segunda-feira, 31 de outubro de 2016

BALANÇO FINAL: O NÃO-VOTO BOMBOU NAS CIDADES MAIS PRÓSPERAS DO PAÍS E A ESTRELA DO PT APAGOU.

Os pleitos municipais de 2016 revelaram um enorme desencanto do eleitorado com o Partido dos Trabalhadores em particular e com a política em geral, tanto que não-voto (abstenção, nulos e brancos) superou a votação dos prefeitos eleitos por cidades como São Paulo, o município brasileiro com maior PIB; Rio de Janeiro, o 2º da lista; Belo Horizonte, o 4º; e Porto Alegre, o 8º. Vale lembrar que em Brasília, o 3º, inexiste o cargo de prefeito.

Nas dez cidades restantes com maior peso político e econômico, o percentual dos que mandaram às urtigas a escolha do novo prefeito foi de:
  • 34,84% em São Paulo, totalizando 3.096.304 eleitores, enquanto o eleito, João Doria (PSDB), obteve 3.085.187 votos;
  • 41,53% no Rio de Janeiro, totalizando 2.034.352 eleitores, enquanto o eleito, Marcelo Crivella (PRB), obteve 1.700.030 votos;
  • 38,50% em Belo Horizonte, totalizando 742.050 eleitores, enquanto o eleito, Alexandre Kalil (PHS), obteve 628.050 votos;
  • 39,48% em Porto Alegre, totalizando 433.751 eleitores, enquanto o eleito, Nelson Marchezan Jr. (PSDB), obteve 402.165 votos;
  • 32,74% em Curitiba, totalizando 422.153 eleitores, enquanto o eleito, Rafael Greca (PMN), obteve 461.736 votos;
  • 31,86% em Salvador, totalizando 620.662 eleitores, enquanto o eleito, ACM Neto (DEM), obteve 982 246 votos;
  • 25,13% em Fortaleza, totalizando 425.414 eleitores, enquanto o eleito, Roberto Cláudio (PDT), obteve 678.847 votos;
  • 22,30% em Recife, totalizando 257.394 eleitores, enquanto o eleito, Geraldo Júlio (PSB), obteve 528.335 votos;
  • 17,30% em Manaus, totalizando 217.540 eleitores, enquanto o eleito, Artur Neto (PSDB), obteve 581.777 votos;
  • 39,28% em Campinas (SP), totalizando 322.875 eleitores, enquanto o eleito, Jonas Donizette (PSB), obteve 323.308 votos.
Ou seja, quem realmente venceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre foi Ninguém, não aquele que sentará na cadeira de prefeito.

E os estados nordestinos continuam tardando em sintonizar-se com o sentimento predominante nas regiões economicamente mais desenvolvidas (aquelas que, segundo Karl Marx, apontam o rumo que as demais seguirão). Em 2014, salvaram Dilma Rousseff da derrota. Dois anos depois já estão rejeitando o PT, mas ainda não estenderam tal rejeição às demais forças da política oficial. Atingirão tal estágio em 2018?

Segundo o Congresso em Foco (vide aqui), o PT despencou de 24,2 milhões de votos obtidos nos dois turnos das eleições para prefeito de 2012 para 7,6 milhões agora, além de passar a comandar uma única capital brasileira (Rio Branco) e de sofrer dolorosa derrota no ABCD paulista, berço político de Lula.
Está pagando caro pela postura que começou a assumir já na década de 1980 e depois foi aprofundando cada vez mais: o abandono dos ideais revolucionários e consequente aposta na melhora das condições econômicas dos explorados sob o capitalismo.

Ou seja, prometeu conduzir a classe operária ao paraíso pelo caminho tão fácil quanto ilusório das urnas; e, previsivelmente, não conseguiu cumprir a promessa. Daí estar agora sendo visto pela maioria dos brasileiros como farinha do mesmo saco, não mais uma exceção à venalidade generalizada, mas tão somente a confirmação da regra de que o homem comum nada de bom deve esperar dos podres Poderes e de quem deles participa.

Isto porque o PT (e boa parte da esquerda não-petista) não levou em conta duas evoluções muito importantes do quadro político e econômico.
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O CAPITALISMO AINDA RESISTE
MAS SUA AGONIA É IRREVERSÍVEL.
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O capitalismo continua minado pela contradição fundamental de que, ao usurpar dos trabalhadores parte substancial dos valores que eles criam, não lhes dá condições de adquirir todos os frutos do seu labor. Tal descompasso, antigamente, levava às crises cíclicas, guerras e agudas depressões, formas extremas de tornar mais equilibradas a oferta e a procura. 

Os marcantes avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas vêm reduzindo cada vez mais a componente de trabalho humano nos produtos, o que faz diminuir na mesma proporção o lucro que o capital pode extrair de cada item produzido. Como a expansão ininterrupta é condição sine qua non de sua vitalidade, o fato de cada vez mais chocar-se com limites intransponíveis debilita crescentemente o capitalismo, prenunciando seu colapso definitivo.

A crise devastadora para a qual marcha a economia globalizada só não eclode com força total porque a penúria e o apertar de cintos são transferidos de país para país, com a relativa prosperidade de uns tendo como contrapartida o inferno de outros; e também porque a concessão indiscriminada de crédito sem garantia e a emissão desmedida de moeda sem lastro permitem empurrar com a barriga o acerto de contas, adiando longamente (mas não indefinidamente) o juízo final.

