quinta-feira, 30 de junho de 2016

O MELHOR WESTERN DE TODOS OS TEMPOS FAZ 50 ANOS. E VOCÊ PODE VÊ-LO/REVÊ-LO NO BLOGUE DO "NÁUFRAGO"...

Antes de anunciar o filme por mim considerado merecedor de tal distinção --e que está disponibilizado na janelinha abaixo, em versão estendida--, vou fazer uma breve introdução.

O filão surgiu em 1903, com O grande roubo do trem (d. Edwin S. Porter), oito anos depois de os Irmãos Lumière terem exibido os 55 segundos do seu L'Arrivée d'un Train a La Ciotat, inventando o cinema.

Dos milhares e milhares de bangue-bangues lançados nestes 110 anos, qual pode ser considerado  the best? É difícil dizer. Inexiste uma opção tão amplamente aceita quanto Cidadão Kane (d. Orson Welles, 1941) como o melhor filme de todos os tempos.

Os grandes westerns  puros, que fixaram a mitologia do gênero, foram No tempo das diligências (d. John Ford, 1939) e Os brutos também amam (d. George Stevens, 1953).

O western mais  corajoso e digno  é fácil de apontar: Matar ou morrer (d. Fred Zinnemann, 1952), uma parábola devastadora sobre o macartismo, realizada por alguns dos atores e técnicos que estavam sendo por ele perseguidos e lançada no auge mesmo da caça às bruxas. É de arrepiar a cena em que o xerife (Gary Cooper) atira a estrela no chão e parte enojado da cidade que o tinha como ídolo, mas o abandonou no momento do perigo!

Os principais westerns  outonais, retratando o fim desse período histórico e o crepúsculo das lendas por ele engendradas, devem ser creditados a Sam Peckinpah (Pistoleiros do entardecer, 1962; e Meu ódio será sua herança, 1969) e a Sergio Leone (Era uma vez o Oeste, 1968).

Finalmente, meu palpite como o melhor de todos os tempos é Três homens em conflito, de 1966, o extraordinário épico de Leone sobre três aventureiros (o  bom  Clint Eastwood, o  mau  Lee Van Cleef e o  feio  Eli Wallach) que caçam um tesouro em meio à Guerra da Secessão.

Foi o chamado  tour-de-force  de Leone, a obra em que ele definiu e afirmou seu estilo, embutindo no cinema de ação discussões mais profundas, sem prejuízo do entretenimento propriamente dito. Trata-se de um tipo de obra em camadas. De acordo com sua sensibilidade, o espectador pode se divertir apenas com o básico ou captar os muitos toques e leituras subjacentes.

E é grandiosa a crítica que Leone fez ao belicismo, com três das sequências mais comoventes que o cinema já apresentou:
  • o oficial bêbado sem coragem para destruir a ponte e, assim, deter a matança inútil; 
  • a orquestra do campo de prisioneiros tocando para abafar os ruídos da tortura; 
  • o jovem soldado agonizante a quem o  Estranho Sem Nome  dá seu charuto.
O duelo  triangular  no centro do cemitério é o mais  artístico e climático  que o cinema já apresentou e tem a valorizá-lo um tema emocionante de Ennio Morricone. Foi  citado  (ou seria melhor dizer  copiado?) por Quentin Tarantino em Kill Bill.

Leva quase três horas e vale cada segundo. Assistam e constatem!
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quarta-feira, 29 de junho de 2016

O QUE OS ATENTADOS EM ORLANDO E ISTAMBUL TÊM A VER COM OS HINOS DA EUROCOPA E DA COPA AMÉRICA?

Por Dalton Rosado
“Aux armes citoyens! 
Formez vos bataillons!
 Marchons! Marchons!"
(A Marselhesa, hino francês)
Assistimos ontem (3ª feira, 28) a mais um atentado suicida, desta vez no aeroporto internacional de Istambul, na Turquia, no qual morreram 36 pessoas e uma centena de outras saíram feridas. Não mais surpresos, mas sim indignados, face à constância com que tais eventos bárbaros estão se repetindo mundo afora. Não se passaram nem três semanas desde a matança em Orlando, nos EUA, com dezenas de vítimas. 

No Brasil já são comuns, infelizmente, as execuções recíprocas de policiais e civis (bandidos ou não) como se vivêssemos numa guerra civil. Aqui os níveis de violência urbana matam tanto ou mais que as guerras convencionais, e são tantos os atos criminosos, sejam de colarinho branco ou dos descamisados, que o Estado perdeu a capacidade de prender, pois, afinal, um preso sai mais caro do que um professor. 

Quando a polícia, uma dos segmentos do braço armado do Estado, faz greve, como a que ocorre agora nos Rio de Janeiro, função precípua do Estado, é sinal que estamos no fim de um modelo social. 

Mas o resultado de um modo de ser social que concentra a riqueza produzida coletivamente, e cujos índices dessa concentração só aumentam, pari passu a um alarmante nível de desemprego estrutural, não podia ser outro. 
Atentado em Istambul...

Não é uma questão de má gestão e corrupção apenas, mas uma questão estrutural contra a qual todos temem o difícil enfrentamento, ainda que estejamos amedrontados e encarcerados nas nossas residências cercadas de instrumentos de segurança ou carros blindados (para quem os tem). 

