domingo, 30 de março de 2014

O PETRÓLEO É NOSSO? DO POVO BRASILEIRO NUNCA FOI!

Na sua coluna deste domingo (30), o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony aproveitou a saia justa da Petrobrás para bater mais uma vez na tecla de que ela indiretamente assassinou o também escritor e jornalista Paulo Francis (1930-1997):
"Sem ser um jornalista investigativo, ele acusou num programa de televisão a cúpula da estatal de grossas negociatas, subfaturamento e superfaturamento, entre outras coisas. Somente agora, com o escândalo de Pasadena, as operações nos EUA serão objeto de uma CPI no Congresso. Temendo ter de pagar uma indenização absurda aos diretores da Petrobras da época, Paulo teve o infarto que o matou, desfalcando o Brasil de um de seus maiores jornalistas".
Dando como correta a informação do Cony, eu chegaria a conclusões um tanto diferentes.

A primeira é a de que o Paulo Francis não mediu as consequências dos seus atos, nem a própria fortaleza interior para enfrentar adversidades. Queria ser guerreiro, escrevia como tal, mas verdadeiramente não o era. Descobriu isto no pior momento possível, e depois não descobriu mais nada.

A segunda é a de que o Paulo Francis velho esqueceu ou não levava a sério quem havia dito a palavra definitiva sobre o assunto: o Paulo Francis jovem, autor da afirmação lapidar de que "o combate à corrupção é bandeira da direita". 

Era nos tempos da UDN, continuava sendo em 1997 e não há motivo para mudarmos de opinião só porque revolucionários de outrora, hoje meros reformistas, travam duelos de torta de lama com os adversários mais à direita, reduzindo as disputas eleitorais a enredos policialescos que em nada contribuem para que os trabalhadores voltem a acreditar na política como a via para sua libertação. 

Por que, como homens de esquerda, nos daríamos ao trabalho de combater uma característica intrínseca e inseparável do capitalismo, se ela jamais será erradicada enquanto não extirparmos a erva daninha no seu todo?

Quem acredita em sanear e redimir o capitalismo, que se entregue a essa faina interminável e inútil. Eu sempre preferi esforçar-me para pôr fim à exploração do homem pelo homem, um objetivo incomensuravelmente maior que o de dar fim à corrupção.

Quanto à Petrobrás e a todas as estatais que existem em países capitalistas, o modo certo de encará-las continua sendo o dos marxistas revolucionários: não passam de empresas, quem manda nelas não são os trabalhadores, nem estão colocadas a serviço da sociedade. São parte da engrenagem capitalista, nada mais. Nem merecem ser defendidas por nós, nem erigidas em alvos preferenciais. 

O petróleo é nosso? Do povo brasileiro nunca foi! 

E já passou da hora de o encararmos como o carrasco que nos espreita. O petróleo tem mais é de ser substituído por energia limpa, o quanto antes, torcendo para que ainda seja possível evitarmos o extermínio da espécie humana.

sábado, 29 de março de 2014

NO RASTRO DA GRANDE MENTIRA (a tragédia)

A série de dois dois especiais dedicados ao cinquentenário do golpe militar de 1964 se completa com a publicação de Se queres um monumento para o golpe de 1964, olha o coronel Malhães, A noite que durou 21 anos e O cotidiano de um resistente.
Os artigos anteriores haviam sido Goulart foi derrubado pelo piparote de um mad dog fardado e No dia que a liberdade foi-se embora.

SE QUERES UM MONUMENTO PARA O GOLPE DE 1964, OLHA O CORONEL MALHÃES

A frase célebre de Karl Marx foi ligeiramente modificada no Brasil: aqui a ditadura militar começou como farsa, transmutou-se em tragédia e terminou reconvertida em farsa (com a redemocratização pela metade, incluindo a impunidade eterna dos carrascos do regime e seus mandantes).

formidável ameaça comunista que ruiu quando um bando de recrutas zeros saiu desfilando pela Dutra, sem que fosse disparado um único tiro, escancarou o quanto eram farsescos os pretexto para o golpe. O que não impede os ultradireitistas de, à falta de justificativa plausível, baterem até hoje na desafinada tecla da contrarrevolução preventiva

É como se um réu alegasse haver assassinado um desafeto porque este pretendia matá-lo caso surgisse uma oportunidade. Seria condenado num piscar de olhos, pois legítima defesa se dá contra atos, não contra supostas intenções. 

E se o suposto assassino em potencial evidenciasse ser tão pusilânime e inofensivo quanto a esquerda se mostrou em abril de 1964 (1), pior ainda. A pena máxima se tornaria obrigatória. 

Talvez tenha sido este o motivo de os jornalistas franceses receberem com chacotas o governador golpista Carlos Lacerda, quando o corvo  foi promover a quartelada pelas bandas de lá. Perguntaram-lhe o porquê de as revoluções sul-americanas terminarem sempre sem derramamento de sangue.

A resposta de Lacerda foi tão ferina ("é porque são iguais às luas de mel francesas") que lhe valeu um discreto convite para retirar-se o quanto antes do país. Só que, ao se descontrolar e comprometer sua missão, ele passou recibo de que haviam colocado o dedo na ferida: a facilidade com que Mourão Filho pôs Goulart para correr simplesmente pulverizara a retórica fantasiosa dos farsantes. O espantalho tinha mesmo palha como recheio, e nada além de palha.

Mas, o que era farsa no dia da mentira em seguida se tornaria tragédia. O marco da mudança de espetáculo foi a tortura a céu aberto do sexagenário e já lendário dirigente comunista Gregório Bezerra, arrastado por uma praça de Recife com uma corda no pescoço e os pés em carne viva, pois haviam sido imersos em solução de bateria de carro.

A ditadura jamais foi branda, como a Folha de S. Paulo e Marco Antônio Villa querem fazer crer; ela dosava o uso da força de acordo com as necessidades de cada momento, mas sempre reagindo com contundência muito superior à das ações que se lhe opunham. Quando a resistência engatinhava, os militares barbarizavam menos; quando confrontados, fecharam o Congresso e colocaram o país sob estado de sítio, sem sequer terem a franqueza de dar nome aos bois.

