sábado, 31 de dezembro de 2011

...E ELES MORDERAM O PÓ DA DERROTA!

Há exatamente um ano foi tomada uma decisão histórica, que tornou o Brasil exemplo para o mundo: rejeitando fortíssimas pressões de um país do primeiro mundo e dos seus serviçais tupiniquins, com especial destaque para uma imprensa que se revelou canalha como nunca, nosso presidente evitou a repetição de episódios deploráveis como os de Sacco e Vanzetti, Dreyfus e Olga Benário.

Porque se trata de um acontecimento do qual toda a esquerda brasileira deveria orgulhar-se --e muito!--, faço questão de republicar o artigo que divulguei em 31/12/2010, imediatamente após o anúncio da decisão presidencial --no qual antecipei, inclusive, que os linchadores togados ainda tentariam virar a mesa, apenas para sofrerem nova e acachapante derrota.

LULA DECIDIU: BATTISTI FICA!

Dignamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a palavra final do Brasil a respeito da pretensão do Governo Berlusconi, de obter a cabeça do escritor e perseguido político Cesare Battisti para exibi-la como um troféu do suposto triunfo da mais retrógrada e intolerante direita européia sobre os ideais de 1968: o pedido de extradição está definitivamente negado.

Battisti morará e vai escrever seus livros no território brasileiro, a salvo da  vendetta  neofascista.

O que resta, doravante, é um exercício de  jus sperniandi  por parte do presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, que precisa de mais algumas semanas para digerir a devastadora derrota pessoal que acaba de sofrer. E é apenas isto que terá.

No fundo, o Caso Battisti só está prestes a completar quatro anos porque, desde o primeiro momento, o STF tem agido como um Poder alinhado com um governo estrangeiro, a golpear instituições e tradições brasileiras.

Por que ordenou a prisão de Battisti em fevereiro de 2007, se era um homem que levava existência pacata, honesta e produtiva há quase três décadas? Não seria suficiente a liberdade vigiada?

A detenção já não se constituiu num prejulgamento, além de uma tentativa de influenciar o julgamento propriamente dito com a produção e farta difusão de imagens negativas?

Por que a exibição de algemas choca tanto o ministro Gilmar Mendes quando o algemado é suspeito de estar praticando crimes financeiros aqui e agora, mas nem um pouco quando se trata de um acusado de haver cometido crimes políticos em outro país, no longínquo final da década de 1970?

A GUERRILHA JUDICIAL DA DUPLA DIREITISTA

Se dúvidas havia quanto à necessidade de manter Battisti preso, deixaram totalmente de existir em janeiro de 2009, no exato momento em que o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu-lhe refúgio humanitário.

Pela Lei do Refúgio e pela jurisprudência consolidada em vários casos, só restava ao STF arquivar o pedido berlusconiano, como arquivara outros, idênticos, no passado.

Mas, na condição de homens de direita que são e sempre evidenciaram ser, o então presidente do Supremo Gilmar Mendes e o relator Cezar Peluso resolveram subverter o Direito, lançando uma espécie de guerrilha judicial contra o Estado brasileiro:
  • não encerrando o processo nem libertando Battisti, como deveriam ter feito;
  • permanecendo surdos aos muitos e fundados pedidos de libertação do escritor, nem que fosse para aguardar sob vigilância a pantomima que os dois preparavam com lentidão exasperante;
  • tudo fazendo para que o Supremo, numa das decisões mais infelizes e grosseiras de sua História, revogasse, na prática, a Lei do Refúgio, o que (legislar) não é, nunca foi nem jamais será  atribuição do STF; e
  • linchando Battisti, ao julgar seu caso com base não num relatório, mas num panfleto, uma peça da mais gritante e escancarada tendenciosidade.
Jamais eu vira, numa vida inteira de participação em lutas sociais e exercício do jornalismo, o relator de um caso polêmico encampar TODOS os argumentos de uma parte e NENHUM da outra. Mais unilateral, impossível.

Mesmo assim, a escalada de arbitrariedades foi detida quando um dos ministros que até então sustentatva a frágil maioria de 5x4 recuou, horrorizado, ante a tentativa de usurpar-se do presidente da República a prerrogativa de dar a palavra final no caso.

O que não impediu Mendes e Peluso de, após o fim do julgamento, ainda darem um jeito de reabri-lo para alterar o já decidido, numa manobra sem precedentes nos anais do STF, como notou o ministro Marco Aurélio de Mello: a pretexto de esclarecer um voto, enxertaram um condicionamento.

ITALIANOS TRAMARAM ASSASSINATO DE BATTISTI

Mas, obrigando Lula a ater-se aos termos do tratado de extradição entre Brasil e Itália, não lhe criaram real embaraço.

Pois, se o fundado temor de que o extraditado venha a sofrer "atos de perseguição e discriminação" é motivo suficiente para deixar de entregá-lo ao solicitante, não há mais o que discutirmos:
  • é público e notório que o Serviço Secreto Italiano tramou com mercenários o assassinato de Battisti na América do Sul, só não levando o plano adiante por divergência quanto ao preço do  serviço;
  • autoridades e entidades italianas estão, desde fevereiro/2009, dando as mais despropositadas e furibundas declarações a respeito de Battisti, incluindo ameaças de retaliação ao Brasil, promessa de vingança de uma associação de carcereiros e a bizarra confissão do então ministro da Justiça Clemente Mastella, ao reconhecer que a promessa de reduzir a pena de Battisti, de prisão perpétua para o máximo que a legislação brasileira permite (30 anos) estava sendo feita de má fé, só para nos iludir.
Tal incontinência verbal, aliás, veio ao encontro do que o principal jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari, já alertara: a Itália não dispõe de nenhum instrumento jurídico que lhe permita adequar sua sentença à exigência brasileira. Recorre a subterfúgios espúrios, simplesmente.

