quinta-feira, 31 de maio de 2018

REPÓRTER DA REVISTA "PIAUÍ" APRESENTA VÁRIOS INDÍCIOS DE QUE HOUVE MESMO TENTATIVA DE GOLPE ULTRADIREITISTA

ABIN E PROCURADORIA INVESTIGAM
 INFILTRAÇÃO MILITAR EM PARALISAÇÃO
Por Allan Abreu, da Piauí.
A Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, investiga a participação de integrantes das Forças Armadas e das Polícias Militares estaduais na greve dos caminhoneiros. O objetivo seria aproveitar o momento de extrema fragilidade política do governo Temer para provocar uma intervenção militar no país.

De acordo com três agentes da Abin ouvidos pela Piauí sob a condição do anonimato, a possível presença de militares entre os grevistas começou a se desenhar nesta semana, quando cresceu a violência contra os caminhoneiros – um deles foi assassinado na 4ª feira, 30 de maio, em Rondônia –, e surgiram atos típicos de sabotagem, como a retirada de parafusos dos trilhos da linha férrea em Bauru, no interior paulista, que levou ao descarrilamento de um trem carregado com combustível, no dia anterior.

Em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, manifestantes bloquearam a entrada do quartel do Exército no domingo, 27 de maio, pedindo intervenção militar no país. No Rio, segundo a Polícia Rodoviária Federal, há indícios de envolvimento de milicianos no movimento. 

A Abin também estranha a falta de pulso da polícia nos mais de 500 pontos de bloqueio de caminhões que se formaram no Brasil nos dias de greve. Os agentes comparam com a paralisação de 2015, que durou três dias. Na época, não houve desabastecimento de combustíveis, alimentos e remédios, como desta vez. “Havia uma ação mais enérgica da polícia. Por que não houve desta vez? É estranho”, questionou um dos agentes.
Abin suspeita do envolvimento de militares no esquema

Na 4ª feira, 30, a Câmara Criminal da Procuradoria Geral da República instaurou procedimentos para investigar se empresários e sindicalistas violaram dois dispositivos previstos na Lei de Segurança Nacional: "tentar mudar o regime político do país com emprego de violência" e “incitar a subversão da ordem política e a animosidade entre as Forças Armadas”, crimes punidos com até 19 anos de prisão.

A Câmara Criminal tem informações sobre a infiltração de militares na greve, mas, nesse caso, segundo a procuradora Luiza Frischeisen, coordenadora da Câmara Criminal, a investigação formal cabe ao Ministério Público Militar. “É algo muito grave que precisa ser apurado”, afirmou Frischeisen. Procurado pela Piauí, o promotor Adriano Alves Marreiros, do MPM, não quis se manifestar. 

As redes sociais e principalmente aplicativos como o WhatsApp têm sido bombardeados com fake news a favor de uma intervenção. Num áudio, um homem se passa pelo general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, exorta “a todos os brasileiros que saiam às ruas nesta 4ª feira [dia 30] pedindo a intervenção militar”. 

Depois, no dia seguinte: “Nós iremos destituir o presidente, junto com o Congresso Nacional e o Judiciário. Devido à corrupção que se instaurou nesse país, faremos um governo interino”. A página (verdadeira) do general no Twitter passou a ser bombardeada de mensagens críticas a ele – muitos chamam Villas Bôas de covarde: “Deixou o povo brasileiro na mão, quando a gente precisou de você”.
INTERVENÇÃO FEDERAL NO RJ DESCONTENTOU CASERNA – “São ações práticas concatenadas com forte propaganda veiculada em aplicativos criptografados. É tudo muito bem pensado, o que nos leva a acreditar que há militares diretamente envolvidos”, afirmou um dos integrantes da Abin. 

A agência mapeou o descontentamento generalizado da caserna com o governo Temer, sobretudo após a intervenção federal na segurança pública do estado do Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano. 

Não são poucos os que consideram o general Sérgio Etchegoyen traidor por integrar a gestão Temer. Ele é ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, a quem a Abin é subordinada. “Há uma crise grave, muito maior do que a greve”, disse um dos agentes.

A própria Abin teve um comportamento heterodoxo na greve, ao deixar de avisar o governo sobre a movimentação dos grevistas nas semanas anteriores à paralisação. Nesta 4ª feira, na tentativa de debelar o movimento, o Palácio do Planalto divulgou um número de celular com WhatsApp, batizado de SOS Caminhoneiro, para que os motoristas de caminhão denunciem casos de coação que os impeçam de retomar o trabalho.

