatório final este trecho que acabou soando hilário: 
Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
Fui o único esquerdista a solidarizar-se com o Venceslau em artigo da grande imprensa (o JT), embora houvesse muitos militantes renomados que gostariam de fazer o mesmo, mas preferiram permanecer em cima do muro.

Daí o carinho que tenho por esse episódio em que dei uma pequena amostra do meu valor, por tantos negado durante tanto tempo.

Foi também o instante em que o PT se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar (e revolucionário!!!) para preservar uma maçã podre. 

Mesmo sofrendo perseguições, eu fiz o que era correto, além de ter acertado em cheio na previsão de que a abertura desse precedente escancararia a porteira para o desvirtuamento do PT. 
De resto, o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma delação premiada referente a corrupção. Vinte anos depois, continuavam os mesmos... (
por Celso Lungaretti)

Um comentário:

Anônimo disse...

VLADIMIR SAFATLE
https://aterraeredonda.com.br/pecar-por-idealismo/

https://www.ihu.unisinos.br/665565-o-colapso-do-capitalismo-a-necessidade-de-pensar-novos-mundos-entrevista-com-sabrina-fernandes

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