segunda-feira, 30 de novembro de 2015

RUI MARTINS: "ESSA NÃO É A NOSSA ESQUERDA!".

Por Rui Martins
A tentação de permanecer no poder é sempre grande e estimula em alguns partidos a ideia de obter financiamentos ocultos e não declarados. [Caso do nosso] mensalão, pois o dinheiro recolhido tem só o objetivo de financiar o funcionamento do partido e suas campanhas eleitorais.

Já não se pode definir como financiamento de partido, quando certos políticos negociam facilidades e vantagens para certas empresas ganharem concorrências públicas, ficando com eles mesmos as propinas obtidas. É o caso do nosso petrolão.

[Em] países [como a Alemanha, o Canadá e a França] o onde têm ocorrido casos de corrupção, a Justiça tem toda liberdade de agir sem se criar no país um clima de crise institucional.

No Brasil, a descoberta do mensalão, solução encontrada para o PT governar mas até hoje negada pelo partido, quase provocou a queda do presidente Lula. O atual caso do petrolão, novamente negado contra todos os fatos pelo PT, estimula uma campanha contra o Judiciário, incompreensível para quem está de fora. 

E acontece o inacreditável –a maioria dos processados corruptos é considerada vítima pelos próprios eleitores pobres petistas, manipulados para não verem que o rombo da corrupção nas empresas públicas vai custar caro para o Brasil e, indiretamente, para todos os contribuintes.

O cenário (...) tem tudo de uma ópera bufa ou palhaçada, tantos são os argumentos furados e esfarrapados utilizados pela direção petista para ludibriar seus seguidores. No caso atual, da prisão do senador Delcídio, chega a provocar risos a rapidez com a qual a direção petista tentou desvincular o senador corrupto do seu partido, mesmo sendo ele o líder da bancada petista no Senado.

Para a esquerda brasileira, esse festival de bandalheira que assola o país é, além de desolador, uma tragédia, porque o PT nascido com a estrela vermelha esquerdista vai estigmatizar, se já não estigmatizou, toda tentativa de esquerda para recolocar o país nas reformas sociais e dentro dos valores éticos normais. 

"ESTÁ NA HORA DE TODAS AS ESQUERDAS SE UNIREM PARA 
DESMISTIFICAR A FARSA DECORRENTE DA MENTIRA ELEITORAL"

É também dramático porque os petistas, ao invés de cobrarem de seus dirigentes esse vergonhoso desvio, insistem em reafirmar sua confiança no partido, culpando a grande imprensa e a oposição, recusando todas as evidências de corrupção. Ou então justificam, afirmando ter sido a mesma coisa nos governos anteriores, numa inesperada perversão ética.

Outros dizem serem obrigados a desculpar tudo isso, em favor da plataforma de mudanças sociais feitas no país pelo PT. Houve realmente grandes avanços no Brasil em favor da grande parte da população antes excluída, mas o trabalho não foi concluído e com a virada econômica do atual governo, muita coisa pode se perder. 

O Brasil viveu bons momentos nos últimos anos em grande parte pelas importações chinesas de nossas matérias primas. Entretanto, infelizmente o Brasil seguiu a velha cartilha e não aproveitou essa fase de progresso para desenvolver ou construir suas bases e estruturas industriais, satisfazendo-se com a euforia do consumismo proporcionado pelas ajudas sociais.

Infelizmente esse quadro internacional favorecendo exportações a bons preços acabou. Teremos muitos anos magros pela frente que poderão provocar agitações sociais e a esquerda, hoje estigmatizada pela corrupção, terá dificuldade para se afirmar junto ao povo. Só uma alternância no poder permitirá o processo de depuração necessário, para que a verdadeira esquerda surja com seus verdadeiros projetos sociais de mudanças.

Está na hora de todas as esquerdas brasileiras se unirem para desmistificar a farsa atual decorrente da mentira eleitoral. É inadmissível se justificar ou se continuar aceitando esse escandaloso acordo pelo qual Cunha não é cassado por corrupção para garantir não haver impeachment.

Essa dita esquerda que está aí não é a minha esquerda.

Que também não seja a sua!

Obs.: para adequar o texto do companheiro Rui Martins ao estilo (mais essencializado) do blogue, descartei os parágrafos iniciais e pequenos trechos dos restantes. Os interessados poderão acessar o texto integral aqui

domingo, 29 de novembro de 2015

DIZE-ME COM QUEM ANDAS E TE DIREI QUEM TE TORNASTE

Graças ao veterano jornalista Carlos Brickmann e ao louvaminhas colunista social Fernando Soares (mato-grossense como o senador recém-engaiolado), poderei dar uma boa ideia de quem era, antes da queda, o Delcídio do Amaral. 

E, claro, do tipo de gente com quem o PT hoje anda envolvido, na mais acintosa promiscuidade...

Comecemos pelo indignado Brickmann:
"Delcídio Amaral sempre ganhou bem: engenheiro eletricista, trabalhou para a Shell na Europa por dois anos, foi diretor da Eletrosul, secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, ministro de Minas e Energia, diretor de Gás e Energia da Petrobras, secretário da Infraestrutura do Governo de Mato Grosso; é senador desde 2002.  
Sempre ganhou bem, mas sempre viveu de salário. Por mais que ganhasse, não seria suficiente para ter a casa que tem em Campo Grande - lá, no aniversário de 15 anos de sua filha, couberam 700 convidados, atendidos por seis chefs de cuisine, com divisões para comidas típicas de diversos países  
Ninguém notou - nem políticos, nem jornalistas?"
Continuemos com o embasbacado Soares:
"A icônica mansão que já foi palco da Casa Cor no ano passado voltou aos seus tempos áureos. Maria Eugênia Amaral, carinhosamente chamada de Gigi, celebrou seus 15 anos na casa que teria capacidade para abrigar os 700 amigos da família. Na noite de sábado, a caçula do senador Delcídio e de Maika do Amaral fez a noite mais vibrante e intensa dos últimos tempos. (...) Ao longo de um mês, a mansão vinha se transformando para ser um espaço dourado de 1,6 mil metros, inteiramente coberto em teto transparente, onde frondosas árvores naturais surgiam iluminadas na lateral do espaço.  
Na entrada, painéis, com celebridades internacionais, revelavam que hollywood era ali. Em seguida, TVs de LCD trazendo alguns filmes clássicos (...), e mais adiante quatro imensos lustres de cristal davam as boas-vindas aos convidados no salão. Centenas de orquídeas harmonizavam com mini-rosas pink. O mobiliário era assinado por Philippe Starck, em preto e suaves interferências em ouro.  
O cardápio de Maria Adelaide Noronha, do Yotedy, também impressionou em especial pelos ouriços de cream cheese com camarão e as tilápias ao duo de queijos e creme de limão. Foram mais de 120 garrafas de uísque Johnnie Walker e 240 de champanhe Veuve Clicquot. A moçada gostou mesmo foi do pizzaiolo do Faustão e (...) dos barmen, lindos que vestiam smoking branco, todos do Help Bar, de São Paulo e Brasília. 
Maria Eugênia ganhou surpresinhas ao longo da noite. Dentre elas, brincos, anéis e pulseiras de ouro e brilhantes..."
Será que a dengosa Gigi vai se dispor a vender algumas surpresinhas para contribuir no custeio da defesa do Daddy? Encalacrado como o Delcídio está, o custo vai ser astronômico...