Criam que bastava deterem o monopólio das versões, assegurado pela censura, para que as atrocidades fossem mantidas sob o tapete. Conseguiram parcialmente seu intento durante os 21 anos de arbítrio e também nos patéticos governos de José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Os torturadores do regime militar pouco foram incomodados, inclusive em termos de exposição e execração públicas, até 1994.

Justiça seja feita, logo no seu primeiro ano de governo (1995) Fernando Henrique Cardoso instituiu a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, à qual viriam seguir-se, em 2001, a Comissão de Anistia; e, em 2011, a Comissão da Verdade, esta última por iniciativa de Dilma Rousseff.

Os esqueletos nunca mais pararam de sair dos armários, chocando os brasileiros civilizados com os relatos nus e crus das mais bestiais torturas (inclusive de crianças, para quebrar a resistência dos pais), de um sem-número de assassinatos maquilados em suicídios, confrontos ou tentativas de fuga (os mais emblemáticos foram os de Rubens Paiva e Vladimir Herzog), das execuções covardes de prisioneiros nos aparelhos clandestinos da repressão e na campanha do Araguaia, dos frequentes estupros, da ocultação sistemática de cadáveres e outros horrores.

Como os totalitários empedernidos teimam em festejar o que seres humanos normais consideram motivo de opróbrio, sugiro-lhes a escolha do símbolo mais adequado para a efeméride.

Poderia ser o delegado Sergio Paranhos Fleury, aquele funcionário tão abnegado que até levava serviço para casa, ou melhor, para o sítio (2), se ele não tivesse mordido a mão do dono e, logo em seguida, casualmente se afogado ao cair do próprio barco.

Poderia também ser o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que acusa os outros de sufocarem a verdade quando ninguém tem tanta verdade escabrosa para esconder quanto ele próprio.

Mas, lembrando o velho bordão de que futebol é momento, neste instante não há ninguém melhor do que o coronel Paulo Malhães para simbolizar a ditadura de 1964/85.

Pois ele foi além dos seus antecessores ilustres: não só fez coisas abomináveis, como assume que as fez e orgulha-se de tê-las feito. Torturou, matou, mutilou e é com indisfarçável prazer que conta isso, tintim por tintim.

1 a esquerda saiu tão mal na foto em 1964 que entrou em parafuso e partiu para intermináveis lavagens de roupa suja, culminando numa miríade de rachas e lançamento de novas siglas, enquanto filmes como Terra em transe e O desafio flagravam o desencanto e a perplexidade decorrentes da derrota sem luta. Então, para que o povo voltasse a respeitá-la, a esquerda precisava provar que tinha, sim, coragem para sangrar por seus ideais. Minha geração sentiu isto vivamente. Quando o regime se direcionou para o fechamento total, os melhores de nós consideramos indigno fugir de nossas responsabilidades... e pagamos um preço altíssimo por tal opção. Os que negaram fogo em 1964, quando as circunstâncias eram muito menos desfavoráveis, prepararam o terreno para as tragédias que marcariam a luta armada.
2 o sítio do delegado Fleury era um dos aparelhos clandestinos da repressão.

A NOITE QUE DUROU 21 ANOS

"Morte vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão 
que já se foi.
Revejo nesta hora 
tudo que aprendi, 
memória não morrerá!

Longe, longe ouço essa voz
que o tempo não vai levar!"

(Fernando Brant e Milton 
Nascimento, "Sentinela")

Nesta 3ª feira, ao se completar meio século da pior mentira já enfiada goela dos brasileiros adentro -a quebra da normalidade institucional sob justificativas falaciosas, mergulhando o País nas trevas e barbárie durante mais de duas décadas-, é oportuno lembrarmos o que realmente foi a nada branda ditadura de 1964/85, ainda louvada por seus carrascos impunes, reverenciada por suas repulsivas viúvas e defendida pelos cuervos  que o totalitarismo criou.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do despotismo.

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontânea nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.


Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.


Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA, como hoje está mais do que comprovado. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).

O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada "subversivo" preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos cada vez mais avessos ao autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já.

Foi responsável pela morte de 827 opositores assumidos (os 457 que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos listou, mais os 370 posteriormente identificados num estudo sobre a repressão política no campo), por um sem-número de genocídios indígenas, pela prisão arbitrária de uns 50 mil brasileiros e pela tortura de, no mínimo, 20 mil cidadãos.

Balanço que pulveriza de vez a falácia de uma quimérica brandura...


O COTIDIANO DE UM RESISTENTE

A propaganda enganosa martelada incessantemente pelas viúvas da ditadura bate muito na tecla de que os militantes da luta armada teriam utilizado o dinheiro expropriado dos bancos para viver como burgueses, entre luxos e orgias. Nada mais falso.

Eu militei na Vanguarda Popular Revolucionária entre abril/1969 e abril/1970, quando fui preso pelo DOI-Codi/RJ, sofri torturas que me deixaram à beira de um enfarte aos 19 anos de idade e me causaram uma lesão permanente.

Nesse ano em que me beneficiei do produto dos assaltos praticados pelas organizações de resistência à tirania implantada pelos usurpadores do poder, como foi minha vida de nababo?

Na verdade, recebia o estritamente necessário para subsistir e manter a minha fachada de vendedor autônomo.

No início, fui obrigado a me abrigar em locais precaríssimos, como o porão de um cortiço na rua Tupi, próximo da atual estação do metrô Marechal Deodoro, na capital paulistana. Era só o que eu conseguia pagar com o produto dos assaltos.

Cada quarto era um cubículo mal ventilado. Enxames de pernilongos me atacavam durante o sono. Afastava-os com espirais que mantinha acesos durante a noite inteira... e me faziam sufocar.

O que mudou quando meus companheiros fizeram o maior assalto da esquerda brasileira em todos os tempos, apossando-se dos dólares da corrupção política guardados no cofre da ex-amante do governador Adhemar de Barros? Quase nada.

Era dinheiro para a revolução, não para gastos pessoais. Apesar de integrar o comando estadual de São Paulo e depois exercer papel semelhante no Rio de Janeiro, continuei levando existência das mais austeras.

Meu último abrigo foi o quarto alugado no amplo apartamento de uma velha senhora do Rio Comprido (RJ). Fazia tanto calor que eu era obrigado a dormir despido sobre o chão de ladrilhos, que amanhecia ensopado de suor.