Mais dia, menos dia, o castelo de cartas desabará, impondo ao sistema capitalista como um todo uma depressão econômica tão profunda que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança. 

Ao trocar a luta de classes pela conciliação de classes, o PT acreditou que bastaria se mostrar tão inofensivo e domesticado quanto um lulu de madame, resignando-se a não meter o bedelho nas decisões macroeconômicas, para os donos do Brasil o deixarem cuidar das miudezas administrativas em paz; e supôs que o bom desempenho que as commodities brasileiras vinham obtendo no comércio internacional durante a década passada duraria para sempre, permitindo-lhe satisfazer o apetite pantagruélico do grande empresariado e, ao mesmo tempo, colocar algumas migalhinhas a mais na mesa dos coitadezas.

O preço destas apostas equivocadas é sua degringola atual.
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A POLÍTICA OFICIAL É SÓ FIGURAÇÃO, O
 PODER ECONÔMICO MANDA E DESMANDA.
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Outro fenômeno que vem se acentuando cada vez mais é o avassalamento do poder político ao poder econômico. Não há mais sobrevivência possível fora do modelo capitalista de inspiração neoliberal, pelo menos enquanto ele for dominante em escala global; países ou blocos que tentam isoladamente confrontá-lo, têm até agora sucumbido. [A bola da vez é a Venezuela, símbolo maior do agonizante bolivarismo.]

A lógica da economia capitalista se impõe esmagadoramente sobre o Executivo e o Legislativo (bem como sobre as instâncias superiores do Judiciário), tornando inócuas as tentativas de colocar em xeque a exploração do homem pelo homem a partir das tribunas parlamentares e dos palácios do governo. Os mandatos eletivos servem para dar boa vida a maus representantes do povo, mas não para emancipar o povo.

Então, outra lição importante a tirarmos da ascensão e queda do PT é que a chamada via eleitoral caducou e hoje só serve para manter a esquerda patinando sem sair do lugar.

O que fazermos, então?

O primeiro passo, obviamente, será estancarmos a hemorragia e voltamos a acumular forças.

Resgatarmos nossa credibilidade, tão abalada por escândalos que jamais poderiam ter ocorrido no nosso campo.

E reerguermos a esquerda, como uma alternativa à política oficial e não como parte do seu sistema.

O tempo das bravatas e dos projetos mirabolantes passou. Temos de, humildemente, voltar a participar das lutas justas da sociedade, dando nossos melhores esforços para que elas frutifiquem, ao mesmo tempo em que estivermos alertando os explorados, humilhados e ofendidos, no sentido de que suas conquistas só serão definitivas com a superação do capitalismo. Até lá, continuaremos assistindo a retrocessos como o empobrecimento, nos últimos anos, da nova classe média que os petistas se ufanavam de haver gerado.

Quanto aos voos maiores, são algo para pensarmos quando a correlação de forças não estiver tão desequilibrada em nosso desfavor como está agora; e também quando as crises econômica e ambiental do capitalismo se agravarem ainda mais, provavelmente interagindo entre si. Tudo leva a crer que, nas próximas décadas, a humanidade enfrentará seu maior desafio em todos os tempos.

Como em 1917 na Rússia e em 1949 na China, é bem provável que então se abram janelas revolucionárias, com os homens redescobrindo a solidariedade na luta que terão de travar por sua sobrevivência ameaçada. Pode ser o ponto de partida para uma reorganização da sociedade em bases bem diferentes, passando a priorizar a colaboração fraterna dos homens em prol do bem comum. 

domingo, 30 de outubro de 2016

ELIO GASPARI REPROVADO. OU EM TÉCNICA JORNALÍSTICA OU EM CONHECIMENTOS HISTÓRICOS SOBRE A DITADURA...

Já seria um exagero reprovável se um foquinha qualquer afirmasse que nem na ditadura garotos eram algemados como em Miracema (título de uma nota segundo a qual "em Miracema, cidade a 78 km de Palmas, a PM algemou estudantes que haviam ocupado uma escola. Segundo o Ministério Público, o promotor ordenou que dois jovens fossem algemados porque resistiam à ação da polícia. Uma universitária que participava da invasão disse que foi algemada com um menor de 15 anos".). 

Afinal, desconhecimento da história do País não pega bem para jornalistas de qualquer idade.

Mas, em se tratando de um septuagenário que exerce a profissão há cerca de meio século e, ainda por cima, escreveu uma série de livros sobre a ditadura militar, pretendendo tê-la escancarado, tal rompante retórico é simplesmente indesculpável.

Pois, obviamente, garotos e garotas eram, sim, algemados pela repressão política nos anos de chumbo

Bestas-feras que executavam prisioneiros (teoricamente sob a tutela do Estado) a sangue-frio, que nos submetiam às piores torturas, que estupravam as nossas irmãs e companheiras, que maltratavam crianças para quebrar a resistência dos pais, que davam sumiço em cadáveres, lá gente dessa laia iria se deter diante de algo bem menos atroz, como algemar algum jovem?