As discussões sobre o tema se circunscrevem a questões periféricas que tomam a importância de causas centrais, como o correto combate a corrupção (ainda que nele exista muita hipocrisia) e a má qualidade dos políticos, sem que se coloque o dedo da ferida: a inconciliável contradição de forma e conteúdo social consubstanciada num modo de produção que ao mesmo tempo em que transforma a atividade humana em interação com a natureza, fato natural, em uma atividade antinatural e produtora de valor (o trabalho abstrato). 

Isto, ademais, promovendo a obsolescência desse mesmo trabalho abstrato sem que se altere o conteúdo da relação social, ou seja, sem que se supere a mediação social pela forma valor (dinheiro e mercadorias) cuja substância básica de formação é o próprio trabalho abstrato, tornado supérfluo na sua maior parte. Uma irracionalidade própria de sistema incoerente e inconsciente de si mesmo.      

Vivemos há muito tempo numa sociedade marcada pela beligerância fratricida fundadora do capitalismo; dela somos filhos diretos e inconscientes, mas nela continuamos sem nos apercebermos das causas originais de sua negatividade.  
...e matança em Orlando, duas faces da mesma moeda...

A constatação da beligerância intrínseca ao sistema é óbvia, e basta vermos o conteúdo das letras dos hinos da Eurocopa e da Copa América que se realizam na França e se realizaram nos Estados Unidos, respectivamente, quando tivemos oportunidade de conhecê-las, e comuns aos muitos países que dela participaram/participam. 

O que chama a atenção é o conteúdo belicoso de tais letras, nas quais estão inseridas palavras como guerra, morte, sangue, defesa, etc. Tal vocabulário decorre de um fato inconteste: os países se formaram dentro de uma disputa territorial ou colonial na qual o vencedor geralmente obtinha a vantagem sobre os vencidos, e as independências nacionais foram obtidas em lutas que não significaram a abolição do caráter belicista de cada país independente. 

No momento em que escrevemos esse artigo verificamos uma desintegração da União Europeia que nada mais é do que a incompatibilidade entre a mediação social feita pela forma-valor entre países que têm níveis diferenciados de produtividade de mercadorias ofertadas para a guerra de mercado na qual os mais produtivos vencem os menos produtivos.

...a aceitação do inaceitável como normal.
Estabelece-se, então, uma desigualdade perniciosa; 
  • a Ucrânia é persistentemente fustigada pelo conflito separatista; 
  • na África, no Iraque, na Síria e em vários pontos do mundo árabe grupos políticos religiosos e étnicos se digladiam entre si pelo poder territorial nacional; 
  • no mundo capitalista rico, mas agora decadente, refloresce um sentimento conservador xenófobo que relembra o surgimento das ideologias nazifascistas que desembocaram na II guerra mundial, etc. 
A lista de conflitos seria imensa,  se nos puséssemos a citar todos eles...

A humanidade convive historicamente com esse fratricídio graças ao caráter político-mercantil-militar que sempre norteou e norteia a vida social de cada país nacional e as suas relações internacionais. A economia e a guerra de mercado são o que define a política de cada país, e não o contrário. 

Assim, o interesse econômico é a pedra de toque que dita o comportamento da política internacional, e dentro desse critério de soberania da economia sobre a vida social, no qual o Estado e a política são meros subsistemas serviçais e sem soberania, todos querem conquistar mercados, obter vantagens comerciais, preservar as riquezas naturais para si em detrimento dos demais, etc., etc., etc. Tudo ocorre dentro de um reprovável figurino mercantil belicista.

É evidente que as características étnicas nacionais; as artes e a cultura nacional; o esporte nacional, entre outros aspectos da vida nacional, que são manifestações de identidades nacionais, devem ser preservadas e admiradas, mas o sentimento nacionalista exclusivista, muitas vezes racista e de predominante exclusão econômica, e que se pode inferir do texto belicista das letras da maioria dos hinos nacionais que levam os seus compatriotas às lágrimas, deve ser revisto o quanto antes. 

Mesmo porque a cultura da paz não implica necessariamente o fortalecimento para a guerra, como sempre nos ensinaram, de forma errônea, obtusa e desumana! 

CARRASCO CHILENO É CONDENADO NOS EUA A PAGAR US$ 28 MILHÕES DE INDENIZAÇÃO À FAMÍLIA DE VICTOR JARA

A condescendência com a bestialidade dos agentes do terrorismo de estado, paradoxalmente, inexiste em países que nem sequer foram por ela atingidos: agora é dos Estados Unidos que recebemos uma lição de como a Justiça de uma nação civilizada deve tratar bestas-feras responsáveis por crimes contra a humanidade.

O ex-militar chileno Pedro Paulo Barrientos Nuñez, que para lá emigrou em 1990 e acabou adquirindo a cidadania estadunidense, foi condenado por um tribunal da Florida a indenizar em US$ 28 milhões a família do cantor Victor Jara, por tê-lo assassinado no curso do golpe de Estado desfechado por Augusto Pinochet em setembro de 1973 (cujo saldo foi o assassinato ou desaparecimento de 3.200 opositores políticos, além de dezenas de milhares de cidadãos torturados). 

