quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DEVASSANDO O DOI-CODI DOS BEAGLES

Tendo lecionado durante 19 anos na Universidade de Campinas, Carlos Lungarzo era o homem ideal para tentar desfazer a cortina de fumaça que a grande imprensa -acumpliciando-se com a tortura de bichos como outrora se acumpliciava com a tortura de gente- lançou sobre as atividades de uma instituição das mais suspeitas, felizmente interrompidas por uma louvável iniciativa dos jovens que lutam contra a desumanidade. 

E ele o fez, no longo e brilhante artigo O que é o Instituto Royal? (cuja íntegra pode ser acessada aqui), aprofundando os questionamentos por mim apresentados em Que sejam felizes os beagles! Que sofram os rapinantes! (vide aqui). 

Depois de uma exaustiva pesquisa na internet, Lungarzo constatou que tanto o instituto quanto sua proprietária são quase  incógnitos -para não dizermos  clandestinos-, embora isto não tenha impedido que seu faturamento, já em 2012, atingisse declarados R$ 5,25 milhões.

Mas, pergunta Lungarzo, onde pode ser encontrado "o histórico 'científico' do Royal, seus protocolos experimentais, a lista de seus colaboradores e clientes, os produtos realmente aplicáveis que foram viabilizados por seus testes, os registros de suas experiências longitudinais, etc."? 

E mais: "Por que ninguém, salvo as elites e as forças repressivas, consegue entrar nesse maravilhoso instituto?"

Noves fora, tudo indica que o Royal se dedique ao "grande negócio da produção de animais para experimentos tortuosos".
É o Instituto Royal ou o laboratório do dr. Frankenstein?

O final do artigo é tão esclarecedor e oportuno que o reproduzirei na íntegra:

"Com efeito, a realização de numerosos experimentos cruéis onde se mutilam, esquartejam, cegam, queimam e matam milhares de animais, diminui as despesas dos laboratórios, pois é menos caro que experimentos in silico (simulação com computador) ou in vitro (ensaio com culturas).

"Estas duas são formas que, combinadas com experimentações reversíveis e indolores em animais não humanos e em voluntários humanos, substituiriam totalmente a prática atual de tortura e extermínio massivo de bichos.

"Por sinal, os argumentos que pretendem que as culturas também exigem experimentação animal são falaciosos. O soro fetal bovino usado em muitas culturas, pode ser extraído mediante uma cirurgia com anestesia. Isto se faz com cavalos de raça e touros reprodutores, cuja saúde é cuidada pelos veterinários dos magnatas muito mais que a de qualquer humano. Quanto à extração do feto sob anestesia é, simplesmente, um aborto. Sendo o aborto aceitável em humanos, por que não seria em animais?

"Imagino que os principais clientes sejam laboratórios estrangeiros, sendo que, qualquer que seja o grau de civilização de um país, os capitalistas preferem dinheiro e não direitos, sejam animais ou humanos.

"Neste sentido, em muitos países de Europa, e inclusive nos EUA, há restrições para o uso de animais em experimentos. O Animal Welfare Act  de 1966 restringe o uso de animais de sangue quente, salvo algumas espécies de ratos.

"Obviamente, proíbe totalmente a tortura de bichos domésticos, especialmente gatos e cães, que não podem ser utilizados mesmo mortos, por causa da dificuldade para saber de que maneira morreram.

"A União Europeia possui diversas restrições de acordo com o país, mas o testing ban de cosméticos é válido em todos eles (vide  aqui). É muito provável que o Royal tenha nesses laboratórios de cosméticos, bem como nos dos produtos de limpeza, seus principais fãs. Um especialista não identificado que colaborou no exame dos beagles teria dito que as raspagens de pele em frio era típica de experimentos com cosméticos.

"Se os ativistas se informarem suficientemente com cientistas sensíveis (que existem) e pressionarem seus parlamentares, poderão conseguir que o Instituto seja desativado, e seus responsáveis indiciados por crimes ambientais. É possível que haja pessoas que saibam exatamente o que acontece no Royal, e que, se lhes fosse dada proteção, talvez falassem. Esta é a esperança. E permitirá um grande avanço ético na ciência".

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O FELIPÃO CONTINUA O MESMO: "PEGA! PEGA! PEGA!"

O episódio Diego Costa evidencia mais uma vez a inadequação de Luiz Felipe Scolari para o cargo de técnico da seleção brasileira no Mundial de 2014, pois sua mentalidade futebolística remonta a meio século atrás, parecendo mais um Osvaldo Brandão ou um Yustrich redivivo.

Desde o primeiro momento, venho afirmando que o ultrapassado Felipão fará naufragar o Titanic brasileiro.

Por um motivo simples: o futebol atual depende --e muito!-- da inteligência com que o treinador dispõe as suas peças em campo, visando maximizar o aproveitamento da contribuição que os valores individuais tenham a oferecer para o desempenho coletivo. A estratégia hoje ganha jogos e ganha copas. Então, ficarmos entregues a quem é nulo como estrategista (Felipão) e de quem apenas sabe copiar as estratégias alheias (Carlos Alberto Parreira) nos encaminha diretamente para um novo  maracanazo

Felipão, depois de passar uma década inteira sem conquistas relevantes (o fracasso mais estrondoso foi, à frente da seleção portuguesa, ter conseguido perder a final da Eurocopa, em casa, para a poderosa... Grécia!!!), estava merecidamente no ostracismo, por haver condenado o Palmeiras à série B. 

Sua grande virtude de outrora era saber motivar elencos, e até tal dom demonstrou não possuir mais. Quis terceirizar a imposição da disciplina a seus comandados, fazendo chegar às hordas organizadas a relação dos jogadores que abusavam das baladas, para que fossem cobrados pelos ferrabrases com a delicadeza habitual.

Ou seja, seu comportamento, no jargão dos boleiros, foi o de um  traíra. E o pior é que a trairagem vazou, tornando insustentável sua permanência no clube, pois boa parte dos atletas passou a rejeitá-lo (claro!). Deixou o Palmeiras em cacos.

Aí, José Maria Marin e suas nostalgias assumiram o comando da CBF. Ele é nostálgico da  era Médici, nostálgico de torturadores como o delegado Fleury, nostálgico da xenofobia exacerbada ("o patriotismo é o último refúgio de um canalha", disse Samuel Johnson), nostálgico do futebol do tempo do Onça.

Com ele voltou Felipão. E, com os dois, volta o clima de 1970, de tratar o esporte como uma forma primitiva de afirmação nacional --ainda mais com o Mundial sendo disputado aqui. Dá para adivinharmos quão ensurdecedores serão os batuques tribais no ano que vem... 