Só não sei como qualificar a    de juristas brasileiros que supostamente ignoram aquilo que tinham a obrigação de saber, pois foi noticiado pela própria imprensa italiana.

É simplesmente inegável e insofismável, salta aos olhos e clama aos céus, que Battisti não só vai ser perseguido e discriminado, como correrá enorme perigo de vida caso seja despachado para a Itália.

AUTORIDADE PRESIDENCIAL EM XEQUE

Se Cezar Peluso quiser apenas dividir a responsabilidade pelo arquivamento do pedido italiano com o restante dos ministros, isto já deporá contra ele, pois a característica mais marcante de sua gestão está sendo exatamente a paralisia do Supremo.

Pior: caso, como faz supor a indicação de Gilmar Mendes para relator, o que ele pretenda é questionar a decisão do presidente da República, aí entraremos num terreno perigosíssimo.

O Supremo já decidiu que cabe ao presidente da República o papel de última instância, respeitando os termos do tratado de extradição Brasil-Itália.

Foi o que Lula fez, utilizando argumentação cabível e consistente, como condutor que é da política externa brasileira e contando com as informações privilegiadas (muitas das quais sigilosas) de que dispõe exatamente por exercer tal função.

Se o STF se dispuser a esmiuçar os elementos de convicção de um presidente, este será obrigado a revelar aquilo que tem por obrigação guardar para si, o que poderá gerar graves transtornos e prejuízos para o Brasil, conflitos internacionais e até guerras.

Então, há um limite para a invasão das prerrogativas presidenciais por parte do STF. E este limite será ultrapassado se o Supremo se meter a destrinchar esta decisão do Executivo, respaldada num parecer tecnicamente inatacável da Advocacia Geral da União e que, ao próprio senso comum, evidencia-se como o chamado  óbvio ululante.

Até o  sujeito da esquina -- aquele personagem ao qual o ministro Gilmar Mendes se referiu como se fosse o cocô do cavalo do bandido -- percebe que Cesare Battisti não terá seus direitos respeitados na Itália.

É um país:
  • que fechou os olhos a torturas e maus tratos durante os  anos de chumbo;
  • que fez, então, leis retroagirem para abarcar fatos ocorridos antes de sua promulgação.
  • que admitiu estender prisões preventivas (ou seja, de meros suspeitos que ainda não haviam recebido sentença nenhuma) por mais de dez anos;
  • que julgou réus ausentes, aceitando que fossem representados por advogados munidos de procurações forjadas e não voltando atrás quando a falsificação ficou indiscutivelmente provada;
  • que tramou atentado pessoal contra Battisti e moveu-lhe uma campanha de difamação tão falaciosa quanto enormemente dispendiosa.
NOVA FORMA DE GOLPISMO EM EMBRIÃO?

Aliás, pateticamente, o governo italiano acaba de afirmar em nota oficial que "o presidente Lula deveria explicar tal escolha não apenas ao governo, mas a todos os italianos e, em particular, às famílias das vítimas e a um homem reduzido a viver em uma cadeira de rodas".
Trata-se de uma óbvia alusão a Alberto Torregiani, que, autor de um livro que o projetou como vítima profissional,  é pertencente a um agrupamento assumidamente neofascista, tem ambições políticas e já admitiu que Battisti não estava entre os assassinos do seu pai Pierluigi Torregiani, conforme declarou em 30/01/2009 à Agência Ansa (vide aqui ):
"Torregiani revelou que Battisti não participou da ação que culminou no assassinato de seu pai porque havia ido à localidade de Mestre, onde teria matado o açougueiro Lino Sabbadin. 'Está tudo nos autos do processo', explicou".
 Mas, demagogias, mentiras, ameaças, bravatas e  buffonatas  italianas à parte, permanece o fato de que a dupla reacionária do STF parece querer colocar o Supremo no papel de uma corte internacional  que estivesse julgando uma pendência entre o Brasil e a Itália, e não como um Poder brasileiro obrigado a respeitar as decisões tecnicamente consistentes de outro Poder.

Francamente, acredito que ficará falando sozinha, com os demais ministros não a acompanhando nessa aventura insensata e potencialmente catastrófica para nossa democracia.

Mesmo assim, cabe a todos os cidadãos brasileiros avessos ao totalitarismo, imbuídos de espírito da justiça e ciosos da soberania nacional manterem-se alerta contra o linchamento de Battisti e vigilantes contra essa nova forma de golpismo que habita os sonhos da direita inconformada com a hegemonia petista: a ditadura judicial.

DITADURA: A FOTO DA DILMA E O TEATRINHO MILITAR

Já que fui citado na imprensa como um dos réus clicados no mesmo lote da fotografia de 1970 da presidente Dilma Rousseff, vale a pena falar um pouco sobre como, durante a ditadura de 1964/85, encenavam-se julgamentos nas auditorias militares para justificar as sentenças que os serviços de Inteligência e o comando das Forças Armadas previamente estipulavam.

Deu n'O Globo (vide íntegra aqui): 
"No começo de 2011, quando o país assistia meio incrédulo à festança de chegada ao poder de uma mulher e ex-guerrilheira, caíram nas mãos do pesquisador Vladmir Sachetta, por acaso, três fotos que revelavam um dos momentos mais marcantes da 'terrorista' Vanda. As fotos são da presidente Dilma Rousseff no frescor de seus 22 anos, com ar rebelde, e de seu ex-marido Carlos Araújo, em depoimento na Primeira Auditoria Militar do Rio, em novembro de 1970.
 Sachetta (...) procurava imagens de militares da Aeronáutica envolvidos no sequestro, desaparecimento e morte de Rubens Paiva. Caiu nas mãos dele uma pasta com o título Justiça Militar. Na última página, encontrou as fotos de Dilma, Araújo e do estudante Celso Lungaretti, feitas por um fotógrafo da Última Hora (...) e publicadas uma só vez, na capa do jornal, em 18 de novembro de 1970.
...no arquivo do jornal, no dia da publicação, a foto de Dilma recebeu a seguinte identificação no verso: '1 Auditoria do Exército (Julgamento dos terroristas Celso Lungaretti, Carlos Franklin Paixão de Araújo e Dilma Rousseff Linhares). Na foto a estudante terrorista Dilma Rousseff Linhares quando era sumariada'".
A minha foto até agora não encontrei (*); a da Dilma está espalhadíssima na internet; e na biografia autorizada da presidente (A vida quer é coragem) aparece a do Max (Carlos Franklin Paixão de Araújo).