Quando tinha de abandonar às pressas um desses abrigos, todos os meus bens cabiam numa mala de médio porte. Vinham-me à lembrança os versos de Brecht, "íamos pela luta de classes, desesperados/ trocando mais de países que de sapatos".

Havia, sim, um dinheiro extra, que equivaleria a uns R$ 10 mil atuais. Mas, tratava-se do fundo a que recorreríamos caso ficássemos descontatados e tivéssemos de sobreviver ou deixar o País por nossos próprios meios, sem ajuda dos companheiros que já estariam presos ou mortos.

Nenhum de nós gastava essa grana, era ponto de honra. Os fundos de reserva acabaram chegando, intactos, às garras dos rapinantes que nos prendiam e matavam. Nunca prestaram conta disso, nem dos carros, das armas e até das peças de vestuário que nos tomaram.

E, mesmo que tivéssemos dinheiro para esbanjar, como o gastaríamos? Éramos procurados no país inteiro, com nossos nomes e fotos expostos em cartazes falaciosos.

Eu, que nunca fizera mal a uma mosca, aparecia nesses pôsteres como “terrorista assassino, foragido depois de roubar e assassinar vários pais de família”. O Estado usava o dinheiro do contribuinte para me fazer acusações falsas e difamatórias!

Para manter as aparências, éramos obrigados a sair cedo e voltar no fim do dia. Os contatos com companheiros eram restritos ao tempo estritamente necessário para discutirmos os encaminhamentos em pauta; dificilmente chegavam a uma hora.

Sobravam longos intervalos, com nada para fazermos e a obrigação de ficarmos longe de situações perigosas. Tínhamos de procurar locais discretos, tentando passar despercebidos... por horas a fio. Sujeitos a, em qualquer momento, sermos surpreendidos por uma batida policial.

Vida amorosa? Dificílima. Cada momento que passássemos com uma companheira era um momento em que a estaríamos colocando em perigo. Ninguém corria o risco de ir transar em hotéis, sempre visados (e nossa documentação era das mais precárias, passei uns oito meses carregando apenas um título eleitoral falsificado). E as facilidades atuais, como motéis, quase inexistiam.

Aos 18/19 anos, senti imensa atração por duas aliadas, uma em São Paulo e outra, meses mais tarde, no Rio de Janeiro. Com ambas, o sentimento era recíproco. E nos dois casos mal passamos dos beijos apaixonados com que nos cumprimentávamos e despedíamos. Qualquer coisa além disso seria perigosa demais.

Enfim, esta é a vida que levávamos, acordando a cada manhã sem sabermos se estaríamos vivos à noite, passando por freqüentes sustos e perigos, recebendo amiúde a notícia da perda de companheiros queridos (eu até relutava em abrir os jornais, tantas eram as vezes que só me traziam amargura).

Sobreviver alguns meses já era digno de admiração. Ao completar um ano nessa vida, eu já me considerava (e era considerado pelos companheiros) um veterano. Caí  logo em seguida.

Dos tolos que saem repetindo essas ignomínias trombeteadas dia e noite pela propaganda enganosa da direita, nem um milésimo seria capaz de encarar a barra que encaramos, não pelas motivações ridículas que nos atribuem, mas por não aguentarmos viver, e ver nosso povo vivendo, debaixo das botas dos tiranos!

sexta-feira, 28 de março de 2014

BOMBA! BATTISTI PODE VOLTAR PARA A FRANÇA

Passado feliz: Battisti lançando livro na França
O escritor Cesare Battisti nunca escondeu seu desejo de retornar para a França, onde estaria mais próximo de suas filhas e onde confia que sua carreira literária decolaria de novo, pois foi lá que ele se projetou como novelista.

Isto poderá se tornar viável se sua colega escritora Fred Vargas obtiver sucesso numa tentativa que fará junto aos tribunais franceses, de anular a decisão de extraditá-lo para a Itália, tomada sob intensa pressão propagandística -e, inclusive econômica- dos neofascistas de Berlusconi.

O motivo para a reconsideração do caso seria o fato de que Battisti não foi verdadeiramente defendido no segundo processo italiano, já que seus supostos advogados tinham conflitos de interesse com ele e serviram-se de procurações antigas, que ele assinara em branco, para fazerem-se passar por seus patronos.

Eis como o caso foi relatado, em 2011, pelo jornal O Estado de S. Paulo (Francesa vê fraude em processo que condenou Battisti):
"Uma suposta fraude nas procurações assinadas pelo ex-ativista Cesare Battisti estaria por trás de sua condenação à prisão perpétua pela Justiça da Itália. A acusação é feita pela historiadora, arqueóloga e escritora francesa Fred Vargas com base em documentos do processo, coletados ao longo dos últimos dez anos. Segundo ela, três procurações teriam sido fabricadas durante o autoexílio de Battisti para permitir que ele fosse representado em seus julgamentos.

O jornal O Estado de S. Paulo teve acesso aos documentos. Segundo a denúncia da escritora, Battisti teria deixado ao ex-companheiro de guerrilha Pietro Mutti, líder do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), folhas em branco assinadas em outubro de 1981 para serem usadas na eventualidade de um processo judicial. Esses papéis, de acordo com a escritora, teriam sido usados pelo procurador do caso, Armando Spataro, e pelos ex-advogados de Battisti, Guiseppe Pelazza e Gabrieli Fuga, para forjar procurações que viriam a ser usadas nos julgamentos, em 1982 e em 1990.

Para supostamente fraudar os documentos, os três teriam usado uma procuração anterior, escrita de próprio punho por Battisti em 1979 e reconhecida como legítima por todas as partes. Com base nas três novas procurações, o ex-guerrilheiro pôde ser levado a julgamento. Pela legislação italiana, um preso pode ser julgado, mesmo em sua ausência, desde que tenha nomeado representantes legais. Nessa época, conforme Fred Vargas, Battisti vivia no México, sem contato com familiares e amigos na Europa e não sabia dos julgamentos na Itália."
O Battisti despreocupado de outrora
Trata-se exatamente do que eu já informara em março de 2010 (Fred Vargas/Carlos Lungarzo provam fraude no julgamento de Battisti)
"Agora, não resta nenhuma dúvida: o escritor italiano Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua num julgamento irregular, pois não estava sendo defendido por advogados que houvesse constituído para tanto, inexistindo qualquer evidência de que, foragido no exterior, ele tivesse ciência de que o julgavam.

