sábado, 30 de novembro de 2013

A MAIOR AMEAÇA DE EXTINÇÃO DA HUMANIDADE EM TODOS OS TEMPOS

O filme a que vocês podem assistir na janelinha abaixo, Treze dias que abalaram o mundo (d. Roger Donaldson, 2000), está longe de ser uma obra-prima. 

É basicamente correto, com as limitações de praxe das produções de Hollywood, como algumas simplificações/distorções históricas, um enfoque um tanto heroicista e o destaque excessivo que dá ao assessor de imprensa de John Kennedy, Kenny O'Donnell (Kevin Costner), que não estava com essa bola toda.

Mas, o episódio que focaliza é extremamente importante e o cinema de entretenimento evita destacá-lo (claro!) para não despertar o cidadão comum de sua letargia esplêndida. Daí eu recomendar que todos (re)vejam o filme e reflitam sobre ele. 

Há meio século, a insânia das potências ameaçou reduzir a humanidade a pó; e nada nos garante que o perigo esteja definitivamente afastado. Então, jamais devemos esquecer a crise dos mísseis cubanos.

O mês é outubro e o ano, 1962. Em todos os países há pessoas com o ouvido colado nos rádios e lançando olhares angustiados para o céu, à beira do pânico.

Nunca estiveram tão presentes nas mentes e tão opressivas nos corações as imagens dantescas dos genocídios de Hiroshima e Nagasaki, quando mais de 200 mil seres humanos foram imolados, parte instantaneamente, parte após lenta e terrível agonia. 

Havia concreta possibilidade de repetição daqueles horrores em escala muito mais ampla.

É que os EUA, ao obterem provas fotográficas da existência de silos de mísseis soviéticos em Cuba, deram um ultimato à URSS, exigindo sua imediata remoção.

A União Soviética, inicialmente, não cedeu. Pelo contrário, ao saber que os norte-americanos haviam iniciado um bloqueio naval e aéreo de cuba, despachou uma frota que o tentaria romper.

Um único disparo e começaria a reação em cadeia! Estava-se a um passo da guerra nuclear entre duas nações que acumulavam poder destrutivo suficiente para exterminar a espécie humana.

Foram 13 dias que apavoraram o mundo, enquanto se desenvolviam tensas negociações entre os governos de John Kennedy e Nikita Kruschev. Nunca os estadunidenses compraram tanto cimento e tijolo como nesse período em que construíram sofregamente abrigos nucleares em suas casas.

A crise dos mísseis cubanos terminou com cada lado cedendo um pouco e o mundo suspirando aliviado.

Os EUA concordaram em, posteriormente e sem alarde, retirarem mísseis similares que haviam instalado na Turquia. Comprometeram-se, ainda, a nunca mais realizarem ou estimularem invasões de Cuba, como a que a CIA e exilados cubanos haviam tentado em abril daquele ano na Baía dos Porcos. Eram estes os acontecimentos que haviam motivado os soviéticos a exibirem também o muque.

Kruschev, por sua vez, ordenou o desmantelamento dos silos e a retirada dos mísseis, saindo do episódio com uma vitória real (obtivera as contrapartidas desejadas) e uma derrota propagandística, pois concordou em manter secretas as cláusulas que lhe eram favoráveis.

De quebra, as superpotências decidiram colaborar para que novos sobressaltos fossem evitados, tendo sido instalada uma ligação telefônica direta (o famoso telefone vermelho) entre Kennedy e Kruschev, para que se entendessem antes dos pequenos problemas virarem grandes crises.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"MOBY DICK" DISSECA OS LÍDERES MESSIÂNICOS E CATASTRÓFICOS

Adaptação cinematográfica clássica de um clássico da literatura, o Moby Dick de 1956 (que vocês podem assistir, completo e legendado, na janelinha abaixo) é praticamente insuperável, em função da excelência da trinca de grandes talentos que reuniu e da perfeita sinergia que se verificou entre eles: 
  • o diretor John Huston, cuja alma de aventureiro lhe permitia valorizar como ninguém as histórias de homens que se propõem desafios quase inalcançáveis e desenvolvem esforços descomunais para concretizá-los -caso também dos fundamentais O tesouro de Sierra Madre (1948) e O homem que queria ser rei (1975).
  • o roteirista Ray Bradbury que, como escritor, foi um dos pais das novelas de sci-fi, tendo praticamente lançado a tendência de enfocar mais as consequências dos avanços científicos sobre os homens e a sociedade, do que embasbacar-se com as geringonças futuristas, como fazia Isaac Asimov. Sem Bradbury não teriam existido Philip K. Dick, Robert Silvelberg, Robert A. Henlein e outros autores que, basicamente, projetaram no futuro, amplificadas, as inquietações e ameaças do presente. Gente desse quilate não trabalha mais para Hollywood, privando o cinema comercial das centelhas de vida inteligente que lhe serviam como álibi para a infinidade de tralhas que despejava nas telas.
  • e Gregory Peck, o ator que parece ter nascido para interpretar o Capitão Ahab. É difícil imaginarmos algum outro ator que tivesse não só a competência artística, mas também o enorme carisma que o papel exige.
A insânia do projeto de Ahab e a liderança messiânica que exerce, envolvendo a marujada na sua idéia fixa e fazendo com que ela marche passivamente para a própria destruição, é o cerne desta obra-prima de Huston. 

Neste sentido, pode-se dizer que inspirou outro filme seminal: Aguirre, a cólera dos deuses (1972), de Werner Herzog. E que ambos foram fortemente inspirados por Adolf Hitler, o homem que mesmerizou o povo alemão e arrastou-o para o mais amargo fim.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

GENOÍNO x NORAMBUENA: A EXCEÇÃO E A REGRA

Não faz sentido solidarizarmo-nos ao Genoíno...
José Genoíno pode, mas não deve, ser mantido numa prisão, ainda que somente à noite. Afinal, as sentenças emanadas de juízes nunca são piores do que a morte. E, sem desmerecer as conclusões das tais juntas médicas, prefiro apostar no senso comum, que indica estar no fim a jornada do velho guerreiro. 

Que passe essa quadra derradeira em paz, junto aos entes queridos. Afinal, foram bem poucos os que assumiram os riscos que ele assumiu durante a ditadura; e não havia nenhum ministro do STF dentre eles. Fez jus a ser tratado com alguma consideração, sim!

José Dirceu quer ser gerente de hotel. Se a lei lhe faculta isto, por que não? Não cometeu nenhum ato brutal, que o tornasse uma ameaça para os hóspedes. E ele é que foi condenado, não a família; deverão vir em boa hora para seus dependentes os R$ 20 mil mensais que ele pode ganhar, mas não vai ter como gastar.

A Justiça draconiana e retaliativa não passa de um anacronismo medieval, claro! Mas, muitos petistas estão nos devendo uma severa autocrítica por estarem afirmando isto com tanto atraso, e só quando os calos lhes doem.