A ilusória conquista da Copa das Confederações, que nenhuma seleção européia levou a sério, bastou para muitos comentaristas esportivos enfiarem a viola e a lucidez no saco, rendendo-se ao ufanismo dos torcedores. Mas, quem não abdicou do espírito crítico sabe muito bem:
Paulo Nunes pegando Edílson a mando de Felipão
  • que os jogadores espanhóis estavam mais interessados nas curvas das prostitutas do que na bola que rola nos gramados;
  • que sofriam com o calor brasileiro, vinham de 120 estafantes minutos contra a Itália e tiveram um dia a menos para recuperar suas energias; e
  • que o vitorioso esquema de jogo proposto pelo Parreira e aceito por Felipão foi apenas a cópia exata do que o Bayern utilizou contra o Barcelona na Liga dos Campeões e do que a Itália utilizara três dias antes contra a mesma Espanha.
Mas, o que fará tal dupla quando for surpreendida por inovações contra as quais ninguém tenha encontrado o antídoto? O mesmo que Zagallo em 1974, ao levar aquele vexatório vareio do carrossel holandês

O técnico alemão Helmut Schön, na partida seguinte, mostrou que era perfeitamente possível parar a Holanda. Mas, para tanto, fazia-se necessário um estrategista de verdade. Não um meia-boca como o Parreira. Muito menos zeros à esquerda como o Zagallo e o Felipão.

ESPORTE OU GUERRA?

Minha outra grande ressalva ao Felipão é quanto à sua visão de mundo e do esporte. 

Limitado e raçudo nos tempos em que era zagueiro, ele passou o resto da vida privilegiando a vitória a qualquer preço e encarando o futebol como uma guerra: vale mandar um Paulo Nunes da vida agredir um jogador contrário, como o  capetinha  Edilson ("Pega! Pega! Pega!"); vale parar os adversários com uma falta leve atrás da outra, não correndo o risco de expulsões, mas evitando que o jogo flua; vale apostar todas as fichas em bolas paradas, praticamente abdicando dos gols resultantes de jogadas trabalhadas, etc.

Outra matreirice da velha guarda é a que acaba de exibir: nunca tendo mostrado real interesse pelo jogador Diego Costa (convocou-o apenas para duas partidas, não lhe concedendo sequer um tempo inteiro para mostrar suas aptidões), tentou de toda forma atrapalhar o plano do atleta do Atlético de Madri, de disputar a Copa pela Espanha, pois tem dupla nacionalidade. Teme, evidentemente, que os campeões do mundo fiquem mais fortes ainda com a presença de um goleador nato.

Chegou até a antecipar a convocação de Diego Costa para novos amistosos. E, quando o jogador não se deixou enganar por seu canto de sereia, soltou todos os cachorros em cima dele: 
"Ele está dando as costas para um sonho de milhões, o de representar a nossa seleção pentacampeã em uma Copa do Mundo no Brasil".
Curiosamente, foi a mesmíssima decisão do brasileiro Deco, que aceitou o convite para defender Portugal... sob o comando do Felipão! 

Num e noutro caso, a opção parece ter sido pela seleção que permitiria ao jogador estar em campo num Mundial, o grande sonho dos boleiros. Deco nem convocado seria pelo Brasil e Diego Costa, para salvar as aparências, talvez viesse agora a ser chamado como reserva, mas sem nenhuma chance de disputar a vaga com Fred, Jô, Leandro Damião e que tais. Embora seja gritante sua superioridade em relação aos três.

Não consigo imaginar um Pep Guardiola se comportando de maneira tão medíocre como o Felipão, seja quando fez juras de amor insinceras ao Diego Costa, seja quando vomitou sua frustração açulando os brasileiros contra ele e criando um clima negativo para sua participação na Copa. Pensando bem, nem mesmo um José Mourinho desceria tanto. 

O QUE FOI MESMO AQUELA NOITE EM 67?

O 3º Festival da Música Popular Brasileira é relembrado no filme que vocês podem ver, completo, na janelinha abaixo: o documentário Uma noite em 67 (d. Ricardo Calil e Renato Terra, 2010), trazendo imagens reprocessadas da transmissão pela TV Record, mais as entrevistas recentes de alguns dos seus principais personagens.

Ele se iniciou exatamente no mês em que os estudantes desafiavam os dispositivos policiais e voltavam às ruas, nas famosas  setembradas  de 1967.

A partir daí o movimento de massas iria se intensificar e radicalizar até a promulgação do AI-5.

O certame da Record foi marcado por um dos episódios mais deprimentes de toda a história dos festivais: o público pespegou monumental vaia numa composição que abordava o fenômeno futebol -- e de uma maneira bem amadurecida e crítica.

Sérgio Ricardo, compositor idealista e talentoso, autor de clássicos como "Zelão" e "Esse mundo é meu", além de haver dado magnífica contribuição musical para duas obras-primas de Glauber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe), cansou de tentar interpretar sua "Beto bom de bola", veemente denúncia da engrenagem do futebol, que tritura ingênuos como Garrincha. Mas, os intransigentes uivantes o impediam.

Afinal, explodiu: "Vocês são uns animais!". E, arrebentando seu violão, atirou-o contra os espectadores.

O festival da Record de 1967 trouxe à tona, também, uma aguda cisão no front da música popular:
  • de um lado os defensores dos ritmos genuinamente brasileiros e das canções engajadas às lutas sociais; e
  • do outro, os adeptos do  som universal, da liberdade temática e das experiências formais.
Em teoria, a posição dos tropicalistas era inatacável: as raízes culturais só se mantém vivas e puras em comunidades fechadas, não no Brasil de 1967, com sua economia integrada ao bloco ocidental e as informações chegando de todos os lados.

Na prática, entretanto, a contestação ao autoritarismo das lideranças políticas foi, para muitos, um pretexto conveniente, servindo para justificar a omissão num período crítico da vida brasileira.

A derrota, sabemos hoje, custou-nos seis anos de trevas absolutas. Mas, seria um exagero imputá-la apenas aos jovens que se desgarraram do rebanho ao verem o lobo se aproximar...

O próprio tropicalismo foi, por sinal, contraditório, ora pregando a derrubada de prateleiras ("É proibido proibir") e fazendo a apologia da guerrilha ("Soy loco por ti, América", "Questão de Ordem"), ora se embasbacando com as   vitrines   e outros signos da sociedade de consumo.

Em tempos normais, seria uma mistura de Semana de 1922 com psicodelismo à Beatles.

Em meio ao transe brasileiro, assumiu posturas às vezes mais radicais do que aqueles (os  puros) que faziam passeatas contra as guitarras elétricas.

E, no final, acabaram todos vítimas dos mesmos algozes, frequentando as mesmas prisões e amargando o mesmo exílio.

A canção-manifesto do tropicalismo foi "Alegria, alegria", de Caetano, que ele interpretou acompanhado pelos Beat Boys (conjunto de iê-iê-iê cujos integrantes ostentavam enormes e desgrenhadas cabeleiras; um deles era Tony Osanah, que nunca soube exatamente em qual América se encontravam suas  raíces...).