POR QUE NÃO TROCAR O "ORDEM E PROGRESSO" POR "MANDA QUEM PODE E OBEDECE QUEM TEM JUÍZO"?

Pesquisa do instituto DataFolha, realizada nos últimos dias 25 e 26, revela que os brasileiros não querem mais ter Dilma Rousseff como presidente da República, gostariam que renunciasse (65%) ou que o Congresso abrisse um processo de impeachment contra ela (63%), mas não acreditam que venha realmente a deixar o poder (64%).

Triste retrato de um povo que, de tão acostumado a ver os podres Poderes ignorarem a voz das ruas, já se resigna à impotência, preferindo aguardar pacientemente que as mudanças desejadas caiam do céu e nem sequer cogitando a hipótese de gritar mais alto para fazer com que o escutem em Brasília.

No clássico Terra em transe, de 1967, Glauber Rocha ousou levantar uma questão que era tabu para a esquerda e lhe acarretou críticas furibundas: se a pusilanimidade dos brasileiros facilitava a ocorrência de retrocessos como o de 1964. Ou, em termos glauberianos, se a culpa era do povo, como mostrava crer o poeta Paulo Martins (Jardel Filho).

Lembrando o abandono a que foram relegados os inconfidentes do século 17 e fomos relegados os resistentes do século 20, a independência vinda pelas mãos do príncipe português e com apoio inglês, o fim da escravidão como graça concedida por outra princesa, a passividade face a uma ditadura de 15 anos e outra de 21, não hesito em afirmar: a culpa é sim, também, do povo.

sábado, 28 de novembro de 2015

O DRAMA SE APROXIMA DO PREVISÍVEL DESFECHO E EU REPITO O APELO: DILMA, RENUNCIE ANTES DE SER AFASTADA!!!

É tão deprimente o desenrolar dos acontecimentos que eu nem os esmiuçarei, limitando-me às conclusões genéricas. 

As investigações da Operação Lava-Jato chegaram nesta semana ao centro do poder e, pelo andar da carruagem, não está longe o dia em que os pedidos de impeachment da presidente Dilma Rousseff se lastrearão no conhecimento (que, tudo leva a crer, realmente tinha) da roubalheira na Petrobrás e em sua omissão face a ela, deixando de tomar as providências que lhe cabiam como presidente do Conselho de Administração, ministra e depois presidente da República. 

Mesmo não tendo se beneficiado pessoalmente do esquema de corrupção, Dilma deverá ser acusada de conivência e pagar por isto. Assim como José Genoíno, igualmente sem que ninguém lhe pudesse imputar ganhos ilícitos, pagou um preço terrível por ter assinado um papelucho em confiança.

Enquanto isto, o cerco ao ex-presidente Lula, parentes e amigos também começa a produzir resultados e ninguém pode mais prever se ele passará o Natal em família ou na prisão.

Já escrevi isto antes, não fui levado em consideração, mas insisto: bem mais digno do que espernear até o mais amargo fim será Dilma renunciar de imediato.

Assim, a imprensa passará a ter assuntos mais relevantes de que se ocupar, com o revolver da lama da corrupção ficando em segundo plano e a esquerda deixando de sofrer um desgaste tão acentuado quanto o dos últimos tempos.

Essa agonia lenta sob holofotes é terrível para todos que lutamos por uma sociedade mais justa (pois o cidadão comum tende a considerar-nos farinha do mesmo saco, sem levar em conta se participamos dos governos petistas ou deles mantivemos distância), para o País que decai a olhos vistos e para o povo que é cada vez mais sacrificado pela recessão.

A saída de Dilma da Presidência é mera questão de tempo. Cabe a ela decidir se é melhor sair caminhando pela porta da frente ou escorraçada pela porta de trás.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

CLÓVIS ROSSI: "NÃO ADIANTA TENTAR DESVINCULAR O SENADOR DO GOVERNO DO QUAL É LÍDER".

Por Clóvis Rossi
NUNCA ANTES NESTE PAÍS

O primeiro choque viera na 4ª feira, 25, ao ver na capa da Folha o pecuarista José Carlos Bumlai sendo levado preso pela Polícia Federal.

Como é possível que, em pleno Brasil, não adianta um amigo do rei (no caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) gritar "sabe com quem está falando?"? Vai preso assim mesmo.

Um pulo para trás: idêntico choque já ocorrera quando da prisão de executivos e proprietários de algumas das maiores empreiteiras do país –eles que são, sempre, amigos do rei, seja qual for o rei e seja qual for o país.

Mas foram tantas as prisões que eu já estava anestesiado quando veio o episódio Bumlai.

Nem deu tempo para uma nova injeção de anestesia e veio o choque definitivo: um banqueiro preso, junto com um senador em pleno exercício do mandato, ainda por cima líder do governo no Senado.

Nunca antes neste país houve algo parecido. E eu achava que morreria sem ver.