A ação foi aberta pela viúva Joan, pela filha Amanda e pela enteada Manuela, com base na Lei de Proteção à Vítima de Tortura dos EUA, que permite ações civis contra torturadores. Já no Brasil, o máximo que se obteve foi a declaração de que Carlos Alberto Brilhante Ustra havia mesmo sido um torturador, sem que isto implicasse pagamento nenhum a suas vítimas.
O Chile requereu a extradição de Barrientos

Segundo o serviço noticioso português RTP, foi decisivo o testemunho de um antigo subalterno de Barrientos, o soldado José Navarrete, que relatou: "Ele se vangloriara de ter matado Víctor Jara. Costumava mostrar a pistola e dizer: 'Matei Víctor Jara com isto'. 

Outro ex-soldado do regimento comandado por Barrientos, Gustavo Baez, disse que teve de empilhar dezenas de cadáveres em caminhões. 

Também depuseram dois antigos prisioneiros, que viram Jara ser reconhecido pelos militares, separado dos outros e violentamente espancado. 

Um deles, Boris Navia, contou que Jara foi exibido como um troféu a outros oficiais, tendo um deles lhe esmagado a mão e partido o braço, enquanto dizia: "Nunca mais vais poder tocar guitarra". 

Finalmente, mataram-no a tiros. Seu corpo tinha 44 balas cravadas ao ser encontrado.

"O SANGUE, PARA ELES, SÃO MEDALHAS"

Durante os três dias em que esteve preso num estádio de futebol antes de ser executado, Jara escreveu um último poema, cuja versão para o português (efetuada pelo site Adital) reproduzo na íntegra:
"Somos cinco mil 
nesta pequena parte da cidade. 
Somos cinco mil.

Quantos seremos no total, 
nas cidades e em todo o país? 
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam 
e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade 
com fome, frio, pânico, dor, 
pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam 
no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei 
que se pudesse espancar um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores, 
um saltando no vazio, 
outro batendo a cabeça contra o muro, 
mas todos com o olhar fixo da morte.
Que espanto causa o rosto do fascismo!
Colocam em prática seus planos com precisão arteira, 
sem que nada lhes importe.
O sangue, para eles, são medalhas.
A matança é ato de heroísmo.
É este o mundo que criaste, meu Deus? 
Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?! 
Nestas quatro muralhas só existe um número que não cresce, 
que lentamente quererá mais morte. 
Mas prontamente me golpeia a consciência 
e vejo esta maré sem pulsar, 
mas com o pulsar das máquinas 
e os militares mostrando seu rosto de parteira,
cheio de doçura.
E o México, Cuba e o mundo?
Que gritem esta ignomínia! 
Somos dez mil mãos a menos 
que não produzem.
 Quantos somos em toda a pátria?

O sangue do companheiro Presidente 
golpeia mais forte que bombas e metralhas.

Assim golpeará nosso punho novamente.

Como me sai mal o canto 
quando tenho que cantar o espanto!
Espanto como o que vivo 
como o que morro, espanto.

De ver-me entre tantos e tantos 
momentos do infinito 
em que o silêncio e o grito 
são as metas deste canto.

O que vejo nunca vi,
o que tenho sentido e o que sinto 
fará brotar o momento..." 

terça-feira, 28 de junho de 2016

CONTINUA MASTURBANDO ATÉ AGORA: GAFE DO ADVOGADO DE DILMA O EXPÕE A ZOMBARIA NO RESTAURANTE.

Está na coluna da Mônica Bergamo desta 3ª feira, 28, na Folha de S. Paulo:

"O advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, foi alvo de uma brincadeira enquanto almoçava com o ex-advogado-geral da União Luís Inácio Adams em um restaurante de Brasília, nesta segunda (28).

O advogado Eduardo Moreth Lopez, que estava na mesa ao lado, pagou a conta da mesa do ex-ministro da Justiça e escreveu um bilhete na nota. 'Cardozo, uma cortesia do ilustre jurista Thomás Turbando'.

A mensagem se refere à gafe que Cardozo cometeu, durante a sessão do dia 16 na Comissão Especial do Impeachment no Senado, ao listar uma série de juristas que assinaram pareceres contrários ao afastamento de Dilma".
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TÊNIS TAMBÉM TEM SEU 'HOMEM CINDERELA'. O DO BOXE RENDEU ATÉ FILME.

Federer encarou com simpatia a perspectiva...  
Nesta 4ª feira (29), na 2ª rodada do torneio de Wimbledon, o maior tenista de todos os tempos vai enfrentar um azarão que ocupa a 772ª posição no ranking da ATP.

Roger Federer, ainda competitivo aos 34 anos, faz mais uma tentativa de conquistar seu ambicionado 18º slam. Seria uma extraordinária façanha para um jogador tão veterano, que ora enfrenta não apenas a geração posterior à sua, mas também a seguinte. Algo assim como um vovô duelando de igual para igual nas quadras com seus filhos e netos. 

