domingo, 31 de agosto de 2014

A VERSÃO DO CONDENADO NO TRIBUNAL DA VPR NÓS JÁ TEMOS. FALTA QUEM APRESENTE O "OUTRO LADO"...

Já pensaram nisto aqui com o triplo de público?! Pois é... 
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo tinha gente saindo pelo ladrão neste sábado (30), véspera do encerramento. 

O espaço é insuficiente para um evento de tal porte; as ruas eram estreitas e a circulação, dificultada ainda mais pela existência de vários pontos de engarrafamento; os estandes não tinham número, embora os procurássemos pelo dito cujo que as editoras haviam anunciado e a imprensa publicado; o transporte gratuito a partir da estação do metrô não dava conta da demanda e a fila  foi se tornando quilométrica; minha esposa passou quase uma hora tentando adquirir ingresso, sua vez nunca chegava e ela acabou desistindo.... Enfim, foi o horror, o horror!

Como eu assumira o compromisso de estar presente para receber os visitantes juntamente com a Adriana Tanese Nogueira, aproveitei minhas prerrogativas de idoso para entrar com menos sufoco. Até chegar ao estande, contudo, sofri pisões, encontrões e atentados à minha paciência, que resistiu bravamente. Mas, quero ser mico de circo se colocarei o pé em qualquer edição futura, enquanto não a transferirem para local mais apropriado. O corvo disse: nunca mais!

A FAMÍLIA EM PRIMEIRO LUGAR

A luta foi heroica, mas isto não nos exime das autocríticas.
Dos veteranos da VPR, só estávamos lá eu e o Mário de Freitas. O Antônio Nogueira da Silva Filho deve ter-se perdido no pandemônio, pois ia para lá, mas lá não chegou  na hora prevista. Enfim, entre nossas lembranças e o que a Adriana apurou para escrever o livro Acorda, amor (vide aqui), deu para trocarmos muitas reminiscências. Nós, velhos guerreiros, adoramos uma boa hora da saudade...

Para fechar esta série, esclareço que o Nogueira, como aliado da VPR, participou em 1969 dos encaminhamentos para implantação de uma área de treinamento guerrilheiro em Goiás, onde, depois se decidiu, ele próprio deveria ser treinado para integrar a futura guerrilha.

Refletindo melhor, resolveu que a responsabilidade para com a esposa e três filhos vinha em primeiro lugar. Então, comunicou à VPR que não participaria da guerrilha, mas estava disposto a permanecer na área durante todo o período de treinamento, a fim de não se tornar um risco para a segurança do projeto. Quando a área perdesse a utilidade e fosse abandonada, ele se desligaria da Organização.

Por que sua sensata proposta não foi aceita? Provavelmente, porque a VPR já teria desistido da área em Goiás, preferindo a de Registro (SP), onde a rede de apoio estaria bem mais próxima. 

Então, a O. reagiu muito mal: simplesmente o submeteu a um tribunal revolucionário in absentia e dois dos juízes decidiram expulsá-lo, enquanto o terceiro, voto vencido, preferia o justiçamento

Tribunal revolucionário, quem merecia era o cabo Anselmo!
Todos os militantes receberam a ata do julgamento, da qual o Nogueira só tomou conhecimento por camaradagem do saudoso José Raimundo da Costa, o Moisés (segundo o condenado, o relato distorceu muito o que ocorrera, para o desqualificar e vilificar, erigindo-o em mau exemplo que ninguém deveria seguir).

ABANDONADO À PRÓPRIA SORTE

Pior: todos os que tinham contato orgânico com ele, foram orientados a não cobrirem os pontos. Os recados que o Nogueira deixou numa caixa de correio da VPR ficaram sem resposta. Nem mesmo da expulsão teria sido comunicado, caso não houvesse se encontrado casualmente com o Moisés. E nenhuma ajuda lhe foi dada para sair do Brasil, mesmo já sendo perseguido pela repressão.

[O mesmo tratamento recebeu Massafumi Yoshinaga quando se desligou da VPR. Embora sua passagem pela O. o tivesse tornado procuradíssimo pelo DOI-Codi, não recebeu nem auxílio financeiro, nem nenhuma ajuda para deixar o País, acabando por se tornar praticamente um mendigo a dormir nas barracas do Mercado Municipal. Isto em muito contribuiu para sua decisão de entregar-se e servir como trunfo propagandístico para a ditadura.]

Também com o Bacuri (Eduardo Leite) o Nogueira cruzou, recebendo outras informações chocantes sobre o julgamento. Explica-se: por mais que isto fosse desaconselhável e perigoso, acostumávamo-nos a marcar os pontos em certos locais da cidade, então um descontatado às vezes reencontrava por aí o fio da meada.

Com muita dificuldade, o Nogueira acabou conseguindo deixar o país e juntar-se à família na Itália. Também sem conhecimento da O., o Moisés lhe cedeu um passaporte em branco, para facilitar sua fuga. 

REVOLUCIONÁRIOS OU AVESTRUZES?

O Projeto Orvil (o chamado livro negro da repressão, montado com as informações dos inquéritos policiais-militares e com aqueles  arquivos secretos dos torturadores que só o governo não consegue achar... ) aponta como juízes do tribunal revolucionário o Carlos Alberto Soares de Freitas, o Ladislau Dowbor... e eu! 

O primeiro foi assassinado pelos gorilas em 1971; o Ladislau hoje é um doutor em Ciências Econômicas que se distanciou por completo do seu passado de militante e dirigente revolucionário; e, na última vez que tive notícias daquele que Nogueira considera o principal responsável por sua desgraça, o Mário Japa (Chizuo Osava), ele estava casado com a Maria do Carmo Brito, morava no RJ e era correspondente de uma agência noticiosa estrangeira.

O lançamento de Acorda, amor dá, aos que podem apresentar o outro lado deste episódio, uma boa oportunidade para o fazerem. Afinal, 45 anos depois, só o que nos resta é contribuirmos para que a História registre a versão correta dos acontecimentos, doa a quem doer (inclusive a nós mesmos, se for o caso). A verdade é revolucionária!!! 

Eu, p. ex., detesto ser envolvido num episódio do qual não participei e nem sequer tomei conhecimento na época. Dos três juízes --ninguém garante que os outros dois nomes não sejam igualmente incorretos-- os que porventura estejam vivos poderiam muito bem dar-se a conhecer, assumindo o papel que representaram e o justificando ou por ele se desculpando. O Chizuo, idem. 

sábado, 30 de agosto de 2014

UM ESPECTRO RONDA O BRASIL: O ESPECTRO DO MARINISMO.

A rapidez com que a candidatura presidencial de Marina Silva deslanchou, além de deixar aparvalhados petistas e tucanos, impôs aos analistas o desafio de decifrarem a nova esfinge da política brasileira, que está devorando todas as suas certezas de antes do fatídico 13 de agosto.

Despretensiosamente, alinhavei trechos dos últimos artigos de colunistas que, no meu entender, abordaram aspectos interessantes da questão. Os meus comentários vêm em vermelho.

Valem pelo que valem: ajudam-nos a refletir sobre um fenômeno novo. Neste sentido, não dei bola para o fato de que dois deles costumeiramente são satanizados em certas tribunas da esquerda. Como se dizia antigamente, até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia...

DESENVOLVIMENTISMO x SUSTENTABILIDADE

A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.

Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chãos e lavava banheiros das freiras para ter direito às aulas.

Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, se tornou a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.

Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre "desenvolvimentismo" e "sustentabilidade" e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas. (Eliane Cantanhêde, em sua coluna de 29/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra) 

É algo geralmente omitido pelos detratores de Marina, obcecados em desconstruí-la a qualquer preço e com quaisquer métodos: a acriana tem muito mais cara de PT do que a mineira. E ela leva vantagem também em termos de trajetória política, pois se lançou com bandeiras ecológicas (importantíssimas quando a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada pela ganância capitalista) e se mantém fiel a elas até hoje

Dilma, pelo contrário, lutava pela justiça social no tempo da guerrilha e depois se tornou (argh!) desenvolvimentista. Chegou ao cúmulo de apresentar como seu sonho dourado a transformação do Brasil num país de classe média (argh de novo!). Para quem se mantém essencialmente nos marcos do marxismo e do anarquismo, como eu, sua degringola ideológica é chocante: de Che Guevara para Juscelino Kubitschek!

Enquanto for Dilma a candidata do PT, não tenho dúvida nenhuma em afirmar que quem melhor representa a esquerda no embate é Marina. Se os petistas tomarem a única providência que parece oferecer-lhes possibilidade de salvação, tornando Lula candidato, aí a coisa mudará de figura. 

DOIS PARADIGMAS SERÃO QUEBRADOS?

O dado mais relevante da pesquisa Datafolha realizada nos dias 28 e 29 de agosto é a consolidação, neste momento, de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB) como as primeiras colocadas na disputa presidencial. Elas estão empatadas com 34% de intenções de voto cada uma.

Nunca nas eleições diretas para presidente da República pós-ditadura militar, nesta fase da campanha, os dois protagonistas isolados foram de partidos cujas origens estão na esquerda do espectro político.

A eleição é em 5 de outubro. Restam pouco mais de 30 dias para uma reversão do quadro. Se isso não ocorrer, pela primeira vez o Brasil não terá um legítimo representante do centro ou da direita entre os dois finalistas na disputa presidencial. (Fernando Rodrigues, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra) 

Não excluo a possibilidade de que a decisão ainda venha a ser entre esquerda e direita, como previ no dia do acidente com o jatinho de Eduardo Campos. O meu prognóstico se baseou exatamente no fato de que tem sido esta a tônica desde a redemocratização.

Caso o PT insista em perder com Dilma, sua candidatura ainda pode descer ladeira abaixo com velocidade suficiente para Aécio Neves a ultrapassar na reta de chegada.

Mas, a aposta mais sensata, neste momento, é mesmo na quebra deste paradigma, e também de outro: nunca o 2º turno foi disputado por duas mulheres.

GERENTONAS x ESTADISTAS

No Brasil, os eleitores procuram administradores, gerentes, quando se trata de disputas municipais e estaduais. Nas eleições presidenciais, contudo, buscam a personificação de uma utopia possível. FHC e Lula chegaram ao Planalto nas asas de grandes ambições. Hoje, é Marina quem aparece como a representação de uma ruptura profunda.

A utopia associada a FHC pode ser sintetizada pelas ideias de estabilização e modernização. Desde o segundo mandato tucano, porém, o PSDB abandonou a trilha das reformas e, sob o fogo da crítica petista, borrou o horizonte utópico com as cores cinzentas da "capacidade gerencial"... 

A utopia associada a Lula pode ser sintetizada pelas ideias de igualdade e justiça social. Inflado pelos ventos de popa da economia mundial, o potencial utópico do lulopetismo durou um mandato mais que o dos tucanos, mas encerrou-se no quadriênio de Dilma Rousseff. As suas reformas sociais praticamente esgotaram-se nas políticas de crédito e transferência de renda que ajudaram a estimular o boom de consumo popular. 

Hoje, num sentido fundamental, o PT converteu-se na nova Arena: o partido cuja força emana do controle da máquina pública. O mapa das intenções de voto na candidata-presidente evidencia a regressão política do partido que traçou seu caminho para o poder entre os eleitores de alta e média escolaridade dos grandes centros urbanos. 

Marina aparece como representação da terceira utopia, tão nitidamente expressa nas Jornadas de Junho de 2013...  (Demétrio Magnoli, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra)

Eu já havia escrito algo bem próximo: que o PT está repetindo a trajetória do PMDB e do PSDB, partidos que começaram à esquerda e foram se descaracterizando cada vez mais, o primeiro se tornando uma agremiação meramente fisiológica e o segundo, o mais conspícuo representante da direita brasileira.

O PT ainda não chegou lá, claro, mas é para onde se encaminha, com o cada vez mais acentuado abandono das bandeiras revolucionárias, trocadas por um reformismo tão tímido que nem Eduard Bernstein aplaudiria. 

E, por já não ter quase nada a oferecer ao eleitorado dos grandes centros urbanos, seu celeiro de votos serão, cada vez mais, os pequenos e médios municípios, e principalmente os das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isto, sua influência tende a continuar diminuindo no Sudeste (responsável por 55,4% do PIB) e Sul (16,2%). Mas, suponho, não a ponto de se tornar um partido dos grotões, como o PDS (sucessor da Arena) nos seus estertores...

Outro ponto em que concordo inteiramente com Magnoli: as jornadas de junho de 2013 foram um divisor de águas, com os manifestantes de rua retomando o protagonismo político depois de uma década de pasmaceira, durante a qual os movimentos sociais  não só superestimaram a importância do poder político (cada vez mais avassalado ao poder econômico), como a própria disposição do PT em tentar concretizar as transformações profundas de que o Brasil desesperadamente carece.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SÁBADO, NA BIENAL: O TRIBUTO DE UMA FILHA CUJO PAI FOI SUBMETIDO A TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO.

Quando Adriana Tanese Nogueira começou a escrever um livro sobre a corajosa ajuda que seu pai prestou à Vanguarda Popular Revolucionária no pior momento da ditadura militar, o preço que ele pagou por sua disposição sincera de contribuir para a resistência e como sua desdita afetou os entes queridos, era natural que me contatasse, pois os sites ultradireitistas me citavam como um dos três membros do tribunal revolucionário que julgou Antônio Silva Nogueira Filho, juntamente com Ladislas Dowbor e Carlos Alberto Soares de Freitas.

Era falso. Eu não chegara sequer a ser informado do episódio, que certamente foi encaminhado em nível de Comando Nacional, já que nunca veio à baila nas reuniões do Comando Estadual de São Paulo, do qual eu fazia parte.

Foi só em 2004 ou 2005 que, dando uma olhada no que aparecia quando teclava meu nome na busca do Google, fiquei sabendo que me imputavam tal papel.  E não estranhei, porque os Ternumas da vida também me davam como autor de um comunicado da VPR que jamais redigi --para minha irritação, pois não só era mentiroso, como pessimamente escrito, com erros que nem no ginásio eu cometia. 

Expliquei à Adriana que a rede virtual fascista era abastecida com informações dos órgãos de repressão --os tais arquivos secretos que o governo nunca foi capaz de localizar. Evidentemente, os torturadores conservaram consigo boa parte dos registros emporcalhados de sangue de interrogatórios dos DOI-Codi's, Dops, etc., utilizando-os depois para produzirem a interpretação inquisitorial da História

E, como era mais cômodo para os torturados confirmarem as suposições dos torturadores quando se tratava de assunto de menor importância, alguém deve ter relacionado meu nome ao tal julgamento, ou por não saber quem realmente dele participou, ou porque não quisesse identificar os reais participantes.

Abri portas e indiquei caminhos para que a Adriana pudesse levar a bom termo sua empreitada, superando a dificuldade natural de tentar apurar, desde os EUA, algo que aconteceu aqui. E acompanhei, durante certo tempo, seu labor de ir escrevendo e tornando pública sua obra, capítulo por capítulo, num blogue que criou especialmente para tal finalidade.