CAMINHONEIROS RUGEM PARA O GOVERNO, INFERNIZAM A SOCIEDADE E MIAM PARA EMPRESÁRIOS QUE OS EXPLORAM

Toque do editor
Quem  são os caminhoneiros com cuja paralisação o público em geral e tantos esquerdistas simpatizam? O melhor perfil traçado nestes dias tem seus principais trechos reproduzidos abaixo. 

É de autoria dos professores de economia Vitor Martins de Araújo (UFBA) e José Dari Krein (Unicamp), tendo sido primeiramente publicado no site do Instituto Humanitas Unisinos (o texto integral pode ser acessado aqui).

Por um lado, o artigo nos faz perceber que os caminhoneiros são extremamente explorados, de forma que era injusto tratá-los como pequenos proprietários promovendo um locaute, tal qual muitos fizeram (inclusive eu, pelo que peço desculpas aos leitores).

Pelo outro, fica igualmente evidenciado que o tipo de exploração que sofrem os torna aliados dos exploradores, com bem pouca disposição (vejam as passagens que grifei no texto) para lutar contra os grandes empresários que os empregam e que são, de longe, os maiores responsáveis por suas agruras.

Então, até merecem nossa compaixão, mas é complicado nós, da esquerda, solidarizarmo-nos politicamente com quem vira o país de pernas pro ar e inferniza a vida dos brasileiros por não querer ou não ousar enfrentar seus inimigos principais, os capitalistas. (Celso Lungaretti)
Autores: José Dari Krein...
"...há algo essencial que não tem aparecido nas discussões: como a forma de regulação do trabalho no transporte rodoviário de cargas é uma raiz da crise. O modo como muitas empresas organizam os trabalhadores que transportam as mercadorias é muito interessante para os seus negócios sob diferentes aspectos, dentre eles, a tendência a externalizar os conflitos distributivos inerentes à produção baseada no trabalho assalariado.

Ao invés de contratar trabalhadores formalmente como empregados, empresas que distribuem suas mercadorias ou aquelas especializadas em transporte de carga contratam centenas de milhares de motoristas como se fossem autônomos (via pessoa física ou jurídica)... 

Não se pode confundir o verdadeiro trabalhador autônomo, aquele não submetido ao arbítrio alheio, com a estratégia de contratação na qual as empresas não admitem sua condição de empregadoras. Motorista autônomo, de fato, é aquele que presta serviços para diferentes clientes, sem depender, nem estar subordinado, a nenhum deles... 
...e Vitor Martins de Araújo.

Quem dita a dinâmica do setor são empresas, sejam elas donas das cargas ou firmas especializadas no próprio transporte. Elas contratam e gerem centenas de milhares de trabalhadores para realizar as atividades de distribuição. Para isso, uma parte dos motoristas é admitida como empregado, enquanto outra fatia, provavelmente a maior, é contratada como se não fosse assalariada, a despeito da sua subordinação aos ditames empresariais. 

No início de 2017, de acordo com a Confederação Nacional dos Transportes, estavam inscritos 1.664 milhões de veículos para transporte de cargas no país, sendo 1.088 milhões de propriedade de empresas e 553 mil vinculados a motoristas classificados como autônomos.

Enquanto isso, segundo a Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho, as empresas de transporte de carga mantinham não mais do que 868 mil trabalhadores como empregados formais, aí incluídos não apenas motoristas, mas todas as demais funções.

...a contratação de motoristas sem a admissão do vínculo de emprego (...) é uma estratégia de gestão do trabalho. É comum motoristas supostamente autônomos (muitas vezes contratados como pessoas jurídicas) trabalharem sempre para a mesma empresa e com exclusividade, em horário e com preços de frete unilateralmente impostos pela contratante. 
Diante do governo eles são verdadeiros leões...

O pagamento desses motoristas depende exclusivamente do número de fretes realizados, e seu trabalho é meticulosamente monitorado por satélite/GPS. As empresas também dirigem as atividades impondo prazos exíguos e multas para atrasos. Em suma, há uma série de evidências da completa falta de autonomia desses autônomos.

É possível ter uma ideia da dimensão da gestão do trabalho via contratação de motoristas sem formalização do vínculo de emprego por meio de dados do Ministério do Trabalho: em 2012, auditorias em apenas 9 empresas de transporte de carga identificaram que 92.654 motoristas de caminhão trabalharam como empregados sem carteira assinada, sendo irregularmente contratados como autônomos pessoas físicas ou vinculados a 20.458 pessoas jurídicas terceirizadas.