Flagra o estado de perplexidade resultante do bombardeio de informações, contrapondo-lhe o descompromisso de caminhar "contra o vento, sem lenço, sem documento". Ficou em 4º lugar.

"Domingo no Parque" é uma música descritiva, propondo imagens cinematográficas e nada mais. Gil, aliás, já fizera coisa semelhante em "Água de Meninos". O que ela teve de tropicalista foram as guitarras elétricas dos Mutantes.

Numa total inversão de valores, o júri atribuiu-lhe a 2ª colocação, à frente da incomparavelmente superior "Alegria, alegria".

A vitória coube a "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, um dos temas da trilha musical do filme A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite.

Metafórica (a viola a cujo ponteio os versos aludem é a metralhadora guerrilheira), correta, com ótimo arranjo e as presenças simpáticas de Edu Lobo e Marília Medalha, foi a solução encontrada para não se premiar a sensação tropicalista; em termos criativos, não avançou um milímetro em relação ao que já se fazia.

Em 3º lugar, Chico Buarque com "Roda Viva", composta para a peça homônima (aquela cuja encenação foi vandalizada por uma horda do CCC) e defendida pelo autor com o MPB-4.

No 5º, "Maria, carnaval e cinzas", de Luís Carlos Paraná, por Roberto Carlos e O Grupo.

Como melhor letra, prêmio merecidíssimo para "A Estrada e o Violeiro", do precocemente falecido Sidney Muller.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

MAMÃE CORAGEM

Foram duas únicas separações ao longo de nossas vidas.

Na primeira vez, a situação foi exatamente a descrita nos belos versos de Torquato Neto: fui ao encontro da  cidade que plantei pra mim, ao lado dos melhores da minha geração. E temia mesmo  nunca mais voltar por aí, pois era o destino mais provável no caso dos que ousaram assumir os riscos inerentes a um momento tão sombrio.

Voltei, contudo. Mais morto do que vivo. E recebi muito apoio seu para juntar os cacos depois da derrota terrível.

Já a nova separação independe de sorte e acaso, é definitiva, a menos que, como você sempre acreditou, nos reencontremos em outro plano.

E agora sou eu que preciso ter coragem, para aceitar os desígnios do destino... 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

MAFALDA VANNUCCI LUNGARETTI (02/05/1927 - 27/10/2013)

Torço para que minha mãe tenha encontrado a carona com que sonhava, para um plano superior e bem melhor do que este aqui. 

Fiz o que pude para torná-la mais feliz. Infelizmente, só chega à felicidade quem a procura e está aberto para ela. Freud tinha razão: são experiências longínquas as que moldam nosso temperamento, e poucos as conseguem transcender.  

Fiquei com aquela sensação de impotência, de quem percebe a causa mas não consegue alterar o efeito. E dois consolos, o de saber que não era culpado pela difusa insatisfação da minha mãe; e o de não haver poupado esforços para proporcionar-lhe alegrias.  

Se o além corresponder às suas crenças kardecistas, talvez ela agora se liberte do peso do passado ou das pendências de outras encarnações, reencontrando o otimismo perdido. Tomara.

Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso num momento inspirado.

sábado, 26 de outubro de 2013

QUE SEJAM FELIZES OS BEAGLES! QUE SOFRAM OS RAPINANTES!

Em 1972, quando eu morava numa comunidade alternativa, um cachorrão manso nos adotou. Foi entrando e, como não expulsávamos pessoas nem bichos, resolveu ficar. 

Nunca fui muito chegado a cães. Um deles me atacou de surpresa na minha meninice: veio correndo e, sem dar um único latido, cravou os dentes na minha perna.

Também não contribuiu para torná-los simpáticos o fato de meu tio ser criador de coolies. Quando o visitava, lá pelos 14 anos de idade, uma daquelas aspirantes a Lassie tinha a mania de pular sobre mim, quase me derrubando; mantinha-se em pé com as patas dianteiras apoiadas no meu ombro e me agraciava com borbotões de bafo fedorento, até que alguém me tirasse daquela saia justa.

Mas, quando a carrocinha levou embora o mascote da nossa  comuna, eu era o único homem disponível para resgatá-lo antes que o sacrificassem. Como não era tarefa para mulher, fui.

Ver aquela bicharada toda engaiolada, jururu, parecendo saber o destino que a aguardava, mexeu um pouco com meus sentimentos. 

E mais ainda quando o cachorrão, reconhecendo-me, passou da tristeza ao paroxismo da alegria num átimo. Até urinou de júbilo. 

Aí fiquei comovido de verdade. Gostei de ter empregado assim meu tempo e não lamentei a grana utilizada para alugar uma kombi na volta, embora nos fosse tão escassa.

Quanto aos beagles que os ativistas salvaram dos maus tratos, as madames que me perdoem, mas considero-os muito mais importantes do que cosméticos. 

E não engulo o papo furado de que pesquisas de medicamentos relacionados ao câncer sejam sagradas.

Trabalhei em empresas de comunicação que divulgavam o lançamento de tais remédios. Detestava-os profundamente... porque não se destinavam a curar o câncer!  Longe disto.

Sua verdadeira finalidade era e é, conforme alegações dos próprios fabricantes, a de dar  qualidade de vida  aos  pés na cova  e adiar um pouquinho o encontro deles com tanathos. A preço de ouro, claro.

[Antes que me esqueça: quem teve a repulsiva idéia de utilizar com tamanha impropriedade a expressão  qualidade de vida, fez jus a outra expressão, a que o grande Zé Celso cunhou para designar os publicitários:  filhos de Goebbels.]

Velhos incapazes de encarar a morte com dignidade pagam sem chiar os preços escorchantes, empobrecendo os herdeiros. Quando morrem, deixam uma terra arrasada para trás e são amaldiçoados pelos entes queridos. 

Mas, maldita mesmo é a indústria farmacêutica, quando depena sujeitos fragilizados pela dor e pela paúra! Nunca entendi por que não se entopem com a velha morfina, ao invés de caírem no conto do vigário dos tais me(r)dicamentos de ponta... 

Que sejam felizes os beagles! Que sofram os rapinantes, com (espero!) uma forte crise de abstinência de dinheiro mal ganho! 

QUEM DÁ TIRO NO PÉ NÃO AJUDA SUA CAUSA

Se os jovens manifestantes  black bloc  de hoje estivessem dispostos a ouvir e levar em consideração a experiência dos que lutaram outrora contra o (basicamente) mesmo inimigo, eu lhes diria que a Vanguarda Popular Revolucionária também acreditava em dar demonstrações de força no ano de 1968.

Três delas acabaram muito mal.

A bomba deixada no estacionamento de um edifício comercial da av. Paulista era apenas para, explodindo na madrugada, expressar repúdio ao consulado estadunidense lá instalado. Mas, um azarado que chegava com seu veículo naquele momento pegou a sobra.