Também não achava que veria a decomposição ética do Partido dos Trabalhadores. Nunca antes na história deste país tantos dirigentes de um mesmo partido –ainda por cima do partido do governo– foram presos e condenados como está acontecendo com o PT.

Uma vez, muitos anos atrás, Lula almoçou na Folha e, já no cafezinho, pousou o braço nos ombros de Octavio Frias de Oliveira, então o publisher do jornal, e disse:
"Frias, você ainda vai se orgulhar desse petezinho", como se o publisher fosse um companheiro que Lula tivesse conhecido nas greves do ABC.
Frias morreu sem ter tido tempo de se envergonhar, em vez de se orgulhar, desse petezinho.

Afinal, não há diagnóstico mais preciso, até pela melancolia e pela poesia, do que o da ministra Carmen Lúcia do STF, em seu comentário sobre a prisão de Delcídio.

Depois de dizer que houve um momento em que a maioria dos brasileiros acreditou que a esperança vencera o medo, completou: fatos posteriores (alusão ao mensalão) demonstraram que "o cinismo venceu a esperança" e, agora, "o escárnio venceu o cinismo".

É tamanho o escárnio que o presidente do PT, Rui Falcão, tem a cara de pau de soltar nota para dizer que "nenhuma das tratativas atribuídas ao senador tem qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado".

OK, Rui, vamos fingir que acreditamos que Delcídio do Amaral acordava, vestia o terno de senador, participava das atividades inerentes ao posto, depois voltava para casa, trocava o terno por um uniforme de trambiqueiro (existe?) e, já sem a estrelinha vermelha no peito, partia para as maracutaias que o levaram para a cadeia em flagrante.

Ridículo, Rui. Ou covarde, por abandonar um companheiro na desgraça, como fizeram questão de dizer o presidente do Senado, Renan Calheiros, e reafirmar o senador Omar Aziz.

Ser chamado de covarde por Renan Calheiros é o último prego no caixão da dignidade do presidente do PT.

Também não adianta tentar desvincular o senador do governo do qual é líder. Afinal, a mídia internacional deixa claro, como o fez Vinod Sreeharsha, no The New York Times de 5ª feira, 26:
"A prisão de Amaral tende a complicar os esforços [de Dilma] de governar e levar adiante propostas econômicas, incluindo medidas impopulares de austeridade, por meio do Congresso".
Mais: o jornal cita nota do Grupo Eurasia, da mesma quarta-feira em que Delcídio foi preso, na qual diz que o risco de que Dilma não termine o seu período de governo subiu para 40%.

Já no Financial Times, o correspondente Joe Leahy aponta outro bunker afetado pela prisão, neste caso do banqueiro Esteves:
"A prisão do sr. Esteves traz o escândalo pela primeira vez para o sofisticado distrito financeiro da avenida Faria Lima, em São Paulo, onde muitos da nova casta de bancos de investimento do setor privado têm seus QGs".
(O francês Le Monde, a propósito, copia da mídia brasileira a informação de que Esteves é a 13ª fortuna do país).

É uma pena que Lula não possa usar seu bordão favorito e dizer que "nunca antes na história deste país" a elite foi parar na cadeia, inclusive (ou principalmente) seus amigos, correligionários e financiadores.

MEMÓRIAS DE UM CRÍTICO IDEALISTA

Cinema Paradiso: uma ode ao fascínio da sétima arte.
Durante uns cinco anos, entre 1979 e 1984, atuei como crítico de cinema e de música em veículos de pouca expressão.

Mesmo ganhando pouco, é a fase da minha carreira profissional que me deixou as melhores recordações. Até como compensação, tinha liberdade para escrever o que queria, do jeito que queria. Repetindo o Jim Capaldi, "oh, how we danced!"...

Espelhava-me em pesos-pesados como Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel e Rubem Biáfora, com quem aprendera a apreciar a arte com olhar independente, em vez de ser mais um a fazer oba-oba para os artistas e obras de que todo mundo gostava.

Isto me colocava na contramão de uma crítica que começava a funcionar apenas como fornecedora de subsídios para o consumo, oferecendo aos leitores uma bula para eles decidirem se valia a pena ver determinado filme, comprar certo disco. Cheguei a escrever que se tratava, isto sim, de uma burla que se cometia com a arte.

A ficha me começou a cair quando assisti numa cabine a Alien, o Oitavo Passageiro, de Riddley Scott, ao lado dos maiores nomes da critica cinematográfica de São Paulo.

À saída, os medalhões travaram verdadeira competição para ver quem se lembrava de mais filmes antigos dos quais Scott chupara trechos. Demonstraram claramente ter considerado Alien uma colcha-de-retalhos e um lixo.
Peter O'Toole em O Substituto: o cineasta visto como um mago. 

Qual não foi minha surpresa ao constatar, quando as críticas deles foram publicadas, que todos haviam feito média com o filme, permanecendo pateticamente em cima do muro, nem sim, nem não, muito pelo contrário.

Perderam o pouco de respeito que ainda me inspiravam.

O "PROMÍSCUO" ZEFIRELLI - Outro episódio na mesma linha foi o ocorrido quando da coletiva que o diretor italiano Franco Zefirelli concedeu, ao lançar em São Paulo O Campeão. Antipatizei com o filme por ser um reforço dos valores familiares, uma guinada na direção do conservadorismo, depois de toda a efervescência da geração das flores.

Além disto, Zefirelli acabava de ser contratado a peso de ouro para montar uma ópera no Rio de Janeiro, embora, garantissem os expertos, houvesse muitos brasileiros que poderiam desempenhar melhor a função, recebendo bem menos.
Zefirelli: um entrevistado ingênuo como poucos.

Então, combinei com o colega do Diário Popular que, durante a entrevistas, jogaríamos o máximo de cascas de banana no caminho de Zefirelli.

Dito e feito. O italiano escorregou feio, chegando até a admitir que, ao contrário do moralismo piegas do seu filme, ele próprio era "promíscuo". E foi além no ridículo involuntário: "Mas, se todos fossem como eu, não existiria civilização".