Gaspari também tinha a obrigação de saber que o companheiro Ivan Seixas, preso aos 16 anos de idade, foi brutalmente espancado juntamente com o pai (Joaquim Alencar de Seixas), algemados um ao outro, tendo a selvageria sido tamanha que a algema se rompeu! 

Eis um relato saído no Portal Imprensa a este respeito:
"Seixas e seu pai foram espancados juntos, literalmente. Unidos por uma algema, os dois foram agredidos pelos agentes do DOI-Codi de tal forma que quem passava pelo local pedia clemência aos policiais, que respondiam com rajadas de metralhadora para o alto, pondo fim a qualquer tipo de protesto.
Pai e filho foram postos na mesma sala, cada em um instrumento de tortura diferente. Ivan Sanches pendurado pelos pés em um pau-de-arara, seu pai na chamada cadeira do dragão, inspirada nas cadeiras elétricas norte-americanas. Ele conta que não via a tortura de seu pai, mas podia ouvir seus gritos e xingamentos aos torturadores. Após uma noite de torturas e brutalidades, Seixas revelou onde morava por pensar que sua família (irmã e mãe) já tivesse fugido do local. Estava enganado. A polícia invadiu sua casa, agrediu sua família e saqueou tudo o que podia ser carregado". 
Ivan Seixas então e agora
A prisão de alguém tão jovem, submetido aos mesmos rigores dos adultos, indignou a opinião pública mundial (ainda mais por seu pai ter sido assassinado pelos verdugos),.

Várias campanhas foram realizadas no exterior para a libertação do Ivan, que mesmo assim permaneceu preso até os 22 anos. Até hoje padece de fortes dores nas costas em função da vértebra que os torturadores fraturaram.

Gaspari ignora tudo isto? Ou está precisando fazer afirmações bombásticas para atrair leitores?

PIZZA PRONTINHA PARA SAIR DO FORNO: DEPUTADOS FARÃO NOVA TENTATIVA DE IMPLODIR A OPERAÇÃO LAVA JATO!!!

Por Bernardo Mello Franco
A ANISTIA VEM A GALOPE
Enquanto a torcida se distrai com as eleições municipais, os deputados articulam uma nova jogada na Câmara. O plano é driblar o Ministério Público e aprovar uma anistia geral ao caixa 2. Se der certo, será um gol de placa do sistema político ameaçado pela Lava Jato.

A ideia é ousada: usar um pacote moralizador para legalizar o financiamento ilegal de campanhas. Os parlamentares prometem aprovar a criminalização do caixa 2, uma das chamadas 10 medidas contra a corrupção. Parece boa notícia, mas há um detalhe. Ao proibir o trambique no futuro, a Câmara quer perdoar quem o praticou no passado.

O lance já foi ensaiado em setembro. A bola não entrou graças a deputados da Rede e do Psol, que se insurgiram contra o acordo fechado pelos grandes partidos. 

Agora a anistia ameaça voltar a galope. O motivo da pressa é a delação da Odebrecht, que deve entregar mais de 200 políticos de todas as siglas.

O novo acordão para estancar a sangria tem o aval do governo Temer e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Na quarta (26), ele repetiu uma tese dos réus do mensalão: caixa 2 e corrupção seriam "coisas distintas", sem ligação entre si.

Em entrevista a Mario Sergio Conti, na Globo News, o deputado indicou que apoia o perdão ao financiamento irregular das eleições passadas. "Nós temos que dar um corte e dizer que daqui para a frente está criminalizado", disse, apesar de a lei já prever punições ao caixa 2.

Questionado se estava defendendo uma anistia a criminosos, Maia abriu o jogo: "Alguma solução vai ter que ser dada. Eu acho que anistia é uma palavra forte". De falta de transparência, não poderemos acusá-lo.

"A DEMOCRACIA ESTÁ SENDO SEQUESTRADA PELO PODER ECONÔMICO E A RUA SENTE QUE SEU VOTO CONTA POUCO"

Que os partidos políticos tradicionais estão há anos sofrendo fortíssimo desgaste no mundo todo não chega a ser novidade.

O Brasil, como é natural, não poderia escapar a esse fenômeno. O mais recente indício apareceu 6ª feira (28) na coluna da sempre excelente Mônica Bergamo, que mostra só duas instituições com menos prestígio que a Presidência da República: são exatamente os partidos políticos (só 7% dos pesquisados pela Escola de Direito da FGV-SP confiam neles) e o Congresso Nacional (com apenas poucos mais de 10%), que é a casa dos políticos.

O problema é que, se os velhos partidos estão em decadência, os novos tampouco parecem firmar-se como alternativas, ao contrário do que parecia possível não faz tanto tempo assim...

...A crise dos partidos vai além deles, como aponta Antonio Navalón, colunista de El País:
"Estamos ante a crise generalizada do sistema de representação porque a incapacidade do modelo democrático está produzindo um enorme vazio de poder".
No Brasil, o vazio é representado pelo aumento da abstenção, dos votos brancos e nulos, fenômeno que virou até tema de campanha.

Parte da crise é causada pelo fato de que a democracia está sendo sequestrada pelo poder econômico.

Os programas partidários têm que ser abençoados pelos mercados para poderem ser implementados.