O carro-bomba lançado ladeira abaixo na direção do QG do II Exército deveria causar pequenos danos no muro e abaixar a crista do comandante arrogante que, pela imprensa, desafiara os guerrilheiros a irem enfrentá-lo "como homens" no seu quartel. Ninguém imaginava que, descumprindo suas ordens, o sentinela deixaria o posto para tentar abrir a porta do automóvel.

Até hoje não se tem certeza de que o militar estadunidense matriculado numa faculdade paulistana fosse mesmo agente da CIA, a decisão de executá-lo se baseou na mera suposição de que não haveria outro motivo possível para ele estar lá incógnito (e se fosse apenas um aspirante a escritor querendo mostrar uma realidade diferente da que estava nos relatórios oficiais e na imprensa?).

Em abril de 1969, no congresso de Mongaguá, a organização decidiu que nada mais faria tão somente para exibir o muque. Tais ações apenas atiçavam a repressão ainda mais contra a VPR, expondo os militantes, parentes e amigos às piores retaliações. Afora fornecerem pretextos para a radicalização do regime.

Que nunca mais se eliminaria um (possível) agente inimigo que, como o major Chandler, não fosse identificado pela opinião pública como tal. "Não vamos mais matar primeiro e explicar depois ao povo por que ele merecia a morte."

Que só efetuaríamos ações armadas depois de um rigoroso planejamento e com efetivos e armamentos suficientes para minimizar os riscos, pois a repressão podia substituir facilmente as suas perdas e nós, não; para cada um que tombava, carecíamos de substituto à altura.

Enfim, estabelecemos o primado das considerações políticas sobre o mero revanchismo, o  olho por olho, dente por dente. Não estávamos arriscando nossas vidas para tirar sangue dos repressores, mas sim para acabar com a ditadura. Então, tínhamos a obrigação de agir com inteligência, e não por impulso.

É o que teríamos a ensinar aos  black blocs, neste momento em que acabam de fabricar um herói fardado: o comandante do policiamento na região central de São Paulo.

A imprensa reacionária deitará e rolará. A PM já tem seu  Kozel 2013, com a vantagem de estar vivo e poder dar centenas de entrevistas, enquanto recebe um sem-número de condecorações. 

De tudo que havia para fazerem, esta era uma das opções mais inconsequentes. Quem dá tiro no pé não ajuda sua causa, só fica mancando. E deixa a causa manca.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

UMA OBRA-PRIMA DO INESQUECÍVEL TERROR GÓTICO BRITÂNICO

Os europeus devem estar sempre se perguntando como conseguiram ser economicamente ultrapassados por sua ex colônia, inferior a eles em quase tudo.

Talvez seja porque os EUA compensam com sua excelência no marketing e na manipulação do homem comum o que lhes falta em inventividade, criatividade, genialidade, originalidade, integridade, inteligência, cultura, sensibilidade artística, espírito de justiça... etcetera ao infinito.   

Não são melhores em quase nada, vão laçar alhures seus cérebros e talentos mais vistosos, a cada momento se comprovam terrivelmente limitados e caipiras... mas dominam o mundo. Se queres um monumento ao capitalismo, aí está: é o sistema que coloca os ganhadores de dinheiro em vantagem sobre todos os seres humanos realmente dignos deste nome.

Resta ao europeus vingarem-se provando ser infinitamente melhores do que os estadunidenses em algumas das áreas que lhes são mais caras.

Os EUA criaram o rock'n roll, mas vieram os britânicos e ocuparam totalmente o território, com os Beatles e os Rolling Stones à frente. 

Os bangue-bangues estadunidenses viraram pó de traque quando os italianos mostraram como era possível introduzir realismo, inteligência e arte nos westerns. Quem vê Sergio Leone nem se lembra mais que John Ford existiu.

Os melhores policiais da história do cinema são os franceses das décadas de 1960 e 1970, estrelados por Alain Delon, Jean-Paul Belmondo, Jean-Louis Trintignant, o veterano Jean Gabin, etc.

Os badalados musicais da Metro, juntos, não valem o pior filme do ciclo flamenco do espanhol Carlos Saura.

E o ápice dos filmes de terror nem de longe se deu nos estúdios de Hollywood, mas sim nos (comparativamente) pobres Hammer e Amicus, responsáveis por obras-primas britânicas como este A górgona (1964), que reúne os três principais nomes do gênero no final dos '50 e ao longo das décadas de 1960 e 1970: o diretor Terence Fisher, mais os atores Christopher Lee e Peter Cushing. 

Como trio, eles são responsáveis por clássicos absolutos como O vampiro da noite (1958), A múmia (1959) e O cão dos Baskervilles (1959). Ademais, Cushing e/ou Lee marcam presença em quase todos os filmes  do apogeu do  british way of terror. Sem pelo menos um deles, o fracasso era praticamente certo.

A górgona, mantendo as inconfundíveis características do terror gótico da Hammer, foi extremamente feliz ao transportar para o século 19 o mito grego das irmãs que tinham o poder de transformar em pedra aqueles que as encarassem, assim como a receita para matar a Medusa que Perseu utilizou na narrativa mitológica.

Confiram (ou descubram). E aproveitem para refletir sobre as vantagens e desvantagens dos efeitos especiais, que hoje atingem o perfeccionismo na criação de ilusões, mas acabam por tornar praticamente irrelevantes o enredo, roteiro, clima, diálogos, interpretação, trilha musical... enfim, tudo aquilo que outrora considerávamos fundamental na arte cinematográfica.


Obs.: os interessados no assunto encontrarão aqui uma digressão sobre o terror cinematográfico através dos tempos.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

NORAMBUENA SOFRE "VINGANÇA EXTREMA" DAS AUTORIDADES, DENUNCIA LUNGARZO

O Caso Norambuena é o título do último artigo (acesse aqui) do professor Carlos Lungarzo, que há três décadas e meia atua como defensor dos direitos humanos em nosso continente e participou com destaque da luta contra a extradição do escritor italiano Cesare Battisti.

Vindo ao encontro do meu recente Não podemos nos omitir face à tortura continuada de Norambuena!!! (vide aqui), ele aponta várias incoerências e ilegalidades na sentença recebida por Maurício Hernandez Norambuena e nas condições carcerárias que lhe estão sendo impostas, por haver sido um dos sequestradores do publicitário Washington Olivetto, em 2001/2.