Mesmo assim, as atenções estão todas voltadas para seu adversário, o britânico Marcus Willis, por conta de este possuir "uma das melhores histórias em muito tempo no nosso esporte", conforme destacou o próprio Federer.
...de enfrentar Willis e sua admirável história...

É que Willis, depois de atingir um promissor 15º lugar no ranking mundial de juniores, viu sua carreira estagnar e, aos 25 anos, já se dispunha a trocar a raquete pela prancheta de treinador. A namorada o convenceu a fazer uma última tentativa em Wimbledon e, surpreendentemente, ele superou os três adversários da pré-qualificação, mais os outros três da qualificação. 

Parecia já ter ido longe demais. No entanto, sobreviveu à partida inicial de Wimbledon, despachando por 6x3, 6x3 e 6x4 o 54º colocado do ranking, Ricardas Berankis.

Agora, mesmo que a carruagem vire abóbora ao se defrontar com Federer, terá sentido o gostinho de enfrentar uma lenda viva. Algo em que ninguém, nem mesmo ele próprio, apostaria há algumas semanas.
...que já provocou reações como esta.
É uma boa oportunidade para eu disponibilizar, na janelinha abaixo, mais um interessante filme para ver no blogue: A luta pela esperança (d. Ron Howard, 2005). Tem tudo a ver, só muda o esporte.

Mostra o ex-boxeador James Braddock (interpretado por Russell Crowe) encontrando muitas dificuldades para sustentar a família durante a Grande Depressão. Ele começara bem sua carreira, chegando a disputar o título mundial, mas foi aí que a sorte virou; perdeu por pontos de Tuffy Griffiths e, ainda por cima, fraturou a mão direita. 

A partir de então, acumulou 22 derrotas em 33 lutas. Abandonou os ringues e teve de resignar-se a trabalhos braçais como o de estivador.

De repente, a maré virou de novo. Um  aspirante ao título ficou sem adversário à véspera da última luta que precisava vencer para adquirir o direito de desafiar o campeão; e, temerosos, pugilistas mais adequados não o quiseram substituir (este episódio real foi a inspiração de Sylvester Stallone, quando ele escreveu o roteiro de Rocky, um lutador).
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Trechos da luta entre Braddock e Max Bauer...
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Em desespero de causa, até Braddock se tornou aceitável. Este concordou porque estava disposto a correr quaisquer riscos por dinheiro. E até tinha um novo trunfo: a dura labuta na estiva tornara poderosa sua mão esquerda, compensando a perda de potência na direita. 

Venceu uma, duas, três lutas. A imprensa o saudou como o homem Cinderela.  E o conto de fadas se completou com sua vitória sobre Max Bauer, tomando-lhe o cinturão dos peso-pesados.

Adiante o perderia para Joe Louis, mas consertou a vida para sempre. Inclusive lançou uma autobiografia que fez aumentar ainda mais sua popularidade, como exemplo edificante de homem que conseguiu dar a volta por cima, superando a adversidade.
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...e o filme em que ela é o momento culminante.
P.S. - O sonho de Willis terminou com a derrota por 6x0, 6x3 e 6x4 que Roger Federer lhe impôs em apenas 1h24. Depois, cavalheirescamente, consolou Willis, dizendo que ele jogara "como um Top 50". 

DROGAS E ARMAS SÃO MERCADORIAS; AS MERCADORIAS SÃO UMA DROGA DE ARMA.

Por Dalton Rosado
"Se você é capaz de tremer de indignação 
cada vez que se comete uma injustiça no 
mundo, então somos companheiros."
(Che Guevara)
Retomando um argumento já exposto anteriormente, relativo à negativa adaptação humana a situações adversas (uma passividade que deve ser combatida!), quero dizer que a ação contra a injustiça deve ter uma característica de consciência revolucionária sobre o que fazer. Não basta nos indignarmos (o que já é um bom caminho, pois a indignação é um terreno fértil para a semente revolucionária), mas é necessário termos atitudes dentro de uma práxis consciente. 

Neste sentido, embora divergindo em muitos pontos de vistas políticos da deputada trabalhista inglesa Jo Cox, mas com ela convergindo no repúdio à postura ultranacionalista de intolerância contra refugiados desesperados (motivo de seu assassinato), devo considerá-la como companheira e lamentar-lhe a morte. Mas não podemos abrir mão de conhecermos o porquê do limite interno da expansão capitalista e de sua genocida capacidade destrutiva. 

Há uma insatisfação latente ou explícita entre a população mundial, que vem se manifestando sob as mais diferentes formas (negativas/positivas) e está prestes a explodir de uma forma coletiva avassaladora. Essa insatisfação, por si só, pode não representar uma saída consciente que resulte em formas de produção social e organização social emancipatória, de vez que há uma inconsciência da sociedade sobre si mesma. Há que se saber o que fazer e como fazer, sob pena de mudarmos muita coisa superficialmente mas continuarmos na mesma.  
Jo Cox: lutava contra a intolerância e foi por ela vitimada.

Os efeitos da inconsciência social podem ser desastrosos. A barbárie, p. ex., é uma rebeldia negativa, pois representa um exacerbado retrocesso civilizatório, remetendo o ser humano aos seus instintos animais mais primitivos. 