Ao contratar motoristas sem admitir sua condição de empregadoras, as empresas não cumprem nenhum direito trabalhista. Assim, tornam a vida desses trabalhadores completamente inseguras, sem sequer uma renda mínima (um salário básico) para sobreviver.

O frete, que, de fato, constitui o salário desses trabalhadores, costuma não obedecer qualquer parâmetro mínimo. Também não há descanso remunerado, férias, etc. O motorista se sente completamente dependente da execução de cada serviço e, por isso, tende a trabalhar mais e descansar menos.
...já para os que tão insensivelmente os exploram eles ronronam!

Apenas nas fiscalizações do Ministério do Trabalho citadas foram identificadas 472.606 jornadas de trabalho superiores a 10 horas por dia. Segundo o órgão, a maioria dos acidentes envolvendo caminhões está relacionado ao cansaço por jornadas excessivas. 

Não parece ser coincidência que, em pesquisa da própria CNT, de 2016, só 23,3% dos motoristas entrevistados ditos autônomos afirmaram estar satisfeitos e cumprindo as normas de descanso e 65% disseram não cumprir a lei, enquanto entre os motoristas empregados, 67% estavam satisfeitos e 51,7% afirmaram cumprir os descansos previstos na lei. Apenas 21% dos autônomos disseram que flexibilidade de horário é um ponto positivo do trabalho.

A questão, do ponto de vista da gestão do trabalho, é que o trabalhador contratado como autônomo tende a ser ainda mais subordinado à empresa, pois sua relação é completamente precária e cada frete pode ser o último.

Mas não para por aí. À negação dos direitos trabalhistas se soma a transferência dos custos dos insumos (combustível, pneus, manutenção, etc.) aos trabalhadores ditos autônomos. Desse modo, além de não ter renda certa, os motoristas têm de cobrir os custos inerentes à atividade, radicalizando sua insegurança. As empresas gastam menos, correm menos risco e têm um trabalhador ainda mais dócil laborando em seu benefício. 
"tende a trabalhar mais e descansar menos"
Não bastasse, ao transferir para o trabalhador o risco do negócio, incluindo os custos dos insumos, as empresas têm conseguido desviar da relação de trabalho o foco da disputa distributiva. Aceitando a condição de autônomo imposta pelas empresas, o motorista tem visto nos preços dos insumos uma fonte de determinação dos seus ganhos mais importante do que o preço pago pelos seus serviços. 

Antes da atual crise, outras mobilizações já traziam como principal demanda o preço do combustível. Segundo a supracitada pesquisa da CNT, 56,4% dos motoristas enquadrados como autônomos considerava o custo do combustível o principal problema do seu trabalho (contra apenas 24,9% dos contratados como empregados), e apenas 1% apontava o valor do frete como a reivindicação mais importante para a categoria.

...Estamos tratando da atividade em que mais morrem empregados no Brasil todos os anos, segundo as fontes oficiais  mais de 10% dos mortos no conjunto do mercado de trabalho formal, consideradas as atividades isoladamente.

Como a subnotificação dos infortúnios pode chegar a 90% entre todos os trabalhadores acidentados no Brasil, ela provavelmente é pior no setor de cargas, dado o desproporcional contingente de motoristas não admitidos como empregados formais.
"Empresas transferem ao trabalhador o custo dos insumos"

Vale ressaltar que a regulação pública do trabalho, seja nas leis, seja na atuação das instituições, têm contribuído para legitimar esse cenário. A contratação de trabalhadores como autônomos pelas empresas não é novidade no setor, mas parece ter piorado.

A regulação (...) tende a legitimar e recrudescer essa estratégia, ainda mais estimulada com a recente reforma trabalhista. No Judiciário, a disputa sobre os limites ao uso de motoristas de carga como assalariados disfarçados está suspensa desde o final de 2017, por conta de uma liminar do STF concedida por Luís Roberto Barroso.

A regulação (...) tende a legitimar e recrudescer essa estratégia, ainda mais estimulada com a recente reforma trabalhista. No Judiciário, a disputa sobre os limites ao uso de motoristas de carga como assalariados disfarçados está suspensa desde o final de 2017, por conta de uma liminar do STF concedida por Luís Roberto Barroso.