Quem o representou, na verdade, incorreu em crimes como os de fraude e falsidade ideológica, motivados pelo empenho em favorecer outros réus, cujos interesses eram conflitantes com os de Battisti.

Isto foi totalmente provado por uma investigação independente conduzida pela escritora Fred Vargas, que agora é disponibilizada para os brasileiros por Carlos Lungarzo, professor aposentado da Unicamp e membro há três décadas da Anistia Internacional.

Acrescento que o conteúdo desse dossiê é de extrema gravidade: comprova irrefutavelmente o direito que Cesare Battisti tem de ser julgado novamente na Itália, já que sua condenação se deu à revelia.

Esse direito está sendo escamoteado pela Justiça italiana que, ao ignorar a denúncia consistente que lhe foi apresentada, cedeu à razão de Estado, acumpliciando-se com uma fraude.

Também o relator do Caso Battisti no Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, descumpriu clamorosamente seu dever de servir à causa da Justiça e não apenas ao de uma parte, a mais poderosa: foi alertado de que o escritor sofreu gravíssima violação dos seus direitos e preferiu o caminho fácil da omissão."
Na ocasião, o Lungarzo e eu tentamos, de todas as maneiras, levantar o assunto na mídia nacional e internacional (correspondentes estrangeiros). Expedimos e-mails a cerca de 2 mil jornalistas (!), em vão. A blindagem era absoluta.

Para quem quiser conhecer o material que foi por nós disponibilizado à imprensa e aos internautas, interessando então apenas aos segundos, é só visitar o site 1  ou o site 2 do Lungarzo. Neles encontrará:
  1. a apresentação animada com a descrição do processo de falsificação;
  2. o texto explicativo de 19 páginas;
  3. A coleção de 22 fotocópias que compõem o material da perícia, contendo documentos públicos e escritos privados de Battisti, para propósito de comparação;
  4. outro texto explicativo, este de Fred Vargas.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O DIA DA GRANDE MENTIRA (a farsa)

Com a publicação de Goulart foi derrubado pelo piparote de um mad dog fardado e No dia que a liberdade foi-se embora, inicio a série de dois especiais dedicados ao cinquentenário do golpe militar de 1964.


GOULART FOI DERRUBADO PELO PIPAROTE DE UM MAD DOG FARDADO

O que há, ainda, para se dizer sobre o infausto cinquentenário do golpe de 1964? Tantos e tantos já escreveram, alguns com conhecimento de causa, muitos com conhecimento livresco e um contingente maior ainda baseando-se nos panfletos pró e contra que infestam a internet...

Aos intelectualmente honestos e medianamente perspicazes não escapa a obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
  • depois que o caipirão Lyndon Johnson herdou a presidência dos EUA, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa virada de mesa no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami);
  • após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos. Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um verdadeiro expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases (suas associações continuaram ruidosas, como convinha aos planos dos golpistas –está aí o cabo Anselmo que não me deixa mentir!–, mas não poderosas, pois eram muitos caciques para poucos índios);
Mourão Filho, macaqueando o gen. MacArthur.
  • a participação civil, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script golpista, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a quartelada mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;
  • o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo; e
  • o hegemônico Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que militares legalistas defenderiam Goulart e, como consequência, semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra os golpistas, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse estruturar).
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho. 

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e redator do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação como espantalho para assustar milicos.

Ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem sua bravata poderia ter causado um banho de sangue.
Mas, porque a tão trombeteada ameaça comunista na verdade inexistia, a marcha pela Via Dutra acabou sendo um passeio. Bastariam dois ou três caças da FAB para a abortarem, pois os inexperientes recrutas debandariam em pânico logo à primeira rajada de metralhadora disparada sobre suas cabeças à guisa de advertência.

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo piparote de um mad dog fardado.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A COMISSÃO DA VERDADE E A AUTOFLAGELAÇÃO DOS OGROS DECRÉPITOS

Malhães admitiu que cortava as mãos dos cadáveres para dificultar sua identificação
Uma obra-prima de Sidney Lumet que ainda não consegui disponibilizar para os leitores deste blogue é O príncipe da cidade, de 1981.

Mostra a sofrida cooperação de um detetive da Divisão de Narcóticos de Nova York com os promotores que investigam a corrupção policial. 

Lá pelas tantas, um desses promotores comenta que todo policial corrupto, lá no íntimo, quer mesmo é botar pra fora todos os seus malfeitos, pois está em permanente conflito com os valores que lhe inculcaram. 

Sabe ter errado e anseia não só pela retirada de tal peso da consciência, mas também pela punição. Sua forma específica de autoflagelação é dar o serviço, exatamente como fazem os marginais que ele está acostumado a prender. Sente necessidade de se colocar no lugar deles, submetendo-se à rotina humilhante da confissão e delação. 

Seja por sentimento de culpa, seja por quererem os holofotes voltados uma última vez na sua direção antes da morte que se avizinha, militares convocados pela Comissão Nacional da Verdade têm sido pródigos em desembucharem as monstruosidades que cometeram durante a ditadura de 1964/85.

As revelações até agora mais chocantes acabam de ser feitas pelo coronel reformado Paulo Malhães, hoje com 76 anos, que revelou como funcionava a Casa Morte de Petrópolis (RJ), admitiu ter torturado muitos presos políticos e executado "tantas pessoas quanto foram necessárias", descreveu como mutilava os cadáveres para dificultar sua identificação (destruindo-lhes as arcadas dentárias e digitais), etc. Haja estômago. 

Então, mesmo sem ter levado a bom termo investigações cruciais nem conseguido obrigar os fardados da ativa a darem os esclarecimentos que lhes competiam (bem como a apresentarem o que ocultaram e ainda não tenham incinerado...), a Comissão poderá sair bem na foto, graças à compulsão dos pijamados em assumirem-se como os ogros que foram no passado.