Depois, o Caso Battisti me absorveu tanto que perdi o hábito de visitar o blogue dela. Daí a minha agradável surpresa com o livro resultante, de 740 páginas, dividido em dois volumes: Acorda, amor (Editora Biblioteca 24 horas, 2014), que será lançado na Bienal Internacional do Livro amanhã (sábado, 30), entre 12 e 14 horas, no estande F698.

Como passei a vida inteira tentando melhorar minha carpintaria de textos, é sempre gratificante para mim ler obras com narrativa fluente e empolgante como a da Adriana, cuja formação psicanalítica ajuda muito a desenvolver o lado humano dos personagens. Infelizmente, muitos livros sobre os anos de chumbo são áridos e de difícil compreensão para os leigos, afugentando leitores.

Conheço bem demais as agruras e sofrimento das famílias dos que lutamos contra a ditadura, então este lado de Acorda, amor não me surpreendeu. Mas, a dramaticidade e o horror de certas situações deverá calar fundo em quem veio depois de nós e não está familiarizado com tais vias crucis.
Eremias: retalhado com 35 tiros.

Para mim, são lembranças dolorosas. Não gosto nem de pensar que meus saudosos pais foram despertados de madrugada por uma avalanche de bárbaros que, depois de virarem a casa do avesso, ainda tiveram a petulância de pedir que me aconselhassem a rendição, pois só com a ajuda deles eu escaparia com vida. Meu pai, homem que nunca gostou de correr riscos desnecessários, daquela vez não se conteve: "E é para ajudar meu filho que vocês estão aqui com toda essa artilharia pesada?". Quase o levaram preso.

Assim como foi intimidado o pai do meu amigo e companheiro Eremias Delizoicov, retalhado com 35 balaços pelos gorilas da PE da Vila Militar, aos 18 anos de idade (vide aqui). Como a imprensa noticiara inicialmente a morte de outro militante --a repressão só conseguiu identificá-lo pelas digitais, a tal ponto o havia desfigurado!--, o pobre homem ansiava desesperadamente por ver o corpo e tirar dúvidas. 

Até isto lhe foi negado; ameaçaram-no de prisão, se insistisse, Como consequência, o velho casal continuou alimentando por muito tempo a esperança de que o falecido fosse mesmo José Araujo Nobrega, e não seu amado filho. Duas vezes passei horas ouvindo pacientemente suas hipóteses fantasiosas, sem saber se seria melhor desmenti-las ou deixá-los sonhando que o Eremias estaria são e salvo no exterior. 

UM EPISÓDIO CONSTRANGEDOR, MAS QUE DEVE
SER CONHECIDO, POIS DEIXOU LIÇÕES VALIOSAS.

Então, o que mais me interessou no livro foi mesmo a parte referente ao tribunal revolucionário. Para não estragar o prazer dos possíveis leitores, evitarei antecipar o desfecho (podem continuar lendo sem receios...).
A lição de Rosa: "A verdade é revolucionária".

Apenas informarei que Adriana, como eu, não vilifica quem cometeu erros em circunstâncias tão extremas. Como eu, ela ressalta a justeza da luta e tenta compreender quem foi zeloso demais ou traído pelos nervos.

Esforçávamo-nos  para manter a chama acesa apesar da extrema desigualdade de forças. Não havia semana em que não ficássemos sabendo da morte ou prisão (leia-se torturas bestiais) de companheiros próximos ou, mesmo distantes, igualmente estimados. As confissões arrancadas a ferro e fogo, bem como a faina incansável de espiões, faziam nossos melhores projetos ruírem como castelos de cartas. Por mais que tentássemos nos iludir, lá no fundo percebíamos que nos encaminhávamos para a derrota e, provavelmente, para a morte.

Neste contexto, aliado que manifestasse o desejo de sair da Organização era logo visto como um traidor em potencial. Se já não acreditava na causa, como conseguiria resistir às torturas? Se estaria descontatado, quanto tempo levaria para sua eventual prisão chegar ao conhecimento da O.? Quantos prejuízos ele poderia causar nesse intervalo, antes de as medidas defensivas começarem a ser tomadas?

Recuso-me a acreditar que qualquer um dos meus companheiros --aqueles seres humanos capazes de assumir riscos tão extremos em nome de ideais generosos e solidários!-- raciocinasse, cinicamente, que "o Nogueira nada fez de errado, mas só ficaremos tranquilos quando ele se tornar um arquivo morto".

Contudo, em meio à compreensível paranoia que grassava entre nós (espiões existiam sim, começando pelo cabo Anselmo), alguém deixou a imaginação correr solta e acabou tomando vagas suspeitas como provas irrefutáveis de que o Nogueira  estaria trocando de lado. E um tribunal revolucionário acabou sendo constituído.

Por último: o episódio encerra muitas lições valiosas para todos os que travam o bom combate, no sentido de que tais erros jamais sejam cometidos novamente. Então, mesmo sendo constrangedor para nós, deve ser encarado e discutido, sem medo do uso demagógico que os detratores da luta armada possam dele fazer.

Temos de ser melhores do que essa gente, guiando-nos pela afirmação lapidar de Rosa Luxemburgo: "A verdade é revolucionária". O outro lado tudo faz para esconder seus esqueletos nos armários --e eles eram tantos, e foi tão terrível o martírio infligido a nossos companheiros! Cabe-nos mostrar que também nisto somos infinitamente superiores a eles, em termos morais.

Não há equivalência ou igualação possível entre a regra e a exceção. Nem motivo para escondermos debaixo do tapete o que ocorreu, mas gostaríamos que não tivesse ocorrido. Nenhuma luta de resistência à tirania é isenta de enganos e excessos, mas estes devem ser avaliados com pesos diferentes: os idealistas têm direito à compreensão, enquanto os déspotas e seus esbirros só merecem o opróbrio.

"...nós, que queríamos preparar o terreno para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão." (Brecht)

DEPOIMENTO DA AUTORA
"VOU ABRIR A MINHA VOZ E CONTAR MINHA VERDADE. 
NÃO QUERO MANTER ESCONDIDA UMA PARTE DE MIM" 

"Um dia saiu um artigo sobre mim num jornal local [ela mora e trabalha nos EUA]. No final de minha apresentação, após citar as minhas diversas atividades, o jornalista deu algumas referências biográficas. Quando li o artigo meu coração descompassou. Foi citada uma frase que eu mesma escrevi: 'Filha de mãe italiana imigrante e de pai brasileiro revolucionário', acrescentada pela informação que meu pai pertencia ao grupo de Carlos Lamarca.
Adriana: nada do que se envergonhar.

Gelei. Sim, eu tinha dito isso, mas uma coisa é você comentar uma coisa dessas com alguém, outra é você ler suas palavras numa folha de jornal. Senti-me exposta. Fiquei com medo. Mas dissimulei comigo mesma. Estava acostumada a deixar passar, disfarçar, conviver com a história colocando-a de lado.

Ao longo daquele dia, pensamentos soltos atravessaram minha mente. Aquela era uma referência histórica, algo conhecido que explicitamente revelava a atividade política de meu pai no passado. No passado.

Mas será que era passado? Não na minha alma. O medo, que por tanto tempo dominou nossas vidas e que estava aparentemente esquecido e sonolento num canto, acordou. Apesar de ter tentado 'não pensar' o dia todo e 'racionalizar', passei a noite assustadíssima. Não consegui dormir e tive um pesadelo.

Eu vou contar essa história porque não quero viver sob o constrangimento da vergonha. Uma história que me provoca pesadelos quarenta anos depois é uma história que precisa ser contada. Quero regurgitar o que vivemos, devolver ao mundo o que ao mundo pertence. Não vou deixar essa experiência trancada dentro do peito, no cárcere da dúvida e do ridículo. Não vou ser cúmplice do sistema que demonizou os que contra ele resistiram, apesar do absurdo desequilíbrio de forças.