Respondi a quatro processos, os da VPR e da VAR-Palmares, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Isto porque ingressei na VPR em abril/1969, a organização se fundiu com o Colina no meio do ano (formando a VAR) e em outubro reconstituímos a VPR, depois de  racharmos  no Congresso de Teresópolis.

No fundo, os militares não fizeram direito a lição de casa, pois eu militei na VPR nos dois Estados, mas só militei na VAR em SP. Deveria ter ficado de fora do processo da VAR no RJ --exatamente aquele de que a notícia trata.

Eu só me lembrava da  Vanda  no Congresso do racha, quando nos colocamos em campos opostos. Mas, como vários jornalistas andaram me ligando para saber se eu tinha algo de interessante a relatar sobre a nova presidente --não tinha--, cheguei a pensar que provavelmente nos haveríamos reencontrado como réus de um ou dos dois processos da VAR. Agora isto está confirmado.

Apesar de já se terem passado mais de quatro décadas, fico meio perplexo por haver esquecido tão completamente muito do que rolou nas auditorias.

Talvez porque aquele jogo de cartas marcadas me entediasse mortalmente: graças às informações que reunira como comandante de Inteligência da VPR e da VAR, eu tinha absoluta certeza de que as sentenças eram previamente definidas pelo alto comando, a partir das avaliações da 2ª Seção do Exército, do Cenimar e do Cisa, só cabendo àqueles figurantes simularem que estavam nos julgando.

Foi mais um descalabro da ditadura, submeter civis à Justiça Militar, com oficiais da Arma respectiva e um juiz auditor fazendo as vezes de jurados isentos.

Se fosse para valer, que chance teríamos? Nenhuma, nossa condenação seria inevitável segundo as leis de exceção impostas pelos que haviam estuprado a liberdade.

E, não sendo para valer, eles eram obrigados a obedecer às ordens recebidas.

Era tudo tão patético que, certa vez, em pleno julgamento, o advogado de ofício começou a não falar coisa com coisa. Percebendo que ele estava bêbado, o juiz auditor o expulsou e designou outro, que foi obrigado a improvisar a defesa... em cerca de dez minutos! 

Suspenderam a sessão para o cafezinho e ele passou os olhos pelo processo. Na reabertura fez sua arenga,  apelando para generalidades e platitudes, já que não conseguira inteirar-se das especificidades do caso.

A lembrança mais nítida que conservo é a de Matos (Cláudio de Souza Ribeiro) com olhar perdido, parecendo nem reconhecer os antigos companheiros.

Ele vinha dos movimentos da marujada que antecederam o golpe e chegou até a ser comandante da VPR e da VAR. Mas, entrou em crise, afastou-se da militância e foi levar vida de civil numa aldeia de pescadores, montando casa com uma militante de base que desistiu da luta por ele.

Traído (sexualmente...) por ela e diante da perspectiva de ser abandonado, assassinou-a e foi entregar-se à polícia. Acabou no DOI-Codi, suplicando para que o matassem e ouvindo a resposta de que lá só morria quem eles queriam, não aqueles que queriam morrer. 

Vê-lo reduzido a trapo me chocou e consternou. Era o único de nós que estava algemado em plena auditoria, sentado com um agente de cada lado --temiam que ele realmente desse cabo da vida. Sua história (mais detalhes aqui) é dilacerante.

Por último: muitos internautas comentaram que, na foto da Dilma, os militares escondiam a cara por vergonha. Não, era por paúra mesmo. Temiam ser retaliados, como se não soubéssemos que seu papel era  decorativo.

Se havia contas a acertarmos, era com os torturadores, com seus mandantes, com os financiadores da repressão, etc. Não com esses atores de quinta categoria.

P.S.: no dia seguinte, o Ricardo Amaral, gentilmente, enviou-me  a foto, vide aqui

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

PARA JAMAIS ESQUECERMOS: OS 3 ANOS DE UM GENOCÍDIO ATROZ

No dia 27 de dezembro de 2008 o estado de Israel desencadeou na faixa de Gaza uma matança cujo balanço final foi o assassinato de 1.387 palestinos, 56% dos quais (773) eram civis,.enquanto as baixas israelenses se limitaram a dez militares e três civis.

Ou seja, para cada israelense morto, mais de cem palestinos tombaram -- proporção típica das retaliações nazistas em territórios ocupados, durante a II Guerra Mundial.

O chocante relatório dos investigadores da ONU --constatando, inclusive, que Israel utilizou escudos humanos, empregou contra a população civil uma substância (o fósforo branco) proibida tanto pela Convenção de Genebra quanto pela Convenção de Armas Químicas, destruiu plantações com escavadeiras e bombardeou 200 fábricas que jamais poderiam ser consideradas objetivos militares--, não produziria nenhum resultado concreto.
Eis meu artigo do dia 28, Carnificina foi o presente de Israel aos palestinos:
"Cerca de mil palestinos, incluindo mulheres e crianças, foram atingidos pelas bombas que Israel disparou na faixa de Gaza.