Questiona, primeiramente, sua condenação a 30 anos de prisão, já que o artigo 148 do Código Penal brasileiro estabelece para tais casos a pena máxima de cinco anos.  "Isto inclui até o caso de sequestro de crianças e doentes, e casos em que o sequestrado é ferido durante sua captura", explica, destacando a inexistência de agravantes que tornassem pelo menos compreensível o rigor extremado da corte: 
"Apesar da animosidade da mídia, dos inimigos da esquerda brasileira e da elite empresarial, nunca foi dito que o magnata tivesse recebido coação física, salvo a de estar encerrado quase dois meses num pequeno quarto. Quando foi liberado, deu uma breve entrevista à imprensa, e seu estado físico, pelo menos de longe, parecia normal. Em sua entrevista, o mais substantivo que disse é que descobriu que os raptores não eram brasileiros, porque ninguém falou nunca do Corinthians".
Para Lungarzo, a condenação não só "é ilegal e desproporcional, como cruel e desumana, pois ela transcorre no que, com cínico eufemismo, se chama Regime Disciplinar Diferenciado" --o qual, na verdade, se constituiria num "método indireto de tortura (...), um método insano utilizado especialmente nas teocracias orientais, mas também em estados maniqueístas como os EUA e a Itália".

Uma observação importantíssima de Lungarzo sobre a utilização do RDD contra o prisioneiro chileno: "O RDD viola os acordos assinados pelo Brasil contra as penas cruéis, e também a própria Constituição, que proíbe os tratamentos degradantes". 

Ele também assinala que o RDD foi introduzido pela Lei 10.792, de 01/12/2003, inexistente, portanto, no momento do crime. 

Além disto, acrescento eu, o RDD nunca passou de uma variante mais rigorosa do confinamento nas chamadas celas  solitárias. Deveria servir apenas para a punição do prisioneiro que, conforme está especificado no artigo 52 de da Lei 10.792, incidisse em "falta grave" que ocasionasse a "subversão da ordem ou disciplina internas". 

Mais: o texto legal diz que o RDD tem a "duração máxima de trezentos e sessenta dias, sem prejuízo de repetição da sanção por nova falta grave de mesma espécie, até o limite de um sexto da pena aplicada".

 Ou seja, Norambuena não poderia estar sendo submetido ininterrupta e indefinidamente ao RDD, mas somente por períodos escalonados de 360 dias, a cada falta grave que cometesse. E a soma desses períodos não poderia ultrapassar cinco anos (um sexto da sua pena), mas já totaliza quase dez anos!!! Será que a ditadura voltou e esqueceram de nos avisar?!

Lungarzo não tem dúvidas de que Norambuena está sendo retaliado pelas autoridades brasileiras com "uma vingança extrema", até porque  "nenhum chefe do narcotráfico sofreu RDD por tempo tão longo".

Ele sugere que tais arbitrariedades sejam imediatamente denunciadas à Comissão de Direitos Humanos da OEA, à Corte de Direitos Humanos da OEA (em San José de Costa Rica), à ONU e a outros organismos e ONGs internacionais.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

FEITOS UM PARA O OUTRO

Reizinho da Ditabrandolândia...
"Caso do acaso
Bem marcado 
em cartas de tarô
Meu amor, esse amor
De cartas claras 
sobre a mesa
É assim
...e seu novo arauto.

Signo do destino
Que surpresa
ele nos preparou
Meu amor, nosso amor
Estava escrito nas estrelas
Estava sim"
(Tetê Espíndola)

UM FILME NA CONTRAMÃO DO JUVENILISMO OPORTUNISTA

O diretor alemão Werner Herzog, hoje com 71 anos, é um grande talento que não encontra mais espaço para fazer grandes filmes. Dá vontade de chorar quando comparo Aguirre, a cólera dos deuses (1972) com tralhas caça-níqueis como O sobrevivente (2006).

Na contramão dos críticos, considero No coração da montanha (1991), que vocês podem ver completo e legendado na janelinha abaixo, como sua última obra-prima. 

É de arrepiar! Numa fase em que o cinema já mimava despudoradamente os jovens, por serem eles os maiores consumidores do produto  filmes, Herzog foi na direção contrária. [A coisa é tão patética que a novela no qual se baseou o filme Fuga do Século 23, dirigido por Michael Anderson, estabelece 21 anos como o limite da vida no futuro, em função da escassez de recursos. O filme, contudo, preferiu fixar em 30 anos a idade em que as pessoas tinham de ser executadas, para não assustar a  clientela...] 

Um aclamado alpinista por vocação e paixão (Vittorio Mezzogiorno), já quarentão, entra em confronto com um jovem (Stefan Growacz) interessado apenas em colher os frutos do sucesso: grana & fama. Para tornar a disputa mais dramática, o novo fica com a mulher (Matilda May) do velho.

Ambos acabam travando um duelo mortal ao escalarem, cada qual por uma face, um dos picos mais perigosos do mundo. Um tem a ambição e o vigor, o outro a afinidade com a natureza adquirida num longo convívio e as habilidades desenvolvidas à custa de haver sempre amado aquilo que fazia. 

De quebra, Herzog fustiga com suas alfinetadas mais cáusticas a indústria cultural.

As performances e personagens de Mezzogiorno e Donald Sutherland são simplesmente inesquecíveis.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A GUERRA DE TRÓIA, QUE TANTOS FILMES RENDEU, PODE NÃO TER EXISTIDO

A guerra de Tróia até hoje inspira discussões acaloradas entre os historiadores, primeiramente sobre ter ou não ocorrido e depois quanto ao que seria reminiscência histórica e o que seria mera fantasia nos textos de Homero, a Ilíada e a Odisséia, os únicos que nos chegaram intactos às mãos. É também citada em seis poemas épicos de outros autores, dos quais só restaram fragmentos. 

A evidência mais forte em favor de Homero foi a descoberta das ruínas de várias cidades, construídas e destruídas no sítio por ele indicado. Tróia seria uma dessas cidades. 

O certo é ele ter nos legado relatos tão apaixonantes que inspiraram um sem-número de películas, algumas dando uma visão global do que teria sido o conflito, outras enfocando-o sob o ponto de vista de um (ou destacando tal ou qual) personagem. 

Sobre Ulisses há muitos e o melhor deles é A Odisséia (d. Andrey Konchalovskiy, 1997), minissérie que foi editada como filme para comercialização em VHS e DVD. 

Tróia (d. Wolfgang Petersen, 2004) foi fiel a Homero ao mostrar um Aquiles (Brad Pitt) que tem mesmo  pés ligeiros, mas alterou muitos outros detalhes da trama homérica, enraivecendo os puristas.

Helena, a mulher mais bela de sua época, vem excitando a imaginação dos cineastas desde o cinema silencioso (há um registro de 1927, de um filme chamado The Private Life of Helen of Troy), passando pelos épicos macarrônicos da Cinecittà. 

E até a jovem filha que Agamenon sacrificou aos deuses em troca de bons ventos para sua frota teve direito a um (ótimo) tributo cinematográfico: Ifigênia (d. Michael Cacoyannis, 1977).

Helena de Tróia (d. John Kent Harrison, 2003), cuja íntegra vocês podem ver na janela abaixo, é também um telefilme e tem também uma surpreendente qualidade (a telinha parece destinada a satisfazer os públicos mais exigentes que hoje a telona negligencia).