O processo de disputa focado no preço dos insumos não é determinístico. Mesmo no assalariamento disfarçado dos motoristas contratados como autônomos, a luta poderia ser por melhores salários. A rigor, a demanda está presente na atual greve, pois a tabela com preço mínimo do frete é apenas um eufemismo para uma espécie de salário mínimo. 
Transporte de carga tem altos índices de letalidade
Todavia, tal demanda está longe de ser a pauta que tem sido mais enfatizada. Os motoristas parecem mesmo assumir a retórica empresarial de que são autônomos, de modo que sofrem, morrem, mas não demandam serem menos explorados por seus empregadores.

Quase todas as análises sobre o movimento dos caminhoneiros, assim como ocorre em outros casos em que o assalariamento não é explícito, assimilam acriticamente a condição de autônomos dos trabalhadores, sem perceber que a própria designação é um elemento central da gestão do trabalho pelas empresas. Enquanto isso, por ser no custo do insumo a disputa que estamos assistindo, os empresários se aproveitam da afinidade eletiva entre patrões e empregados, e apoiam (ou mesmo promovem) as paralisações.

A regulação do trabalho é um elemento estrutural para entender os eventos recentes no Brasil. Trabalhadores são precarizados e geridos pelas empresas de tal modo que direcionam seus esforços sem perceberem ou serem capazes de enfrentar quem fundamentalmente impõe seus baixos rendimentos, grande instabilidade e péssimas condições de trabalho".

quarta-feira, 30 de maio de 2018

"QUASE 9 EM CADA 10 BRASILEIROS ESTÃO EM REVOLTA DESNORTEADA"

Por Celso Lungaretti
Reproduzo o artigo abaixo do comentarista político e econômico Vinícius Torres Freire por ele estar certíssimo quanto às contradições que flagra nas opiniões do povo, dos políticos e de contingentes majoritários da esquerda brasileira sobre a paralisação dos caminhoneiros.

Mas, deixo registrada a ressalva de que Freire também erra, ao dar a entender que a explosão, a agonia crônica e a inflação têm como alternativa cortes (de despesas) e rediscussão da divisão do bolo

Como há muito venho alertando e o Dalton Rosado esmiuçando, o capitalismo está em sua agonia final, que ainda pode tardar umas poucas décadas mas é inexorável e inevitável.

Então, a alternativa verdadeira é a revolução, pois, seja para qual lado se estique o cobertor do capitalismo, sempre haverá uma parte do corpo descoberta (com o agravante de que tal parte não pára de crescer). 

Mas presumo que, mesmo se Freire concordasse comigo, não lhe permitiriam afirmá-lo nas páginas da Folha de S. Paulo...

Por Vinícius Torres Freire
PAÍS SE REVOLTA
CONTRA SI E NÃO SABE
Um tanto como no junho de 2013, no maio de 2018 há uma revolta quase geral dos brasileiros contra si mesmos, mas os revoltados não sabem disso. 

Acreditam que a culpa de tudo que está aí é do bode expiatório de duas cabeças, a corrupção e a política, que nos impede de chegar até o fim do arco-íris, onde se encontra o pote de ouro a ser aberto e dividido para benefício geral, sem conflitos.

Pesquisa Datafolha mostra que 87% dos brasileiros são a favor da paralisação dos caminhões. Também 87% recusam a solução de aumentar impostos ou cortar gastos a fim de pagar a conta do diesel. 

Caso os caminhões continuem parados, 88% acham que o governo deve continuar a negociar uma solução, sem recorrer à força. 

Mais da metade dos brasileiros, 56%, acha que o paradão caminhoneiro deve continuar, sem mais.

Quase nove em dez brasileiros estão em revolta desnorteada, uma escassa explicação restante para o apoio quase irrestrito a um protesto que está ou esteve à beira de levar economia e relações sociais ao colapso. 
"Uma elite política quase toda desprezível"
Anos de recessão, de escândalos corruptos e a nova revolta contra impostos e governantes em geral acabaram com a paciência.

Uma elite política quase toda desprezível e que sequestrou o país acabou com a esperança. 

A classe dirigente toda, elites de variada espécie, não são muito melhores, pois tolera essa escória, quando não é cúmplice.

Mas o povo que se revolta contra a mão pesada dos impostos é o mesmo que quer a mão do governo a balançar o berço, subsídios para todos. 

O neopopulismo diz que não há conflito social e político na disputa por recursos públicos e privados. O inimigo é o governante malvado, o corrupto.

As principais lideranças políticas, numa combinação de ignorância, irresponsabilidade e oportunismo demagógico, deixam circular por aí a ideia de que há maná para todos, que não há apropriação excessiva ou indevida de recursos públicos ou injustiças outras. 