Não houve, sequer, a preocupação de escolher horários em que houvesse menos pessoas nas ruas.

Foi uma agressão bestial, repulsiva, inominável.

Todo indivíduo, grupo ou nação que, sofrendo ataques de inimigos identificados, retalia indiscriminadamente em civis inocentes, é um réprobo aos olhos da civilização.

Os judeus parecem um triste exemplo de vítimas que, ao tornarem-se poderosas, acabaram reproduzindo as piores práticas dos seus carrascos.
 Tudo que havia de belo e nobre no sonho da nação judaica virou uma caricatura grotesca:
  • os kibutzim cada vez mais deixam de ser comunidades coletivas voluntárias, de inspiração socialista, para assemelharem-se às empresas capitalistas, inclusive contratando trabalhadores em regime assalariado;
  • a perspectiva de viver em harmonia com os vizinhos cedeu lugar à mentalidade de bunker, com todas as distorções decorrentes (a absoluta falta de compaixão pelos não-judeus, encarados como não-pessoas, em primeiro lugar); e 
  • a milenar tradição humanista do povo judeu hoje está em frangalhos, depois de décadas de carnificinas cometidas contra os povos árabes, sobejamente incapazes de resistir à superioridade militar israelense.
Israel é mais uma utopia que virou distopia, um 1917 que se tornou 1984 orwelliano. Lamento profundamente.

Mas, nunca deixarei de registrar minha indignação e meu protesto contra matanças como esta que os israelenses, emblematicamente, cometeram dois dias após o Natal".

OS ANOS EM QUE OS MÚSICOS VIVIAM PERIGOSAMENTE

Em 2003, quando eu começava a namorar a Juliana --hoje minha esposa e mãe da Laurinha--, ela estudava jornalismo e me pediu sugestão para um trabalho que precisava fazer com urgência.

Conversa vai, conversa vem, pintou a   solução caseira  de ela juntar minhas lembranças com trechos de uma longa entrevista do Zuza Homem de Mello sobre os grandes festivais de música popular brasileira.

Como eu usava o pseudônimo de André Mauro ao trabalhar nas revistas de música, foi também esta a minha identidade.

Eis o resultado.

OS ANOS EM QUE OS MÚSICOS VIVIAM PERIGOSAMENTE

O que levou a MPB a se colocar na linha de frente da
resistência ao regime militar na década de 1960? É o que analisam os
críticos musicais Zuza Homem de Mello e André Mauro.

Zuza: "A Banda" venceu "Disparada" por 6x5
Para o jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello, autor do livro mais completo até hoje escrito sobre a grande fase que a música popular brasileira viveu durante a ditadura -- A Era dos Festivais - Uma Parábola (Editora 34, 2003, 528 pág.) -- o que então aconteceu foi “um posicionamento social, político e musical da classe estudantil, a ponto de provocar uma reação nos militares”.

Próximo de completar 70 anos, Zuza estreou como crítico de jazz em 1956 na revista Folhas, atuando depois no Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, rádio Jovem Pan e revistas Down Beat, Som 3 e Nova, tendo, ainda, participado de vários projetos de resgate da história da MPB. Além disso, como o antigo Repórter Esso, ele também pode se considerar “testemunha ocular da História”, pois foi produtor e engenheiro de som da TV Record no período 1959/1969, o que lhe permite revelar agora um sem-número de informações de bastidores – por exemplo, a de que o célebre empate entre “A Banda” e “Disparada” no Festival da Record de 1966 foi uma imposição de Chico Buarque, que considerava sua composição inferior à de Geraldo Vandré/Théo de Barros, embora tivesse sido escolhida por seis jurados como vencedora (contra cinco votos dados  à “Disparada”).

Segundo Zuza, “nunca se vivera no País uma discussão cultural tão empolgante como aquela dos primeiros festivais”, mas depois o movimento entrou “numa curva descendente, em função da brutal pressão dos militares”.

Vandré, Elis e Chico numa foto rara
O que levou a esse agravamento da censura e pressões? “O governo sentiu que aquilo era uma coisa quase ameaçadora para o regime, embora ninguém tivesse nenhum revólver na mão. Só tinham a canção, a vaia e o aplauso. No entanto, isso ameaçou os militares. Tanto que foram impostas condições para a realização dos festivais. No 3º FIC - Festival Internacional da Canção Popular, os militares mandaram os diretores dizerem que Caminhando, de Geraldo Vandré, não podia ganhar.”

O grande temor dos militares, na avaliação de Zuza, era que as canções dessem a conhecer o que ocorria nos porões da ditadura. “Eles queriam passar a imagem de um país feliz. É por isso que, na fase do FIC, os festivais eram transmitidos para o exterior. Eles queriam mostrar a felicidade do povo brasileiro, que o Brasil era a  ilha da felicidade.

Os compositores, revela Zuza, tentaram reagir a isso com “uma conspiração” arquitetada por Gutemberg Guarabira, “que acumulava as funções de diretor artístico do 6º FIC e militante clandestino da Aliança Libertadora Nacional”:
– O plano era usar o festival para um protesto contra a censura. Por isso combinaram de inscrever as músicas, mas entregar as letras só no último momento, todas de uma vez. A censura não teria como barrar. Eles imaginavam que os organizadores e o governo teriam dificuldade de explicar para o mundo a desistência dos melhores compositores brasileiros num festival que era usado para fazer uma divulgação favorável e cor-de-rosa do País.
No entanto, os inimigos ficaram sabendo do que se planejava e tomaram medidas preventivas. E o desfecho do episódio, lembra Zuza, foi o seguinte: “Oito dias antes do 6º FIC, em 1971, 12 dos melhores compositores brasileiros, entre eles Chico Buarque, Paulinho da Viola, Tom Jobim e Edu Lobo, cancelaram sua participação em razão da ‘exorbitância, intransigência e drasticidade do Serviço de Censura’ que impedia a livre produção artística”.