De modo contrário, a rebeldia contra a injustiça, qualquer que seja ela, é atitude imprescindível, pois ,ainda que não seja fruto da consciência sobre o que lhe é subjacente, representa uma tomada de consciência sobre o que é certo e o que é errado; o que é justo e o que é injusto, independentemente de discernimento científico-social. 

Entretanto, a consciência sobre o que está subjacente ao nosso sofrimento social é imprescindível. Não pode haver emancipação sem consciência social, e é por isso que o establishment domina a grande mídia e o sistema educacional, regulamentando, por meio de suas instituições estatais, a própria reificação das relações sociais (coisas que ganham vida e dão ordens aos humanos).

Inculcam, nas mentes dos indivíduos sociais, conceitos flagrantemente negativos, que são absorvidos como positivos e que terminam sempre em resultados nefastos para a humanidade. Os valores da sociedade mercantil positivam a negatividade própria de uma relação de coisas através dos humanos, e não dos humanos diretamente sobre as coisas. Vejamos alguns exemplos: 
Um grande empreendedor e sua mercadoria
a) o que motiva alguém a colher a folha da coca; processá-la de forma clandestina, com a adição de produtos químicos (e, em alguns países, nem tão clandestinamente assim); transformá-la em cocaína; e traficá-la com alto risco, fazendo-a chegar às mãos dos viciados, que serão levados à autodestruição psíquico/orgânica? O resultado financeiro dessa operação! A droga, substância alucinógena, é também uma mercadoria, ou seja, representa geração de valor de troca; de dinheiro; de riqueza abstrata. E, claro, a produção de mercadorias não visa à satisfação do consumo, mas, apenas, faz uso desse consumo para atingir o seu desiderato fundamental: a produção de valor e lucro; 
b) o que motiva alguém a produzir armas, cuja letalidade potencializa a criminalidade bárbara entre os indivíduos sociais ou entre países? O lucro mercantil, pois tanto faz se produzir um remédio ou uma prótese como se produzir cocaína ou uma bomba; o objetivo mercantil é o mesmo.
Há uma tendência cultural (estimulada) de se admitir a existência trans-histórica e ontológica da forma-mercadoria, ou seja, que desde sempre todos os bens servíveis ao consumo já eram mercadorias e serviam como valoração na troca; e que toda sociabilidade sempre se deu pela troca quantificada. 
Matar é errado. Vender armas? Business...

Tal conceito é equivocado e gera a passividade e incompreensão diante da negatividade intrínseca da sociabilidade da forma valor introduzida na humanidade num dado momento histórico com um fim segregacionista imanente: a acumulação individual tanto da riqueza material (o objeto em si), como, principalmente, da riqueza abstrata (o valor, representado pela mercadoria-objeto ou mercadoria-dinheiro).

Um pequeno agricultor que planta milho apenas para o consumo de sua família (pois seu nível de produtividade não mais lhe permite concorrer no mercado) não produz mercadoria, mas apenas milho; tal produção não entra para o mercado e nem entra na composição do PIB. Este simples exemplo desmistifica a ideia errada de que tudo é naturalmente uma mercadoria; que tudo tem um valor econômico natural; e não um valor-trabalho abstrato, substância e conceito de riqueza abstrata. 

A consciência sobre a natureza da vida mercantil nos dá a certeza de que podemos viver sem ela, desde que queiramos abolir a socialização através da sua existência negativa. O saber atual da humanidade pode proporcionar de modo saudável e cômodo a produção de bens de consumo para os 7 bilhões de habitantes do planeta (hoje travada por imposição do limite interno da lógica do sistema produtor de mercadorias) e sem a agressão suicida ao ecossistema.

Se quisermos acabar com a produção das drogas e armas, precisamos acabar com a droga da arma mercadoria.     

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O CHORO DA CIGARRA MESSI E A MONOTONIA DAS FORMIGAS CHILENAS

Gênios na berlinda: Messi em 2016...
Lionel Messi é o melhor jogador de futebol de todos os tempos.

Enquanto a comparação com o principal craque do século passado (Pelé) se dava em termos de talento individual, ainda havia dúvida possível. 

Ambos capazes de fazer jogadas geniais, o brasileiro parecia ser um pouco superior na concretização dos gols e o argentino, muito superior no jogo coletivo. Dependendo dos pesos que se atribuísse a um e outro quesito, dava até para acreditarmos que Pelé continuasse sendo o rei do futebol.

A última evolução de Messi, passando a jogar mais recuado e oferecendo assistências primorosas para os companheiros (que estão fazendo de Suárez o matador mais afortunado do planeta bola), encerrou a questão. 

Mesmo admitindo-se que Pelé tenha sido um tantinho melhor no auge de ambos, o argentino é tão acentuadamente superior no pós-auge que já não há mais nada a discutirmos.

Ou há? Os que veem o futebol com mentalidade de guarda-livros (os contadores de outrora) alegam que Pelé foi muito melhor como jogador de seleção. 

Mas, se colocarmos a conquista de Copas do Mundo como critério fundamental para a aferição da qualidade dos futebolistas, excluiremos verdadeiros gênios dos gramados como Cruyff, Di Stéfano, Falcão, Platini, Puskas, Sócrates e Zico. Um pecado!
...Sócrates, em 1982...