Sem perceberem que, em sua decrepitude atual (mal disfarçada por tinturas para cabelo como a que Malhães evidentemente utiliza...), não inspiram mais medo. Somente nojo.

terça-feira, 25 de março de 2014

O GAY INGLÊS QUE ESPIONAVA PARA STALIN

Memórias de um espião (1984), mais um filme para se ver neste blogue, não chega a ser propriamente uma obra-prima, embora tenha obtido algum destaque no Festival de Cannes: seu diretor, Marek Kanievska, chegou a ser indicado para a Palma de Ouro. Mas não levou.

Merece, contudo, ser conhecido, principalmente por sua componente biográfica: mostra o momento de decisão na vida de um dos cinco integrantes do alto escalão dos serviços secretos do Reino Unido que atuaram como agentes duplos entre as décadas de 1930 e 1950, fornecendo informações valiosíssimas para Stalin (o qual nem sempre fez bom uso delas, devido às suas paranoias).

Foi um episódio marcante da guerra fria, e extremamente traumático para os britânicos. 

Inspirou, inclusive, a visão amarga e pessimista do mundo da espionagem que impregna as novelas de Graham Greene e John le Carré (enquanto isto, Ian Fleming, com suas fantasias de James Bond, tentava levantar o moral da tropa...). 

O mais famoso dos agentes duplos foi Kim Philby, um dos três realmente egressos da Universidade de Cambridge (o grupo ficou conhecido como os cinco de Cambridge, mas dois deles tinham origem diversa). 

O Guy Burgess das telas... 
Memórias de um espião, no entanto, centra-se no menos lembrado Guy Burgess (Rupert Everett), cujo motivo para tomar a decisão que o faria passar o resto da vida no exílio teria sido, digamos, pouco convencional: no colégio aristocrático em que estudava, sofreu uma amarga derrota na disputa canibalesca que os aspirantes à elite travavam entre si, por uma posição hierárquica muito prestigiosa e até decisiva para suas futuras carreiras. 

Poderia, como o personagem diz, fazer a diferença entre a designação para uma embaixada na Europa ou no fim do mundo.

O motivo de sua desgraça foi a condição de gay tê-lo exposto a uma sórdida chantagem. Então, em função do ruir dos sonhos, de sua hostilidade em relação aos patrioteiros da escola e da admiração nutrida por um colega que era comunista fervoroso (Colin Firth), acaba tornando-se um improvável espião soviético.
...e o da vida real.

O filme, afora as breves introdução e epilogo, transcorre inteiro no ambiente estudantil. E mostra, realmente, outro país, como promete o título original. 

Um país que incutia os piores valores em seus filhos pródigos, estimulando-os a uma competição precoce, desleal e exacerbada pelo poder. 

E também um país que, por confinar meninos com outros meninos em plena puberdade, acabava às voltas com uma farta colheita de homossexuais.

O MI5, por sinal, passou a discriminá-los depois desse episódio, por entender que a orientação sexual de Burgess e de Anthony Blunt os vulnerabilizara, facilitando seu recrutamento pelos inimigos. 

Tais restrições perduraram até o início da década de 1990, depois caíram em desuso. Afinal, também os heterossexuais podem ser chantageados, se tiverem cometido falcatruas, se forem alcoólatras, adúlteros, pedófilos, etc. A defecção de Burgess e Blunt apenas forneceu pretexto para os preconceituosos praticarem seu esporte favorito: a estigmatização alheia.

segunda-feira, 24 de março de 2014

NORAMBUENA VIVE SITUAÇÃO DRAMÁTICA, NUM "LIMBO JURÍDICO" E PRIVADO DE VÁRIOS DIREITOS

O advogado Antônio Fernando Moreira me pede que ajude a tornar conhecida a situação kafkiana na qual se encontra seu cliente Mauricio Hernandez Norambuena, professor chileno que pegou em armas contra a bestial ditadura de Augusto Pinochet e foi depois preso no Brasil por comandar o sequestro do empresário Washington Olivetto.

Segundo ele, Norambuena está hoje num “limbo jurídico” que impede sua repatriação, além de sonegar-lhe vários direitos inerentes à sua condição de prisioneiro no Brasil:
"Estrangeiro, preso desde dezembro de 2001, teve sua extradição autorizada para o seu país de origem em 2004. Extradição que nunca pôde ser efetivada, pois o Chile não comutou as penas de prisão perpétua [reduzindo-as ao máximo admitido pelas leis brasileiras, 30 anos]. 
No Brasil foi condenado à pena de 30 anos pelos crimes de extorsão mediante sequestro, tortura e quadrilha. 
Em 2007 foi determinada sua expulsão do País. Contudo, a efetivação da medida foi condicionada ao cumprimento da pena a que estiver sujeito no País ou à liberação pelo Poder Judiciário...  
Não pode receber refúgio no Brasil, pois a Lei 9.474 diz que ‘não se beneficiarão da condição de refugiado os indivíduos que (inciso III) tenham cometido crime hediondo’. 
O tratado de transferência de presos entre Brasil e Chile também não pode ser cumprido, por falta de compromisso do Chile em comutar a pena de prisão perpétua. 
Por último, foi negada sua progressão de regime (...) sob o argumento que é estrangeiro expulso. 
Em suma: é extraditado, mas não pode ir para o país requerente (sua pátria); é expulso mas não pode sair do País; não pode sair do País, mas também não pode progredir de regime (pelo entendimento do Juízo da Execução Penal de Mato Grosso do Sul, em cuja penitenciária federal cumpre sua pena) pois não poderia trabalhar/residir no País.
 ... apesar de o reclamante ter cumprido o requisito objetivo (um sexto da pena) há quase sete anos, sempre são exigidos novos requisitos contra si e o último foi o fato de ele ser estrangeiro expulso.  
... Sua situação de saúde também não é boa. A saúde mental está acabada, depois de cinco anos no odioso Regime Disciplinar Diferenciado (...), regime considerado por quase toda a comunidade jurídica – nacional e internacional - como pena cruel, desumana e degradante.
Apesar de não estar mais submetido a este covarde regime, ainda está custodiado em penitenciária federal (...), ficando em isolamento 22 horas por dia, com restrições de informação (censura de livros e revistas, proibição de assistir TV, ouvir rádio, etc.), violação de correspondências e recebendo visitas raramente.  
Sem dúvida, é irreparável o dano que vem sofrendo..."
Concordo plenamente. Norambuena é prisioneiro num Estado de Direito, não um herege mantido pelo Santo Ofício numa masmorra medieval para ir morrendo aos poucos. 
  