Zuza conclui: “O governo militar interferiu na MPB, chegando a ceifar a carreira de artistas como Toni Tornado e, de certa forma, o Geraldo Vandré, que ficou atemorizado. Com isso, perdeu-se o ritmo. Não só a vida pessoal dos compositores, mas a MPB como um todo. Ela ficou como um trem que parou numa estação e ficou esperando a hora de sair de novo do lugar. Durante anos, os compositores tiveram de manter uma luta contra a censura para poder fazer valer a sua obra. Perdeu-se todo o estímulo. Essa geração tem um vazio num período de suas vidas que é refletido na obra. O período que o Caetano Veloso ficou em Londres, por exemplo, é um vazio, um buraco na obra dele.”

“Circunstâncias excepcionais”

Foto que achei na web, do meu tempo
de prisão, no fim da "era dos festivais"
“A importância e o papel da MPB durante a ditadura se deve a algumas circunstâncias excepcionais”, avalia o jornalista e crítico musical André Mauro. “Até os  Anos JK  o Brasil não tinha uma classe média numericamente significativa e a música se direcionava quase toda para o povão. O desenvolvimentismo, entretanto, deu a muitas famílias a condição de mandarem seus filhos para as faculdades. Surgiu uma geração de jovens compositores mais sofisticados, fazendo música de uma qualidade bem superior à daquela que era acolhida pelas gravadoras, rádios e tevês. Os festivais de MPB permitiram que essa fornada de talentos se tornasse conhecida... da própria classe média, começando pelos estudantes, que com eles logo se identificaram.”

André Mauro foi editor-chefe de várias publicações musicais paulistanas no período 1980/84, tendo dedicado três edições da revista Especial, com longos textos (de sua autoria) e cifras de canções, aos “Festivais” (nº 26), ao programa “O Fino da Bossa” (nº 49) e aos “Festivais: A Época de Ouro da MPB” (nº 54). “Além de fazer um exaustivo trabalho de pesquisa, que até então nossa imprensa não empreendera, eu fui muito na linha interpretativa, buscando dimensionar esses fenômenos em termos mais amplos”.

Ele explica que, em 1965, a repressão do regime militar reduzira ao silêncio os partidos políticos, sindicatos e entidades estudantis, mas as manifestações artísticas ainda não eram particularmente visadas. “Os milicos não tinham medo daqueles jovens que poderiam ser seus filhos. Pensavam que música, teatro e cinema eram inofensivos e serviam como uma espécie de catarse, para manter os estudantes longe das ruas.”

Então, lembra André Mauro, o Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, começou a promover noitadas musicais no Teatro Paramount, com forte clima de protesto. “A extinta TV Excelsior percebeu o potencial e reuniu aqueles jovens talentos no 1º Festival de MPB, que projetou nacionalmente Elis Regina. A poderosa TV Record entrou na jogada e encampou o festival, contratando seu idealizador e produtor. Do 2º festival em diante, ficou tudo na Record (tendo a Globo e seu FIC como concorrente menor). E ainda lançou o programa semanal ‘O Fino da Bossa’, vitrine do movimento da então chamada moderna música popular brasileira.”

Reações díspares às vaias: Caetano Veloso
discursou, Sérgio Ricardo quebrou o violão
Segundo ele, foi bom enquanto durou. “Em 1967 os estudantes voltaram a fazer manifestações de rua em São Paulo {as chamadas  setembradas} e os militares perceberam que a MPB não estava servindo para evitar que os estudantes agissem concretamente contra a ditadura, mas, pelo contrário, fazia a cabeça das novas gerações, engrossando o exército que combateria o regime.”

Aí o torniquete foi sendo apertado, com uma censura cada vez mais rigorosa e intimidações à classe artística (como a invasão de um teatro por parte de militantes do Comando de Caça aos Comunistas, que espancaram os artistas). “Finalmente, quando veio o Ato Institucional nº 5, o Vandré, o Chico Buarque, o Caetano Veloso e o Gilberto Gil tiveram de passar um bom tempo fora do País. E os artistas que aqui ficaram, estavam sem nenhuma condição para expressar o que sentiam. Os festivais morreram de inanição em 1972 e a MPB nunca mais foi a mesma”, garante.

Uma forte lembrança é de como “Caminhando” se tornou o hino da luta contra a ditadura:
-- O governador Abreu Sodré tentou discursar no 1º de maio dos trabalhadores e foi expulso do palanque a pedradas. O Vandré, estranhamente, apareceu numa fotografia de jornal ajudando o governador a escafeder-se e isso deixou seu prestígio com os estudante a zero. Cheguei a ver universitárias chamando-o de ‘traidor’ na rua Maria Antônia. Então, ele fez aquela canção para reafirmar sua crença na revolução e provar que não havia mudado. A final do FIC aconteceu alguns dias depois de estudantes serem terrivelmente humilhados pela repressão nas ruas do Rio de Janeiro. Os cariocas estavam indignados e acolheram “Caminhando” como símbolo do seu protesto, ainda mais quando a música foi injustiçada e ficou em segundo lugar. Eu escrevi numa revista que, “em alguns bairros da Zona Sul, as pessoas saíram às janelas quando Vandré bisava ‘Caminhando’ e cantaram a plenos pulmões, descobrindo uma comunhão cimentada pela dor e revolta – e que jamais se repetiria”. E foi assim mesmo... de arrepiar!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O "MOMENTO CHAVES" DO CHÁVEZ

"É muito estranho que tenha sido diagnosticado câncer em Fernando Lugo, Dilma Rousseff, depois em mim e em poucos dias no Lula e agora na Cristina. Não será estranho se eles [os EUA] tiverem desenvolvido uma tecnologia para induzir câncer e ninguém saber até agora".