Em nossas matérias, não perdemos a oportunidade de espinafrar o conspícuo herdeiro de Sodoma e Gomorra -- que, ademais, reconhecera não conceber os filmes seguindo suas convicções, mas sim com o calculismo de um homem de marketing.

Ou seja, ele procurava antecipar-se aos sentimentos e modismos que estariam em voga quando a película fosse lançada. É o que se depreende desta afirmação: "Não fiz Irmão Sol, Irmã Lua por ser franciscano, mas sim por ter percebido que a juventude estava entrando nessa onda e, logo, muita gente a seguiria..."

Mas, só nós dois registramos os maus momentos de Zefirelli. Os críticos realmente influentes omitiram suas bobagens e trataram de apenas levantar-lhe a bola, mantendo-se nas boas graças do sistema.
O Franco-Atirador me custou um emprego. Hoje agiria igual.

Eu, pelo contrário, nunca conciliei. Não hesitei em qualificar de irrelevante o Superman de 1978, com Marlon Brando. Aí, um diretor do poderoso Circuito Serrador fez questão de me entregar pessoalmente a permanente para eu ter livre acesso aos cinemas da empresa... com direito a um sermão sobre haver afastado os espectadores do seu grande lançamento daquele ano. Não dei a mínima.

Já as farpas contra o O Franco-Atirador, de Michael Cimino, serviram para azedar também meu relacionamento com os mandachuvas do principal veículo em que escrevia, o semanário Fim-de-Semana.

Eles eram todos altos funcionários do jornal O Estado de S. Paulo (dizia-se até que não passava de um veículo criado para descarregar impostos da empresa, apresentando perdas extremamente superfaturadas...) e, como tais, reacionários até a medula.

Ora, O Franco-Atirador, agraciado com vários Oscar, apresentava o conflito vietnamita na ótica calhorda de lamentar os traumas sofridos pelos soldados estadunidenses em contato com a barbárie dos asiáticos.
Jairo Ferreira descobriu: o grande anunciante tem sempre razão.

Ou seja, além de despejarem toneladas de napalm nos coitados, os estadunidenses ainda os satanizavam. Parecia a velha piada do brutamontes se queixando ao fracote de que havia machucado a mão ao esmurrar a cara dele.

Perdi aquela tribuna e não lamentei. "Canto eu vendo, não vendo é opinião", dizia uma velha música da era dos festivais.

INTIMIDAÇÃO DE CRÍTICOS - Não pude, entretanto, deixar de lamentar o fato de haver indiretamente causado a demissão do saudoso crítico e cineasta Jairo Ferreira da Folha de S. Paulo, noutro episódio.

Naquele tempo, a nata dos cineastas engajados agrupara-se na estatal Embrafilme, cuja assessoria de imprensa passou a fazer uma espécie de lobby para intimidar críticos: cada vez que um deles lançava seu novo filme, todos os outros escreviam elogios extremados e desancavam de forma igualmente extremada quem ousasse discordar da excelência da película lançada.

Isto tudo vinha em luxuosos press-kits, cuidadosamente produzidos para embasbacar, amedrontar e, finalmente, cooptar os críticos.
Uma estatal de triste memória

Observei o fenômeno uma, duas vezes. Na terceira, fiz uma veemente denúncia. Contei como funcionava o esquema e escrevi que, mesmo correndo o risco de me indispor com os Glauberes e Nelsons Pereiras, iria discordar: aquele filme não prestava.

O amigo Jairo leu, gostou e resolveu bater na mesmíssima tecla.

Só que a Embrafilme despejava rios de dinheiro na Folha, com seus anúncios enormes e caríssimos. Então, por coincidência, uma semana depois ele foi demitido, a pretexto de que uma crítica sua, escrita para ser publicada no sábado, saíra só na segunda-feira, quando o filme não estava mais em cartaz.

A editora da Ilustrada disse que não tinha sido avisada da urgência. Ele me garantiu que a alertara.

PARA ALÉM DA CRÍTICA DOMESTICADA - De resto, a contribuição maior que eu tentei dar foi propor uma crítica que não se limitasse aos mexericos de estúdios a que o Rubens Ewald Filho conferia tanta importância (quem namorou com quem durante as filmagens, etc.) ou à abordagem puramente técnica.

Queria que o cinema fosse tratado como algo maior. Que os temas levantados pelos filmes também fossem discutidos e aprofundados, não apenas a maneira como estavam sendo apresentados. Que se confrontasse, p. ex., o filme e a obra literária do qual ele derivava. Ou o filme e o acontecimento histórico que ele retratava.

Seria mais trabalhoso para os críticos mergulharem fundo em cada filme? Claro que seria. Mas, só assim daríamos aos espectadores subsídios para fluírem a arte em sua plenitude, como algo capaz de modificar e melhorar o ser humano.
Marcuse, o pai da contracultura.

Tais conceitos eram do filósofo Herbert Marcuse, meu autor de cabeceira naquele tempo: a sociedade pós-industrial tenta domesticar a arte, transformando-a em entretenimento inócuo. Mas, a verdadeira arte será sempre um contraponto à realidade, servindo de ponte entre o que é e o que poderia ser. Cabe aos combatentes da utopia impedir que ela morra.

É claro que meu trabalho acabou sendo ignorado pela grande imprensa; e que, ao propor um enfoque diametralmente oposto ao que convinha ao sistema, queimei minhas chances de estabelecer-me como crítico. Acabei não conseguindo sequer sobreviver nessa área, sendo obrigado a trocá-la pelo - argh! - jornalismo econômico.

Mas, como nunca tive compromisso com o sucesso, faria tudo de novo. Afinal, disse Isaac Deutscher, há vitórias que nos aviltam e derrotas que nos dignificam.

Sendo essas as únicas opções, preferirei sempre as segundas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ABANDONADOS OS PRINCÍPIOS ÉTICOS E AS BANDEIRAS IDEOLÓGICAS, A DEGRINGOLA NÃO TEM FIM.

Poderia ter havido uma séria crise institucional, um conflito de Poderes, caso o Senado questionasse a controversa interpretação que o Supremo Tribunal Federal deu à Constituição para justificar a primeira detenção no Brasil de um senador em exercício. 

