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Artigo que escrevi para o Jornal da Tarde (SP), transtornado pela morte de Senna. |
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.
O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.
São os gladiadores do século XX, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos – principalmente os circulares da Fórmula Indy –lembram o visual das arenas romanas).
Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.
Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.
Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".
Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha – sua, dos outros ou do equipamento – poderá ser fatal.
Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.
Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.
Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes – e perigosíssimas – corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.
Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.
Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias.
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Senna é longamente entrevistado (102 minutos) no programa Roda Viva, da TV Cultura.
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Senna é longamente entrevistado (102 minutos) no programa Roda Viva, da TV Cultura.
11 comentários:
um artigo enorme sobre o idiota do airton senna e nenhuma palavra sobre Belchior , ou sobre o poeta gaucho que morreu no mesmo dia que o idolo da industria automobilistica. quanta pobreza . e fala sobre revolucao.
Trabalhei tempo demais como jornalista profissional para, agora, continuar no mesmo esquema de escrever coisas por obrigação. Negativo. Se fosse um blog com patrocínios, até faria algum sentido. Mas, não é. Então, eu me reservo o direito de escrever sobre aquilo que realmente me motiva.
Cheguei até a pensar em fazer um post sobre o Belchior, mas não encontrei o que dizer sobre ele. Nunca me emocionou e eu nem sabia se ele estava vivo ou morto.
Dos cearenses, eu curti o Fagner, Ednardo, Rodger, Teti e simpatizei com a Amelinha quando a encontrei num evento qualquer.
O Belchior não me impressionava, mas certa vez tive de fazer uma revista inteira sobre ele e o entrevistei por umas duas horas. Até que nos demos bem, foi um papo gostoso, informal. Mas, não rolou nada de realmente inédito ou interessante. Tanto que não me lembro de uma única afirmação dele. E ficar repetindo o que outros escrevem nunca foi do meu feitio.
Quanto ao poeta Mário Quintana, ele morreu no dia 5, não no dia 1º. Mas não vou escrever nada sobre ele também. Vejo mérito na poesia dele, mas também não bate com meu gosto. Daí não conhecer quase nada sobre o autor.
Quando eu estava no movimento estudantil, esforçava-me por conhecer tudo e ter uma opinião
sobre todos. Temia não ter opinião a dar nos papos de boteco. Quando cresci, passei a preferir conhecer profundamente aquilo a que dou importância e deixar o resto pra lá. Aproveitei melhor meu tempo assim.
humildemente te sugiro que humildemente o senhor leia o artigo belchior, um de nos por fran alavina no blog outras palavras que talvez o senhor apreenda alguma coisa da obra de belchior que eu pressuponho o senhor nunca olhou com interesse. e se o blog do senhor nao tem patrocinios entao fica dificil de entender a postagem ate regular ja que sendo assiduo de seu blog sei como eu disse de artigos de demetrio magnoli um fascista empedernido que pode ser lido em qualquer grande midia a exaustao . sem ofensa com um abraco.
Joseph,
como te disse, achei o Belchior um sujeito agradável quando o entrevistei, mas sua obra não me encanta. Fazer o quê? Se eu continuasse sendo um crítico de música profissional, como eu fui, seria uma pauta obrigatória. Como mantenho este blogue por mero prazer de compartilhar as informações que detenho e as análises que eu produzo, não vejo motivo para fazer algo que para mim seria apenas obrigação. Tive 34 anos de obrigações, não preciso de mais.
Quanto ao Demétrio Magnoli, nem de longe é um fascista, já emitiu opiniões que me irritaram profundamente, mas também já escreveu análises geniais. Retruquei as primeiras e publico as segundas.
Quem colocava as pessoas no index era a Igreja, no tempo do Torquemada. Aqui eu aprovo ou reprovo a opinião que cada um manifesta, mas me recuso a encará-lo previamente como um pária a ser silenciado. Deixo isso para os verdadeiros fascistas e para os stalinistas.
como sou fascista e stalinista devo encerrar minha participacao no seu blog . ja estou no seu index.
Não tome por pessoal o que não era. Estava criticando um tipo de comportamento muito comum nas novas gerações, de catalogarem alguém de forma apressada e fecharem os olhos e os ouvidos a tudo que dele provenha. Foi você que julgou de forma tão leviana o Demétrio Magnoli; longe de mim fazer o mesmo consigo.