Essa fantasia está para acabar, de um modo ou de outro. Os recursos públicos chegarão ao limite no ano que vem ou em 2020.

Sem cortes e rediscussão da divisão do bolo, a disputa será feroz e nenhuma saída será indolor.

Candidatos a presidente ratificam a ilusão geral de que combater a corrupção ou cortar cargos comissionados pode dar conta do problema. Líderes do Congresso dizem que há sobras orçamentárias.

O paradão caminhoneiro e suas repercussões são um ensaio geral para a crise fiscal que virá. 

Pode ser uma explosão, se tentarem resolvê-la por meio de mais endividamento. Pode ser uma agonia crônica, morte nacional lenta, se for resolvida apenas no corte de gastos, sem mudanças estruturais. Pode ser uma inflação, com o que a vida será um inferno, mas um tanto mais fresco para os ricos, com a miséria ficando para os mais pobres. 

Mas a crise virá. Como eu já escrevi em julho de 2013: “O povo das ruas vai descobrir que o pote de ouro é pequeno; que redividi-lo vai exigir conversa ou conflito. Talvez descubra que boa parte do ouro não está no castelo estatal. No fundo desse castelo do tudo que está aí, enfim, tem um espelho”.

CAMINHONEIROS DO MUNDO, UNI-VOS!

David Emanuel Coelho
Conforme diz Einstein, é necessário ver o problema por vários ângulos. 

CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS – No meu artigo anterior, fiz uma breve consideração sobre o período pós-impeachment, mostrando como uma espécie de maldição recaiu sobre seus autores. Tudo não poderia ter ficado pior. 

Basicamente, o impeachment foi pautado por dois axiomas: imposição de contrarreformas neoliberais e freagem da Lava Jato. Quanto ao segundo ponto, o fracasso é notório, tendo as investigações não apenas continuado, mas também se ampliado. Com relação ao primeiro, no entanto, houve uma vitória parcial.

A burguesia nacional respondeu às manifestações de 2013 impondo um programa de aprofundamento neoliberal. O objetivo era cortar gastos sociais, desregulamentar o mercado de trabalho e ampliar ganhos especulativos. Isto num quadro de crise econômica, causada pela queda de ganhos com a venda de commodities. O resultado não poderia ser outro que não uma degringola generalizada: desemprego, aumento da pobreza, queda da produção, crise fiscal, etc. 

Houve também um elemento importante neste contexto, qual seja o aumento do endividamento. Na verdade, muito do endividamento já existia no período anterior a 2013, tendo sido contraído na época de isenção dos anos 2009-2012, quando, lembremos, o governo desonerou inúmeros setores da produção e facilitou o acesso ao crédito. Era o próprio Lula, ainda presidente, quem conclamava a população a comprar geladeiras, fogões e máquinas de lavar. “Não deixem de realizar o sonho de vocês”, dizia ele. O sonho, contudo, virou macabro pesadelo. 

O estado de coisas piorou ainda mais com o ajuste efetuado sobre serviços e insumos fundamentais. Abandonando sua antiga política de controle de preços, Dilma liberou reajustes generalizados em inúmeros serviços públicos.
"Não deixem de realizar o sonho de vocês", dizia Lula

Os preços da gasolina e da eletricidade, p. ex., foram reajustados na semana seguinte à sua eleição para o segundo mandato, abrindo a porteira para medidas idênticas em outras áreas. Pode-se dizer tranquilamente que Temer apenas prosseguiu, radicalizando, tal política de ajustes inaugurada por Dilma. 

A paralisação dos caminhoneiros insere-se neste contexto.

Em primeiro lugar, é preciso entender quem são os caminhoneiros. Dados da Confederação Nacional dos Transportes e de pesquisadores oficiais podem ajudar a compreender este ponto. 

Existem basicamente dois tipos de caminhoneiros: os autônomos e os de frota. Os primeiros possuem o próprio caminhão e trabalham por conta própria. Os segundos são funcionários de empresas. 

De acordo com a CNT, os autônomos são por volta de 374 mil. O número total, porém, é maior, pois consideram-se aqui apenas os proprietários dos caminhões filiados à própria CNT, sendo que muitos caminhoneiros não são filiados e há outros tantos que trabalham em regime informal de parceria. Conforme o sociólogo Ruy Braga, os caminhoneiros autônomos perfazem em torno de 70% do contingente nacional deste setor, mensurado em cerca de 2 milhões de pessoas. 