Vou contar essa história para levantar uma bandeira contra a avalanche massificadora da crença que sustenta que bom é quem sabe 'se dar bem'. Bom é o individualista, o puxassaquista, o que encontrou um nicho em meio ao lixo cultural e moral no qual vivemos e venceu a vida por entorpecimento do cérebro e do coração. Não quero e não vou apoiar a crença que bom é o marqueteiro, o espertalhão, o flibusteiro. A isso se reduziu boa parte do ideal social do país. Não o meu. Nem hoje nem amanhã.

O Brasil está ainda tomado pela mentalidade promovida e fortalecida pela ditadura. Nela, os valores estão todos invertidos. Os que assumiram a resistência a um regime opressor são 'terroristas', os que massacraram corpos, amputaram braços e torturaram jovens e adultos, mulheres e homens são anistiados. E a impunidade reina soberana.

Vou abrir minha voz e cantar minha verdade. Não quero manter escondida uma parte de mim, minhas raízes, aquele meu começo que produziu tantas consequências importantes. Tantas coisas das quais tenho orgulho. Não vou respirar da núvem tóxica do esquecimento coletivo, tão infantil quanto míope. Não há nada do que se envergonhar, a não ser da crueldade cometida.

Para mim, que trabalho com humanização, não tem como deixar de trazer à luz as origens do meu interesse vital em humanizar o mundo. Não quero mais esconder quem sou, quem somos e por que somos o que somos. Porque é assim que tivemos que viver por todo esse tempo".

SERVIÇO
O QUE: lançamento do livro Acorda, amor (Desaventuras de uma família e de seu país)
QUANDO: sábado, 30 de agosto de 2014
HORÁRIO: das 12 às 14 horas
ONDE: estande F698 da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 
QUEM: Adriana Tanese Nogueira, autora (estará presente Celso Lungaretti, veterano da luta armada)
LANÇAMENTO COMPLEMENTAR: livro infantil O flamingo e os pombos
MARCAÇÃO DE ENTREVISTAS / MAIS INFORMAÇÕES: aqui e aqui

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

SÁBADO, NA BIENAL, UM LANÇAMENTO IMPERDÍVEL: A VIA CRUCIS PESSOAL E FAMILIAR DO ALIADO QUE A VPR SUBMETEU A TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO.

Um episódio dramático e pouco conhecido da resistência à ditadura militar é resgatado no livro Acorda, amor, que Adriana Tanese Nogueira --psicanalista e criadora/coordenadora da ONG Amigos do Parto-- estará lançando neste sábado (30), das 12 às 14 horas, no estande F698 da Bienal Internacional do Livro.

Adriana é filha de Antonio Nogueira da Silva Filho, aliado da Vanguarda Popular Revolucionária que foi submetido a um tribunal revolucionário sob acusações vagas. A via crucis pessoal e familiar está exposta, com rigor histórico e narrativa empolgante, no livro que Adriana foi criando, capítulo por capítulo, num site que lançou especialmente para esta empreitada, tendo depois o material sido reunido nos dois volumes de Acorda, amor (Editora Biblioteca 24 horas, 2014, vol. 1 com 338 pag. e vendido por R$ 63,12, vol. 2 com 402 pag. e preço de R$ 72,08). Na ocasião, a autora também estará autografando o livro infantil O flamingo e os pombos, que escreveu junto com sua filha.

Eis seu depoimento sobre como nasceu o projeto: 
"Um dia saiu um artigo sobre mim num jornal local [ela mora e trabalha nos EUA]. No final de minha apresentação, após citar as minhas diversas atividades, o jornalista deu algumas referências biográficas. Quando li o artigo meu coração descompassou. Foi citada uma frase que eu mesma escrevi: 'Filha de mãe italiana imigrante e de pai brasileiro revolucionário', acrescentada pela informação que meu pai pertencia ao grupo de Carlos Lamarca.
 Gelei. Sim, eu tinha dito isso, mas uma coisa é você comentar uma coisa dessas com alguém, outra é você ler suas palavras numa folha de jornal. Senti-me exposta. Fiquei com medo. Mas dissimulei comigo mesma. Estava acostumada a deixar passar, disfarçar, conviver com a história colocando-a de lado.
Ao longo daquele dia, pensamentos soltos atravessaram minha mente. Aquela era uma referência histórica, algo conhecido que explicitamente revelava a atividade política de meu pai no passado. No passado.
Mas será que era passado? Não na minha alma. O medo, que por tanto tempo dominou nossas vidas e que estava aparentemente esquecido e sonolento num canto, acordou. Apesar de ter tentado 'não pensar' o dia todo e 'racionalizar', passei a noite assustadíssima. Não consegui dormir e tive um pesadelo.
Eu vou contar essa história porque não quero viver sob o constrangimento da vergonha. Uma história que me provoca pesadelos quarenta anos depois é uma história que precisa ser contada. Quero regurgitar o que vivemos, devolver ao mundo o que ao mundo pertence. Não vou deixar essa experiência trancada dentro do peito, no cárcere da dúvida e do ridículo. Não vou ser cúmplice do sistema que demonizou os que contra ele resistiram, apesar do absurdo desequilíbrio de forças.
Vou contar essa história para levantar uma bandeira contra a avalanche massificadora da crença que sustenta que bom é quem sabe 'se dar bem'. Bom é o individualista, o puxassaquista, o que encontrou um nicho em meio ao lixo cultural e moral no qual vivemos e venceu a vida por entorpecimento do cérebro e do coração. Não quero e não vou apoiar a crença que bom é o marqueteiro, o espertalhão, o flibusteiro. A isso se reduziu boa parte do ideal social do país. Não o meu. Nem hoje nem amanhã.
O Brasil está ainda tomado pela mentalidade promovida e fortalecida pela ditadura. Nela, os valores estão todos invertidos. Os que assumiram a resistência a um regime opressor são 'terroristas', os que massacraram corpos, amputaram braços e torturaram jovens e adultos, mulheres e homens são anistiados. E a impunidade reina soberana.
Vou abrir minha voz e cantar minha verdade. Não quero manter escondida uma parte de mim, minhas raízes, aquele meu começo que produziu tantas consequências importantes. Tantas coisas das quais tenho orgulho. Não vou respirar da núvem tóxica do esquecimento coletivo, tão infantil quanto míope. Não há nada do que se envergonhar, a não ser da crueldade cometida.
Para mim, que trabalho com humanização, não tem como deixar de trazer à luz as origens do meu interesse vital em humanizar o mundo. Não quero mais esconder quem sou, quem somos e por que somos o que somos. Porque é assim que tivemos que viver por todo esse tempo".
Imperdível. Terei prazer em receber os companheiros e amigos ao lado da Adriana, com quem travei conhecimento quando ela recolhia informações sobre a VPR, e a quem aprendi a admirar intensamente.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

AÉCIO FOI O MELHOR DOS GRANDES; LUCIANA DEU LIÇÕES DE COERÊNCIA.

O primeiro debate entre os presidenciáveis, promovido pela Band, foi bom para Aécio Neves, razoável para Marina Silva e ruim para Dilma Rousseff. 

Luciana Genro se revelou uma grata surpresa, mostrando a coerência que, num ou noutro momento, faltou a cada um dos grandes

De resto, Eduardo Jorge foi o responsável pelos alívios cômicos, enquanto o Zé Fidelis (*) da chanchada política atual e o pastor que ignorava o significado de fator previdenciário ofereciam uma segunda chance aos telespectadores que não haviam aproveitado o intervalo para assaltar a geladeira ou fazer xixi.