A afirmação foi feita na TV venezuelana pelo presidente Hugo Chávez, num momento Chaves. Torçamos para que seja só efeito da quimioterapia...

Ele não levantou nenhuma hipótese sobre quem seria o criador de tal  tecnologia.

Mas, seguindo sua linha de raciocínio, só consigo imaginar duas hipóteses:
  • a de que o Dr. Silvana, aprisionado pelo Capitão Marvel, tenha aceitado colaborar com o governo dos EUA em troca de uma redução da pena;
  • a de que a CIA tenha pedido emprestado ao MI-6  aquele armeiro que cria as engenhocas do 007, o Q (Desmond Llewelyn).

É "MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO" OU "ELEFANTE BRANCO DO SÃO FRANCISCO"?

Notícia desta 5ª feira (29) do jornal O Estado de S. Paulo:
"Para tentar terminar as obras da transposição do Rio São Francisco em mais quatro anos, o governo Dilma Rousseff recorrerá a uma nova licitação bilionária de obras já entregues à iniciativa privada. O custo estimado do negócio é de R$ 1,2 bilhão, informou ao Estado o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, responsável pela obra mais cara do Programa de Aceleração do Crescimento bancada com dinheiro dos impostos.

A obra começou em 2007 como um dos grandes projetos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A transposição desviará parte das águas do São Francisco por meio de mais de 600 quilômetros de canais de concreto para quatro Estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Depois de R$ 2,8 bilhões gastos, a transposição registra atualmente obras paralisadas, em ritmo lento e até trechos onde os canais terão de ser refeitos, como é o caso de 214 metros em que as placas de concreto se soltaram por entupimento num bueiro de drenagem.

O custo inicial da transposição, estimado em R$ 5 bilhões, já saltou para R$ 6,9 bilhões, calcula Fernando Bezerra, incluindo a nova licitação...

Relicitar parte dos trechos entregues a grupos de empreiteiras foi a forma que a equipe de Bezerra encontrou para concluir as obras e evitar que a transposição do São Francisco se transforme em um  elefante branco".
Há exatos quatro anos, depois da segunda greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio contra este projeto faraônico e suspeitíssimo, eu já escrevia:
"Salta aos olhos que a interligação não é a opção ideal para saciar a sede dos nordestinos, nem a de melhor relação custo/benefício e muito menos a recomendável em termos ecológicos, devendo os motivos de sua adoção ser buscado alhures.

Ou seja, ficaram fortíssimas as suspeitas de que novamente os interesses privados estão sendo priorizados na destinação de recursos públicos. É a chamada  crônica da CPI anunciada".
A única dúvida é quanto à melhor denominação para o empreendimento.

Antes, só se falava em  maracutaia da transposição.

Agora surge uma alternativa:  elefante branco do São Francisco.

De resto, qualquer jogador perspicaz apostaria todas as suas fichas em que, mais dia, menos dia, uma CPI das mais  cabeludas  será o desfecho da opereta.

Quem viver, verá.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

SOBRE JUÍZES, VAMPIROS E CANIBAIS

Um filme a ser revisto ou descoberto é A dança dos vampiros (1969) --download aqui

Trata-se da melhor comédia macabra de todos os tempos. Roman Polanski se superou como diretor, (co)roteirista e ator. 

Pena que sempre nos fará lembrar a tragédia de Sharon Tate, cuja atuação marcante certamente lhe propiciaria voos maiores, caso uma besta-fera não tivesse cruzado seu caminho.

É hilária a sequência da festividade anual dos vampiros (vide vídeo abaixo), quando o conde von Krolock (Ferdy Mayne) faz um discurso típico de presidente de empresa apresentando balanço de gestão.

Realmente, vampiros e capitalistas têm muito em comum, como sanguessugas que são.
 
Já no visual, os mais parecidos com os vampiros são os luminares da Justiça. Sempre que os vejo com aquela toga ridícula, lembro-me de Bela Lugosi e Christopher Lee.

Ardendo em sua fogueira das vaidades, eles ultimamente estão mais ridículos do que nunca.

Sua dança, contudo, não é exatamente de vampiros, mas sim de canibais.

Entredevorando-se, conseguem desacreditar totalmente o Judiciário, que agora acabou baixando à mesma vala comum do Executivo e do Legislativo.

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE

 


O PODER É CANCERÍGENO.

 


ALÉM DE SER, ELE PRÓPRIO, UM CÂNCER.





 

DAÍ A PROPOSTA MARXISTA E ANARQUISTA DE CONDUÇÃO DA HUMANIDADE A UM ESTÁGIO SUPERIOR DE CIVILIZAÇÃO. 


DEIXARÁ, ENTÃO, DE SER NECESSÁRIO O GOVERNO DE HOMENS,
QUE TANTAS INJUSTIÇAS E ARBITRARIEDADES PROPICIA.


RESTANDO APENAS A ADMINISTRAÇÃO DE COISAS, A SER ASSUMIDA
  PELOS HOMENS COLETIVAMENTE E PRIORIZANDO SEMPRE O BEM COMUM.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O CAPITALISMO NOS OBRIGA A FLERTAR COM A MORTE

É de Norman O. Brown a tese de que o capitalismo, em sua fase terminal, tornou-se agente da destruição da humanidade.

A teorização dele em Vida contra morte (1959) é tão complexa que os resumos se tornam inevitavelmente reducionistas e empobrecedores. É melhor mesmo enfrentarmos a obra, uma das poucas que trazem reais subsídios à compreensão do nosso tempo... mesmo meio século depois!

O certo é que, indo além do óbvio ululante de que o capitalismo já esgotou sua função histórica e está prenhe de revolução, O. Brown dissecou com ferramentas freudianas, exaustivamente, as características que o vampiro assume em sua sobrevida artificial, concluindo que ele cataliza as energias destrutivas dos homens, voltando-as contra eles.