A rua sente que seu voto conta pouco.
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(principais trechos da coluna dominical de Clóvis Rossi, veterano repórter especial da Folha de S. Paulo
intitulada A política cai no vazio)

O CALDEIRÃO DO DIABO

“Por que não deveríamos então lutar decididamente para que,
por meio da crítica categorial, essa crise seja sinônimo de 
uma  revolta consciente e livre de nossa gente para a 
conquista da emancipação humana?" (Crítica
Radical, na mensagem Adeus às ilusões)
A crise causada pela terceira revolução industrial da microeletrônica, agora aditada por fenômenos baseados na robótica, neurotecnologia, nanotecnologia e biotecnologia, deu margem à explicitação de contradições do sistema produtor de mercadorias que estavam apenas latentes, mas agora assumem proporções e velocidades gigantescas nos apontando para um futuro sombrio se permanecermos inconscientemente perpetuando formas sociais de mediação que já não se adequam nem um pouco ao seu conteúdo essencial mesquinho.  

No bojo desses acontecimentos, o processo eleitoral mais parece uma alucinação esquizofrênica de zumbis hipnotizados por uma poção mágica que os mantêm fora da realidade, à semelhança do que ocorre com a população no bom filme Perfume, a história de um assassino

Candidatos dos mais variados matizes ideológicos, agora com maior sucesso nas urnas de salvadores da pátria conservadores, fazem ridículos discursos de futura boa administração das cidades economicamente falidas e cindidas em bairros elegantes (uma menor porção) e bairros miseráveis (uma maior porção). Nestes últimos vive uma população atormentada pelo desemprego, pela violência urbana e pelo individualismo que torna todos os indivíduos sociais adversários de todos na fratricida luta pela sobrevivência.    

Entretanto, tudo parece muito normal. É que o brilho falso do progresso de poucos ofusca as trevas da miséria de muitos, escorraçada para o gueto onde reina a alegria desesperada dos que não têm nada a perder, muito comumente perdendo até a vida, assassinados que são na vala comum da banalidade.   

Em meio a tudo isto, a grande mídia trata a violência urbana com um espanto cínico, como se não soubesse que quem planta vento colhe tempestade, pugnando por medidas de segurança que sabem ser incapazes de conter a avalanche de assombros que desce ladeira abaixo. 

Carmen Lúcia, ministra presidente do Supremo Tribunal Federal, visita os presídios e fica espantada com a tragédia humana nesses locais que mais parecem masmorras da Idade Média como se se precisasse de visita para se conhecer a realidade de mortes e promiscuidade (entremeadas com regalias para alguns) ali reinante e os diários levantes e motins dos aprisionados, bem como a completa incapacidade do estado de prender, processar e manter preso o enorme contingente de criminosos fabricado por um sistema incongruente.  

Enquanto isso a Belíndia (mistura brasileira de Bélgica e Índia) vai vivendo a sua vida de perplexidades. Os bobos alegres da cada vez mais precária inclusão social temem a perda de status e sonham com a impossível volta a um passado que, mesmo não tendo sido bom, é melhor do que o presente e certamente menos sombrio do que a perspectiva de futuro dentro da lógica do sistema. 

Há entre eles uma intuição (ainda que inconsciente) das verdadeiras causas da tragédia que aponta para um futuro sombrio, tanto em termos sociais quanto ambientais. Mas, como dizia Ibrahim Sued, colunista social famoso do passado, os cães ladram e a caravana passa, às vezes acrescentando um repulsivo sorry, periferia!.

Aos deserdados da sorte resta se contentarem com a vitória do seu time preferido; caso ela não venha ou mesmo vindo, não custa nada a prática do vandalismo aleatório e da agressão catártica para comemorarem a vitória ou desabafarem pela derrota.  

Quanto desrespeito pelo ser humano! Quanta indiferença individualista! Quanta mentira! Quanta irracionalidade! Quanta hipocrisia legalista a respeito dos podres poderes! Estes nada mais fazem do que sustentar o roubo que está nas entranhas de um sistema nascido da corrupção, mas que diz combatê-la, por isto mesmo tendendo a frustrar qualquer tentativa de alguns paladinos da justiça em tentar consertar o desconserto do que lhes dá sustentação: o Estado capitalista.   

Infelizmente, a miséria por si só não é revolucionária. Pelo contrário, trata-se de um fruto da inconsciência social; então, quanto maior a inconsciência social, mais fácil se torna a manipulação da opinião pública por todos os organismos econômicos, institucionais, educacionais e midiáticos. Ou seja, a miséria atrai miséria, ao invés de, por sua existência chocar a sensibilidade dos seres realmente humanos, ser fator de sua extinção. 

É graças a isso que os eternos revolucionários de ontem e de hoje não devem ceder à impressão de fracasso por estarem sempre andando na contramão do fluxo social; pois, além de estarem com a consciência em paz (quantos hoje podem dizer o mesmo?), têm em seu favor a contradição de um modo de ser social que se exaure por seus próprios fundamentos, causando perplexidade entre os que o tentam eternizar. 

Aos revolucionários restam os consolos de não terem sido Maria vai com as outras; de não haverem condescendido com a exploração sistêmica; e de não terem dado aos empedernidos beneficiários dos banquetes capitalistas a oportunidade de os tornarem objetos do mesmo desprezo que têm por suas passivas vítimas inconscientes.          