Aécio e Marina capitalizaram bem o sentimento popular de que o País estagnou e o governo arrogantemente nega o óbvio ululante. Martelaram muito este conceito, minando a imagem de Dilma, que jamais encontrou uma resposta apropriada.

O tucano se mostrou mais articulado, expressando-se melhor do que os rivais diretos. Foi um achado a afirmação sarcástica de que todos gostaríamos de viver no país mostrado nas propagandas do PT, mas, obviamente, ele já a trouxe pronta. Parabéns para o criador da frase, seja lá quem for...

A acriana fugiu de muitas perguntas, mas deve ter agradado aos brasileiros com perfil similar ao dos devotos evangélicos (e eles são uma parcela enorme do eleitorado!), com sua ênfase na união das boas pessoas para construir algo diferente da desgastada dicotomia PT-PSDB. 

Nela o discurso político se confunde com a pregação pastoral, então o impacto que causa não é facilmente captado por nós, que fazemos abordagens racionais da política. [Exemplo clássico: em 1985, na eleição para prefeito de São Paulo, FHC parecia haver ganhado de goleada o debate com Jânio Quadros, mas a performance do velho canastrão ainda conservava para o povão, um encanto que nos era imperceptível. Contra a grande maioria dos palpites e desmoralizando pesquisas eleitorais, o personagem folclórico derrotou nas urnas o intelectual sofisticado.]

Dilma, citando números e realizações o tempo todo, parecia movida a decoreba. Seu triunfalismo se chocava com o estado de ânimo dos brasileiros, predominantemente negativo, angariando-lhe antipatia. E sua defesa do perfil de gerentona foi um erro, pois pode-se dar um crédito de confiança aos governantes visionários quando as coisas não vão bem (eles, ao menos, estariam plantando as sementes de dias melhores), mas quem tem como única serventia fazer o governo funcionar, precisa apresentar resultados. O povo, contudo, não os está vendo; e sua experiência cotidiana lhe indica que, quando tal acontece, os gerentes têm de ser demitidos.

Aécio e Dilma podem continuar na linha adotada nesta 3ª feira, aprimorando-a nos detalhes. 

Dilma precisa mudar radicalmente a sua, se quiser chegar ao 2º turno. Com mais do mesmo (auto-louvando-se por realizações do passado, não admitindo que o presente é insatisfatório nem se dispondo a qualquer autocrítica ou mudança de rumo), poderá despencar a ponto de ser superada pelo Aécio (que, por enquanto, está num patamar inferior ao que costuma ser atingido pelas candidaturas de direita).

O PT tem até meados de setembro para reformular a chapa. Dependendo da situação de Dilma lá pelo dia 10, talvez o partido a convença a renunciar, para que o Lula venha salvar a pátria. Caso contrário, estará flertando com a derrota.

Finalmente, o que mais me chocou, como homem de esquerda, foi ouvir a Dilma dizendo, embevecida (só faltava o acompanhamento de violinos...), que quer transformar o Brasil num país de classe média. Igualzinho aos EUA? Argh! 

Quem não esqueceu o marxismo aprendido no início da caminhada, quer mais é ver as classes sociais extintas no Brasil e no mundo, juntamente com todas as divisões artificiais entre os seres humanos. Nosso compromisso é com o igualitarismo e com uma sociedade sem estado, sem classes e sem fronteiras nacionais. 

Não com a expansão da classe média, que, por sinal, geralmente traz consigo um aumento do conservadorismo --o que talvez explique as dificuldades encontradas pelo PT na presente campanha.

* nome artístico de Gino Cortopassi, um dos grandes humoristas brasileiros da era do rádio.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

CULPAR MARINA PELAS IRREGULARIDADES NO JATINHO DO PSB É "APELAÇÃO IMORAL"

Sempre detestei o aviltamento das campanhas eleitorais, que os obcecados em vencerem a qualquer preço transformam em batalha de tortas de lama ou festival de chutes na virilha dos adversários.

Já desmascarei a torpeza da rede de propaganda petista ao trombetear que a Marina Silva estaria sendo apoiada pelo Itaú, quando, na verdade, ela conta apenas com os préstimos voluntários de uma herdeira Setúbal que jamais exerceu atividade de banqueira nem apita nada nas decisões do grupo.

Tais invencionices colam no candidato e, depois de um certo tempo, todos começam a repeti-las como papagaios, sem a mínima noção de quem as colocou em circulação. Foi o caso da afirmação imputada ao brigadeiro Eduardo Gomes na eleição presidencial de 1945, de que ele recusava o voto dos marmiteiros (pejorativo de operários). A frase verdadeira de Gomes foi: "Não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para eleger-me presidente da República!".

Disse e repito que a política oficial me causa profundo tédio, tal o descompasso entre as mudanças mais do que necessárias e as miudezas de que se ocupam governantes resignados a não confrontarem o poder econômico. Mas, quando as campanhas descambam para o jogo sujo descarado e desbragado, isto me incomoda, talvez como consequência de já ter sido e continuar sendo até hoje muito prejudicado na vida por outro tipo de jogo sujo.

Então, registro mais um desmascaramento de falácia, desta vez por parte do veterano jornalista Jânio de Freitas, em sua coluna desta 3ª feira (26) na Folha de S. Paulo, cuja íntegra pode ser acessada aqui.

Tão apavorados ficaram petistas e tucanos com a entrada pra valer de Marina no páreo sucessório que se uniram para tentar imputar-lhe responsabilidade pessoal em irregularidades na posse e utilização do avião da tragédia. Houve quem falasse até em impugnação da candidatura dela, um grotesco wishful thinking.

Jânio --que geralmente mostra, digamos, mais simpatia pelas posições petistas-- é, sobretudo, um profissional honesto. Então, tal baixaria também o deixou indignado. E ele a pulverizou:
"...Ainda antes da queda, aquele avião já era portador de um risco desastroso para as pretensões políticas de Eduardo Campos. Com provável corresponsabilidade dele ou não, tanto faz.
Sejam quais forem os esclarecimentos vindouros, se causarem surpresas não estará entre elas o nome de Marina Silva. A composição que a comprometeu com a campanha foi muito posterior à inclusão do jato nas atividades de Eduardo Campos e do PSB. A cobrança que Aécio Neves faz de explicações de Marina Silva, sobre as suspeitas de irregularidades no uso do jato, é mais do que imprópria: é uma apelação imoral. E pior porque justificada por Aécio como contrapartida às cobranças sobre a construção do aeródromo em Cláudio -MG. Aí já é também falsificação de equivalências".
Eu só acrescentaria que a "apelação imoral" partiu da rede virtual petista e Aécio, percebendo que lhe poderia ser útil também, pegou o bonde andando.

Os opostos só se atraem quando um deles ou ambos estão sendo oportunistas e imorais. É o mesmo caso da utilização sistemática, por parte dos petistas, das catilinárias destrambelhadas contra Marina que não pára de lançar o colunista mais reacionário da revista mais reaça do Brasil.

Existem, certamente, motivos para não se votar na Marina. Mas, a pregação do Reinaldo Azevedo é do tipo bússola invertida: só serve como estímulo para as pessoas de bem votarem nela.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MUITO OBA-OBA PARA O PRESIDENTE VARGAS. E O DITADOR, COMO É QUE FICA?

O baixinho Vargas  (no centro) e outros golpistas de 1930
Neste domingo (24) se completaram 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas, ditador do Brasil de 1930 a 1945 e presidente da República de 1951 a 1954.

Na primeira condição, foi o responsável último por assassinatos e torturas terríveis, um legítimo precursor do Médici. Simpatizava com Hitler e Mussolini (até copiou a legislação trabalhista do último!) e apoiou-se nos integralistas de Plínio Salgado para implantar o Estado Novo (golpe dentro do golpe que radicalizou a ditadura, a exemplo do que seria depois o AI-5). 