Mas, tão acachapantes eram o áudio/transcrições da proposta indecente e do plano de fuga, trombeteados exaustivamente pela mídia, que poucos parlamentares ousaram desfraldar a bandeira da incolumidade do Legislativo. 

O que o eleitorado pensaria de quem o fizesse? Decerto concluiria que tinha igualmente o rabo preso com a corrupção... [Que estranho período vivemos: alguém desperta como um dos homens mais poderosos da República e adormece como um pária encarcerado!]
Delcídio do Amaral: de figurão a pária em 12 horas.

Também o presidente do PT, Rui Falcão, deu uma solene banana para o líder do governo no Senado, afirmando que o partido não estava obrigado a manifestar solidariedade a Delcídio do Amaral, pois "nenhuma das tratativas atribuídas ao senador tem qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado".

Como os dirigentes petistas se preparam para expulsar o pária na semana que vem, deduz-se que, apesar da ressalva retórica, Falcão considera ponto pacífico a existência das "tratativas atribuídas ao senador", caso contrário estaria cometendo uma enorme injustiça ao abandoná-lo às feras e articular sua expulsão.

Só faltou comunicar seu entendimento à bancada do PT no Senado, que pagou o mico de ser responsável por 9 dos 13 votos contrários à decisão do STF (os favoráveis foram 59). Estranha solidariedade a deles, para com um colega acusado de participar da roubalheira de dinheiro público e que se aliou a um banqueiro numa tentativa mafiosa de afrontarem a Justiça, tirando das grades e do País um corrupto confesso! Registro o nome dos dois únicos senadores petistas que honraram seus mandatos: Paulo Paim e Walter Pinheiro. E concedo o benefício da dúvida à ausente Fátima Bezerra.
Será que o André Esteves não gostou  do rango no xilindró?

Aliás, o aspecto que mais me choca no episódio é exatamente este, o da promiscuidade com banqueiros, que parece ter-se tornado marca registrada do PT.

Ora é Dilma Rousseff que convida o presidente do Bradesco para ministro da Economia, aceita que este mande um subalterno insignificante no seu lugar e o mantém no posto contra tudo e contra todos (inclusive Lula), mesmo depois de ficar mais do que evidenciada sua incompetência e seu retumbante fracasso.

Ora é a adoção de medidas econômicas que impõem terríveis ônus aos excluídos, trabalhadores e classe média, significativos ônus à indústria e comércio, alguns ônus à agricultura, mas ônus nenhum ao capital financeiro, que surfa e até lucra com a recessão.

E agora um banqueiro aparece ao lado de um grão petista não só no envolvimento com crimes do colarinho branco como o mensalão ou  petrolão, mas também num esquema de bandidagem pura e simples. Como disse o jornalista Vinícius Torres Freire, "falta apenas alguém mandar matar testemunha (*), policial, procurador ou juiz". 

relação indecente/parceria criminosa entre Delcídio do Amaral e André Esteves faz lembrar a de guerrilheiros desvirtuados com narcotraficantes na Colômbia. Comprova que, quando são abandonados os princípios éticos e as bandeiras ideológicas, a degringola não tem fim.

Ou, talvez, tenha: pode ser que termine no tanque de merda ao qual, com a finesse que lhe é inerente, referiu-se o indigitado senador Jader Barbalho.

Trata-se do habitat natural dos personagens desses escândalos que infestam a política oficial, agora sem distinção nenhuma entre petistas e não petistas, todos enfiados até o pescoço nos excrementos.
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* talvez esta forma mais simples de eliminarem o risco Cerveró só não tenha sido cogitada por temor de um novo caso Celso Daniel.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O filme do dia: "ENCURRALADO". Qualquer semelhança com o ENCALACRADO Delcídio do Amaral é mera coincidência...

A engrenagem capitalista nas artes tem o toque de Sadim (Midas ao contrário): todo ouro que toca vira cascalho. É interminável a lista de grandes talentos que minguaram por se prostituírem ao cinemão, limitando-se a prover as banalidades inócuas que os espectadores medianos apreciam.

Steven Spielberg ocupa lugar de destaque na relação. Poderia ter feito cinema de verdade, a julgar pelo pique inicial. Mas, o primeiro grande sucesso, Tubarão (1975), foi o último grande filme. Nunca mais deixou de bajular os consumidores em troca de um punhado de dólares. 

Estreou com um filme feito para a TV, tão bom que acabou passando antes pelos cinemas: Encurralado (1971). Vocês podem assisti-lo na janelinha abaixo.

O título original, Duel, é mais apropriado. Caminhoneiro antipatiza com um caixeiro viajante (Dennis Weaver) que buzinou insistentemente pedindo passagem.

Por este único motivo passa a persegui-lo e a hostilizá-lo desmedidamente ao longo da estrada, até o pacato sujeito se convencer de que não tem como escapar do duelo. Só sobreviverá se assumir o desafio.

Afora a maestria com que Speilberg faz crescer o suspense a cada segundo do seu estranho road movie, há todo um simbolismo por trás da ação, remetendo-nos à história bíblica de Davi e Golias: o vendedor tem o alusivo nome de David Mann e confronta um gigantesco monstro mecânico cujo condutor nunca é visto. 

Indo mais além, eram tempos de Guerra do Vietnã e da contestação jovem, que desestabilizavam o mundinho careta (segundo o jargão da época) no qual David Mann se acostumara a viver. Assim como ele, a chamada maioria silenciosa sentia-se repentinamente ameaçada, tendo de travar duelos para os quais não se havia preparado. Encurralado flagra tal desconforto.

Situação semelhante é mostrada no filme que representou um divisor de águas na carreira de Spielberg, Tubarão, quando o perigo inesperado se corporifica num monstro marinho, que também surge do nada e atrai para um duelo mortal o xerife prosaico e sem porte de herói (Roy Scheider).

Maior faturamento da história do cinema até então, tonteou Spielberg, tornando-o um obcecado por bilheterias. A partir de então ele realizaria um sem-número de besteirinhas caça-níqueis, além de recorrer a uma apelação manjadíssima (fazer coro com a cantilena dos judeus, os magnatas que comandam Hollywood) quando se dispôs a obter, custasse o que custasse, o seu primeiro Oscar.  