Ainda segundo os dados do CNT, cerca de 60% dos caminhoneiros autônomos possuem no máximo o ensino fundamental, idade média de 45 anos e uma renda mensal média de R$ 4 mil. Costumam fazer jornadas diárias de mais de 11 horas, cobrindo cerca de 10 mil km por mês.

Um dado interessante é a idade média dos caminhões. Há praticamente um empate entre os caminhões com idade anterior a 1995, 36%, e posterior a 2006, 35%. Este dado mostra que a frota é um misto de relíquias com veículos novos, só tendo começado realmente a se renovar a partir das isenções e incentivos à compra.
Grande causa de acidentes: caminhoneiro exausto dorme no volante
O histórico de paralisações dos caminhoneiros também é um elemento interessante. As maiores foram em 1979, 1986, 1999, 2015 e agora. Ou sejam, coincidiram com períodos de aguda crise econômica e política. Ou seja as paralisações sempre vieram em períodos de forte mobilização dos trabalhadores. 

Por fim, é importante considerar o quase monopólio do transporte rodoviário no Brasil. 66% das cargas são transportadas por caminhões. 

A partir deses dados todos, podemos ter uma compreensão inicial de quem são os caminhoneiros. 

A industrialização brasileira coincidiu com a era do automóvel. Outros países tiveram sua industrialização em um período nos quais dominavam trens e navios. No caso brasileiro, não apenas houve uma coincidência, como foi também o automóvel quem impulsionou nosso desenvolvimento industrial.

É muito mais barato construir uma estrada de rodagem do que uma estrada de ferro. Em 2014, de acordo com a Associação Nacional de Transporte Ferroviário, o custo médio de uma estrada de ferro era de US$ 1,5 milhão por km, enquanto uma estrada de rodagem custava em média US$ 200 mil por km. Ou seja, uma estrada de 100 km, p. ex., sairia por US$ 150 milhões se fosse de ferro e US$ 20 milhões sendo de rodagem, uma diferença e tanto! 

Além disto, a rodovia proporciona uma flexibilização do sistema de transporte muito maior. A ferrovia exige a constituição de conglomerados de transporte ferroviário, compra de locomotivas, vagões e uma sofisticada rede centralizada para o controle do fluxo. Já o sistema de rodagem é bem mais simples, basta você ter um veículo e sair com ele rodando. 
"É muito mais barato construir uma rodovia do que uma ferrovia"

Daí a superioridade do sistema rodoviário do ponto de vista econômico e de simplicidade logística, motivo pelo qual ele é amplamente adotado no Brasil, um país continental, complexo e multifacetado. 

Na prática, o capitalismo brasileiro organizou o setor de transportes de forma semi-anômala. Pelo fato de que basta ter um veículo para estar engajado na dinâmica do transporte, a burguesia nacional não investiu em explorar o setor por meio de empresas tradicionais, preferindo controlá-lo indiretamente, via fretamento.

Aproveitando-se do grande contingente populacional não absorvido diretamente pela indústria ou pelos serviços – em grande parte devido à baixa escolaridade, baixa oferta de empregos ou excesso de contingente , foi possível ao capitalismo nacional recrutar milhões de pessoas, pois oferecia-lhes, como atrativo, a possibilidade de obterem um ganho superior ao auferido pelos trabalhadores com a mesma escolaridade ou condição social. 

Ao mesmo tempo, ao não estabelecer uma relação trabalhista tradicional, a burguesia pode se abster de custos adicionais. Na prática, o risco do negócio fica com cada caminhoneiro, que pode ou não ser convocado a prestar o serviço, de acordo com a demanda produtiva do sistema econômico. 

Aqui vem a ilusão que faz muitos enxergarem os caminhoneiros como empresários. A ilusão está no fato de eles possuírem o próprio meio de subsistência e emularem agentes econômicos burgueses. Esta ilusão pode aparecer até para os próprios caminhoneiros, fazendo com que se identifiquem mais com a classe burguesa do que com a trabalhadora.  
"Conservadores e deslocados em relação aos demais trabalhadores"

No entanto, é uma falsa consciência. Os caminhoneiros não controlam seu próprio negócio. Este é determinado pelo alto, de modo difuso, pelo verdadeiro empresariado, por meio do frete.

A atomização dos caminhoneiros favorece uma acirrada concorrência entre eles, levando-os à realização de longas jornadas e à submissão a condições de trabalho inapropriadas – que seriam difíceis de implementar em relações tradicionais de trabalho. Isto favorece a queda do valor do frete. 