Fantasioso? Se pensarmos na destruição e no caos que estão à nossa espera nas próximas décadas, decorrentes das agressões insensatas ao meio ambiente, perceberemos que ele foi, isto sim, profético.

Vide, p. ex., esta notícia da Agência Brasil, assinada pela repórter Renata Giraldi, que aproveitou despachos da BBC e de outras agências internacionais:
"O mundo está 'perigosamente' despreparado para lidar com futuros desastres naturais, advertiu a agência de desenvolvimento internacional da Grã-Bretanha. A agência britânica informou que o despreparo é causado pela ausência de contribuição dos países ricos ao fundo de emergência mundial.

O fundo de emergência é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas, criada como resposta a tsunamis, com o objetivo de auxiliar regiões afetadas por desastres naturais.

De acordo com informações de funcionários da ONU, o fundo emergencial sofre com um déficit equivalente a R$ 130,5 milhões para 2012.

A escassez do fundo, segundo especialistas, tem relação direta com a série de tragédias naturais que ocorreram ao longo de 2011, como o tsunami seguido por terremoto no Japão; a sequência de tremores de terra na Nova Zelândia, enchentes no Paquistão e nas Filipinas e fome no Chifre da África.

Ontem (26) peritos japoneses e estrangeiros concluíram que medidas de precaução adequadas poderiam ter evitado os acidentes radioativos, na Usina de Fukushima Daiichi, no Nordeste do Japão, em 11 de março deste ano...

...Segundo eles, houve falhas no que se refere às influências de terremotos e tsunamis na estrutura física da usina".
Resumo da opereta: o lucro é a prioridade máxima, dane-se a nossa sobrevivência! A mesma lógica   perversa se constata numa infinidade de outras ocorrências. O capitalismo nos obriga a flertar com a morte.

O pensador nascido no México, filho de um casal estadunidense, apostava na  ressurreição dos corpos, na liberação do erotismo para derrotarmos a repressão e a morte --um pouco na linha de Wilhelm Reich, só que com argumentação bem mais sofisticada.

Contudo, deve ser também considerada a tese de Herbert Marcuse sobre a  dessublimação repressiva  sob o capitalismo, ou seja, uma dessublimação meia-boca, que não extingue a repressão.

É como pode ser considerada a atual banalização do sexo como descarga física, sem real envolvimento amoroso.

Ou seja, o sexo casual, coisificado, em que os parceiros usam um ao outro para obterem seu prazer egoísta, sem doação, sem verdadeiramente se complementarem.

Este acaba reforçando a repressão, ao deslocá-la para o outro oposto: em lugar do amor com sexo travado de outrora, o sexo animalizado de hoje, dissociado do amor.

Já encontrei moças que, nuas e oferecidas, recusavam-se a ser beijadas na boca, como antes era atitude comum das prostitutas. Só faltava repetirem a frase que Hollywood costuma atribuir aos gangstêres: "Não é pessoal, são só negócios"...

Neste sentido, acredito em O. Brown: a plenitude amorosa --em que o amor físico e espiritual são uma e a mesma coisa, com a identidade dos parceiros se dissolvendo num conjunto maior, quando um mais um soma bem mais do que dois-- continua incompatível com o capitalismo.

Transgride-o e o transcende, empurrando os domesticados seres humanos para uma convivência amorosa/harmoniosa com o(a) outro(a) --e, por extensão do mesmo clima, com todos os demais  e com a natureza.

Impelindo-os, enfim, à aventura da libertação.

A SAÍDA DO LABIRINTO

Anjo da guarda ou anjo exterminador?
Eu me lembro bem do meu tio Hélio. Trabalhava na marcenaria do Vovô, lixando e envernizando móveis.

Criança, eu era proibido de circular na fábrica propriamente dita, pois havia serras funcionando.

Mas, deixavam-me frequentar o salão do segundo andar, onde o Hélio e o Alaôr, empregado igualmente jovem, cuidavam do acabamento. Dava-me bem com ambos.

Como nossa memória tende a fixar apenas o fora do comum, os episódios que me lembro do Hélio foram das traquinagens que fiz com ele.

Como quando, vendo que o Hélio estava trancado no banheiro, fechei o trinco que havia do lado de fora. O Alaôr, naquele dia, não fora trabalhar, mas eu pensei que logo passaria alguém pela seção e o libertaria.

Não passou ninguém. Depois de uns vinte minutos, fui contemplar o resultado da minha obra. E não é que o Hélio continuava preso, tentando derrubar a porta a pontapés?!

Sem graça, perguntei: "Tem alguém aí?".

A resposta veio irada: "Você sabe muito bem que sim!". Além de uma enxurrada de palavrões.

Fui lá, destranquei a porta e saí correndo. Providencialmente: um chinelo passou voando ao meu lado...

Não vou encumpridar a história contando outras peraltices. Até porque esta crônica não é alegre: Hélio Vannucci morreu no final da década de 1960, com uma doença cerebral rara, deixando filho e filha pequeninos. Não tinha nem 30 anos.

Era um sofredor. Ainda criança, brincando com tesoura, vazara o próprio olho. Ficou complexado pelo resto da vida, julgando-se repulsivo para as moças e escondendo o defeito atrás de grossos óculos escuros.

[Aquele olho morto, com filões vermelhos, realmente me chocou um pouco no começo, mas depois me acostumei. Creio que acontecesse o mesmo com as outras pessoas.]

Casou mal, endeusando em demasia a moça prendada que finalmente o aceitara.

Isto teve um preço: ela exigia luxos que o seu salário não comportava.

Eram três irmãos e uma irmã (minha mãe) trabalhando juntos na marcenaria do Vovô. Hélio, que era o caçula, pleiteava além da parte que lhe cabia, em desespero de causa.