Nunca foi tão urgente combatermos as categorias fundantes do capitalismo, que se apossaram da nossa mente com um poder hipnótico que é capaz de nos conduzir ao abismo como se fôssemos robôs programados para a autodestruição. Está mais do que na hora de acordarmos do transe.

Então, é de se perguntar novamente: você vai mesmo atender ao apelo institucional e de todos os partidos, desperdiçando seu tempo para ir votar?
(por Dalton Rosado)

sábado, 29 de outubro de 2016

COMO PODEREMOS TER "FÉ NA JUSTIÇA" ENQUANTO ESTIVER FALTANDO UM NO XILINDRÓ DOS CORRUPTOS?

Ganhador de dois prêmios Esso de Jornalismo, o colega 
Leandro Colon mata a cobra e mostra o pau:
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"Fé na Justiça foi a expressão usada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ao celebrar decisão do ministro Teori Zavascki (STF) que suspendeu a operação da Polícia Federal realizada na Casa no último dia 21.

Segundo Renan, a medida 'é uma demonstração de que não podemos perder a fé na Justiça e na democracia e que o funcionamento harmônico das instituições é a única garantia do Estado democrático de Direito'.

Faz sentido a declaração. De certo modo, há circunstâncias em que só a fé na Justiça, por exemplo, mantém viva a crença em sua celeridade, sobretudo nos casos de políticos com foro privilegiado na Suprema Corte.

Vejamos a situação do próprio presidente do Senado. O peemedebista é alvo de 12 inquéritos no STF, oito deles ligados a possíveis desvios apurados pela força-tarefa da Lava Jato.

O mesmo STF que foi ágil em suspender a ação da PF no Senado não julga denúncia entregue há mais de três anos e meio em que Renan é acusado de usar um lobista de uma empreiteira para pagar despesas de uma filha dele com uma jornalista.

O caso é lá de 2007. Naquele ano, o senador renunciou à presidência do Senado. A denúncia contra ele (por peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso) foi protocolada pela Procuradoria-Geral da República em janeiro de 2013, pouco antes de Renan voltar a comandar a Casa.

No começo deste mês, o ministro Luiz Edson Fachin anunciou que, enfim, liberou os autos para o plenário do Supremo decidir se transforma ou não o senador alagoano em réu".

OS MÃOS SUJAS CONTRA-ATACAM

Por Demétrio Magnoli
GRITO DE LULISTAS NA INTERNET GANHOU ADESÃO DE RENAN CALHEIROS
A revista dirigida por um jornalista que bajulou Emílio Médici e a máquina de tortura da Oban é o lugar apropriado ao elogio da corrupção no Brasil de hoje. O efêmero ministro da Justiça de Dilma, Eugênio Aragão, elevado ao posto para frear as investigações judiciais que se acercavam de Lula, prossegue sua cruzada: a corrupção é positiva, "tolerável", pois "serve como uma graxa na engrenagem" da economia, declarou em entrevista à Carta Capital. A opinião do ex-ministro pode ser ignorada sem prejuízo de ninguém. Mais grave é a ativa busca, por influentes atores políticos, de instrumentos de contenção da Lava Jato.

Na Itália, a Operação Mãos Limpas destruiu a Democracia-Cristã e o Partido Socialista, antes de derrubar o primeiro governo Berlusconi, em 1994. Contudo, entre 1996 e 2000, sob gabinetes liderados pelo Partido Democrático da Esquerda, organizou-se um extenso arco de deputados de direita e esquerda devotado a sabotar a operação judicial. Então, votaram-se leis para retardar processos e antecipar prescrições. Não chegamos lá, mas multiplicam-se os sinais de que a elite política organiza-se para sabotar a Lava Jato.

Uma articulação na Câmara tentou avançar um projeto, por enquanto congelado, de anistia do caixa 2 partidário. Renan Calheiros, figura dotada de curiosos poderes de sobrevivência, patrocina o projeto de lei sobre abuso de autoridade que, mesmo com méritos intrínsecos, funcionaria como ponto de ancoragem para iniciativas legislativas destinadas a dificultar as operações anticorrupção. Gilmar Mendes, um ministro que fala demais, intensifica suas reclamações contra a onda de prisões preventivas de réus e investigados. Na imprensa e nas zonas francas da internet, lulistas fanáticos encontram-se com ferrenhos antilulistas num estranho consenso sobre alegados desvios da Lava Jato.
Renan Calheiros e seus "curiosos poderes de sobrevivência"

Sergio Moro comete erros, assim como os procuradores da força-tarefa. O juiz tende a expandir em demasia a prerrogativa de decretação de prisões cautelares. Às vezes, enfeitiçados pelos holofotes, os procuradores estendem-se em discursos recheados de conjecturas. A crítica a um e outros é legítima —e, mesmo quando equivocada, faz parte da democracia. Mas o corretivo é inerente ao sistema de justiça: encontra-se na revisão judicial, em instâncias superiores. O habeas corpus está à disposição, dispensando a edição de leis e a fabricação de correntes de opinião destinadas a questionar a legitimidade das investigações.