Pelé conquistou dois Mundiais da Fifa (1962 e 1970) nos quais a Seleção Brasileira  era insuperável, não apenas por causa dele, mas de cracaços como Gilmar, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Gerson, Tostão, Jairzinho e Rivellino. E viu Garrincha carregar o escrete nas costas em 1962, já que ele próprio se contundira aos 25' da segunda partida, contra a Checoslováquia (que terminou 0x0), depois de ajudar o Brasil a fazer a lição de casa  contra o freguês México (2x0).

Se formos considerar o peso do contribuição individual para a conquista coletiva, não seria Pelé o melhor de todos os tempos, mas sim três jogadores que, eles sim, fizeram destacadamente a diferença: o já citado Garrincha (1962), Paolo Rossi (1982) e Maradona (1986).

Quanto a Messi, teve o azar de vir numa época na qual uma andorinha só já não consegue fazer verão. Quando tem grandes jogadores a seu lado, é o primus inter pares. Mas, nem mesmo ele é capaz de fazer milagres quando a Argentina só tem mais um fora-de-série em tempo integral (Mascherano) e outro de vez em quanto (Di Maria, que parece nunca estar em bos condições físicas nos momentos cruciais).

O que se viu na decisão da Copa América 2016 fez lembrar o Pelé caçado no Mundial de 1966: Messi bravamente tentando criar jogadas em meio a quatro adversários que o cercavam por todos os lados. Mesmo assim, cavou a expulsão de um dos mastins, sofreu faltas, serviu companheiros desmarcados (mas limitados demais para tirarem proveito da situação). 
...e Baggio em 1994.

Dava pena. Com Messi dando o máximo de si, bastaria existir um artilheiro competente a seu lado para o Chile ser goleado.

A maldição dos pênaltis novamente puniu os craques que carregam a maior responsabilidade. Assim foi com Baggio, Beckham, Drogba, Cristiano Ronaldo, Marcelinho Carioca, Sócrates, Zico e tantos outros.

E Messi, que tanto queria ser amado pelos ingratos hermanos, chorou.

Chorou porque sua genialidade se resume às quatro linhas. Não consegue perceber o que se passa fora delas, como o desvirtuamento do futebol, cada vez menos arte e cada vez mais competição (além de chafurdar em corrupção). 

Com jogadores obrigados a esforços desmedidos, correndo o tempo todo e sendo obrigados a tirar folgas imprevistas quando estão prestes a estourar.

Com decisões espetaculosas mas lotéricas como a da cobrança de pênaltis, que satisfazem a volúpia dos torcedores/telespectadores por emoções baratas mas frequentemente dão ensejo a grandes injustiças, na contramão do desempenho dos times e seleções ao longo da competição, como aconteceu neste domingo, 26 (a Argentina tinha melhor campanha). 

Depois de a revolução espanhola ter propiciado uma década de hegemonia do futebol-arte, técnicos como Diego Simeone e seleções como a do Chile aperfeiçoaram o antídoto à inspiração e ao jogo ofensivo, com sua marcação sob pressão praticamente no campo inteiro, quase sempre congestionando seu campo  defensivo com todos os jogadores.

Pergunto-me como alguém pode gostar daquele amontoado de transpiradores tentando abafar cada adversário que está com a bola. Que graça tem ver Messi derrubado a cada seis passadas por um medíocre qualquer. O que há de gratificante em 120 minutos de faltas violentas, muita catimba e quase nenhuma oportunidade de gol, merecidamente coroados por um 0x0.
O carrossel holandês ressuscitou o futebol ofensivo

Depois do carrossel holandês e de a geração de ouro brasileira ter saído de mãos abanando do Mundial de 1982, passamos mais de duas décadas assistindo a partidas banais, vendo as defesas prevalecerem, os zagueiros darem estourões e os gols saírem de bolas paradas. Temo que, depois do circulo virtuoso, tenhamos entrado noutro circulo vicioso  desses. 

Ai de nós se não soubemos preservar o que o futebol ainda tem de belo! Se desprezarmos as cigarras cujo canto nos encanta, sobrarão só as formigas, cujo monótono automatismo nos entedia até a medula.

domingo, 26 de junho de 2016

ALGUMAS PISTAS SOBRE O QUE DEVEMOS OU NÃO FAZER EM NOSSA JORNADA PARA A EMANCIPAÇÃO SOCIAL

Por Dalton Rosado
"No paleolítico ninguém 
acreditava no neolítico”
(Millôr Fernandes)
Foi-nos vedado o livre pensar, substituído por uma lógica ditatorial reificada na qual as coisas inanimadas ganham vida e nos dão ordens. 

Trata-se de uma relação social na qual uma abstração, a forma-valor, comanda as nossas ações com a lógica de suas regras socialmente negativas e nos impõe um modo de agir submisso a essas mesmas regras, afastando substancialmente os traços de humanidade que são inerentes à condição humana e nos tornando seres humanos fragmentados pela contradição inconciliável entre o que é justo e o que, sendo injusto, é tido como justo. 