Torço para que o Joaquim Barbosa tenha percebido a inconveniência de continuar mantendo a postura rancorosa de um anjo vingador. Mesmo que um fique em casa e o outro passe o dia gerenciando um hotel, continuarão tendo o condenado estampado na testa, além de estarem sendo expostos ao opróbrio há oito longos anos. Suas carreiras políticas despencaram. Parecer-me-ia mesquinho,  além disto, impor rigores a um Genoíno combalido e/ou impedir Dirceu de trabalhar.

TRATAMENTO DIGNO PARA OS PRESOS NÃO 
PODE FICAR RESTRITO A UM CASO CÉLEBRE

...e ignorarmos a via crucis de Norambuena.
Há, contudo, um preço a pagarmos, se a enxurrada de exortações solidárias surtir efeito: as também generalizadas reprovações dos reacionários, segundo os quais eles estariam recebendo privilégios vedados à quase totalidade dos presos.

Espero que seus partidários tenham o bom senso de, em tais circunstâncias, não negarem o que até as pedras sabem ser verdade. Deverão, isto sim, afirmar que os demais presos merecem tratamento igualmente humanitário, digno e respeitador das leis vigentes, cabendo à cidadania mobilizar-se para que tal aconteça. Está na hora de sairmos da Idade Média em termos de aplicação da Justiça.

E, se Genoíno e Dirceu conseguirem tornar-se as exceções de regras odiosas, espero que ambos tenham o discernimento de perceberem que esta brecha precisará ser alargada, para beneficiar a muitos outros injustiçados, humilhados e ofendidos pela Justiça brasileira. Caberia a eles portar-se com um mínimo de discrição, de forma a não darem pretexto para reconsiderações e recuos por parte do STF.

Miruna, filha de Genoíno, erra ao recriminar a junta médica por tê-lo considerado apto para a Papuda. Parece ignorar que aos doutores não compete avaliar presídios; e não dá importância ao fato de terem eles especificado claramente os cuidados especiais que a condição de saúde do seu pai impõe. É a Barbosa, não à junta, que cabe decidir se tais prescrições podem ser seguidas à risca na Papuda, em alguma outra penitenciária, ou se é melhor conceder-lhe prisão domiciliar.

Mas, vale a pena refletirmos sobre este trecho do seu desabafo virtual:
"Agora eu me pergunto: srs. médicos, os srs. estiveram na Papuda? Com que autoridade os srs. sentem-se no direito de dizer que meu pai pode voltar para lá? Viram as condições oferecidas? Comeram a comida de lá? Foram ao banheiro de lá? Viram o ambulatório? Equipamentos de lá?".
INFINITAMENTE PIOR É O RDD: TRATA-SE DE UM SISTEMA DE TORTURA SEM AÇÃO DIRETA SOBRE O CORPO DA VÍTIMA.

Estive duas vezes na Papuda visitando o Cesare Battisti e não discordo. Mas, se lá as condições são inadequadas para um enfermo, o tratamento que recebem os presos colocados sob o Regime Disciplinar Diferenciado, em penitenciárias como a de Presidente Bernardes, é infinitamente pior, até mesmo homicida, como bem ressaltou o professor Carlos Lungarzo, que há mais de três décadas atua na defesa dos direitos humanos em nosso continente:
"O RDD é um simples sistema de tortura, que se diferencia do clássico por não haver utilização de ação direta sobre o corpo da vítima, mas cujos efeitos são comparáveis. (...) Os efeitos dolorosos que são procurados pelo torturador estão todos presentes no RDD: isolamento de som, ausência de luz natural ou hiperluminosidade, bloqueio de funções motrizes com a mecanização de todos os movimentos do preso (como portas que são abertas de fora, e que impedem o detento girar uma maçaneta, contribuindo para a atrofia muscular), perda da noção de tempo e obliteração da memória em curto e médio prazos, o que acaba mergulhando a pessoa numa autismo irreversível".
Outro antigo guerrilheiro que, a exemplo de Genoíno, atualmente cumpre pena por delitos comuns, o chileno Maurício Hernandez Norambuena, sequestrador de Washington Olivetto, está submetido ao RDD há quase 10 anos ininterruptos, embora tratamento tão cruel e destrutivo só pudesse ser aplicado, segundo a própria lei que o instituiu, por períodos escalonados de 360 dias, totalizando, no máximo, 1/6 (cinco anos) da condenação recebida (trinta anos). Quem interessar-se, encontrará mais detalhes aqui e aqui.

Quando a formidável rede de apoio aos réus petistas se mobilizar, um pouquinho que seja, para exigir também a extinção do fascistóide RDD e para proteger outros condenados sob risco de morte, como Norambuena (que já teria se suicidado se sua personalidade não fosse tão forte), será bem mais respeitada pelo homem das ruas.

Os melhores seres humanos assumem, antes de tudo, princípios; e depois defendem a causa de pessoas em função de tais princípios e coerentemente com eles.

Neste sentido, não há motivo nenhum que justifique estarem diferenciando as agruras do Genoíno da via crucis do Norambuena; assim como a atitude de tanto apelarem por um enquanto ignoram olimpicamente o outro.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

EXPLOSIVO, DESMEDIDO, SUPERLATIVO: "TERRA EM TRANSE"

Um dos melhores filmes políticos de todos os tempos e países, Terra em Transe (1967) é uma parábola perfeita sobre a quartelada de 1964, mas nem por isto válida somente para o Brasil.

Flagra uma realidade comum à maioria das nações do 3º mundo -ao qual, dizem, deixamos de pertencer em termos de pujança econômica, mas no qual continuamos mergulhados até o pescoço quanto à distribuição de renda, à qualidade de vida e, mais do que tudo, em espírito, pois a alma brasileira continua pateticamente colonizada e submissa ao autoritarismo.

Glauber Rocha repetiu a fórmula de enfeixar nos seus personagens principais os atributos e posturas de classes e grupos de interesses. Assim, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) personifica a classe média intelectualizada, contraditória e vacilante, mas que acaba fazendo a opção revolucionária quando a crise política chega à fervura máxima.

Felipe Vieira (José Lewgoy) é o político populista a quem a esquerda se atrela, como se atrelou, p. ex., ao nacionalista Getúlio Vargas, ao trabalhista João Goulart e ao sindicalista Lula. Como na vida real, a opção oportunista de colocar-se a reboque de personagens que nada têm de marxistas ou anarquistas é punida com o fracasso: na hora da verdade, Vieira prefere não resistir ao golpe de estado, para evitar, alega, o derramamento do sangue dos inocentes. Ou seja, age exatamente como o poltrão Jango.