Seu A lista de Schindler desperdiçou uma ótima história e um personagem histórico exemplar ao satanizar demais os nazistas, enfatizar demais suas bestialidades e vitimizar demais suas vítimas, acabando por se tornar esquemático, repetitivo e tedioso .

Essencializado, poderia ter sido uma obra-prima. Não consigo lembrar de um filme mais carente de cortes, tantas são as excrescências (pieguices e redundâncias) a clamarem por exclusão.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

OS CARNICEIROS DO ESTADO ISLÂMICO MATAM PORQUE GOSTAM DE MATAR

Meus leitores habituais já sabem que tenho ojeriza profunda aos fanáticos religiosos que exumaram e exacerbaram o terrorismo clássico. Vale a pena explicar os motivos.

Ao contrário de considerável parcela dos articulistas ditos de esquerda, li muito Marx, Engels, Lênin e Trotsky nos meus anos de formação política. E aprendi que a abolição do capital e o fim da sociedade de classes seriam o coroamento da marcha civilizatória, o final de uma longa caminhada das trevas para as luzes, do tacão da necessidade para a plenitude da liberdade.

Então, como os autores citados, só posso considerar patética a tentativa de fazer o relógio da História retroceder à Idade Média, quando os pastores de cabras aceitavam que a idiotia religiosa regesse cada esfera da vida social e da moral individual, e acreditavam que dizimar infiéis lhes abriria as portas do paraíso. 

Desde o aiatolá Khomeini, sou totalmente contrário ao oportunismo da má parte da esquerda que, trocando o marxismo pela geopolítica, alinha-se com os inimigos da civilização, apenas porque, circunstancialmente, estão na contramão de EUA, Israel, França ou qualquer outro vilão da vez. É simplesmente aberrante a esquerda, filha do iluminismo, dar as mãos a quem quer anular o iluminismo e todas as suas consequências!

Também me irrita profundamente a forma como os terroristas de Alá ajudam a indústria cultural a incutir no cidadão comum a paranoia face aos diferentes. Num momento em que o capitalismo putrefato o expõe aos piores rigores econômicos e à vingança da natureza, a existência de um bicho papão é mais do que conveniente para quem pretende mantê-lo submisso e conformado, encarando as catástrofes climáticas como fatalidades, a desigualdade como ordem natural das coisas e a polícia como protetora, suportando sem chiar as  agruras nossas de cada dia.

O que a indústria cultural insidiosamente incute nos seus públicos, martelando sem parar? A sensação de que tudo vai bem na vidinha de todos até que surge qualquer ameaça externa, como assassinos seriais, zumbis ou... terroristas. Os papalvos devem prezar a normalidade e temer unicamente aquilo que a quebre. É onde se encaixa, como uma luva, a bestial matança perpetrada pelo Estado Islâmico na 6ª feira 13. 

Desconheço autoproclamados inimigos do sistema mais convenientes para o dito cujo do que os carniceiros de Alá. O ataque pirotécnico da Al Qaeda ao WTC deu pretexto a uma longa e terrível temporada internacional de estupro dos direitos humanos, da qual finalmente estávamos emergindo quando o EI entrou em cena para fornecer novos e valiosos trunfos propagandísticos para os trogloditas da direita. Se depender dos jihadistas, a guerra ao terror nunca acabará.

Por último, os verdugos de Alá, com seus atentados covardes contra civis e suas repugnantes execuções de prisioneiros, agridem de tal forma a sensibilidade dos cidadãos equilibrados que facilitam a disseminação de preconceitos contra qualquer forma de resistência armada a governos totalitários. 

A direita deita e rola nesse clima de rancor cego, que propicia a satanização dos combatentes que, em situação de extrema inferioridade de forças, desafiaram heroicamente o terrorismo de estado nos anos de chumbo; propiciou a satanização de Cesare Battisti, mediante a afixação de um rótulo que nem sequer fora utilizado no momento dos acontecimentos (a Justiça italiana não o acusou nem condenara como terrorista). Serve para tentar socar-nos goela adentro uma lei que permitirá enquadrar as mais inofensivas formas de protesto como crimes gravíssimos.

Sou veterano de uma organização armada que erigia como inimigos apenas os torturadores, assassinos e dirigentes da ditadura militar, fazendo tudo para evitar que civis e os inconscientes úteis apanhassem as sobras dos confrontos. Preferíamos sacrificarmo-nos do que sacrificar os inocentes. Então, é chocante ao extremo para mim constatar a falta de um mínimo resquício de humanidade, de compaixão, de empatia com outros seres humanos, nesses autômatos de Alá. 

Mandar bala em jovens que alegremente socializavam num boteco é coisa de nazista, de psicopata! Para tentar compreender personalidades tão monstruosas, só mesmo uma abordagem psicanalítica como a do escritor português João Pereira Coutinho (vide íntegra aqui), com a qual encerro esta divagação: 
"...quando olho para o rosto dos terroristas, o que vejo é a felicidade da matança. Eles não matam apenas por uma religião (que mal estudaram) ou por razões geopolíticas (que nem sequer entendem). 
Eles matam porque gostam de matar. Como dizia Ernst Jünger, eles estão tomados pela 'vermelha embriaguez do sangue'. 
...o que me interessa no relato [de Jünger em seu livro A Guerra como Experiência Interior] é a dimensão de êxtase que o combatente sente na batalha. A sociedade pode refrear 'a pulsão dos apetites e dos desejos', escreve ele (como escreveu Freud). Mas a parte bestial do ser humano não pode ser abolida da nossa natureza.
Somos feitos de razão e sentimento. Mas também de fúria e instinto. E, quando provamos a loucura da guerra, emergimos como 'o primeiro homem', o homem das cavernas. 
...embalados pelo conforto da paz, somos incapazes de entender, muito menos aceitar, a felicidade dos terroristas. A felicidade de homens como nós que provaram e gostaram do sangue. E que exatamente por isso querem mais e mais e mais –até que a morte nos separe"

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS IMPROVÁVEIS 'CHOCOLATES' DE BARCELONA E CORINTHIANS SOBRE SEUS GRANDES RIVAIS

Sou corinthiano desde criancinha e culé desde que o Barcelona atualizou o carrossel holandês, tornando-se o carro-chefe de um novo apogeu do futebol-arte. Então, o último fim de semana foi o melhor de toda a minha vida de torcedor: meus dois times simplesmente massacraram os maiores rivais.