Pergunta-se: como nos rebelarmos contra essa correnteza tão forte que sequer nos deixa pensar em formas alternativas de viver, mesmo diante da cada vez mais célere caminhada rumo ao abismo? 

Há quem diga que o canal da emancipação humana é a participação na vida política institucional. Assim procedendo, contudo, não estaremos domando a fera da política, mas sim sendo por ela cooptados (que Bertold Brecht me perdoe, mas os atos da vida cotidiana mercantil não se constituem como atos políticos, mas como afirmação da própria antivida). 

Há uma ordem constitucional estabelecida e obedecida como se fosse o santo graal que tudo purifica e justifica. A constituição é um dos totens da modernidade ao qual se sacrificam vidas humanas (mas somente quando tal sacrifício interessa à manutenção da lógica fetichista mercantil a que serve, pois, do contrário, tal ordem é comumente desrespeitada). 

Lembro-me da história de um revolucionário eleito para o parlamento, que ao ler a frase do juramento de respeito à constituição, resolveu consultar o partido para saber se era correto jurar obediência à chamada carta magna, que erigia, entre outras afirmações contrárias ao que acreditava, o direito de propriedade em cláusula pétrea (sinonímia para a pedra angular de sustentação da riqueza abstrata, que transforma os bens de uso em instrumentos da acumulação segregacionista e antissocial – a mercadoria). 

O partido, que se considerava revolucionário apesar de institucional, lhe disse que aquele juramento era de mentirinha, e que, assim, podia fazê-lo, caso contrário seria cassado por quebra do decorro parlamentar

E assim, o nosso parlamentar revolucionário jurou a constituição; e de tanto ter de jurar muitas outras iniquidades para conservar o mandato (e o salário, que dividia com o partido), terminou laçado pela gravata, ou seja, esqueceu-se dos seus propósitos revolucionários. Moral da história: uma andorinha só não faz verão.
      
A política é o canal de legitimação de uma ordem mercantil que tem no Estado a sua força institucional reguladora e mantenedora, além de indutora do seu pretendido crescimento, ou seja, de si mesma. Ora, se é assim, como transformar a política, de instrumento imanente do capital em seu contrário? 

Querermos ajustar ações revolucionárias emancipatórias por dentro da política é como querer que um corpo venha a ocupar o espaço de outro no mesmo tempo e lugar; é algo que contraria não apenas a lei da física, mas o raciocínio mais elementar da estratégia de luta de libertação; enfim, constitui-se numa tática de pífios resultados. 
Até o povo, apesar de ter as suas consciências constantemente manipuladas pelas mais diversas formas (midiáticas, educacionais, mas, principalmente, pelo desenvolvimento da mística de que qualquer um pode ficar rico, estímulo básico da esperança vã), já firmou um consenso de que o segmento político é formado por oportunistas e corruptos, em sua grande maioria. O pé de laranja não dá jabuticaba.  

A questão do aprisionamento do pensar é tão grave que quem se atreve a falar mal do valor (dinheiro e mercadorias) se obriga a buscá-lo diariamente como forma de sobrevivência, causando uma aparente contradição entre o discurso e a ação. 

Não é fácil nos desprendermos de uma lógica que está em entranhada nas nossas ações e pensares de forma absolutista. Achamos bonito e justo os sindicatos lutarem por mais empregos e melhores salários sem nos apercebermos de que isto significa pedir mais capitalismo, ou seja, pedirmos mais daquilo que nos escraviza (e agora, sem a possibilidade de atendimento, o que força os dirigentes sindicais à aceitação de pactos infames, como a redução de salários como forma de tentativa vã de manutenção dos empregos). 
   
A única forma de nos emanciparmos é:
a) termos consciência de que aquilo que nos é colocado como verdade, como algo ontológico, desde quando criancinhas; como algo tão natural quanto nossa necessidade de tomarmos água diariamente, qual seja, que a única forma de relação social possível é a produção de mercadorias, não passa uma mentira, a qual agora se evidencia de modo irreversível; 
b) sabermos que todos os gigantescos movimentos da economia global, com suas complexas definições advindas da ciência social denominada economia, não passam de castelos de cartas prestes a desmoronar num cataclismo sem precedentes; 
c) destravarmos a clave imposta pela lógica do sistema produtor de mercadorias, que submete tudo ao crivo da viabilidade de mercado e estimularmos a imensa potencialidade de cada região no sentido do provimento das necessidades de cada região de modo a que haja uma interação verdadeiramente solidária de possibilidades/necessidades, e que disto possam resultar novos conceitos de valores, consentâneos com a evolução da condição humana e de sua racionalidade, distanciando-nos do instinto animal que ainda habita em todos nós, e que é estimulado pela lógica mercantil em seu estágio terminal;  
d) usarmos o saber, riqueza natural da humanidade e por ela construído em meio a um itinerário de sangue, como fator contributivo para o ócio produtivo no qual se exercitem as potencialidades do talento humano em seu próprio benefício, seja na saúde, nas artes ou nos esportes, e não o contrário, como hoje ocorre;      
e) ao invés de mendigarmos mais empregos nas longas filas nas portas de fábricas, escritórios e instituições do Estado, devemos negar o trabalho assalariado e criarmos formas alternativas de produção e sustento, porque, afinal, em nenhum objeto sensível apto ao consumo ou serviço existe um grama sequer de dinheiro. 
Sem querer dar uma presunçosa receita de bolo sobre como deve ser a nova ordem social, essas são pistas sobre o que fazer e não fazer.
.
Uma inspirada alegoria de Sérgio Ricardo, comparando 
o colapso do capitalismo ao dilúvio universal.

sábado, 25 de junho de 2016

PEDRO CARDOSO: "QUANDO O BRASIL VENCE MUITO NUMA OLIMPÍADA, GANHA DUAS MEDALHAS DE OURO. DÁ VERGONHA!"