Porfírio Diaz (Paulo Autran), claramente inspirado em Carlos Lacerda, é o direitista obcecado em conquistar o poder a qualquer preço. Mas, Glauber teve o bom gosto de não fazer dele uma mera caricatura, embora bata pesado em seus desvarios megalomaníacos e em sua amoralidade entreguista ("As nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!", atira-lhe na cara o poeta).

Don Julio Fuentes (Paulo Gracindo) é o grande capitalista nacional a quem os comunistas convencem de que será tragado pelo imperialismo se não confrontar a multinacional que domina Eldorado. Mas, volta atrás quando recebe uma oferta vantajosa da vilã, conformando-se com a condição de subalterno bem recompensado.

Finalmente, Sara (Glauce Rocha) é a militante devotada mas impotente para mudar o destino de seu povo. Vai continuar lutando após a terrível derrota... mas, nada indica que será vitoriosa da próxima vez. 

E, se os comunistas de 1964 exibiam armas o tempo todo mas acabaram não disparando um único tiro (como enfatiza Glauber, num primor de sarcasmo), coube à minha geração resgatar a moral da esquerda, provando ao cidadão comum que também éramos capazes de sangrar pela nossa causa. 

Ao preço de vidas e de sofrimentos dantescos, reconquistamos o respeito das ruas. Mas ele seria novamente perdido adiante, quando os nossos que chegaram ao poder desonraram as pregações de décadas. 

Recheado de belíssimas citações poéticas, dramático e tempestuoso como a realidade que flagra, com algumas atuações portentosas (Lewgoy, copiando trejeitos de Vargas, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, está simplesmente magnífico!), é um filme obrigatório para qualquer esquerdista que ainda seja capaz de refletir sobre a História e sobre o papel que nela lhe cabe, ao invés de apenas seguir obedientemente a linha justa.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

VEJA A DUPLA ALCKMIN-HADDAD E OPINE: "AMORAIS DO SAMBA" É UM BOM NOME?

O que vem após as mãozinhas dadas? O noivado?
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, segue aplicadamente os passos do seu padrinho. 

Quando foram juntos beijar a mão do Paulo Maluf na campanha eleitoral paulistana, captou o recado: ao sabor das conveniências políticas, deveria ele também abanar alegremente o rabo para os personagens mais execrados pelo PT de outrora. 

Gente como Fernando Collor, José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Maluf e o finado ACM se tornaram amigos do Lula desde criancinhas. As chances de Haddad ser adiante ungido para dar continuidade ao reinado petista passam por bisar nos mínimos detalhes a postura (amoralidade inclusa!) dos monarcas anteriores.

Vai daí que no último mês de junho, quando ele e o governador Geraldo Opus Dei Alckmin estiveram na França fazendo lobby para que a Expo 2020 escolha a capital paulista como sede, Haddad não viu mal nenhum em ir muito além daquilo a que era obrigado pelo dever de burgomestre: confraternizou com o carrasco do Pinheirinho num momento de folga!!!
Depois de perdida a virgindade, liberou geral...

Num dia (10 de junho), eles estavam cantando juntos o "Trem das onze", do grande Adoniran Barbosa, que deve ter-se revirado na cova. 

Emblematicamente, nem 24 horas depois as manifestações contra a parceria Alckmin-Haddad no aumento das tarifas do transporte coletivo chegaram ao ápice, tornando-se um fato político de primeira grandeza.

Enquanto isto, os pais da criança estavam na Europa distante, cantando para os franceses uma canção alusiva... ao transporte coletivo. Parece piada de mau gosto.

Na volta, como diria o velho boêmio, a imagem dos dois tinha ficado igual a "tábua de tiro ao álvaro/ não tem mais onde furar"...

Uma reportagem sarcástica sobre a dupla desafinada e desatinada, incluindo o registro da cantoria, foi exibida pela TV Cultura no último domingo (24), no primeiro bloco do programa TV Folha. Vejam-na na janelinha abaixo.

Sartre dizia que fazer política é enfiar a mão no sangue e na merda. Isto não desestimula Haddad. Ele desde já está fazendo tudo que julga ser necessário para não perder esse trem que não passa agora às onze horas, mas só em 2018.  

O jeito é nunca esquecermos de segurar um lenço perfumado no nariz quando ele estiver por perto.

sábado, 23 de novembro de 2013

A PAPUDA E A SOLIDARIEDADE ÀS AVESSAS

A longa espera dos que as autoridades tratam a pontapés
Li que parentes dos presos menos ilustres da penitenciária da Papuda vaiaram os visitantes dos condenados do mensalão. Motivo: para retirarem uma senha às 6 horas da manhã, eles são obrigados a chegar na véspera e pernoitar ao relento. Ficaram com inveja de quem está sendo poupado de tais rigores.

Deveriam é botar a boca no trombone, denunciando o tratamento inadmissível e inaceitável que recebem. Mas, os pobres brasileiros costumam ser caninamente submissos às otoridade; pisados, fazem apenas questão de que os seus iguais também o sejam. É a chamada solidariedade às avessas.

Nas duas vezes em que lá estive para visitar Cesare Battisti, fui a reboque de uma deputada e entrei sem dificuldade nenhuma. Honestamente, ignorava que até nisto houvesse gritante desigualdade. De qualquer forma, eu não teria tempo suficiente para me submeter àquela rotina odiosa. O que não me impede de sentir-me culpado pelo privilégio do qual inadvertidamente desfrutei.

Quem é mais igual tem outra vantagem, a de não ser vigiado. Ninguém ficava nos controlando. Então, pude anotar tudo de que precisava para montar a entrevista que o Congresso em Foco me encomendara (esta aqui). Teoricamente, deveria ter pedido autorização ao relator do Supremo Tribunal Federal, um ministro reaça e carola que jamais a concederia. Fiz o trabalho na cara e coragem, como bom jornalista da velha guarda que sou.

O pátio da penitenciária da Papuda, na atualidade.
Eu não tinha tais regalias quando fui visitar um amigo preso no famoso Pavilhão 9 da Casa de Detenção, em 1973. Ou seja, conheci o palco do famoso Massacre do Carandiru e até percebi que aquilo, mais dia, menos dia, iria explodir. Tanto que, quando o João recebeu o indulto natalino, tomei muitas anotações do que lhe acontecera e do que ele presenciara,  pensando em escrever um livro. 

O repórter policial Percival de Souza lançou o seu antes: A prisão - histórias dos homens que vivem no maior presídio do mundo. Como jamais conseguiria igualar o que, com conhecimento infinitamente superior daquele universo, ele escrevera, arquivei o meu projeto. Senso de autocrítica nunca me faltou.

O João cumpria pena de um ano por azar e bazófia. Estava com a namorada, grávida, numa comunidade próxima à USP, quando a polícia chegou, buscando um bandidão que por lá passara (seguindo as regras da sociedade alternativa, não se inquiria quem chegasse com gente conhecida). 