Goleadas tão acachapantes em clássicos são muito raras, quase sempre resultando da conjugação da excelência de uma equipe com erros terríveis da outra.

O 4x0 do Barcelona sobre o Real Madrid, em pleno estádio Santiago Bernabeu, se deveu: 
  • à qualidade do jogo coletivo dos catalães, muito superiores aos merengues neste quesito;
  • a atuações brilhantes de Iniesta, Neymar, Suarez e Bravo, enquanto os craques adversários, principalmente Cristiano Ronaldo, estiveram muito mal; 
  • à imprevidência do técnico Rafael Benitez, que sacou do time o volante defensivo Casimiro pensando em aumentar o volume de jogo do ataque madrilenho, mas acabou apenas desguarnecendo sua retaguarda, exatamente como Felipão fez no malfadado 7x1 do último Mundial. 
Com os espaços de que necessitava para desfilar sua imensa categoria, Iniesta ditou o ritmo do ataque, ministrou uma aula de futebol inteligente, marcou um golaço e deu outro de bandeja para o Neymar fazer.


Se, tendo um Messi meia-boca (vinha de contusão e só entrou no 2º tempo, com evidente falta de ritmo), era improvável que o Barça, fora de casa, triturasse o Real, mais surpreendente ainda foi a impiedosa sova que o misto do Corinthians, em casa, aplicou no pobre São Paulo: 6x1!

Para a partida em que festejaria a conquista do título, Tite escalou oito jogadores que não vinham atuando, embora três (Fagner, Uendel e Bruno Henrique) fossem titulares antes de se contundirem. Temia-se que o São Paulo, precisando da vitória para melhorar suas chances de chegar à Libertadores, botasse água no chopp, carimbando a faixa dos campeões. 

Mas, a defesa tricolor mostrou vulnerabilidade extrema ao jogo aéreo, permitindo que o Corinthians praticamente liquidasse a fatura no 1º tempo. Três cabeçadas de dentro da área terminaram em gols, outra obrigou o goleiro Denis a esticar-se todo para salvar. E foi simplesmente ultrajante a vantagem que Romero levou sobre o confuso Lucão, um Zé Grandão Bobo que nem sequer saltou para atrapalhar o atacante baixinho.

No segundo tempo, uma linha de passe alvinegra terminou em golaço de Lucca, depois de Bruno Henrique girar sobre um zagueiro ingênuo e o veterano Danilo dar um milimétrico passe de calcanhar. Finalmente, o esforçado paraguaio Romero teve sua jornada de Cinderela, abrindo caminho para mais dois gols.

No apagar das luzes, o árbitro arrumou um pênalti de consolação para o São Paulo, mas o gigante Cássio confirmou sua escrita de algoz dos cobradores, repetindo com Alan Kardec o que já fizera duas vezes com o Rogério Ceni.

MÉDICO PALESTINO EXPLICA POR QUE OS ARTISTAS CONSCIENCIOSOS NÃO DEVEM APRESENTAR-SE EM ISRAEL

Caetano Veloso foi, juntamente com Gilberto Gil, apresentar-se em Israel, apesar de enfaticamente advertido por muita gente boa (incluindo o bispo Demond Tutu e Roger Waters) de que estaria assim coonestando a nova forma de apartheid que o estado sionista hoje personifica.

Na volta, procurou limpar sua barra com um artigo chocho e evasivo, cujo grand finale apenas indica que, talvez, procurará outros lugares para ir rechear a conta bancária:
"Gosto de Israel fisicamente. Tel Aviv é um lugar meu, de que tenho saudade, quase como tenho da Bahia. Mas acho que nunca mais voltarei lá"
"Acho que nunca mais voltarei a recusar um cachê elevado"
No mínimo, para ser crível, sua mea culpa deveria incluir a doação integral do cachê da discórdia aos que lutam contra a ocupação militar dos territórios palestinos e expurgos truculentos de seus habitantes.

Mesmo assim, um expoente do Movimento Internacional de Boicote (BDS), à falta de coisa melhor, saudou o acho de Veloso, fazendo de conta que não percebeu a ambiguidade da afirmação (quem garante que ele não achará outra coisa se receber uma oferta irrecu$ável, fascinado como mostra ser pela "força da grana que ergue e destrói coisas belas"?). 

Compreendo haver sido o mico que o digno médico palestino Othman Abu Sabha teve de pagar para transmitir sua mensagem num jornalão brasileiro. Ele é responsável pela clínica de Susiya e diretor da Sociedade Palestina de Socorro Médico da região de Hebron (Cisjordânia).

Inteiramente solidário ao BDS, transcrevo aqui o artigo de Abu Sabha, até porque fornece um ótimo quadro da opressão do povo palestino por parte daqueles que foram vítimas de um genocídio e parecem ter dele extraído a única e repulsiva conclusão de que mais vale ser quem o pratica do que quem o sofre.

DE SUSIYA PARA CAETANO 

Saber da intenção de Caetano Veloso de nunca mais voltar a Israel me deu esperança. Esperança de que há um entendimento crescente no mundo sobre o que está acontecendo na Palestina. É bom saber que a visita de Caetano a Susiya, aldeia palestina na Cisjordânia, ajudou a mostrar que por trás da imagem de um ambiente vibrante de alta tecnologia está uma uma dura realidade de ocupação e apartheid.

Há anos sou o médico responsável pela clínica local de Susiya. No entanto, agora, a clínica e toda a vila estão sob ordem de demolição. Planos e políticas israelenses pretendem limpar etnicamente 60% da Cisjordânia ocupada, começando por 86 vilas rurais e áreas agrícolas que serão destruídas.