O pretexto para o fechamento foi a 'descoberta' um plano de comunização do Brasil que, na verdade, fora inventado de cabo a rabo pelo integralista Olímpio Mourão Filho, falsário em 1937 e derrubador de presidente legítimo em 1964.

Com o final da 2ª Guerra Mundial, os EUA usaram sua enorme influência de bastidores para fazer com que fossem apeados do poder os dois ditadores sul-americanos aparentados ideologicamente com o nazi-fascismo: Vargas e Perón. 

O primeiro permaneceu, ademais, em ostracismo durante todo o mandato de Eurico Gaspar Dutra (eleito com seu apoio). 

Quando voltou à política, conquistando a Presidência nas urnas, tinha se tornado anti-imperialista desde criancinha. E o PCB, grotescamente, se tornou um sustentáculo do carrasco de vários de seus quadros; Prestes subiu no palanque do homem que permitiu a entrega de Olga Benário à Gestapo!
Vargas recebendo o líder fascista italiano Italo Balbo

Há quem louve o nacionalismo senil de Vargas. Eu, não. Afora o espírito de vingança do qual estava obviamente imbuído, ocupou o único espaço que lhe restava no tabuleiro político, já que os EUA e a direita a eles subserviente o repudiavam. Não guinou à esquerda por opção, mas por falta de.

Quando uma patetada de um membro de sua guarda pessoal o colocou na rota do impeachment, teve a dignidade de suicidar-se para, com o impacto emocional tal gesto e de sua célebre carta de despedida, frustrar o complô direitista. Foi o seu melhor momento, pois ele e Allende contrastam vivamente com os governantes depostos do nosso continente, os quais quase sempre aceitaram resignadamente o pé na bunda. O pior de todos foi o hondurenho Manuel Zelaya -aquele que consentiu em ser despachado para o exílio de pijama. 

Como há gente demais omitindo ou deixando em 2º plano os horrores da ditadura getulista, reproduzirei em seguida um artigo do ilustre historiador José Murilo de Carvalho, publicado na Revista de História

É informação muito importante para as novas gerações conhecerem o outro lado do 'pai dos trabalhadores', e também para refrescar a memória de certos expoentes das velhas gerações que gostam de engrandecer déspotas, relevando seus prontuários escabrosos em matéria de direitos humanos.

CHUMBO GROSSO
José Murilo de Carvalho
Os agentes da Polícia Especial de Filinto Muller (esq.) faziam estágios na Gestapo de Hitler
Assassinatos com motivação política não foram raros durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945). O caso mais gritante foi o fuzilamento de oito participantes do assalto ao Palácio Guanabara em 1938, organizado por militares e militantes da Ação Integralista Brasileira. Os oito tinham sido capturados e desarmados quando foram mortos nos fundos do palácio, como admitiu em suas memórias o general Góis Monteiro (1889-1956). Não houve qualquer investigação sobre o crime. Há referências a assassinatos nas revoltas comunistas de Natal e Recife em 1935 e nas delegacias de polícia, sobretudo na sede da Polícia Central, na Rua da Relação, na então capital da República, e nas casas de Detenção e Correção. Um médico da Polícia Militar, Nilo Rodrigues, por exemplo, disse ao jornalista Vítor do Espírito Santo ter presenciado fatos de alarmar: “espancamentos horrorosos, vários assassinatos dentro da Polícia Especial”. Mas, graças à censura à imprensa, poucos desses crimes vieram a conhecimento público. Quase todos foram abafados nos porões das delegacias. 

A tortura de presos foi investigada e descrita pelo jornalista David Nasser (1917-1980), inicialmente em seis reportagens publicadas na revista O Cruzeiro – a primeira delas em 29 de outubro de 1946 – e, depois, em livro de 1947. As publicações foram intituladas Falta alguém em Nuremberg. Esse alguém era o capitão do Exército Filinto Müller (1900-1973), chefe de Polícia da capital de 1933 e 1942. Os principais instrumentos de tortura mencionados em depoimentos no Congresso e registrados por David Nasser eram: o maçarico, que queimava e arrancava pedaços de carne; os “adelfis”, estiletes de madeira que eram enfiados por baixo das unhas; os “anjinhos”, espécie de alicate para apertar e esmagar testículos e pontas de seios; a “cadeira americana”, que não permitia que o preso dormisse; e a máscara de couro. 
Marighella: bestialmente torturado pela polícia getulista.

Era também prática comum queimar os presos com pontas de cigarros ou de charutos e espancá-los com canos de borracha. Em alguns casos, o requinte era maior. O ex-sargento José Alves dos Santos, por exemplo, teve um arame enfiado na uretra ficando uma ponta de fora, que foi, a seguir, aquecida com um maçarico. Para que os gritos dos torturados não fossem ouvidos fora do prédio da Polícia Especial, um rádio era ligado a todo o volume. Poucos torturados resistiam. Houve quem se suicidasse pulando do terceiro andar da sede da Polícia Central; outros enlouqueciam, como foi o caso de Harry Berger, membro do Partido Comunista Alemão, torturado durante anos juntamente com sua mulher, Sabo. Quase todos guardavam sequelas para o resto da vida no corpo e na mente. 

Os acusados eram processados e julgados pelo Tribunal de Segurança Nacional, criado logo depois do levante comunista de 1935, ainda antes do Estado Novo. Após a revolta integralista de 1938, já no regime de exceção, o regulamento do Tribunal foi alterado para apressar os julgamentos e reduzi-los quase a rito sumário, ou seja, sem processo formal. Recebido o inquérito, o juiz dava imediatamente vista ao procurador e citava o réu. O procurador tinha 24 horas para a denúncia. Findo o prazo, era marcada audiência para instrução e julgamento dentro de 24 horas, tempo que tinha também a defesa para se preparar. Em cinco dias, tudo se resolvia. Recurso só era admitido para o próprio Tribunal pleno, cuja sentença era irrecorrível. O Tribunal processou mais de 10 mil pessoas e condenou 4.099. 
Harry Berger enlouqueceu

Apesar da anistia concedida por Vargas em 1945, houve na Constituinte de 1946 tentativas de investigar e punir os crimes cometidos pela polícia política do Estado Novo. O esforço foi liderado pelo general Euclides de Oliveira Figueiredo (1883-1963), deputado eleito pela União Democrática Nacional (UDN) do Distrito Federal e pai do futuro presidente João Batista de Oliveira Figueiredo (1918-1999). Quando coronel, Euclides fora acusado de participação nos planos do fracassado assalto ao Palácio Guanabara em 1938. Julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional, foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão, pena reduzida posteriormente para quatro anos e quatro meses.

O general apresentou, em 30 de abril de 1946, um requerimento em que pedia “profundas e severas” investigações no então Departamento de Segurança Pública para “conhecer e denunciar à Nação os responsáveis pelo tratamento dado a presos políticos”. O requerimento foi aprovado, e em maio foi criada a “Comissão encarregada de examinar os serviços do Departamento Federal de Segurança Pública”, presidida pelo senador Dario Cardoso (1899-1987). O general não foi incluído entre seus membros, provavelmente por ser incômodo aos que tinham alguma vinculação com o regime deposto.  