De resto, não tendo patrocínio nenhum, também não sou obrigado a bajular "clientes". A relação que você estabeleceu com este blog não era uma relação de consumo, não deu pra perceber?
E eu não tenho nenhum index. Já respondi a um processo decorrente da censura à imprensa durante a ditadura de 1964/85 (afora 4 outros por integrar organizações que resistiam aos militares), mas nunca censurei ninguém e, em todos os veículos que editei, sempre dei o máximo de liberdade à minha equipe.
Fique ou vá, mas pelos motivos certos. Esses não procedem.
fico porque gosto de seu blog e admiro quem admira marighella e lamarca mas nao preciso mais comentar . obrigado. respeito e uma palavra melhor para nao parecer um culto a personalidade
Fico contente, companheiro. O fato é que vc nunca encontrará uma pessoa que se identifique totalmente contigo; nem esposa, nem namorada, nem parente, nem amigo, nem artista, nem articulista...
Para irmos levando a vida, aproximamo-nos daqueles com quem temos mais afinidades do que discrepâncias. E às vezes nos sentimos frustrados, quando a discrepância se dá com relação a algo que tenha maior valor sentimental para nós.
Eu preferiria satisfazer as expectativas de todos os leitores, mas de que isto valeria se eu não estivesse sendo sincero? Tem gente demais fazendo média e enganando os outros por aí, eu tento ser autêntico, mesmo que isto mais me prejudique do que ajude, quanto à difusão do meu trabalho.
Agrada-me pensar que eu esteja deixando algumas sementes para quando a esquerda começar a questionar pra valer suas posturas das últimas décadas e perceber que precisa reconstruir-se, tanto em termos de definições políticas quanto de valores morais.
Abs.
Um complemento que só me ocorreu agora, Joseph. Editei revistas de música até o último dia de 1984, mas a crise do papel acarretou a extinção de metade do lote e as restantes não me garantiam mais o necessário para sobreviver, então tive de procurar outros nichos do jornalismo e nunca mais voltei para a área de Variedades, que era a minha preferida.
Então, depois de mais de três décadas focado em economia e política (principalmente), algumas coisas eu já nem me lembrava mais, como o motivo específico de, como eu disse, a música do Belchior "não me encantar". Inexistindo obrigação profissional, passei a escutar apenas os artistas que me encantavam e deixei o resto pra lá, Belchior incluso.
Agora, contudo, como o Dalton Rosado usou como epígrafe do seu artigo de hoje versos da música "Como nossos pais", lembrei-me do porquê: a posição dele era contrária aos rumos que a Geração 68 tomou, ora dizendo que nada havia realmente mudado, ora criticando quem "sonhava" enquanto outros "se desesperavam" (como se houvesse algo de prático a fazermos contra a ditadura a partir de 1971, quando qualquer forma de resistência ostensiva nos conduzia invariavelmente às câmaras de tortura ou ao caixão de defunto).
Eu lutei conscientemente, sem desespero, enquanto havia a mínima chance de vitória. Depois, quando saí da prisão em frangalhos, os sonhos das comunidades alternativas me salvaram do desespero, da loucura e talvez até do suicídio. Achei tais versos pra lá de preconceituosos.
E adorando o sentimento contundente de revolta expresso nos blues, achei uma verdadeira heresia compará-los às banalidades dos Carlos Gardéis da vida ("Por força desse destino, o tango argentino me vai bem melhor que o blues").
Enfim, eu sempre fui um filho espiritual da nova esquerda, e o Belchior estava nitidamente ancorado na esquerda velha. Daí sua arte não me agradar.
eu te entendo perfeitamente . meu pai era um comerciante pequeno burgues e ligado ao partidao de prestes e stalinista . minha casa era ponto de encontro noite adentro dos amigos comunistas de meu pai . eu era um garoto de cidade pequena que ouvia os beatles e os novos baianos enquanto o pau quebrava . como eu nao estudei o marxismo e meu pai dizia que sem o conhecimento marxista nao se esta preparado para o embate ideologico gosto de todos que com menos ou mais sacrificios vao de encontro aos que nao tem a minima consideracao pela vida do outro. sou um homem simplorio meu amigo mas sei reconhecer uma boa causa. um abraco fraterno.
Pra vc também, Olyntho! Depoimentos como o seu aquecem nossos corações.
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