Quando termina a Lava Jato? A pergunta circula, tangível, em conclaves de políticos e empresários, inclusive entre gente que nada deve. Argumenta-se em torno das necessidades de restabelecer a estabilidade política e econômica, de nutrir o embrião da retomada dos investimentos, de preservar o governo Temer e o programa de resgate fiscal. No fundo, são ecos involuntários de Aragão, o Breve, e de sua graxa na engrenagem, uma expressão empregada mil vezes, desde a ditadura militar, pelos nacionalistas de araque na defesa das empresas campeãs nacionais.

Há tempos, Lula acusa Moro de promover uma caçada judicial. Agora, diante de três juízes diferentes, um deles do STF, que o declararam réu, estará pronto a lançar uma acusação geral contra o Judiciário? Estado de exceção!, exclamam ridiculamente pistoleiros lulistas na internet, num grito que ganhou a previsível adesão de Calheiros e tem o potencial de inspirar figurões do governo Temer e cercanias. Diante disso, é imperativo recordar a lição italiana: a interrupção da Mãos Limpas abriu caminho para a década de Berlusconi, a partir de 2001, e a recriação das redes de negócios que asfixiaram a capacidade do Estado de identificar o interesse público.

É hora de destruição criativa. Que caiam todos os culpados, sem distinções partidárias. A graxa na engrenagem é a própria Lava Jato.
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Pitaco do editor
MINO CARTA ENGAJA SUA REVISTA NUMA MÁ CAUSA... DE NOVO!!!

Primeiramente, um esclarecimento. A farpa no parágrafo inicial do artigo de Demétrio Magnoli se refere aos editoriais que Mino Carta escrevia durante os anos de chumbo, assinando-os com suas iniciais, na condição de diretor de redação da revista veja.

No da edição de 1º de abril de 1970, p. ex., MC assoprou junto com os milicos as seis velinhas do bolo de aniversário do golpe, fazendo afirmações como estas:
"Propostos como solução natural para recompor a situação turbulenta do Brasil de João Goulart, os militares surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção... 
Ontem Médici, hoje os corruptos.
Mas, assumido o poder, com a relutância de quem cultiva tradições e vocações legalistas, eles tiveram de admitir a sua condição de alternativa única. E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair da sua humilhante condição de subdesenvolvido. Perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção --e pensaram no futuro"
Quanto à CartaCapital estar empenhada em outra má causa a desqualificação da Operação Lava-Jato, isto não causa a mínima surpresa para quem ainda se lembra da enxurrada de textos inquisitoriais e panfletários  que tal revista publicou no auge do Caso Battisti, às vezes mais de um por edição, movendo céus e terras para que o Brasil entregasse a Silvio Berlusconi o troféu que ele tanto almejava: uma cabeça de esquerdista para empalhar e pendurar na sala de orgias. Tomara que a nova cruzada indigna da CartaCapital tenha o mesmo desfecho da anterior, terminando num retumbante fracasso!

De resto, a bizarra aliança entre os mais ferrenhos petistas e os mais empedernidos reacionários foi também o foco de meu artigo Esquerda, centro e direita se unem contra Moro

Por tal caminho o PT, além de não conseguir salvar Lula, desmoralizará ainda mais a esquerda; já a deixou em frangalhos  no presente e parece querer destruir também o seu futuro. 

Revolucionários se regem por princípios, não pelo prosaico utilitarismo (o inimigo do meu inimigo é meu amigo). E podem considerar inócua a luta contra a corrupção enquanto subsistir o capitalismo, mas daí a somarem forças com os corruptos vai uma estratosférica diferença...

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ELEITOR CONSCIENTE VOTA NULO. MAS A TENTAÇÃO DE VOTAR NO ADVERSÁRIO DO CRIVELLA É ENORME!

Por Bernardo Mello Franco
O NULO NO PALANQUE
Na reta final do segundo turno, o voto nulo virou tema central nas eleições do Rio e de Porto Alegre. A escolha de não escolher ninguém passou a inflamar o debate nas redes e a propaganda na TV.

Na capital gaúcha, o nulo ganhou status de candidato, com direito a jingle e até a passeata. Foi a resposta encontrada por eleitores de esquerda para uma disputa entre dois conservadores: Nelson Marchezan (PSDB) e Sebastião Melo (PMDB).

"Anula lá / Pegue um número aleatório e confirme depois / Anula lá / Eu prefiro votar no diabo do que nesses dois", prega o vídeo da campanha de protesto, que já soma mais de 200 mil exibições no Facebook.

A força do jingle tem preocupado o tucano e o peemedebista. "É a velha estratégia: se tu não consegue se defender e sair do meio da lama, tu joga lama em todos para dizer que todo mundo é igual", reclamou Marchezan, em entrevista a Paula Sperb.

"A pregação do voto nulo é negar a política. Negar a política é [promover] o surgimento de salvadores da pátria", endossou Melo.

No Rio, as pesquisas indicam uma avalanche de votos nulos na disputa entre Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL). Segundo o Datafolha, nada menos que 19% dos eleitores pretendem votar nulo ou em branco. Nas últimas duas eleições na cidade, o índice não ultrapassava os 9% na semana final da campanha.

Em desvantagem, Freixo mudou o discurso para tentar atrair quem não simpatiza com ele nem com o rival. "É muito importante que você não anule seu voto, não se anule", passou a repetir. Até aqui, o apelo não deu sinais de que vá funcionar.