Para mais informações sobre a batalha jurídica e sobre as maneiras de contribuir para o fim do que parece ser uma retaliação velada -e por isto mesmo, mais odiosa ainda- contra Norambuena, acessem o site da campanha de solidariedade, clicando aqui

TER HIERARCAS EM BOQUINHAS É INADMISSÍVEL PARA A ESQUERDA

Este honrou as tradições da esquerda.
Quando um partido de esquerda conquista qualquer governo sob o capitalismo, tem a obrigação de agir de maneira bem diferente dos políticos convencionais.

Por quê? Simplesmente porque o objetivo último de esquerda não é eleger prefeitos, governadores ou presidentes. É educar as massas para a revolução. E isto implica aguçar as contradições até ficar evidenciado para os trabalhadores que o estabelecimento pleno da justiça social e da liberdade só se dará com o fim da exploração do homem pelo homem.

Então, o PT jamais deveria, em nome da governabilidade, ter feito alianças com a ralé direitista, a ralé centrista e a ralé dominante que com elas se confunde, a fisiológica. Deveria ter lutado para conseguir a aprovação de suas metas e medidas sem fazer concessões em termos de princípios, sem pagar apoios com grana nem distribuir nacos de poder (em termos morais, não há diferença nenhuma entre o envelope de dinheiro entregue sorrateiramente e o rateio explícito de ministérios, secretariados, estatais, etc.). 

E se os acostumados às barganhas chiassem e chantageassem, deveria levantar as massas contra eles, ao invés de rebaixar-se ao toma-lá-dá-cá.

Presidentes de esquerda, ou aguçam as contradições até colocarem o País no caminho da revolução, ou são derrubados. 

Quando não acontece nem uma coisa nem outra, é porque não estão governando como pessoas de esquerda.

Este também.
É melancólico o PT ter-se desmoralizado por descer ao nível dos políticos convencionais.

Começando pelo mensalão e acabando pela ocupação de cadeiras nos Conselhos de Administração de empresas apenas para os grãos petistas completarem seus ganhos.

Durante a ditadura militar, não era só nos das estatais que oficiais da reserva iam receber uns trocados para reforçar suas pensões. Também as empresas privadas precisavam tê-los para garantir a boa vontade governamental; e os tinham, religiosamente.

Pois não é que esta prática repulsiva se repete hoje, com a companheirada não se vexando de participar da mesmíssima farsa?!

É o que afirma Elio Gaspari (vide íntegra aqui):  
"A prática é velha: reforça-se o orçamento dos hierarcas nomeando-os para conselhos de empresas. Ela vale tanto na administração federal como nas dos Estados. Tome-se o exemplo de Dilma Rousseff. Em 2006, como chefe da Casa Civil, tinha um salário mensal de R$ 8.362. Em 2007, ganhava R$ 8.700 mensais como conselheira da Petrobras e de sua distribuidora. À Casa Civil ela ia todo dia, aos conselhos, uma vez a cada dois meses (e às vezes chegava atrasada).
...Quando o PT estava na oposição, reclamava disso. No governo, acostumou-se. Agora chegou a conta. Como integrante (e presidente) do Conselho da Petrobras, Dilma é responsável pela aprovação da ruinosa compra de uma refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos.
...Numa estrutura séria, seria demitido o presidente da empresa, ou iriam embora os conselheiros que se julgaram desinformados. Os conselhos de estatais não são sérios, são bicos. O caso da refinaria acertou a testa da doutora Rousseff, a gerentona que pode ser acusada de viver num mundo de verdades próprias, mas nunca se meteu em transações tenebrosas. A vida é arte, errar faz parte. Enquanto houver hierarcas em boquinhas, o erro será a arte"
É profundamente lamentável.

sábado, 22 de março de 2014

...E A DEMONSTRAÇÃO DE ANACRONISMO E IRRELEVÂNCIA FOI DADA.

Batendo de novo nas portas dos quartéis?! Que asco!
Na 3ª feira passada cantei a bola:
"É óbvio que ainda existe uma direita golpista, ladrando mas não mordendo, porque quem manda mesmo são os donos do canil. Fracassou rotundamente com o Cansei! [em 2007] e vai tentar outra vez no próximo sábado, 22.
Será o Incrível Exército de Brancaleone novamente em marcha, para aumentar a quota de fiascos, dando mais uma demonstração de anacronismo e irrelevância".
Dito e feito. As viúvas da ditadura e os neofascistas conseguiram colocar 700 gatos pingados nas ruas da capital paulista e 150 nas do Rio de Janeiro. Isto ficaria de bom tamanho para acompanhantes de enterro, mas, em protesto político, equivale a nada. 

Então, foram sepultadas mais uma vez as pretensões dos que querem fazer o relógio da História girar para trás. [O que talvez não os impeça de, como vampiros, saírem novamente das tumbas daqui a outros sete anos.]

Já os antifascistas foram 800 em Sampa e 50 na cidade maravilhosa. Poucos, também, se considerarmos quão monstruosa era a abominação que estavam repudiando. 

A lição a extrairmos é a de que a ameaça envelheceu e não assusta a mais ninguém.

Como não deveria assustar aos grãos petistas, que várias vezes têm tolamente cedido às chantagens dos pijamados, sem perceber que os oficiais de hoje estão é preocupados com suas carreiras, não com os delirium tremens ideológicos de seus já longínquos antecessores.

DILMA, DARCY RODRIGUES E AS MÁGOAS DE 1969

Darcy Rodrigues (esq.), quando era jovem e vigoroso.
Conheci Dilma Rousseff no chamado Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, em outubro de 1969. Ela pertencia à facção que defendia a manutenção de vínculos com o movimento de massas, cujos principais líderes eram Carlos Franklin da Paixão Araújo e Antonio Roberto Espinosa. Eu, à facção que via a Organização como mais apta para o cumprimento das tarefas militares da revolução, principalmente o desencadeamento da guerrilha rural.