A Comissão deu em nada. Raramente havia quórum para as reuniões. As denúncias de crimes foram parar no arquivo da Casa. A Constituinte encerrou as atividades em setembro de 1946 sem que chegasse a conclusões concretas. Em 7 de novembro, já em sessão ordinária da Câmara, o general, inconformado, requereu a instalação de nova comissão. Argumentou, segundo os Anais da Câmara, que a matéria não era “daquelas que podem ser esquecidas. Trata-se de fazer justiça, descobrir e apontar os responsáveis por crimes inomináveis, praticados com a responsabilidade do governo”. Acrescentou ainda: “As grandes nações democráticas que fizeram a guerra ao totalitarismo já julgaram e executaram os responsáveis pelos horrendos crimes contra a humanidade. Nós também tivemos criminosos, não de guerra, mas de paz, de plena paz, e contra brasileiros. Talvez fossem eles os precursores dos nazistas. Convém não perdoá-los [sic] de plano. 
Vargas permitiu a extradição de Olga

Importa, igualmente, que os julguemos. Para julgá-los, importa conhecê-los”. Euclides mencionou a reportagem de Nasser publicada na revista O Cruzeiro. Terminou o discurso com um apelo aos deputados: “Ao menos se conheçam os responsáveis pelas barbaridades [...] a fim de que outros, que possam vir mais tarde, tenham receio de ver ao menos seus nomes citados, como desejo que sejam conhecidos os daqueles bárbaros que tanto maltrataram o povo do Rio de Janeiro, da capital da República, de todo o Brasil!”

Foi instalada a nova comissão, agora chamada “Comissão de inquérito sobre os atos delituosos da ditadura”, presidida pelo deputado Plínio Barreto (1882-1958). Novamente, Euclides Figueiredo não foi indicado para integrá-la. Mas, tendo desistido o deputado Aliomar Baleeiro (1905-1978), passou a fazer parte dela e foi um de seus membros mais atuantes. As atas atestam sua assiduidade nas reuniões. Várias pessoas foram chamadas a depor, umas como vítimas de tortura – como o então senador Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e o próprio David Nasser –, outras por terem sido acusadas de torturadoras. Quase todas as denúncias se referiam a maus-tratos sofridos na Polícia Central, na Polícia Especial, na Delegacia de Ordem Política e Social e na Casa de Detenção. Os principais acusados eram Serafim Braga, chefe da Dops, o tenente Emílio Romano, chefe do Departamento de Segurança Pública, o tenente Euzébio de Queiroz, chefe da Polícia Especial, e o policial Alencar Filho, da Seção de Explosivos da polícia.

Um dos depoimentos mais dramáticos foi o de Carlos Marighela (1911-1969), deputado pela Bahia do Partido Comunista do Brasil, dado em 25 de agosto de 1947. Ele descreveu várias torturas que sofreu ou que presenciou. Entre elas, espancamento com canos de borracha, aplicado na sola dos pés e nos rins, queimaduras com pontas de cigarro, introdução de alfinetes por baixo das unhas, arrancamento das solas dos pés ou de pedaços das nádegas com maçaricos. Em se tratando de presas, costumava-se introduzir esponjas embebidas em mostarda em suas vaginas. O general Figueiredo, que fora companheiro de prisão de Marighela, considerou a declaração o ponto culminante dos trabalhos da Comissão. Em seu depoimento, o jornalista Vítor do Espírito Santo disse ter ouvido do médico Nilo Rodrigues que nunca tinha visto “tanta resistência a maus-tratos e tanta bravura” como as demonstradas por Marighela. 

Aos poucos, esta segunda Comissão também começou a ratear. O fenômeno acentuou-se após o depoimento do capitão Emílio Romano, em junho de 1948. A partir dessa data, não há mais referência a suas reuniões no Diário do Congresso. Em 24 de setembro, ela deixa de ser relacionada. Aparentemente, encerrou as atividades sem apresentar relatório. Uma das razões para o fato pode ter sido o depoimento do jornalista Vítor do Espírito Santo. Segundo ele, o médico Nilo Rodrigues dissera-lhe que não faria denúncias porque “as pessoas que se encontram no poder são as mesmas que praticaram as mencionadas violências”. Ao que o general Euclides Figueiredo acrescentou: “E as que fazem parte da Polícia Especial também ainda são as mesmas”.

domingo, 24 de agosto de 2014

EU IA PASSAR BATIDO PELA FESTA DO RAULZITO, MAS A FESTA ME CHAMOU.

Na última 5ª feira (21), o eletricista ligou cedinho perguntando se poderia vir fazer o serviço que solicitáramos. Vai daí que a Juliana, minha esposa, ficou com uma enorme e inesperada faxina para ocupar sua tarde, pois troca de fiação emporcalha tudo.

Levei minha filhinha à escola e, para não atrapalhar a azáfama da Ju, deixei o carro estacionado lá perto e fui de ônibus para o centro velho. Fiz a barba, procurei blusa na C&A da rua 24 de maio e, não encontrando a que queria, rumei para o Shopping Light, na praça Ramos de Azevedo.

Dei de cara com uma pequena multidão nas escadarias do Theatro Municipal, homenageando o Raul Seixas; era o dia do 25º aniversário de sua morte.

Foi bom ver aquele povo colorido e animado de novo, tomar o vinho coletivo diretamente do caldeirão do diabo e lembrar do bom Raulzito, com quem tanto papeei nas vezes em que bebemos juntos (tendo, infelizmente, quase tudo sido apagado pelo álcool e pelo tempo, exceto uma coisinha ou outra que registrei em textos escritos quando a memória desses porres longínquos não se esfumara tão completamente).


Como bem  disse o Gilberto Gil, "quem não dormiu no sleeping bag, nem sequer sonhou". Curti intensamente a era da contracultura, da generosa tentativa de vivermos em comunhão com os outros pirados e com a natureza, da abertura das portas da percepção, das comunidades que tão pouco duraram mas tanto nos marcaram, das estradas sem fim que percorríamos na sola e na carona. Talvez nem estivesse aqui sem o ânimo que este sonho menor me deu para seguir adiante, depois que o sonho maior foi destruído pela bestialidade fardada, deixando-me em cacos.

E foi curioso eu ter encontrado, por mero acaso, esses rebentos das novas gerações que creio ter inspirado um tantinho com os textos que eu produzi durante cerca de cinco anos de atuação como crítico de rock e editor de revistas de música. Desligado de efemérides, ainda assim a efeméride me achou.


Como quando o próprio Raul, tendo gostado do meu relato sobre a primeira coletiva dele na CBS e o almoço mucho loco num restaurante oriental da rua Teodoro Sampaio (vide aqui), convidou-me para uma boca-livre da gravadora, a primeira vez em que nos encontramos para conversar sobre tudo um pouco e beber de tudo um muito. Impressões que ficaram e reflexões que esses papos etílicos me suscitaram estão reunidas noutro texto antigo, um dos que, até hoje, mais gostei de ter escrito: este aqui.

Éramos ambos náufragos do ano das duas grandes primaveras, a de Paris e a de Praga; isto nos aproximou. Ele manteria vivos os ideais de 1968 por mais duas décadas. Eu sobrevivi o suficiente para ver os fios da História atarem-se, com os herdeiros de 1968 levando sua indignação para as ruas em meados do ano passado, quando os ventos de mudança começaram a soprar de novo, sacudindo a pasmaceira do gigante adormecido.



Fiquei satisfeito em ver o Raulzito sendo lembrado com festa, não com lamúrias. E em pensar que fez muito sentido eu haver pousado de pára-quedas naquela festa, pois tinha tudo a ver com quem eu fui e, orgulho-me de dizer, continuo sendo.

Sob diversos nomes, uma sociedade alternativa é exatamente o que tenho tentado construir durante toda a minha vida adulta. E, não tenho dúvidas, morrerei tentando.

sábado, 23 de agosto de 2014

O COMANDANTE DO EXÉRCITO OBSTRUI A COMISSÃO DA VERDADE. E AGORA, DILMA?