Enquanto o candidato do PSOL tenta tirar os cariocas do muro, seu partido prega que os gaúchos permaneçam em cima dele. "O voto nulo não é nulo. Nem o branco é qualquer cheque em branco", diz uma nota da sigla. Por via das dúvidas, a psolista Luciana Genro passou parte do segundo turno no Rio, em busca de alguns votinhos para Freixo.
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Pitaco do editor
EU VOTARIA ANTES NO 
DIABO DO QUE NO CRIVELLA
A democracia burguesa é mera fachada para a imposição dos valores e interesses do grande capital, com o poder econômico determinando, por trás da cortina, para que lado penderão os supostos representantes do povo na tomada das grandes decisões.

Então, com o acachapante fracasso das recentes experiências neopopulistas na América do Sul, ficou mais do que evidenciada a inviabilidade da revolução pelas urnas. A conquista de presidências da república e maiorias legislativas, desacompanhada da organização das massas para dar um fim à exploração do homem pelo homem, levou invariavelmente às recessões agudas que estão derrubando um a um esses regimes híbridos nos quais a orientação governamental esquerdista coexistia conflituosamente com uma estrutura econômica capitalista (a Venezuela é, salta aos olhos, a peça do dominó que tombará em seguida).

Faz todo sentido, portanto, abandonarmos de vez as ilusões eleitoeiras e passarmos a lutar fora do sistema e contra o sistema, travando as lutas econômicas e sociais com a perspectiva de, por meio delas, irmos acumulando forças para uma futura ruptura revolucionária, pois todas e quaisquer conquistas dos trabalhadores jamais serão definitivas sob o capitalismo.

Em teoria, tudo isso é ponto pacífico, não há mais nem o que discutirmos.

Na prática, é simplesmente cruel o dilema em que tal posição correta nos coloca, quando no 2º turno para a prefeitura carioca se defrontam a Igreja Universal (Marcelo Crivella, este aqui) e o Psol (Marcelo Freixo). 

Ou seja:
  • de um lado, uma organização que arranca o couro dos coitadezas utilizando retórica religiosa e pode exercer uma influência monstruosa nos rumos nacionais se, ademais, tornar-se uma força revelante da política oficial; e 
  • do outro, o melhor partido que sobrou depois do vendaval que varreu a esquerda, embora cometa gravíssimo equívoco ao acreditar que seja possível reeditar o lado bom da trajetória do Partido dos Trabalhadores, mas sem enveredar pelos desvios  que acabaram descaracterizando irremediavelmente o PT.
Foi com total convicção e enorme alívio que anulei meu voto na eleição paulistana.

Mas, sinceramente, não gostaria de estar na pele dos eleitores conscientes do Rio de Janeiro. Eta decisão difícil de tomar!
.

Reportagem de TV pegando Crivella na mentira 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

UMA PROPOSTA DE VIDA FORA DO MERCADO

"Argumentei que os homens de negócios 
precisam separar os seus interesses 
do mundo dos negócios de seus 
interesses como cidadãos"
(George Soros) 
Segundo as estatísticas do IBGE há no Brasil 12 milhões de desempregados. Computam-se como desempregados apenas aqueles que compõem a população economicamente ativa. Assim, se considerarmos os dependentes dessa população (crianças, donas-de-casa, inválidos, idosos não-aposentados, aposentados que gastam com remédios mais do que recebem de aposentadoria, etc.), tal número pode chegar a três ou quatro dezenas de milhões de brasileiros desesperados, contingente humano que necessita de alimentação, habitação, energia elétrica, água, vestimenta, transporte, educação, saúde, lazer, etc.

Como a sociedade capitalista é individualista e o seu Estado governamental, que é sustentado pela atividade econômica em depressão, já não consegue sequer manter-se de pé graças ao déficit orçamentário, tudo se transforma num grande caldeirão de desgraças sociais que é a oficina do diabo. Sob tal estado de coisas não há polícia, estrutura judiciária e cadeia que consiga debelar a barbárie daí resultante. 

Empurrada para o andar social de baixo, a chamada classe médiaque tem capacidade para formar opinião, vai às ruas na vã esperança de que o governo restabeleça o Estado do bem-estar social, ao invés de ombrear-se com os que buscam uma saída coletiva para a crise. Assim procede não apenas pelo apego ao passado, mas por ignorar as causas de sua debacle social e não acreditar em modos alternativos de vida social.         

Diante de tal quadro crítico, que ora se agrava, os seres humanos mais sensíveis e solidários devem assumir sua responsabilidade na formulação de propostas para reverter tal quadro de miséria social. 

Tais ideias não podem ficar adstritas às regras comprovadamente caducas da economia de mercado. Há que se buscar alternativas fora dela, embora o poder do capital e as recalcitrantes viúvas da sua fase de expansão não queiram admitir a deterioração atual, devendo certamente se colocarem contra qualquer ideia que não conste do mesquinho mecanismo de reproduzir valor e ganhar dinheiro. 

Diz o dito popular que a necessidade é a mãe de todas as iniciativas, e a tomada de iniciativas nunca foi tão urgente e necessária. Mas é preciso se saber por que e como tomá-las. 