Revistaram tudo e só encontraram remédios que poderiam ser usados como alucinógenos, mas não o estavam sendo. Quem os havia trazido e despejara na gaveta dos medicamentos, provavelmente até desconhecia tal detalhe.

O João caiu na besteira de prometer que entregaria vários traficantes se soltassem sua namorada... e depois riu na cara dos investigadores. Foi surrado impiedosamente e eles carregaram nas tintas ao redigirem o relatório policial -no qual o juiz, um poço de preconceitos, acreditou piamente. O fato de as testemunhas da defesa terem todas o jeitão de hippies pesou também na sua sentença draconiana.

O palco do famoso Massacre do Carandiru, em 1991.
Minhas visitas ao Carandiru foram pitorescas.

Na primeira vez não me deixaram entrar porque, desinformado, fora com uma calça de brim. Eram proibidas, por facilitarem a fuga do preso, deixando no seu lugar o visitante.

Na segunda entrei, pude conversar com ele numa área grande, talvez o refeitório (e não naqueles parlatórios que se vê em filmes), conheci outros prisioneiros, saquei que a barra era mesmo pesadíssima. 

Personagens primitivos e rústicos como os de Recordações da casa dos mortos, do Dostoievski, só que bem mais perigosos, capazes de matar por dá cá aquela palha. O ambiente era tão opressivo que, ao sair, surpreendi-me enchendo sofregamente os pulmões de ar, como se sufocasse.

Na terceira, descobriram o embuste. Como só parentes diretos eram admitidos, o João, depois de relacionar todos os pais e tios de verdade, colocara-me na ficha como... seu avô! Eu tinha apenas 22 anos.

Poderiam até me acusar de falsidade ideológica, mas apenas vetaram meu ingresso.

Quanto ao Dirceu e ao Genoíno, entristeço-me ao pensar quão mal devem ter-se sentido ao voltarem para o pesadelo que pensavam ter deixado definitivamente para trás. 

Que ainda me assombra -no meu caso, como pesadelo mesmo. Do qual às vezes acordo com a respiração disparada.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL" FAZ 50 ANOS

Produzido em 1963 e lançado no ano seguinte, Deus e o diabo na terra do sol foi o primeiro filme nacional a atingir o patamar das obras-primas da cinematografia mundial. Estava anos-luz à frente de O Cangaceiro e O pagador de promessas, cuja (pouca) repercussão internacional se devera à condescendência dos gringos para com os exotismos de países subdesenvolvidos.

Espero que a comemoração do seu aniversário seja marcada por muitas iniciativas para despertar o interesse das novas gerações. Elas precisam saber quão consistente e criativo o cinema brasileiro foi, antes de se subjugar à estética televisiva.

O superlativo nordestern de Glauber Rocha, influenciado por John Ford, Sergei Eisenstein e os mestres do neo-realismo italiano, acompanha a jornada do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) em busca de um novo destino, pois saíra do trilho normal de sua existência ao matar o coronel da região numa desavença a respeito da partilha do gado.

Engaja-se nos efetivos messiânicos de Deus (o santo Sebastião, interpretado por Lídio Silva e evidentemente baseado em Antônio Conselheiro) e do diabo (o cangaceiro Corisco, personagem que deu oportunidade a um incrível tour de force de Othon Bastos, disparado o melhor ator do elenco).

As autoridades, os latifundiários e a Igreja recorrem ao jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle) para exterminar os beatos do Monte Santo (Canudos, claro!) e os cangaceiros remanescentes após a morte de Lampião. 

Gigantesco, com capa de boiadeiro e barba cerrada, ele aluga sua papo amarelo calibre 44 para os poderosos, mas acredita estar cumprindo um papel mais nobre: o de desimpedir os caminhos para a guerra que um dia o povo haverá de travar "sem a cegueira de Deus e do diabo".

Manuel sobrevive a ambos os massacres e sai com a convicção de que a libertação do sofrido povo nordestino não passa por cangaceiros e fanáticos, como enfatiza a magnífica canção final de Sérgio Ricardo: "'Tá contada a minha história/ na verdade, imaginação,/ espero que o sinhô tenha tirado uma lição:/ que assim, mal dividido, este mundo anda errado,/ que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo".

Recomendo enfaticamente.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"GANDHI": UM FILME CORRETO, UM EXTRAORDINÁRIO PERSONAGEM

Gandhi (1982), o filme que está disponibilizado (completo, dublado) na janelinha abaixo, foi um daqueles casos, cada vez mais raros, de acerto de Hollywood na outorga dos principais Oscar. 

Ben Kingsley, no papel-título, esteve impecável. Mereceu, com sobras,  a estatueta.

Richard Attenborough, ator que só começou a dirigir no 27º ano de sua carreira, foi mais correto do que brilhante. Mereceu, sim, ser escolhido como melhor diretor, pelo mesmo motivo que Gandhi fez jus à distinção de melhor filme. Só que muito mais em função da grandeza do personagem histórico que enfocou e da força dramática da história levada às telas. Bastava a fidelidade a ela para garantir-se a consagração.

A comparação óbvia é com Lawrence da Arábia (1962), que retratou figura tão fascinante e rica em termos cinematográficos quanto Gandhi. Mas, o toque pessoal do extraordinário diretor que foi David Lean é perceptível num sem-número de detalhes -como a sutil insinuação de que T. E. Lawrence seria um homossexual enrustido, com um lado masoquista. 

Ou seja, Lean foi além da postura convencional de endeusar o herói, tomando seu partido incondicionalmente. Não enfatizou suas ambiguidades, mas também não as omitiu. Já Attenborough apenas reverenciou Gandhi, com a atenuante de que o dito cujo foi mesmo extraordinário. Mas, perfeito, ninguém é.

Vale a pena todos conhecermos (e refletirmos sobre) a trajetória do homem que descobriu a força do protesto não-violento como instrumento na luta contra o colonialismo e, depois, a utilizou também contra a xenofobia sanguinária de hindus e paquistaneses.  Num e noutro caso, conseguiu evitar muitíssimas mortes. Foi magnífico! 

É fácil atribuirmos seu êxito a circunstâncias históricas muito específicas, que não se repetirão facilmente. Mas, Nelson Mandela trilhou caminhos semelhantes para libertar a África do Sul. Até que ponto as possibilidades de bisar tal receita eram tão ínfimas? Até que ponto elas eram consideráveis, mas faltaram líderes da envergadura de Gandhi e Mandela para as aproveitar? 

Não há resposta fácil. Mas, como nunca fui exatamente um determinista em relação à História, já me ocorreram hipóteses como a de que a quartelada de 1964 provavelmente não derrubaria o governo legítimo com um piparote se o presidente da República fosse o aguerrido Brizola ao invés do pusilânime Goulart...

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

SERÁ ELE UM GENUÍNO INJUSTIÇADO?