As discussões foram ásperas e acabaram com sete de nós (os militaristas) rachando para reconstituir a VPR, sob a liderança de Carlos Lamarca, enquanto os demais (os massistas) continuaram se denominando VAR. Como alguns comandantes ficaram do nosso lado, abriu-se vaga para Dilma  ascender ao Comando Nacional da VAR.

Mas, considerá-lo "acabado" seria exagero.
Neste sábado (22), uma entrevista de Darcy Rodrigues à Folha de S. Paulo revela que as mágoas de 1969 ainda não foram superadas pelos antigos integrantes das duas facções:
"Dilma era e é uma pessoa dura. Cai na asneira de chamá-la de sargentona quando era ministra --disseram que ela não gostou. Quando ela veio a Bauru [na campanha de 2010], fui ao aeroporto encontrá-la. Ela colocou a mão no meu ombro e falou: você está velho, acabado. Eu disse: vim aqui só para pegar o telefone de seus cirurgiões plásticos e esteticistas, para ficar bonito igual a você".
Será por isto que, quando soube da aberrante longevidade do meu mandado de segurança junto ao Superior Tribunal de Justiça (vide aqui), ela apenas oficiou ao ministro da Justiça e aceitou suas evasivas explicações? Ou realmente acreditou que a culpa fosse dos togados?
Dilma também fecha os olhos... ao meu caso.

O certo é que a Advocacia Geral da União recorre às mais óbvias manobras protelatórias para embaçar o cumprimento da decisão tomada em fevereiro de 2011, quando o julgamento do mérito da questão me foi favorável por acachapantes 8x0. A culpa é da AGU. Os ministros do STJ apenas dançam conforme a música. 

Como consequência, depois de sete anos de tramitação e três anos após a sentença consistente e categórica haver sido dada, meu direito continua sendo embargado sob pretexto de questiúnculas periféricas e já superadas em fases anteriores.

Deste jeito, sou eu que ficarei velho e acabado. De raiva.

sexta-feira, 21 de março de 2014

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS - 3: CANECO GLORIOSO, CÁLICE VERGONHOSO (1970)

"Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

(...) De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta"

(Chico Buarque/Gilberto Gil)

Os que vêm acompanhando esta série hão de estranhar que a música citada acima não seja aquela que mais marcou a conquista do Mundial de 1970, "Pra Frente Brasil".

Depois de "A Taça do Mundo É Nossa" (1958) e "Frevo do Bi" (1962), seria a escolha óbvia.

Mas, vivia-se o pior momento da ditadura brasileira e nem mesmo o maravilhoso futebol que exibíamos em gramados do México nos tornava "noventa milhões em ação", "todos ligados na mesma emoção".

Atravessei a Copa como preso político no DOI-Codi/RJ, tomando conhecimento dos gols canarinhos pela gritaria no quartel e recompondo as forças durante a pausa para respirar que as partidas da Seleção nos proporcionavam -- pois os militares preferiam assistir às belas proezas nos estádios do que protagonizar a rude barbárie nos porões.

Nada impedia que, poucas horas depois, estivéssemos recebendo choques e pancadas, pendurados no pau-de-arara. A gritaria de júbilo cedia lugar aos gritos dantescos.

Não, naqueles dias podia até parecer que "todo o Brasil deu a mão", mas havia um abismo intransponível entre as mãos que golpeavam e as mãos que acudiam.

Os que nos diziam "comemorem!" eram os mesmos que berravam "cale-se!", "ame-o ou deixe-o!" e "comunista bom é comunista morto". O vinho nesse cálice era fel.

E, para os que estranharem esta intromissão da detestável política num espaço dedicado ao encantamento do futebol, vale lembrarmos quão determinante ela foi no momento dos acontecimentos.

JOÃO SEM MEDO, AS FERAS E O OGRO

Depois do acachapante fiasco no Mundial da Inglaterra, quando a convocação de um número excessivo de jogadores e o tortuoso ritual dos cortes minaram a união do elenco, o Brasil decidiu definir desde o início um time-base.

Foi o que fez João Saldanha, jornalista e técnico com notórias afinidades com o Partido Comunista Brasileiro, um homem carismático e de personalidade fortíssima (o apelido de João Sem Medo era dos mais merecidos).

Formou o time para as eliminatórias com maioria de jogadores do Santos e Botafogo, as duas melhores equipes da época. E, para reerguer o combalido moral brasileiro, nada como o rótulo inspirado que o escritor e colunista Nelson Rodrigues cunhou:  as feras do Saldanha.

A ideia era que nossos jogadores não deveriam temer nem respeitar ninguém, entrando em campo para atropelar os adversários.

E foi o que aconteceu nas eliminatórias: o Brasil passou como um trator sobre Colômbia, Paraguai e Venezuela, vencendo os seis jogos, com direito a goleadas. Foram 23 gols marcados e apenas dois sofridos.

Aí, uma conspiração esportivo-militar derrubou o técnico heroico.

Pesaram fatores como a independência que Saldanha assumia em relação aos repulsivos cartolas e sua relutância em colaborar com o marketing do ditador Emilio Garrastazu Médici, que era dado à demagogia futebolística (ia assistir aos clássicos no Maracanã com um rádio de pilha colado ao ouvido e batalhões de seguranças ao redor...).

Melhores lances de Brasil 1x0 Inglaterra. Veja o jogo todo clicando aqui.

Tentando suavizar sua imagem de ogro, Médici sugeriu a entrega de uma camisa de titular ao folclórico atacante Dadá Maravilha, ao que Saldanha respondeu:
"Quem escala a seleção sou eu, quando o presidente escalou o seu ministério ele não pediu a minha opinião".
Ficou, claro, com a cabeça a prêmio. Os cartolas açularam então contra ele um técnico grosseiro e metido a valentão, que estava vivendo boa fase à frente do Flamengo: Dorival Knipel, o  Yustrich.

Com a promessa de que sucederia Saldanha se o derrubasse, Yustrich desandou a atacá-lo de todas as formas, sem sucesso.

Até que levou a coisa para o lado pessoal, atingindo a honra do João, que provou ser mesmo sem medo: apanhou um revólver e foi atrás do difamador em pleno estádio do Flamengo.

Yustrich, o falso ferrabrás, fugiu pulando a cerca, apesar de obeso. Cena ridícula.