O povo palestino está sendo forçado a abandonar Jerusalém: Israel já expulsou muitos e revogou o direito de residência na cidade de 14 mil palestinos. Aqueles que permanecem enfrentam, diariamente, repressão, demolição de suas casas, políticas racistas e linchamentos.

O objetivo é nos situar nas chamadas zonas de realocação, as quais serão circundadas junto ao resto das cidades e áreas residenciais palestinas por um muro de mais de 700 quilômetros de extensão e oito metros de altura.

Se os planos israelenses forem finalizados, o povo palestino estará confinado à faixa de Gaza, às partes restantes da Cisjordânia, menos de 12% de nossa terra natal histórica, e ao exílio, onde mais de 5 milhões de palestinos refugiados esperam que seu direito de retorno seja respeitado. Como diz Caetano, não é essa a paz que queremos.

Não à toa, uma nova geração de palestinos está liderando uma série de manifestações em mais de 50 localidades ao longo das terras controladas por Israel. Esses jovens sabem que Israel não permitirá a eles nenhum futuro e hoje protestam por sua esperança e dignidade. Removem a aparência de normalidade do regime de apartheid, ocupação e colonização de Israel.

Israel, por sua vez, tenta manter uma cortina de fumaça para garantir que relações econômicas, políticas e culturais com o restante do mundo se perpetuem normalmente. Essa é uma das razões pelas quais, há dez anos, chamamos o mundo para pressionar Israel a respeitar suas obrigações, por meio do movimento internacional de boicote (BDS). Um pedido apoiado amplamente pelos palestinos, porque vincula o mundo a nós por uma solidariedade efetiva.

Esse chamado não traz nenhuma solução final, mas reivindica três direitos básicos estabelecidos pelo direito internacional: o direito dos refugiados, maioria de nosso povo, de retornarem; o fim da ocupação e desmonte do muro; e igualdade para os palestinos cidadãos de Israel. Fico feliz que Caetano tenha atestado publicamente que essas demandas têm fundamento.

Para nós, palestinos, romper os vínculos e a cumplicidade econômica e institucional com as violações de Israel é um elemento imprescindível de nossa luta. De Susiya a Salvador, o movimento BDS une as pessoas ao redor do mundo.

Esperamos que Caetano siga conectado com nossa vila e com nossa luta por justiça, liberdade e igualdade. Convidamos Caetano e todos os artistas latino-americanos a se unirem ao BDS e caminharem conosco rumo à paz que queremos.

UMA PÉROLA DA MPB: PAULO CÉSAR PINHEIRO E TOM JOBIM CANTANDO "MATITA PERÊ" EM 1980.

REDUÇÃO DA POLÍTICA À EXACERBAÇÃO DE ANTAGONISMOS E SATANIZAÇÃO DOS ADVERSÁRIOS SATUROU ARGENTINOS

Por Clóvis Rossi
CRISPAÇÃO CANSOU A ARGENTINA

Não foi exatamente um modelo inteiro que ruiu nas urnas argentinas deste domingo, 22, mas, acima de tudo, a maneira rude de exercê-lo.

Que o modelo não foi inteiramente derrotado prova-o o fato de que seu antagonista, o vencedor Mauricio Macri, empenhou-se durante toda a campanha em jurar que não mexeria nos programas sociais que deram popularidade primeiro a Néstor Kircher e depois à Cristina Kirchner.

Essa fatia do modelo —o esforço de de inclusão social, sincero ou demagógico, a juízo de cada leitor— é um ativo que veio para ficar e não só na Argentina.

No Brasil, por exemplo, não houve, em 2014, e não haverá em 2018 ou depois qualquer candidato, por mais reacionário que seja, capaz de pôr em dúvida a permanência do Bolsa Família, para citar apenas um dos símbolos dos governos do PT, como o foi na Argentina, ainda que com outro nome (Asignación Universal por Hijo).

Macri se beneficiou da rejeição à dinastia Kirchner 
Outros aspectos do modelo, como o excesso de intervenção do Estado, podem ter sido rejeitados nas urnas deste domingo, mas é algo que só dirão as análises sociológicas que o tempo do jornalismo dificulta.

O que, sim, do meu ponto de vista, pode se afirmar com segurança que perdeu foi a maneira imperial de exercer a Presidência, a crispação permanente que Cristina, muito mais que Néstor, impôs ao país.

Produziu um estado de ânimo que só é adequadamente descrito por uma palavra espanhola, hartazgo. Em português, é cansaço, esgotamento, mas hartazgo, ainda mais com o forte acento portenho, soa definitivo.

Constata para El País, p. ex., o intelectual En­ri­que Va­lien­te Noai­lles: "A Ar­gen­ti­na se fartou de si mesma, de viver num ambiente que produz seu próprio monóxido de car­bono".

Reforça Ricardo Kirschbaum, que, como editor-chefe do Clarín, foi um dos alvos permanentes da crispação: "Hoje se acaba um ciclo político que fez do antagonismo sua razão de ser".

Presidência imperial é rejeitada pelos hermanos
Até Daniel Scioli, o candidato (a contragosto) de Cristina, admitiu na antevéspera da votação: "Talvez estejam [os eleitores] irritados com as brigas, mas comigo é diferente. Sou um homem de diálogo, como já demonstrou a minha vida".

É bom ressaltar que outros regimes que se dizem de esquerda na América do Sul, Brasil inclusive, adotaram o mesmo mecanismo de satanizar os adversários, tratando-os como inimigos da pátria.

Pode-se, por extensão, supor que o cansaço dessa confrontação permanente estender-se-á além da Argentina, quando houver eleições.

Aliás, Jorge Fontevecchia, diretor do grupo Perfil, outro alvo da crispação do kirchnerismo, dizia à Folha ainda antes da eleição:
"Creio que vivemos [Brasil e Argentina] ciclos parecidos. Essa mudança aqui [na Argentina] talvez tivesse ocorrido também na última eleição brasileira, caso ocorresse alguns meses depois".
O palpite parece correto: Dilma Rousseff ganhou a eleição com pequena diferença, mas depois dela sua popularidade mergulhou num infernal tobogã.

Como a Argentina, o Brasil parece cansado desse perene nós contra eles / eles contra nós.
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