Centra-se no casal Paris/Helena, que tem sido quase sempre mostrado de forma negativa. Desta vez, contudo, Paris é corajoso e digno, um irmão à altura de Heitor; e Helena, uma mulher para a qual os desejos que despertava só traziam infelicidade até encontrar o verdadeiro amor. Mesmo Menelau, o próprio símbolo do esposo traído, aparece sob outras luzes.

Vale por um enredo imaginativo e muito bem costurado, que prende a atenção dos espectadores a ponto de nem sentirmos passar as quase 3 horas de duração; por um tom desencantado e antibelicista quase sempre ausente das obras deste tipo; e pelas atuações corretas dos atores, desconhecidos mas bem escolhidos para seus papéis --com exceção do bombado Joe Montana (Aquiles), que parece ter vindo diretamente do Ultimate Fighting.

Quanto à Helena, seria mesmo difícil os produtores encontrarem alguma atriz que conseguisse convencer como a expressão máxima da beleza e da sensualidade; tanto vestida quanto nua, Sienna Guillory ficou devendo.

O PORQUÊ DA VIOLÊNCIA NAS MANIFESTAÇÕES DE RUA

"Já há algum tempo, a política brasileira tem expulsado muita coisa de seu interior. Tendendo, cada vez mais, a se limitar a discussões gerenciais sobre modelos relativamente consensuais de gestão socioeconômica (...), ela perde a possibilidade de mobilizar populações por meio de alternativas não testadas e que ainda contenham um forte potencial criativo. Assim, ela perde também a capacidade de acolher demandas que, mesmo sendo urgentes, sempre colidem com boas justificativas tecnicistas para serem deixadas para mais tarde.

A política brasileira tem se transformado, com isso, na arte do silêncio. Arte de passar em silêncio sobre democracia direta, como pagar dignamente professores, como implementar uma consciência ecológica radical, como quebrar a oligopolização da economia, como taxar mais os ricos e dar mais serviços aos pobres. Mas também a arte de tentar silenciar descontentes.

Nesse contexto de mutismo, a violência aparece como a primeira revolta contra a impotência política. A história está cheia de exemplos nos quais as populações preferem a violência genérica à impotência. Ainda mais quando se confrontam com uma brutalidade policial como a nossa. Como todo sintoma, há algo que essa violência nos diz. A resposta a ela não será policial, mas política." (Vladimir Safatle, filósofo)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

NÃO PODEMOS NOS OMITIR FACE À TORTURA CONTINUADA DE NORAMBUENA!!!

Um bom companheiro me escreve chamando a atenção para o caso de Maurício Hernandez Norambuena, que continua preso em condições desumanas na Penitenciária Federal de Campo Grande, submetido ao famigerado  Regime Disciplinar Diferenciado.

O site da Campanha de Solidariedade (acesse aqui) lista algumas características do confinamento a que Norambueno vem sendo submetido há quase 10 anos:
  • cela de 3x2 metros, banheiro incluído;
  • duas horas de banho de sol por dia num pátio pequeno;
  • visitas de três horas permitidas somente aos irmãos;
  • nenhum acesso aos veículos de comunicação; 
  • possibilidade de receber apenas um livro por semana;
  • nenhum contacto com os outros reclusos.
Mas, é do professor Carlos Lungarzo, tradicional defensor dos direitos humanos que teve atuação destacada no Caso Battisti, a melhor descrição do RDD, num artigo (acesse aqui) sobre a permanência de rigores medievais nas prisões brasileiras:
"O RDD é um simples sistema de tortura, que se diferencia do clássico por não haver utilização de ação direta sobre o corpo da vítima, mas cujos efeitos são comparáveis.
O RDD restabelece oficialmente a tortura, (...) só que sob a hipocrisia de evitar a palavra tortura. Os efeitos dolorosos (que são procurados pelo torturador) estão todos presentes no RDD: isolamento de som, ausência de luz natural ou hiperluminosidade, bloqueio de funções motrizes com a mecanização de todos os movimentos do preso (como portas que são abertas de fora, e que impedem o detento girar uma maçaneta, contribuindo para a atrofia muscular), perda da noção de tempo e obliteração da memória em curto e médio prazos, o que acaba mergulhando a pessoa numa autismo irreversível.
 ...A prisão perpétua normal pode acabar algum dia. Mas ninguém pode repor-se de um suicídio ou de uma psicose profunda irreversível".
E há mais. Segundo Júlio de Moreira Batista, colunista da revista Crítica do Direito (veja aqui), Norambuena está sendo VÍTIMA DE UMA GRITANTE ILEGALIDADE:
"Em dezembro de 2003, foi sancionada a Lei n. 10.792, que instituiu o Regime Disciplinar Diferenciado. Norambuena foi imediatamente transferido para a Penitenciária de Presidente Bernardes, e submetido a tal regime...
Ainda de acordo com a lei, o RDD só pode ser aplicado por até 360 dias, até o limite de um sexto da pena aplicada. Aqui vem a parte mais gritante da história: Norambuena está no RDD há quase 8 anos ininterruptos [o artigo é de 2011, mas a situação continua exatamente a mesma], e nada faz o Estado brasileiro para suprimir esta ilegalidade!
Não bastando as restrições temporais à aplicação do RDD, previstas na Lei n. 10.792/2003, o art. 112 da Lei de Execuções Penais (Lei n. 7.210/84) prevê a progressão para o regime semi-aberto após o cumprimento de 1/6 da pena, o que, no caso de Norambuena, deveria ter acontecido em 2007".
TAL TRATAMENTO É CRUEL, DISCRICIONÁRIO, ABERRANTE, INCONCEBÍVEL E INACEITÁVEL, pouco importando a quem se aplique. NINGUÉM MERECE!

A esquerda brasileira, todos sabemos, faz restrições a Norambuena. Ele pegou em armas contra a ditadura de Augusto Pinochet e não as depôs quando sua pátria se redemocratizou. Em dezembro de 2001, liderou em São Paulo o sequestro do publicitário Washington Olivetto, cujo resgate seria em dinheiro (uma heresia para os antigos combatentes da luta armada no Brasil, pois só admitíamos o recurso à prática hedionda do sequestro em circunstâncias extremas, para salvar companheiros da tortura e da morte -- "vida se troca por vida" era nosso lema). Foi preso em fevereiro de 2002.
As sementes de Torquemada frutificam no Brasil

Mas, mesmo na hipótese de que o sequestro de Olivetto visasse apenas à obtenção de recursos para a subsistência do grupo de foragidos, NÃO PODEMOS ADMITIR A TORTURA NEM DE PRISIONEIROS POLÍTICOS NEM DE PRESOS COMUNS, SEJAM LÁ QUAIS FOREM AS CIRCUNSTÂNCIAS, EM HIPÓTESE NENHUMA!

Então, exorto novamente os companheiros e os cidadãos com espírito de justiça a tomarem uma firme posição, colaborando com a campanha para o cumprimento da sentença de Norambuena em condições aceitáveis numa democracia, além de exigirem a imediata extinção do fascistóide RDD.