O gen. Peri (à frente) quer ser o único interlocutor da CNV
Deu n'O Globo (clique aqui para acessar a íntegra):
"O comandante do Exército, general Enzo Peri, proibiu os quartéis de colaborar com as investigações sobre as violências praticadas em suas dependências durante o regime militar. Em ofício datado de 25 de fevereiro, o general determinou que qualquer solicitação sobre o assunto seja respondida exclusivamente por seu gabinete, impondo silêncio às unidades. Por entender que a medida é ilegal, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ) vai pedir à Procuradoria Geral da República que ingresse com representação contra o comandante.
O ofício foi usado pelo subdiretor do Hospital Central do Exército (HCE), coronel Rogério Pedroti, para negar ao MPF-RJ o prontuário médico do engenheiro Raul Amaro Nin Ferreira, que morreu na unidade em 12 de agosto de 1971. O documento médico poderia comprovar a suspeita de que Raul, que foi preso pelo DOPS na noite de 31 de julho, na Rua Ipiranga (Flamengo), não teria resistido às sessões de tortura. No ofício, Enzo Peri informa que a decisão abrange os pedidos feitos pelo 'Poder Executivo (federal, estadual e municipal), Ministério Público, Defensoria Pública e missivistas que tenham relação ao período de 1964 e 1985'.
— O Ministério Público está adotando as medidas necessárias para remover esses obstáculos às investigações e responsabilizar os servidores que sonegam informações. De qualquer forma, é lamentável que o comando atual do Exército de um Estado Democrático de Direito esteja tão empenhado em ocultar provas e proteger autores de sequestros, torturas, homicídios e ocultações de cadáver — lamentou o procurador da República Sérgio Suiama".
A autoridade da Comissão está em xeque. A de Dilma, idem.
SE NADA FIZER,
 DILMA PERDERÁ 
A AUTORIDADE
 E O PRESTÍGIO

O jornalista Luiz Cláudio Cunha disse quase tudo que havia a se dizer sobre o assunto. Eis os trechos mais importantes do seu artigo (para acessar a íntegra, clique aqui), publicado no site Brasil 247:
"Não há mais clima de convivência possível entre o general Enzo Peri, chefe do Exército, e os seis comissários da CNV, diante da espantosa manchete de hoje do jornal O Globo: 'Anos de chumbo: comandante impõe silêncio ao Exército'.
O repórter Chico Otávio recebeu do procurador Sérgio Suiama, da Procuradoria da República do Rio de Janeiro, um inacreditável ofício enviado em 25 de fevereiro passado aos quartéis de todo o País pelo comandante do Exército, general Enzo Peri, proibindo qualquer colaboração para apurar crimes da ditadura que derrubou o presidente João Goulart. O general Peri chega ao requinte de mandar um modelo de ofício, em branco, instruindo cada quartel a rebater pedidos do Procurador-Geral da República para o seu gabinete em Brasília, no quarto andar do Bloco A do QG do Exército.
Será mais um ingrediente explosivo num pleito radicalizado?
O cala-boca nacional do general Peri abrange qualquer pedido ou requisição de documentos feitos pelo 'Poder Executivo (federal, estadual e municipal), Poder Legislativo (federal, estadual e municipal), Ministério Público, Defensoria Pública e missivistas que tenham relação ao período de 1964 a 1985'.  Só quem pode responder a tudo isso, esclarece o ofício, é o Gabinete do Comandante do Exército, ou seja, o próprio general Peri, erigido agora com uma autoridade que transborda todas as esferas de poder.
É útil lembrar que os desmandos e abusos cometidos entre 1964 e 1985 constituem o foco principal da investigação da CNV, que apresentará ao País em dezembro próximo o seu relatório final.
A solução do impasse agora revelado cabe exclusivamente à Suprema-Comandante das Forças Armadas (FFAA), a quem o general se subordina nos termos da Constituição, e à Presidente da República, que criou a CNV em 2011 e a instalou no ano seguinte justamente para apurar graves violações dos direitos humanos no País. Dilma acumula as duas funções e a dupla responsabilidade.
Cabe a ela, e a mais ninguém, repor a autoridade de seu comando e o prestígio de seu cargo. Se nada fizer, Dilma perderá ambos — a autoridade e o prestígio".
SUPERIOR JAMAIS DEVE CONTEMPORIZAR 
COM INSUBORDINAÇÃO DE SUBALTERNO

Ninguém precisa correr a renovar seu passaporte, pois ainda não estamos na iminência de uma crise militar que possa servir como estopim de um novo golpe. No entanto, salta aos olhos que existe, sim, quem esteja semeando ventos, na esperança de que eles virem tempestades.

O que o Luiz Cláudio Cunha qualificou de manchete é, na verdade, uma pequena chamada de capa da edição de 22/08/2014 de O Globo, no topo da coluna. Ou seja, o jornal cumpriu seu papel de noticiar, mas, flagrantemente, não quis dar grande destaque ao que ele próprio apurou.

Podemos concluir que não está, por enquanto, favorecendo rupturas institucionais, pois evitou dar tratamento provocativo a um episódio que se prestava para tanto. E, se precedentes valem alguma coisa, quando realmente houver uma quartelada pronta para sair do forno, o mais provável é que o O Globo esteja novamente colocando a toalha na mesa. Autocríticas insinceras não evitam a reincidência nos mesmos erros....

De resto, o fato de o comandante do Exército ter extrapolado em muito a própria autoridade e desrespeitado seus superiores hierárquicos (o ministro da Defesa e a presidenta da República), ao mandar um ofício rebelde e descabido a altos oficiais, não deve ser encarado como um mero acesso de mau humor.

Mas, a exemplo de 1964, o golpe só será desencadeado no momento em que os verdadeiramente poderosos resolverem trilhar tal caminho. E eles não decidem em função de bravatas como a do general Peri, mas sim dos custos x benefícios da empreitada. Neste momento, as perdas seriam muito maiores do que os ganhos.  O que não nos exime da obrigação de acompanharmos atentamente a evolução dos cenários, para precavermo-nos de surpresas desagradáveis.

Por último: há exatos 19 dias, eu dei  (vide aqui), de graça, um bom conselho à presidenta Dilma, quando as Forças Armadas produziram um relatório de 455 páginas para negar as torturas, assassinatos, estupros e outras atrocidades que perpetraram nos anos de chumbo. Foi mais ou menos o mesmo da canção célebre do Chico Buarque, aquela que diz ser "inútil dormir, que a dor não passa):
"A pergunta que não quer calar é: como reagirá a comandante suprema das Forças Armadas, nossa presidenta Dilma Rousseff (que, vale lembrar, foi também uma resistente torturada e teve companheiros de organização assassinados nos porões)?
A hora de pagar pra ver é esta, enquanto não passa de blefe.
Que resposta dará ao relatório-escárnio, ao indisfarçado deboche e pouco caso dos fardados com relação à CNV que ela tanto quis criar?
Eles estão blefando. Ela tem as cartas vencedoras. Na hora de decidir se vai ou não utilizá-las, deveria inspirar-se (por incrível que pareça...) no ditador Ernesto Geisel.
Até por ser militar, ele sabia que o superior jamais deve contemporizar com insubordinação de subalterno. Destituiu o comandante do 2º Exército, destituiu o ministro do Exército e ninguém mais contestou sua autoridade"
Gostaria que ela reagisse como eu então aconselhei e o Luiz Cláudio Cunha está aconselhando agora. Temo, contudo, que o novo sapo também acabe sendo engolido. O que, claro, só fará aumentar o atrevimento dos insubmissos. Aí, outras e piores provocações virão.

Insuficientes para, sozinhas, devolverem o País às trevas, mas sempre perigosas, principalmente se houver uma sinergia com outros fatores de desestabilização.
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