A Câmara Federal avalia a possibilidade de trocar a cassação de José Genoíno pela aposentadoria. Tomara que isto seja viável. A esta altura da vida, ou do fim dela, não merece ser humilhado.

E, claro, de alguma forma o Supremo Tribunal Federal tem de assegurar que ele receba os cuidados médicos que sua condição impõe. A prisão domiciliar é a opção mais prática, sensata e humana. Tem meu total apoio.

Durante a minha militância nos anos de chumbo, a rigor, o único quadro do PCdoB que eu conheci bem foi o Antônio Ribas, presidente da União Paulista dos Estudantes Secundários, que depois seria executado no Araguaia. Boa gente, tínhamos um relacionamento cordial apesar de sermos adversários políticos. Não me parecia um candidato a guerrilheiro, fiquei pasmo ao saber o destino que tivera.

O Genoíno de que eu me lembro é o do PT. Só uma vez me chamou realmente a atenção. No comecinho do escândalo do mensalão, ele tutelou o Delúbio Soares quando este concedia uma entrevista a vários jornalistas. Tratou a imprensa a pontapés, culminando por acabar com o papo de supetão, quando não gostou de uma pergunta. Praticamente arrastou o Delúbio para longe. Este, todo sem jeito, olhou para os jornalistas e, com os braços, fez um gesto de "não tenho culpa, ele é quem manda".

Assistindo ao episódio pela TV, pensei com meus botões que, se estivesse lá, jamais seria passivo como os colegas foram. Nunca consenti em que entrevistado nenhum, ou seu homem de imprensa, me tratasse com arrogância. Fui um jornalista muito cioso do direito a ser respeitado quando exercia meu trabalho. Cheguei a arriscar demissões para não engolir sapos.

A soberba do Genoíno, paradoxalmente, é o que me faz acreditar que ele possa mesmo ter assinado de boa fé os documentos que lhe colocaram sob o nariz (um empréstimo do PT junto ao Banco Rural). É o que o irmão dele alega, com aparente sinceridade. 

E também não tenho por que duvidar que Genoíno leve vida austera, ao invés de estar nadando em dinheiro como estaria se aproveitasse o sem-número de chances de enriquecimento ilícito que certamente estiveram ao seu alcance.

Olhando as coisas pelo lado dos ministros do Supremo, é óbvio que teriam de considerar a famigerada assinatura suficiente para o condenar, dentro da lógica que adotaram em todo o processo. 

Mas admito, sim, a possibilidade de que sua exagerada auto-suficiência o tenha levado a firmar algo em confiança, sem interessar-se por detalhes.

Além de atender às razões de saúde, a prisão domiciliar poderá ser a via para a correção parcial do que se constituiria numa injustiça. Se dificilmente será inocentado agora, que pelo menos consintam na sua permanência junto da família, inclusive à noite. 

"Pensai também nos tempos sombrios de que haveis escapado", recomendava Brecht aos pósteros, no auge das perseguições nazistas. Alguma consideração merecem os que estiveram no olho do furacão.

P.S.: coloquei este texto no ar no final da manhã. No meio da tarde, o UOL publicou um artigo do Marcelo Coelho tratando do mesmo assunto: este aqui. Creio que ele será útil aos leitores para conhecerem melhor o assunto. Ainda assim, há um tanto de suposições nos motivos que levaram o STF a concluir que Genoíno sabia no que estava se envolvendo. Por meu lado, permito-me supor que ele possa ter passado batido por detalhes que chamariam a atenção de qualquer pessoa mais mundana e menos (exageradamente, repito) centrada em si própria.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

REPRESENTAÇÃO CONTRA BARBOSA É IDÉIA DE JERICO

O PT cogita pedir ao Senado para entrar com uma representação contra o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, por crime de responsabilidade.

Confúncio reprovaria: é usar canhão para matar mosquito. 

Houve precipitação, desencontros e trapalhadas e na prisão dos líderes petistas em pleno feriadão, mas não se pode provar que, deliberadamente e com má fé, Barbosa tenha tentado sujeitar os presos a um regime prisional ao qual não foram condenados. 

Ele é satanizado nas redes sociais a ponto de ficar com imagem caricatural, de espantalho, mas tolo nunca foi. Jamais lhe passaria pela cabeça algo tão estapafúrdio como a possibilidade de, no grito, tornar o regime fechado um fato consumado. Pode-se atribuir-lhe incompetência, que justifica admoestação; mas não intenção dolosa, que respaldasse um impeachment.

Previsivelmente, logo no primeiro dia útil tudo entrou nos eixos. E o Ministério da Justiça nega que José Genoíno haja passado mal como seria necessário para uma medida tão extrema fazer qualquer sentido. 

Querer aplicar a Barbosa uma pena por assassinato sem existir cadáver seria fornecer outro trunfo para a mídia adversa desmoralizar e ridicularizar o PT, além de lhe dar ensejo para levantar ainda mais a bola do paladino contra a corrupção

Desta vez, sou obrigado a concordar com a presidenta Dilma Rousseff: nem de longe compensa corrermos o risco de um confronto de Poderes neste momento e por tal motivo.

Se for para chutarmos o pau da barraca, que seja por algo bem maior: partirmos para a estatização do sistema financeiro, p. ex. Pelo menos entraríamos na nova ditadura com a alma lavada... 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

PETISTAS SE SOLIDARIZAM AO "COMPANHEIRO" PIZZOLATTO. PODE?!

Uma internauta que divulga sistematicamente mensagens petistas me mandou e-mail defendendo... o "companheiro" Pizzolatto!!!

O tal que era diretor de Marketing do Banco do Brasil e escafedeu-se para a Itália a fim de não cumprir a pena de 12 anos e 7 meses que recebeu na ação penal 470. 

O tal que, antes do mensalão, teria cometido crime contra o sistema financeiro, motivo pelo qual estava respondendo a um segundo processo, este na Justiça do RJ.

O tal que admitiu haver recebido um envelope com R$ 336 mil do esquema do mensalão, mas afirmou tê-lo entregue ao PT sem abrir.

O tal que se queixava de ter sido abandonado pelos petistas a partir de 2005.

O tal que, durante o julgamento, acusou executivos do BB de terem autorizado, junto com ele, repasses que abasteceram o mensalão.

O tal que, novamente tentando safar-se por meio da incriminação de outros, alegou haver cumprido ordens de Luiz Gushiken -sem convencer os juízes do STF, pois o digno e saudoso ex-ministro foi absolvido e ele, condenado.

Enfim, se um indivíduo desses agora é referido como companheiro, o Marcos Valério tem todo direito de reivindicar o mesmíssimo tratamento...

domingo, 17 de novembro de 2013

A PF, PIZZOLATTO E A PIZZA

Nossas autoridades judiciais e policiais adoram trancafiar homens de esquerda como Cesare Battisti e Joseba Gotzon (foto ao lado). 