Outra possibilidade a ser considerada é a execução imediata, por motivos humanitários, da extradição de Norambuena para o Chile, já autorizada pelo STF mas postergada para depois do término da pena brasileira. Lá também ele terá sentença a cumprir, mas não em cárceres que parecem haver saído da imaginação doentia de um Torquemada.

domingo, 20 de outubro de 2013

A 'AUTOCRÍTICA NA PRÁTICA' DE ANTÔNIO DAS MORTES

O maior cineasta brasileiros de todos os tempos atendia pelo nome de Glauber de Andrade Rocha (1939-1981), responsável pelos três únicos filmes brazukas dignos de constar numa relação das melhores obras da cinematografia mundial: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).

Oportunamente, postarei os dois primeiros. Mas, como o Deus e o Diabo não está disponibilizado no Youtube, vou inverter a ordem dos fatores, publicando inicialmente sua sequência.

E que sequência! O Dragão da maldade está longe de ser uma mera continuação oportunística de uma fita que deu certo, para faturar mais algum. Tem vida própria e é bem diferente do seu antecessor, até porque mudou muito o Brasil ao longo dos cinco anos que os separam.

Deus e o Diabo  foi lançado pouco depois do golpe de 1964, mas as filmagens ocorreram antes, daí ser, tipicamente, uma obra do cinema novo, o herdeiro brasileiro do neo-realismo italiano. Mas, Glauber já tendia para as sínteses ousadas, então incorporou também influências de Eisenstein, John Ford e Lima Barreto, além de aproveitar magnificamente a rica cultura popular nordestina.

Dá uma visão do beatismo e do cangaço que é bem a da esquerda da época, exposta em livros como Cangaceiros e fanáticos, do Rui Facó, lançado exatamente em 1963. 

Mostra-os como o primeiro (e embrionário) estágio da revolta contra a opressão e a exploração. O vaqueiro Manuel  passa por um e outro, como discípulo do  Santo Sebastião  (ersatz de Antônio Conselheiro) e do cangaceiro Corisco, até chegar ao entendimento de que a salvação do sofrido povo nordestino não virá de Deus nem do diabo, mas sim do homem que se torna senhor do seu destino --presumivelmente por meio da luta de libertação.

Antônio das Mortes (ersatz do major José Rufino) é um jagunço singular: elimina beatos e cangaceiros a soldo dos poderosos, mas acredita estar contribuindo para que o povo nordestino, "sem a cegueira de Deus e do diabo", trave a grande guerra que um dia terá de travar. É por isto que ele destrói o Monte Santo (ou seja, Canudos) e também mata Corisco.

O Dragão da maldade  mostra sua  autocrítica na prática. Antônio (Maurício Do Valle) já pendurou o bacamarte e lembra com saudades dos tempos da valentia. Quando um delegado (Hugo Carvana) vem lhe informar que no Jardim das Piranhas há um tal  Coirana  se apresentando como cangaceiro, ele fica surpreso, pois acreditava ter matado até o último.

Vai lá ver se é verdade e os acontecimentos o levam a mudar de lado: após matar Coirana, acaba substituindo-o como protetor de um grupo de fugitivos da miséria, incluindo uma santa dos pobres e um negro inspirado por Zumbi dos Palmares.

Finalmente, Antônio e um professor (Othon Bastos) que é ersatz do médico Che Guevara travam um duelo épico com o já decadente dragão da maldade (o coronel cego interpretado por Joffre Soares) e o bando de jagunços a seu serviço.

Ou seja, o filme aponta para a luta armada com que a esquerda sonhava em 1968, ano das filmagens. E tem todo um jeitão tropicalista, um verdadeiro delírio de cores, músicas e danças, impactante ao extremo. 

Quatro décadas depois, ainda é muito mais moderno do que toda essa tralha atual com estética televisiva, copiada da Rede Globo.  

ASSASSINATO DO PEDREIRO AMARILDO: FALTA APURAREM A FRAUDE

"A Polícia Civil do Rio parece ter desvendado o caso do pedreiro Amarildo. Ele teria sido assassinado na UPP da Rocinha. Já estão presos um major e nove PMs.

Falta a PM explicar como seu deu a tentativa de acobertamento do crime. Como pifaram as câmeras que teriam registrado a saída do cidadão? Com que frequência elas pifam? Como e por que surgiu a versão segundo a qual traficantes puseram seu cadáver num carro de lixo? Como prosperou a história segundo a qual o traficante 'Catatau' contou que Amarildo fora morto por bandidos?

...O acobertamento precisa de mais gente e da compreensão dos superiores. Ele corrói a instituição. A disciplina militar não pode impedir que se mate um preso, mas a instituição não pode carregar a fraude." (Élio Gaspari)

XEQUE MATE

"...todos os que defendem a exigência de autorização aos biógrafos dizem não estar defendendo censura. Querem o predomínio, sobre a liberdade constitucional de expressão e informação, dos artigos do Código Civil que permitem impedir biografias contrárias à honra ou à imagem. 

Para sabê-lo, porém, só lendo a biografia antes, para aceitá-la ou vetar a publicação. E censura é precisamente isso, nem mais nem menos..." (Jânio de Freitas)

sábado, 19 de outubro de 2013

SENADOR BOLIVIANO: NO MEIO DA NOVELA JÁ SABEMOS O DESFECHO

Assim falou Garciatustra. E fim de papo.
O Brasil não extraditará o senador Roger Pinto Molina para a Bolívia, garantiu o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, à Folha de S. Paulo. Foi enfático:
"Devolvê-lo para a Bolívia, não. Devolvê-lo para a Bolívia, nós não devolveremos".
O repórter Fernando Rodrigues insistiu, querendo confirmação. E Garcia repetiu o "não", informando que há apenas duas hipóteses para o desfecho do caso: "ou ele pode ter asilo aqui ou ele pode ir para outro país".

Como os leitores devem recordar, os parlamentares Molina e Evo Morales eram amigos antes que o último ascendesse à Presidência. Convidado a integrar o governo, Molina recusou, segundo ele por divergir de Morales quanto à cocaína: 
"Sempre acreditei que o tema da coca fosse a matéria-prima para o narcotráfico e era preciso atacar isso. Ele defendia a coca".
A relação azedou de vez quando Molina entregou a Morales um dossiê acusando o governador do estado de Pando, aliado do presidente, de envolvimento com traficantes.

Aí, começaram a pipocar os processos contra Molina na Justiça boliviana (a mesma que manteve 12 torcedores brasileiros presos por um crime que só um deles poderia ter cometido...); num passe de mágica, foram abertos 22!

Molina se refugiou na nossa embaixada, o Brasil lhe concedeu asilo e o governo boliviano, ignorando as leis e práticas internacionais, passou uma eternidade negando-lhe salvo conduto para deixar o país em segurança.