POLÍTICA DE ESPORTES
É tão difícil defender políticas de esporte quanto é fácil o inverso e fazer da fome uma justificativa para a ausência de ações efetivas em outras áreas da administração pública da União, dos estados e dos municípios.

Até há uns 50 anos, passar fome ou necessidade financeira era uma situação atribuída exclusivamente ao indivíduo; ou a pessoa era considerada preguiçosa ou sem iniciativa; por um motivou outro, era censurada pela sociedade. Também poderia ser ou depressiva ou portadora de outra doença. A responsabilidade era somente individual.

Com o passar do tempo houve mudanças e hoje há situações em que a pessoa é responsabilizada, mas prevalece o entendimento de que algumas situações ultrapassam a questão meramente da pessoa e o fato passa a ser de responsabilidade coletiva. 

De uma forma ou de outra, nos denominados países pobres, sem infraestrutura adequada, a discussão fica restrita à comida no prato. No Brasil não é diferente. Por isso, torna-se impossível cobrar ações das autoridades no sentido de criarem espaços para a prática regular de qualquer esporte, exatamente porque quase tudo o que se fala neste país relaciona-se à falta de comida. Mas a população não quer só comida...

Dos quase 6 mil municípios, poucos têm uma quadra poliesportiva adequada à prática de três esportes diferentes. Não é razoável pensar em convencer um prefeito ou uma câmara municipal a construir um ginásio poliesportivo. Cientes dessas dificuldades, as pessoas nem tentam e se omitem totalmente.

Essa falta de compromisso com políticas de esporte ocorre nos governos municipais, estaduais e federal. Mas quando questionadas, as autoridades citam inúmeros projetos que atendem milhões de pessoas. Sabem que ninguém acredita, mas repetem à exaustão.

Iniciativas simples, como torneios de dama e de xadrez, deveriam partir das próprias  entidades sociais, dos sindicatos, das igrejas, dos condomínios e de outras instituições, mas só se consolidariam de forma abrangente e definitiva com políticas governamentais.

As cidades pequenas deveriam priorizar um esporte e organizar um torneio semelhante aos de tênis, com troféus e com uma simbólica recompensa financeira. Poderiam se organizar entre dez ou mais cidades para que cada uma fizesse um torneio de um esporte específico. Um município realizaria uma competição de vôlei, outro de basquete, de tênis, de natação e assim com outros esportes. Facilitaria a participação de atletas de outros municípios.

A cada três ou quatro anos, os municípios com mais de cem mil habitantes promoveriam eventos esportivos mais amplos, com nome de miniolimpíada ou de jogos abertos, a exemplo dos realizados no interior de São Paulo.

Como ainda prevalece a cultura da lei para tudo por aqui, para ajudar a fomentar a prática de esportes, o governo federal e/ou os governos estaduais deveriam criar normas prevendo a realização de atividades esportivas anuais em cada escola, sem exceção.

Estruturas físicas ideais viriam com a prática contínua. De início, valeria o improviso. Poderiam espelhar-se no futebol, que tem sua própria estrutura organizacional com torneios, campeonatos e tudo mais, com ou sem rede, com ou sem árbitro uniformizado. No vôlei, a falta de rede seria substituída por uma corda. Uma cal resolveria a demarcação da quadra. Um leigo que entendesse um pouco superaria tranquilamente a falta de um árbitro.

Da mesma maneira que todo vilarejo possui sua igreja, poderia se empenhar para a construção de uma quadra. As condições só surgirão com consciência, iniciativa e empenho.

Também há a necessidade de perseverança nas ações, para que os jovens não desistam no início. Seria necessário conscientizá-los dos benefícios que o esporte traz à saúde, além de ser ótimo como entretenimento.

Com pouco dinheiro é possível realizar todas as sugestões propostas. Com uma tábua (madeirite), dois caibros, seis parafusos e seis pequenas latas de tinta eu fiz uma mesa de tênis, que alegrou um vilarejo no interior da Bahia por muito tempo.  

Pode até não existir má-fé, pouco importa, mas se faz necessário que as autoridades e a sociedade se comprometam um pouco mais em relação ao esporte.

Também, essas iniciativas preliminares se encaminhariam automaticamente para a formação de atletas com índices olímpicos. 

A posição do Brasil em Olimpíadas dá o atestado da falta de investimento. Quando vence muito, ganha duas medalhas de ouro. É desestimulante. Dá vergonha! Isso precisa mudar e depende de todos — e muito dos prefeitos e vereadores por estarem mais próximos da população. (por Pedro Cardoso da Costa)
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