Nestes casos, alegaram que era necessário evitar qualquer possibilidade de fuga face a pedidos de extradição... que acabaram dando em nada e tornando totalmente inútil a manutenção do escritor italiano atrás das grades por mais de quatro anos (o professor basco, menos desafortunado, ficou em cana durante dois meses).

Já o banqueiro Daniel Dantas pôde contar com os préstimos de um ministro do STF para libertá-lo a toque de caixa nas duas vezes em que foi detido. 

E um diretor de banco, o mensaleiro Henrique Pizzolatto, só faltou conceder uma coletiva à imprensa comunicando que iria fugir... mas a Polícia Federal decerto tinha afazeres mais importantes de que se ocupar.

É o que se depreende de um esclarecedor artigo do colunista político Josias de Souza. Com o agravante de que Pizzolatto, além de réu na chamada ação penal 470, respondia a um segundo processo, por crime contra o sistema financeiro. Até pela contumácia, sua evasão era a chamada caçapa cantada... menos para a PF, claro.

Vale a pena vocês lerem na íntegra a crônica da fuga anunciada que o Josias acaba de colocar no ar:

O crime é contestado. A fuga é incontestável.
"Henrique Pizzolatto, o mensaleiro que fugiu supostamente para a Itália, já sinalizava no ano passado uma certa vocação para se esquivar da Justiça. A juíza federal Simone Schreiber, titular da 5ª Vara Federal Criminal do Rio, chegou a atestar num despacho o sumiço de Pizzolatto. Ela tentava havia dois anos, sem sucesso, intimá-lo para se defender num processo por crime contra o sistema financeiro.

Em 13 de setembro de 2012, a magistrada anotou nos autos: 'Embora haja informação de que Henrique Pizzolato residiria em Copacabana, nas duas tentativas de citação do réu naquele endereço o oficial de Justiça foi informado de que o réu viaja muito para o exterior, que não aparecia há quatro meses, que estaria no Paraná para resolver problemas familiares, etc.'.

A juíza Simone acrescentou: 'Todos os esforços foram despendidos por este juízo para viabilizar a citação pessoal de Henrique Pizzolato, em vão. Os demais réus foram citados e já apresentaram suas respostas'. Verificado o desaparecimento do réu, Simone Schreiber determinou que a citação fosse feita por meio da publicação de um edital.
Ele é culpado até de usar gravata ridícula

O julgamento do mensalão começara no mês anterior, em 2 de agosto. Apenas 14 dias antes do despacho da juíza Simone, o STF condenara Pizzolatto por três crimes: corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

A pena de 12 anos ainda não havia sido calculada. Mas já estava claro que o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, responsabilizado por liberar R$ 73 milhões à DNA Propaganda, de Marcos Valério, iria para o xadrez em regime fechado.

Em outubro de 2012, Pizzolatto deu a ar da graça para votar nas eleições municipais. Alegou que passara alguns meses na Europa para resolver problemas familiares.

Nesta sexta (15), ao bater na porta do mesmo endereço em que o oficial de Justiça o procurara no ano passado, a Polícia Federal descobriu que Pizzolatto não estava. Informara-se que ele se apresentaria neste sábado (16). Era lorota. Conforme anotado pela juíza Simone no despacho de 2012, 'o réu viaja muito para o exterior'. Desta vez, Pizzolatto não volta tão cedo".

sábado, 16 de novembro de 2013

O ROAD MOVIE DA ERA DA CONTESTAÇÃO: "SEM DESTINO"

Dois filmes memoráveis apresentaram ao mundo os movimentos e a cultura de contestação que fermentava nos EUA no final da década de 1960, tendo como principais vetores o rock, o LSD, a revolução sexual e o repúdio à Guerra do Vietnã. 

Sem Destino (Easy Rider, 1969) o fez contando a história de dois hippies que saem em busca da verdadeira América, refazendo o caminho dos pioneiros com suas motos. Só que, quanto mais se afastam das grandes cidades, mais encontram a ignorância, o conservadorismo e a intolerância. 

Dennis Hopper dá um show de direção, além de ter escrito o roteiro a seis mãos com Peter Fonda e Terry Southern. Ele e Fonda interpretam os motoqueiros Billy e Wyatt, cujos nomes são alusões aos personagens míticos do velho Oeste, o pistoleiro Billy the Kid e o xerife Wyatt Earp. 

Jack Nicholson, como o advogado bêbado, teve sua primeira grande atuação, chegando a ofuscar Fonda e Hopper. 

Destaque também para a trilha sonora recheada de clássicos do Steppenwolf ("Born To Be Wild" e "The Pusher"), Jimi Hendrix ("If Six Was Nine"), The Birds ("Wasn't Born To Follow"), etc.

Adiante postarei também o segundo filme a que me refiro na abertura: o documentário Woodstock.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O CORINTHIANS REGREDIU

"O Corinthians regrediu.

...Perdeu o melhor técnico de sua história, o profissional que, por insistência da gestão anterior, deu uma volta por cima tão por cima que ganhou, em curtíssimo período, tudo o que poderia ter ganho: campeonato estadual, nacional, continental e mundial.

...Só haveria uma maneira adequada para Tite sair do Corinthians: pela porta da frente, nos braços da Fiel.

Elogios e gratidão não bastam e, se havia alguém que não merecia ser fritado, era ele.

Em resumo, Tite deixa o Corinthians e entra em sua história como alguém maior que seus chefes." (Juca Kfouri)

HOJE TENHO VERGONHA DE SER CORINTHIANO

Foi simplesmente sórdida a atitude dos cartolas corinthianos, primeiramente por demitirem o técnico mais vencedor da história do clube e responsável direto pelas duas maiores conquistas do Timão em seus 103 anos de existência (o Mundial de Clubes e a Copa Libertadores das Américas).

E, em segundo lugar, por terem secretamente acertado com Mano Menezes DOIS MESES ANTES DE DESCARTAREM O TITE (!!!), só o cientificando de que não está nos planos para 2004 depois de afastada (nesta 4ª feira) qualquer possibilidade de rebaixamento.

Falta de ética, de respeito, de profissionalismo e até de capacidade de julgamento, pois, sendo ele quem é, estou certo de que cumpriria seu contrato até o fim, com a dedicação de sempre.

Aliás, dignidade é o que falta a quase todos os me(r)dalhões do futebol brasileiro.

Faltou a Mano Menezes, que jamais deveria ter desertado do Flamengo com uma desculpa esfarrapada (para estar livre quando o Corinthians o chamasse) nem se comprometido a ocupar adiante um cargo que não estava vago -repetindo o comportamento de Felipão quando José Maria Marin o convidou para assumir a Seleção Brasileira. Foi apunhalado pelas costas daquela vez e agora coube a ele o papel de traíra. Esses três, mais o o presidente corinthiano Mário Gobbi de contrapeso, somados, não perfazem um homem de verdade.