E os cartolas, a pretexto de descontrole emocional, demitiram Saldanha e o substituíram pelo dócil Zagalo.

O QUADRADO MÁGICO: BENDITO ACASO!

Tão dócil que os líderes do elenco lhe impuseram a escalação de Rivelino, o reizinho do Corinthians. Ele preferia Edu, do Santos, numa armação convencional de 4-2-4.

Assim, porque ninguém estava realmente aprovando na ponta-esquerda, surgiu, meio por acaso, a grande inovação tática da Copa de 1970: o  quadrado mágico, formado por Gerson, Pelé, Tostão e Rivelino, que não guardavam posições fixas, deslocando-se de acordo com o desenrolar de cada ataque. [Na Copa seguinte, o  carrossel holandês   ampliaria esta rotação, estendendo-a para os demais compartimentos do time.]

Para completar, ficava mais à frente Jairzinho, goleador hábil e oportunista, aproveitando muito bem as assistências dos craques.

Na estréia, contra a Checoslovaquia, os brasileiros viram pela primeira vez uma partida de Copa do Mundo sendo transmitida ao vivo pela TV. A grande maioria ainda em preto-e-branco, pois poucos tinham poder aquisitivo para bancar os recém-lançados televisores coloridos.

Petras abriu o placar e surpreendeu o mundo ao fazer o sinal da cruz (ué, comunistas também são cristãos?! Eles não comem criancinha viva?).

Uma bomba de Rivelino, cobrando falta da meia-lua, restabeleceu a ordem natural das coisas. E o primeiro tempo ainda teve a tentativa de Pelé de encobrir o goleiro com um chute do meio de campo -- um dos grandes  gols que não aconteceram  da história do futebol.

No segundo, só deu Brasil. Belos tentos de Pelé e Jairzinho (2) garantiram a goleada por 4x1, destacando-se os longos e perfeitos lançamentos que alcançavam atacantes com pouca marcação.

A partida seguinte foi a batalha dos mais recentes campeões: Brasil (1958 e 1962) contra Inglaterra (1966).

Jogo equilibrado, disputadíssimo, no qual o grande Banks fez defesa antológica, numa cabeçada fulminante de Pelé; em que até nosso mediano goleiro Felix, quem diria, andou salvando a pátria; no qual Astle perdeu chance incrível após falha de Everaldo.

O único gol foi uma pintura: Tostão recebe pela ponta-esquerda, enrola-se com três adversários e, já caindo, consegue centrar para Pelé, que talvez marcasse mas, com muitos ingleses à frente, preferiu colocar Jairzinho cara a cara com Banks. Caixa.

Vaga garantida, a partida com a Romênia virou amistoso de luxo. 3x2, com falhas de nossa defesa e gols de Pelé (2) e Jairzinho.

Nas quartas-de-final, a tradição prevaleceu. O Peru, treinado pelo nosso Didi, até que surpreendeu no ataque, comprovando a fragilidade da zaga brasileira (o craque Carlos Alberto; o bom Piazza, sacrificado por estar fora de sua posição; e os limitados Brito e Everaldo).

Em compensação, os zagueiros peruanos levaram o previsível o esperado baile. 4x2, com gols de Tostão (2), Rivelino e Jairzinho.

DUELOS DE GIGANTES NA RETA DE CHEGADA

O outro rival sul-americano foi bem mais difícil. O Uruguai, campeão de 1930 e 1950, vendeu caro a derrota na semifinal.

A partida ficou ainda mais complicada a partir de uma falha grotesca de Felix, que aparentemente fez golpe de vista numa bola que poderia ter agarrado com certa facilidade. 0x1.

Quando o primeiro tempo já terminava, Clodoaldo surgiu como elemento-surpresa para fazer um gol providencial. 1x1.

No segundo, o sofrimento durou 30 minutos, até Tostão servir Jairzinho num contra-ataque. Superando um adversário na corrida, o  furacão da Copa  desempatou.

Melhores lances da final. Veja o jogo todo clicando aqui.

Os uruguaios foram para cima e Felix se redimiu da bobeira do 1º tempo, fazendo defesas cruciais.

Pelé novamente deixa o mundo extasiado com um  gol que não aconteceu: aplica desconcertante drible de corpo no goleiraço Mazurkiewicz e chuta raspando a trave.

No finzinho, a  patada atômica  de Rivelino funciona de novo, para dar números mais categóricos à vitória suada: 3x1.

Veio então o tira-teima entre duas seleções bicampeãs: Brasil e Itália (1934 e 1938). Quem vencesse, levaria a Taça Jules Rimet definitivamente para casa.

O Brasil jogou completo: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé.

A superioridade brasileira foi marcante, contra uma Itália que, tecnicamente bem inferior, ainda se desgastara demais para despachar a Alemanha Ocidental na outra semifinal, decidida só na prorrogação (4x3).

Centro perfeito de Rivelino para a cabeçada de Pelé. 1x0.

A Itália empata após saída atabalhoada de Felix, que foi disputar a bola na intermediária. 1x1.

Gerson, o  canhotinha de ouro, recebe a bola num corta-luz e desfere chute perfeito da meia-esquerda, aos 21 minutos do 2º tempo. 2x1.

A cansada Itália se entrega de vez quando, logo em seguida, Gerson lança a bola do meio-de-campo e Pelé, na área, apara de cabeça para Jairzinho marcar. 3x1.

O resto foi festa, olé e um gol apropriadamente qualificado de  orgástico   pelo Pasquim: Pelé encosta para Carlos Alberto, que vinha na corrida e fez exatamente o que já se desenhara na mente de todos os brasileiros, desferindo um potente chute cruzado que estufou as redes italianas.

* * *

O único Mundial conquistado pelo Brasil sob regime ditatorial seria o mais instrumentalizado politicamente de todos os cinco. Ajudou a vender a ilusão de um deslanche econômico, logo desfeita pelos choques do petróleo; e a consolidar uma ditadura sanguinária, que escreveria página vergonhosa de nossa História.

Felizmente, da ditadura militar nada mais resta além dos registros da infâmia em arquivos cujos guardiães tentam de todas as maneiras impedir que venham à luz.

Já a campanha exuberante de nossos craques será lembrada para sempre... com orgulho!


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