O caminhoneiro vive sempre pressionado pelo empresariado (de cujo frete depende para sua sobrevivência), pelos custos e pela concorrência. 

Esta condição atomizada, o desenraizamento – pois estão sempre em movimento – e a ilusão de serem agentes econômicos burgueses, os tornam mais conservadores e deslocados em relação ao restante da classe trabalhadora. Por isto, normalmente, eles se levantam quando ocorre uma pressão direta sobre eles, seja como consequência de uma queda do frete ou de um aumento significativo dos custos. 

GREVE OU LOCAUTE? – Tal questão, na verdade, é um falso problema. Resume-se a uma filigrana jurídica não aplicável no caso dos caminhoneiros. E por que não é aplicável? Justamente pelo caráter peculiar de organização deste setor do trabalho. 

As definições de greve e locaute se aplicam ao campo das relações trabalhistas tradicionais, com o empregado estando organizado numa empresa delimitada. Os setores industriais e de serviços são amplamente organizados deste modo. Os transportes, não. 
"São submetidos a uma dinâmica pulverizada de controle econômico"

Conforme vimos acima, o setor de transportes é atomizado e semi-anômalo. O controle patronal é exercido por via indireta, via frete. Não existe uma relação patrão-empregado, a rigor, mas uma dinâmica pulverizada de controle econômico.

Na prática, o caminhoneiro está por conta própria. Mas seu sustento só é conseguido mediante a liberação de fretes pelos produtores. E nisto reside sua tragédia. 

A ilusão referida de que eles operam por uma lógica empresarial, sugere o locaute. No entanto, a dinâmica social ampla e a dependência completa de um terceiro – o produtor – faz surgir a condição de greve. A rigor, deveríamos dizer que não é uma coisa, nem outra, e chamar simplesmente de paralisação. 

A paralisação dos caminhoneiros surge em resposta às políticas de ajuste  dos governos Dilma e Temer. Obviamente, os caminhoneiros não conseguem conceitualizar sua prática a este nível, entrando aí a análise científico-filosófica. 

Pedro Parente foi colocado na Petrobrás para impor ali a lógica financista e preparar a venda definitiva da empresa. Diminuiu a produção nacional de diesel e gasolina, tornando mais de 30% das refinarias nacionais ociosas. Em troca, ampliou a importação de combustíveis, fazendo pressão sobre os preços, sobretudo em momento de desvalorização cambial. O Brasil passou a exportar petróleo barato e comprar derivados caros. 

Contudo, sua ação mais contundente não foi esta. Em decisão irrealista, passou a transferir imediatamente ao consumidor a variação no preço do barril e do dólar, o que praticamente transformou o país inteiro numa gigantesca bolsa de valores, com aumentos diários.
"Transformou o país inteiro numa gigantesca bolsa de valores"

Para os caminhoneiros foi como uma bomba atômica. Com uma matriz energética caduca, o Brasil depende profundamente do diesel para mover caminhões e ônibus. Aumentos diários, somados à queda dos fretes, pressionaram a renda dos caminhoneiros ao ponto da quebra geral. 

A imprevisibilidade fez com que ficasse impossível fechar qualquer contrato, pois, ou o caminhoneiro assumiria o ônus da diferença entre o acordado e o custo final, ou simplesmente não fecharia o acordo, o que, obviamente, vai contra a existência da categoria. 

Num movimento que partiu de baixo para cima, os caminhoneiros organizaram uma gigantesca e potente paralisação, levando o país à paralisia. 

A pauta é fundamentalmente econômica, mas, como tal, tem uma forte componente política. Neste caso, uma pauta de confronto aos ajustes promovidos na Petrobras. Em última instância, no entanto, significa também um abalo do próprio governo e de seu regime, sustentado no financismo. Daí a paralisação ter assumido ares de insurreição, pois atacava o coração neoliberal do governo. 

Contudo, isto aconteceu de forma involuntária, pois a reivindicação do setor era apenas pela diminuição do preço do diesel. Porém, uma pauta setorial acabou ganhando ares de universalidade justamente por atingir, indiretamente, o cerne da lógica do regime acumulativo imposto após 2013.

O governo, obviamente, sabia disto e sabia que não poderia abandonar sua política de ajustes. Por isto, num primeiro momento tratou de fingir-se de morto e apostar no fracasso da mobilização. Com o país já parado, foi obrigados  negociar. 
"Governo fingiu de morto, apostando no fracasso da mobilização"

A mídia, desde o primeiro momento, ditou o caminho de negociação do governo. De modo algum deveria ser mudada a política de preços e ajustes. O único caminho aceitável seria a desoneração do setor. 