A única esperança de dignidade é Paulo André. É Alessandro. É Emerson Sheik. Vamos ver se eles honram os calções que vestem e as posições antes assumidas. Os veteranos não têm tanto assim a perder, mas o jovem tem tudo. Trata-se da sua hora da verdade; ou se mostrará um líder como o Sócrates, ou apenas um jogador que raciocina bem e escreve bem, diferentemente da maioria dos colegas.

Por último: não é a primeira vez que Tite é tratado a pontapés no Parque São Jorge. Em 2005, os repulsivos cartolas não se solidarizaram a ele quando colidiu com o gangster da máfia russa que enchia o Corinthians de dinheiro sujo.

Agora, a troca de treinador foi decidida apenas em função do impacto que terá na luta de Gobbi para conservar o poder, face à investida de Andrés Sanchez (que o quer retomar). 

E há outra razão, mais profunda. Os ratos de esgoto que dominam a política clubística não suportam quem, por contraste, os achata. Felipão e Mano é que são seus iguais. Tite os fazia sentirem-se como os liliputianos que jamais deixarão de ser.

Que ele agora coroe sua brilhante carreira com uma passagem vitoriosa por um grande time europeu. E que jamais volte onde o trataram tão mal. O Corinthians não o merece. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

E AGORA, JOSÉS?

A prisão sempre foi um acontecimento normal na vida de um revolucionário. Nunca nos envergonhamos de ser presos por tentarmos abolir a exploração do homem pelo homem. Nem deveríamos: só os melhores seres humanos assumem os riscos de empunhar tal bandeira.

O constrangedor, no caso do Zé Dirceu e do José Genoíno, é estarem prestes a cumprir penas em função de um episódio de corrupção. 

Nunca concordei com a decisão de alegarem inocência, que é a mesma de quase todos os criminosos comuns. O homem das ruas imediatamente conclui que são culpados.

Deveriam ter dito a verdade: que é praticamente impossível governar o Brasil sem comprar o apoio da ralé parlamentar, seja com Pastas e cargos, seja com grana. 

Que, bem vistas as coisas, era melhor fazê-lo com dinheiro do que colocando raposas para cuidarem de galinheiros. As maracutaias se multiplicariam como cogumelos.

Finalmente, deveriam ter atirado na cara das vestais do sistema que estavam sendo colocados na berlinda em função do que a grande maioria dos políticos faz e sempre fez com ultrajante impunidade. Salta aos olhos que foram utilizados dois pesos e duas medidas.

E agora, Josés?

Não adianta continuarem insistindo em que o mensalão não existiu e que os dois são angelicais. Só a militância vai acreditar.

Eu sugeriria a ambos que assumissem suas responsabilidades, tratando, em seguida, de levar ao conhecimento do povo o MAIS IMPORTANTE NISSO TUDO: o fato de jamais terem levado ou pretendido levar vantagem pessoal.

Cometeram um grave erro político, ao cederem à chantagem dos podres, incorrendo em ilicitudes para terem com que pagar a eles. Mas, não foram movidos pela ganância nem podem ser considerados os estereótipos dos corruptos, como tenta fazer crer, p. ex., a nauseabunda Veja (vide a capa abaixo).

Disto tenho certeza. E isto os diferencia dos ratos de esgoto que buscam na política apenas um atalho para o enriquecimento pessoal. 

Se conseguirem convencer o povo de que, embora hajam cometido um erro pelo qual pagarão agora um alto preço, seu objetivo final não era o de locupletarem-se, jamais tendo descido tão baixo como os políticos profissionais, salvarão algo do incêndio. Caso contrário, a burguesia e sua indústria cultural terão feito barba, cabelo e bigode de ambos. 

Contando com a amadoresca ingenuidade do PT e suas redes, que tanto tentaram influir no resultado do julgamento no STF por meio de tortuosas discussões jurídicas, quando muito mais importante era o julgamento da opinião pública, que só poderia ser conquistada por argumentos políticos. Salvar a imagem da esquerda vinha na frente de salvar pessoas do presídio. Por terem esquecido que a conquista dos corações e mentes deve estar sempre em primeiro lugar, os petistas acabaram derrotados nas duas frentes. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"EU, QUE NÃO POSSO ENGANAR, MISTURO TUDO QUE VI"

Como jornalista que tenho sido nas últimas quatro décadas, é difícil eu utilizar este blogue como um querido diário. Por força do hábito, tendo a, quase sempre, escrever textos para uso externo, ou seja, apropriados para publicação e circulação. 

Mas, limitarmo-nos a afirmar apenas o que podemos provar e outras regrinhas básicas do jornalismo (que, de tanto usar, introjetamos), pode ser também castrador, além de servir para mantermos um certo controle sobre os riscos. 

"Eu, que não posso enganar, misturo tudo que vi", recitou o Vandré. Como nunca fugi dos tais riscos, vou-me permitir disponibilizar também um comentário que escrevi para o Centro de Mídia Independente (vide a discussão toda aqui), sabendo que poucos leriam e quase nenhuma repercussão adviria. 

Vendo-o no ar, percebi tratar-se de um desabafo que estava preso na minha garganta, e que o lugar dele é também este aqui. Afinal, é onde está armazenada a minha memória: este conjunto de alguns milhares de textos constitui o principal legado que deixarei para os pósteros.

Foi uma resposta ao longo comentário do companheiro Carlos Alberto Bento da Silva, do blogue Luta Total, que, logo na abertura, cravou, referindo-se às agruras atuais do Cesare:
"Já era esperada essa atitude do aparelho repressor do Brasil, e eu sempre tive esse entendimento. 
...os 'governantes' não dão tréguas nem mesmo para lideranças políticas em pleno gozo de seus direitos elementares, incluindo você mesmo em ralação ao MJ/10.559-02, e que é massacrado literalmente na sua dignidade".
Dei-lhe uma resposta bem sincera. Esta aqui:

Companheiro Carlão, 

você entendeu muito bem a situação. 

E, já que citou a minha anistia, vou ampliar a comparação: tanto o Battisti como eu estamos sendo "punidos" pela burocracia, por termos ganhado paradas em que as cartas estavam todas marcadas contra nós. 

No caso dele, a vitória contra um governo do 1º mundo e o PIG era praticamente impossível, mas nós encontramos um caminho para salvá-lo, não cometendo erros e aproveitando muito bem os que a Itália cometeu. 

A Dilma, contudo, já deu mostras de que gostaria de proprocionar uma satisfação parcial aos italianos, livrando-se do Cesare. 

Já que a extradição se tornou impossível, a possibilidade seria o governo declará-lo persona non grata e o despachar para outro país que concordasse em recebê-lo. Acredito que ela só não o faça por consideração ao Lula, pois pareceria um desrespeito à decisão dele 

Então, tudo nos leva a crer que o processo de fritura do Cesare seja uma forma de pressioná-lo a sair por vontade própria. 