Depois de 15 meses de confinamento, ele foi resgatado numa operação rocambolesca que, segundo a versão oficial, teria sido iniciativa isolada do diplomata Eduardo Sabóia.
A História se repetiu como farsa?

Seria um novo, embora menos dramático,  resgate fantástico

Só que é difícil de engolir: Sabóia estava acompanhado por um senador brasileiro, teve a cobertura de militares brasileiros e atravessou tranquilamente uma fronteira que deveria estar sendo muito bem guardada. Finalmente, ele passou menos de três semanas suspenso de suas funções no Itamaraty e logo foi reintegrado. 

A hipótese mais plausível é a de que fizesse parte de um esquema bem mais amplo e tenha agido com a anuência dos seus superiores, cansados de esperar por uma solução civilizada e temerosos do desprestígio que adviria para o Brasil caso Molina se suicidasse, como ameaçava fazer.  

Quanto à demissão do chanceler Antônio Patriota, alguma satisfação teria de ser dada a Morales, para não deixá-lo mal com a opinião pública boliviana. Mas, não se tratou exatamente de uma punição: Patriota assumiu, em seguida, a chefia da delegação brasileira na ONU, designação das mais honrosas.

Agora, Garcia antecipa que, seja qual for a decisão do Conselho Nacional para os Refugiados sobre o pedido de extradição boliviano, o Brasil não o extraditará.

Faz sentido. O Conare existe para subsidiar o ministro da Justiça e seus pareceres não têm de ser obrigatoriamente seguidos (Tarso Genro tomou decisão diferente no Caso Battisti, p. ex.). Ademais, o Supremo Tribunal Federal confirmou que a última palavra, nesses episódios, é da Presidência da República.

Então, podemos supor que Garcia fala pelo ministro José Eduardo Cardozo, pela presidenta Dilma Rousseff ou por ambos, ao declarar de forma tão incisiva que Molina está definitivamente a salvo do governo boliviano.

Alguns comentaristas políticos da imprensa e muitos da internet ficaram como baratas tontas neste  imbroglio, principalmente os que correram a satanizar Sabóia, acreditando que fosse esta a vontade imperial. Quando a falta de independência e a falta de perspicácia andam juntas, o resultado tende a ser patético.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ELE DESATINOU. DE NOVO!

Ele já aceitou servir como exemplo de bom menino
Creio ter escrito alguns dos textos mais compassivos (vide aquiaqui e aqui) sobre o que Geraldo Vandré se tornou após haver pactuado com a ditadura militar para poder voltar ao Brasil "sem ter na chegada/ que morrer, amada,/ ou de amor, matar", como antevia em sua pungente "Canção primeira". 

Não tenho dúvidas de que sofreu lavagem cerebral quando esteve internado numa clínica psiquiátrica sob a vigilância de agentes da repressão, impedido até de falar com outros pacientes, entre 14 de julho e 11 de setembro de 1973.

Mas, de alguma forma ele contribuiu para sua desgraça: foi ao não suportar a barra do exílio e assumir o risco do regresso, mesmo conhecendo muito bem o inferno no qual desembarcaria. É isto, e só isto, que lhe recrimino. Com relação a tudo que se passou depois, ele tem minha compreensão, valha o que valer.

Foi um episódio bem na linha do que Paulo Francis alertava sobre os artistas: por mais que os admirássemos por sua arte, jamais deveríamos levá-los muito a sério quando se manifestassem sobre outros assuntos ou se aventurassem em outros projetos (principalmente os revolucionários).

Eu não levava muito a sério aquele Chico Buarque que, no olho do furacão dos anos de chumbo, lançava músicas inofensivas e nada tinha a declarar quando a direita enchia sua bola, erigindo-o em bom exemplo enquanto tudo fazia para denegrir os músicos engajados. 

Em 1969 caiu-lhe a ficha e ele próprio reconheceu que o Chico de 1967/68 não merecia mesmo ser levado a sério.

A censura deste disco era ruim. A das biografias é boa?
Fez, então, sua veemente autocrítica: "Agora falando sério/ Eu queria não cantar/ A cantiga bonita/ Que se acredita/ Que o mal espanta/ Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá/ Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro/ Pra não ver a banda passar/// Agora falando sério/ Eu queria não mentir/ Não queria enganar/ Driblar, iludir/ Tanto desencanto...".

Por admirarmos demais a grande arte que ele produziu a partir de então e até o fim da ditadura, passamos uma borracha na sua vacilada anterior e seguimos em frente. A Geraldo Vandré e a Chico Buarque devemos ser imensamente gratos por terem composto as duas músicas mais emblemáticas do repúdio à ditadura: "Caminhando" e "Apesar de você". Não dá para exigirmos que o criador esteja sempre à altura das criações.

Mas, o Chico não deveria exagerar. É simplesmente estarrecedor vermos um dos artistas outrora mais censurados tornar-se um tardio apologista da censura, defendendo a aberração antidemocrática de que a liberdade de expressão deva ser cancelada em benefício de figuras públicas que não querem ver expostos os aspectos desagradáveis de suas biografias. Só falta ele agora cantar  Pai, aproxima de mim esse cálice!...

Paulo Francis certamente daria um de seus característicos sorrisos sarcásticos se lesse a declaração do Chico à Folha de S. Paulo desta 6ª feira, 18 (talvez acrescentando um previsível  como queríamos demonstrar): 
"Posso não estar muito bem informado sobre as leis e posso ter me precipitado, mas continuo achando que o cidadão tem o direito de não querer ser biografado, como tem o direito de não querer ser fotografado ou filmado".
Ora, o  cidadão  com o qual ele se preocupa e cujo direito quer ver priorizado não é um cidadão qualquer, mas sim uma celebridade. Quem escreve as biografias dos coitadezas anônimos?

E quanto ao direito do cidadão comum, de ser informado sobre o que realmente são e fazem aqueles que ganham rios de dinheiro por terem os holofotes da mídia voltados em sua direção, onde é que fica? 

Se o Chico sempre consentiu em que as gravadoras e editoras buscassem de todas as formas maximizar os espaços a ele dedicados pelos veículos escritos e eletrônicos, concedendo obedientemente as entrevistas que marcavam e posando pacientemente para as fotos que recomendavam, o que nos está pedindo é isto: que só levemos em conta o  retrato em branco e preto  que ele e seu staff querem projetar. Que nos atenhamos à imagem manipulada que os profissionais de comunicação forjam, expurgando tudo que é inconveniente para os objetivos comerciais (coincidentemente, o mesmo que incomoda os egos superinflados dos artistas). 

Qualquer tentativa de furar tal bloqueio deverá ser encarada como invasão da privacidade. Ou, verbalizando o que realmente sentem tais pavões mas não têm coragem de proclamar, como um  crime de lesa-majestade.

Tendo o Chico feito uma autocrítica tão contundente por suas omissões em 1967/1968, aguardo ansioso a que fará por suas falações de 2013. Isto se ainda lhe restar humildade para tanto.
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