Globo, Folha e Estadão se pautaram entre a demonização do movimento, acusações de locaute, terror pelos efeitos da paralisação e defesa intransigente da política de Pedro Parente. 

No entanto, o biombo de ajustes e contrarreformas já está rachado de alto a baixo. A própria iminência de um levante popular de proporções gigantescas impôs um recuo no fôlego neoliberal da plutocracia brasileira. Certamente, os candidatos eleitorais terão de repensar o discurso que usarão e cometer menos sincericídios. 

Entretanto, é importante ressaltar que não virá dos caminhoneiros uma suposta liderança rebelde. Por suas características, poderão até simpatizar com algum tipo de mobilização ampla, e este ou aquele poderá aderir. Mas o conjunto só se mobilizará por questões estritamente relacionadas à sua categoria, pois lhes falta a devida organicidade para criarem consciência política e de classe coerentes. 

O que fica da paralisação deles é o espírito de luta e o dedo colocado na ferida do regime. As medidas do governo para debelar o movimento poderão levar a consequências ainda mais problemáticas no futuro, podendo servir de combustível para novas agitações no país. O cheiro de diesel queimado ainda será sentido por muito tempo.  

terça-feira, 29 de maio de 2018

O QUE O GOLPE DE 1964 NOS ENSINA SOBRE AS AMEAÇAS ATUAIS

"Povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la"
Hoje certamente existem um ou mais esquemas golpistas de extrema-direita atuando na caserna, mas todos os indícios são de que esteja(m) numa fase bem embrionária. Mesmo assim, o locaute dos caminhoneiros pode gerar situações de descontrole muito perigosas. 

Vale a pena, então, relembrarmos o golpe de 1964, para fins de comparação.

O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. Os conspiradores, nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas e resolveram precipitar as coisas: convenceram os comandantes das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial.

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:
— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente  (a Rede da Legalidade);
1961: governador valente e general legalista barraram o golpe
— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e
— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM. Só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois.
O arcebispo de SP convenceu seu rebanho a ajudar os lobos
O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o cabo Anselmo, que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato. 

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, o Moisés, era um dos líderes dos marinheiros e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. O Moisés me contou como ele e os marujos atiraram no mar um capitão que veio prendê-lo. O oficial, furibundo com a humilhação que sofrera, ingressou no Cenimar após o golpe e o que mais fez foi perseguir o Moisés, com o propósito obsessivo de capturá-lo para o torturar até a morte.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. 

Com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro; daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe.
O que estaria o cabo Anselmo realmente festejando?

A ruptura da ordem legal àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada pelo presidente Lyndon Johnson. 

A CIA favorecia e financiava os conspiradores há muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhe daria sinal verde, assim como não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba). 

A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um texano anticomunista que comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe, tanto que, a partir daí, só transcorreriam quatro meses e uma semana até Olympio Mourão Filho começar a descer a via Dutra com suas tropas.

OBTUSOS IRASCÍVEIS NO PODER? – Tanto quanto então, hão de existir esquema(s) golpista(s) tentando fazer a cabeça dos comandantes militares hoje em dia, mas, presumivelmente, em estágio bem inferior ao do dispositivo que fracassou em agosto de 1961. Se, por um milagre, gente tão despreparada (pelo que se depreende de suas ações e de sua retórica) obtivesse êxito, teríamos obtusos irascíveis no poder. Seus principais quadros são vira-latas mesmo para os pouco exigentes padrões da direita brasileira. 
Fake: Art. 142 coloca Temer como "a autoridade suprema"!
Não devemos, contudo, subestimar a possibilidade de que a situação, por força de uma ocorrência impactante como a morte de um caminhoneiro, escape do controle, com o desafio à autoridade constituída, os confrontos violentos e o desabastecimento se generalizando pelo país. Algo assim jamais deve ser descartado quando um governo é fraco como o do Temer.

Aí o golpe poderia ganhar dinâmica própria, embora a virada de mesa não seja, em princípio, desejada nem pelos donos do PIB, nem pelos EUA. Mas, se ficar complicado detê-la, ambos tratarão é de enquadrar os novos mandatários, para que seus interesses continuem prevalecendo. 

É tudo de que a esquerda brasileira não precisa neste instante.
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