Quanto a mim, meu processo na Comissão de Anistia dificilmente teria sido colocado em pauta se eu não recorresse à imprensa e a várias instituições de defesa dos direitos humanos, provando que, pelas regras do próprio programa, eu deveria ser priorizado em função do desemprego. 

Depois, ao desmontar, com o aval do Jacob Gorender, a versão de que teria sido eu o delator do campo de treinamento da VPR em Registro, passei a ser visto como alguém que era estigmatizado injustamente há 34 anos. Isto levou muitas pessoas a simpatizarem com minha causa, achando eu merecia ser compensado de alguma forma (vale lembrar que a falsidade só se sustentou por tanto tempo porque os agentes do Estado, que conheciam a verdade, preferiram mantê-la lacrada nos seus arquivos). 

Este curto período de boa vontade para comigo se corporificou na vitória que obtive em meados de 2005, quando me concederam uma pensão vitalícia. 

Mas, nunca considerei isto uma dádiva, mas sim como uma conquista arrancada com esforços dramáticos, em cima do sangue que me derramaram e da lesão que suporto desde os 19 anos, passando por três cirurgias e por fortes crises de labirintite que sofri durante longo tempo, até aprender como administrar minhas limitações, já que eram impossíveis de ser sanadas. Para não falar nos danos psicológicos, pessoais e profissionais que me foram impostos. 

Então, quando não me conformei em não estar recebendo a indenização retroativa que me havia sido também concedida e fui buscá-la por meio de mandado de segurança interposto no STJ, expus-me à retaliação dos burocratas atrabiliários --até porque, posicionado à esquerda do PT, mostrei-me um militante inconveniente para eles. 

Provavelmente, acreditaram que eu, a partir do recebimento da pensão, me tornaria mais dócil. Não me conheciam. Sempre defendo as posições que considero corretas, independentemente dos prejuízos que possam me advir e das retaliações que eu possa sofrer. Se aguentei durante mais da metade da minha vida ser acusado do que não fizera, esperando a hora em que pudesse provar o contrário, não será agora que me deixarei quebrar por pressões ou ameaças. 

Então, enfrento há quase sete anos uma guerrilha da Advocacia Geral da União, que recorre a todo tipo de manobras protelatórias, etc., usando e abusando do poder de fogo de que dispõe, imensamente superior ao de um simples cidadão, para postergar indefinidamente a solução do meu caso, mesmo depois de eu haver saído vitorioso por 9x0 no julgamento do mérito da questão... em FEVEREIRO DE 2011!!! 

Só para vocês terem uma idéia: o relator do meu processo não toca nele desde AGOSTO DE 2012!!! O ano de 2013 pode acabar sem ele ter movido uma palha. 

Às vezes os comentaristas daqui me acusam de ser um queridinho do PT. Estão a milhares de anos-luz da realidade. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

DENÚNCIA: BATTISTI É TRATADO COMO SE ESTIVESSE EM PRISÃO ABERTA

O escritor italiano Cesare Battisti desistiu de participar de uma jornada sobre liberdade de expressão na Universidade Federal de Santa Catarina, para a qual fora convidado há mais de um ano, em função de duas advertências transmitidas pelo senador Eduardo Suplicy: 
  • a de que o assessor internacional de Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, considerava que a propaganda da palestra tinha componentes políticos e não apenas literários, e Battisti, por sua condição de refugiado, não deveria se manifestar sobre temas políticos; e
  • a de que, se fizesse sua palestra, "estaria dificultando a obtenção de sua cédula de estrangeiro".
A informação é do professor aposentado da Unicamp e biógrafo de Battisti, Carlos Lungarzo, neste artigo aqui.

O assunto foi tratado numa longa conversa telefônica entre Lungarzo e Suplicy. Indagado sobre se Battisti estaria sendo ameaçado ("se Battisti insiste em defender seu direito de expressão, o governo negará a ele o RNE?"), este último esclareceu que se tratava apenas de uma "recomendação". 

O professor, que participou ativamente da campanha contra a extradição de Battisti, pondera, em primeiro lugar, que a condição atual do Cesare é de imigrante, não de refugiado:
"Tarso Genro deu refúgio a Battisti em 13/01/2009, mas esse refúgio foi anulado pelo STF na oitiva de 09/09/2009. A anulação foi ilegal [à luz da Constituição Federal, da Lei Brasileira, e da Lei Internacional assinada pelo Brasil], mas esta decisão ficou vigente. Battisti deixou de ser refugiado".
Quanto à entrega da cédula do RNE a Battisti, a situação é, no mínimo, bizarra. Prossegue Lungarzo: 
"Após sua soltura, Battisti pediu sua condição de residente permanente (que é o nome técnico no Brasil para o imigrado ou imigrante). 
Na quarta-feira, 22 de junho de 2011, o Conselho Nacional de migração concedeu a Battisti a autorização para ficar e trabalhar no país... 
Battisti está registrado oficialmente no Registro Nacional de Estrangeiros e obteve, também legalmente, a CNH que lhe permite dirigir e para quase todos os fins também serve de documento de identidade.
...Existe também um documento plástico portável para estrangeiros, equivalente à RG que têm os brasileiros. A diferença é que esse RG não é estadual, mas federal.
Ele nunca foi dado a Battisti, apesar das reclamações da rede de apoio tanto na América Latina quanto na Europa. Aliás, essa cédula não é apenas um direito, é uma obrigação do imigrado, sem a qual ele poderia ser expulso do país.
Foi isto mesmo que aconteceu, ou era só ilusão?
...Quero fazer saber, a esta altura dos acontecimentos, que o 'RG' de estrangeiro de Cesare tem um atraso de 2 anos e meio. O máximo que esse documento demora atualmente é 6 meses. Nem a Polícia Federal, nem o Judiciário, nem os parlamentares, nem o Ministério da Justiça deram nenhuma explicação crível, cada um passando a responsabilidade aos outros".
Além de questionar a proibição velada da fala de um escritor num encontro sobre a liberdade de expressão, temática que lhe é obviamente afim e no qual não teria motivo nenhum para se referir à (criticar a) Itália, Lungarzo avalia o ocorrido como a ponta de um iceberg:
"O RG é negado para criar um clima de insegurança, e é uma manobra típica em vários países usada com os estrangeiros, quando o Estado quer que eles se sintam acuados. Cesare não é um refugiado, mas é tratado como se estivesse num regime aberto de prisão; alguém com uma situação precária, que nunca deve se sentir seguro, para que nunca possa se enraizar no país, sempre vigiado, com pessoas que entram em seu domicílio quando ele não está, com todo o seu sistema de comunicações grampeado".
Compartilho da sua indignação e de suas preocupações. Estou inteiramente solidário ao Cesare e faço coro ao protesto do Lungarzo.
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