Temos de buscar formas alternativas de produção, para satisfazermos as necessidades básicas coletivas. A questão mais complexa é como fazermos isto numa sociedade completamente tomada pela coerção da lógica de mediação social feita pelo dinheiro, por meio do sistema produtor de mercadorias e dos seus cânones legais, que agora dão sinais claros de travamento como consequência da contradição dos próprios fundamentos (o capital corta o galho sobre o qual está sentado).      

O sistema produtor de mercadorias, que sustenta o processo autotélico e vazio de sentido virtuoso de reprodução do capital e também as instituições do Estado que lhe dão apoio jurídico-institucional (o chamado establishment), não tolera a produção de bens que não sejam mercadorias, ainda que haja uma barbárie em curso provocada por sua insensatez. Esta é a grande oposição que se nos apresenta. 
Mas, é justamente no confronto entre a produção de mercadorias (com valor de uso e valor de troca) e a produção de bens que não sejam mercadorias (apenas com valor de uso) que se situa a verdadeira revolução social da modernidade; e não nos espaços político-institucionais, tal qual querem todos os enquadrados seguidores dos partidos de todos os matizes ideológicos, assim como as instituições do Estado e seus vaidosos membros. 

Mas, esta revolução social que virá da superação do modo de produção atual, como todas as verdadeiras revoluções sociais havidas ao longo da história, poderá se processar de forma gradual e consistente, de modo a que se vá evidenciando a obsolescência do modo de produção mercantil e de toda a entourage institucional decadente que o sustenta.

Há que ocuparmos espaços tanto da área de produção de bens como na área de serviços. Na área de alimentos, p. ex., poderemos convocar as pessoas que estão na fila do desemprego há longo tempo e que queiram produzir, propondo-lhes a ocupação de terras não agricultáveis. Nelas produziriam alimentos para si e para distribui-los a outras pessoas desempregadas, de modo gratuito e num sistema de cotas pessoais que envolvam, inclusive, a administração por parte de outros desempregados. 

Alguém certamente indagará: como essas pessoas irão pagar suas contas de luz, de água, adquirir vestimentas, ter onde morar, etc., já que ocupam todo o seu tempo produzindo alimentos sem serem remuneradas?

Primeiramente, é necessário se dizer que os desempregados crônicos já estão privados da capacidade de pagamento e suprimento dessas necessidades pelo dinheiro. Então, agora, eles passariam a ter a dignidade de produzirem para outras pessoas que certamente estão privadas da capacidade de aquisição dos alimentos, e farão isto sem serem pagas.
Neste sentido, será necessário mobilizarmos os produtores, de modo a proverem as demais necessidades de modo alternativo e com o uso da tecnologia (energia, água, tijolos para habitação, etc.); e que travem uma luta para a ocupação de terras improdutivas, na contramão do direito de propriedade das terras (ou seja, praticando uma forma de resistência bem diferente da do MST, que se limita a buscar a propriedade da terra para que nela se continue produzindo produzir mercadorias  para o mercado).    

Evidentemente, tal processo não será coisa fácil nem pacífica, pois, além da oposição dos proprietários de terra (protegidos pela lei do capitalismo), virá o Estado a querer cobrar impostos sobre tal produção; mas, vai ser justamente aí que se travará a luta diuturna, verdadeiramente revolucionária, contra o Estado e o poder, qualquer que seja ele.  

O mesmo poderá ser feito com as unidades industriais falidas e fechadas, ou até instalando-se novas fábricas, dentro do mesmo propósito de produção de bens a serem distribuídos segundo critérios de necessidade; como, digamos, a criação de olarias para a fabricação de tijolos a serem usados na construção de unidades habitacionais pelos e para desempregados (é possível que, em pouco tempo, trabalhadores miseravelmente assalariados abandonem os seus empregos e se engajem em tal projeto). 
Pode-se pensar, ainda, em trabalhadores que, mesmo estando empregados, voluntariem-se para dedicar parte do seu tempo livre ao esforço de construção de uma vida fora do mercado, incentivados por um estímulo de conscientização para a superação da sociedade mercantil em fase de ruína econômica. 

Talvez venhamos a contar também com a solidariedade dos que estão inseridos no sistema e recebem salários, podendo, portanto ajudar financeiramente, dentro das suas possibilidades, para a consolidação deste novo modo de produção, conscientemente, e de modo a que saibam que estão a usar o veneno (dinheiro) como antídoto contra o próprio veneno.  

O setor de serviços talvez seja aquele que mais oportunidade possa oferecer aos desempregados e voluntários, nas áreas de educação básica e profissionalizante, da saúde, etc. 

Na medida em que tal comportamento se corporifique socialmente, evidenciar-se-á a estupidez e mesquinhez da lógica do sistema produtor de mercadorias e do seu processo de acumulação da riqueza abstrata, vazio de sentido virtuoso e que agora chega ao fim pela contradição dos seus próprios fundamentos. Em todo este processo deverá estar incluída a preocupação com práticas de produção não poluentes e que denunciem a insensatez suicida do sistema produtor de mercadorias na sua predação ecológica. 

É evidente que essa caminhada nos ensinará o melhor modo de caminhar, e certamente a criatividade humana e seu histórico sentido de preservação da vida falarão mais alto. O que não dá mais é para continuarmos caminhando celeremente no rumo da guerra e do aprofundamento da barbárie social. 
(por Dalton Rosado)
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