A tendência do meu avô, homem bondoso, era sempre ceder. Mas, meus outros tios chiavam, recriminando o favoritismo.

Impossibilitado de conceder as mesmas regalias aos quatro, meu avô às vezes não atendia as súplicas do Hélio. Que então ouvia poucas e boas em casa.

Terá sido este o motivo de uma enfermidade cerebral tão precoce? Estaria a natureza oferecendo-lhe uma saída, já que tudo conspirava para sua infelicidade?

O certo é que teve o pior dos seus ataques num dos piores dias para se baixar num hospital: quando os titulares descansam e substitutos são laçados para manter aparência de funcionamento normal.

Os plantonistas, percebendo a gravidade do seu estado, preferiram passar a encrenca adiante: colocaram-no na respiração artificial, lavaram as mãos e foram aproveitar as diversões noturnas.

Igualmente se omitiram os plantonistas da noite, os do domingo, todos: deixaram como estava para ver como ficava.

Na segunda-feira ele já começava a exalar cheiro de cadáver. A família, desesperada, correu atrás de um grande especialista.

O qual disse que a melhor (praticamente única) chance do Hélio era ter sido operado no momento mesmo da internação.

Então, orientou: coloquem-no no pulmão mecânico e vejam se ainda consegue respirar por si mesmo. Ou vai expirar ou dará sinal de vida, possibilidade remotíssima. "No segundo caso", disse o luminar da medicina, "eu o operarei imediatamente".

Expirou. E eu, que tanto gostava (e tanta pena tinha) do Hélio, sempre considerei aqueles plantonistas omissos do fim de semana como assassinos.

Não cumpriram o juramento de Hipocrates, de lutar até o fim pela vida do paciente. Mas sim o de hipócritas.

Foi uma morte tão traumática que arrastou junto meu avô. O coitado ficou prostrado por remorsos, recriminando-se pelas vezes em que deixara de atender os pedidos de dinheiro extra do Hélio.

Tão deprimido andava que nem ligou para as dores que sentia no estômago. Levou meses para procurar o médico. Aí, o câncer já tinha avançado demais.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"...E QUE A LIBERDADE ESTEJA ACIMA DO ARAME FARPADO..."

Honra ao mérito: Domingos Dutra lutou firmemente para
que o PT não se coligasse com o PMDB de Sarney no MA.
Das respostas que recebi e agradeço, uma que entrou bem no espírito da minha saudação natalina foi a do deputado federal Domingos Dutra (PT-MA). Vale reproduzir:
"...que em 2012 continuemos a luta por um Maranhão em que o homem tenha mais valor que o boi, que o arroz tenha mais valor que o capim, que o direito fale mais alto que a pistola, que a justiça não seja uma esmola e a liberdade esteja acima do arame farpado.Feliz 2012".
Trata-se de um parlamentar que honra o mandato. Na votação dos jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, promovida pelo site Congresso em Foco, ficou em sétimo lugar como melhor deputado de 2011.

Ele se define como "negro, simples, filho de lavradores". Tem 55 anos e nasceu em Saco das Almas, um povoado do município maranhense de Buriti. Participa das lutas em defesa dos trabalhadores do campo e, como advogado, dá assistência jurídica aos pobres.

Ao relatar a CPI do Sistema Carcerário, em 2008, visitou mais de 60 presídios, ouvindo detentos e funcionários para produzir um relatório de 500 páginas e um vídeo. Segundo ele, "foi um trabalho sério que permitiu mostrar às pessoas que os presos são tratados como lixo, comem lixo e vivem em meio ao lixo".

domingo, 25 de dezembro de 2011

QUASE MENSAGEM DE NATAL

1 dia para confraternizarmos
como seres humanos
(verdadeiramente humanos!).

364 dias para competirmos
como bestas obtusas,
para nos esfalfarmos
como bestas de carga,
para nos dilacerarmos
como bestas ferozes.


Mas...
"a morte, o destino, tudo
estava fora de lugar
eu vivo pra consertar"

Mas...
só depende de nós 
vivermos em "liberdade, 
para além da necessidade" 

Mas...
Natal ainda será todo dia
no mundo humanizado
que haveremos de criar!

sábado, 24 de dezembro de 2011

RUY CASTRO E OS RECUERDOS DO 'PASQUIM'

O Ruy Castro me mandou mensagem, surpreso por eu haver lembrado de sua participação no Pasquim, não muito destacada nas obras que evocam o saudoso semanário, representativo de um  jeito carioca de ser  que, infelizmente,  parece não existir mais.

Não menos admirado fiquei eu, por ele haver tomado conhecimento de um texto que postei somente no meu blogue, e até feito comentários.

A busca do Google facilita, claro. Mas, jornalistas e escritores com prestígio no sistema costumam ignorar os articulistas da internet. É alvissareiro que nem todos sejam esnobes...

Eu poderia também haver citado suas ótimas biografias --gosto, em especial, de Estrela Solitária, pois Mané Garrincha foi um personagem incrível--, mas queria reverenciar o espírito  pasquineiro, otimamente expresso no artigo de Ruy Castro sobre o ditador que já foi tarde.

Eis algumas de suas reminiscências do Pasquim que deverão interessar à velha guarda dos leitores deste blogue:
"Embora eu tenha estreado no, se não me engano, no. 7 [quando a redação ainda era na Lapa e muito antes da mudança para Botafogo e da chegada do Sergio Augusto e do Ivan Lessa] e dali colaborado regularmente por algumas semanas seguintes [estou nas chamadas de capa do número mais famoso, o 22, com a entrevista da Leila Diniz], na verdade sempre fui bissexto na colaboração.  
E o motivo é que, exceto por alguns meses de 1969, quando o jornal surgiu, sempre estive empregado em algum lugar, o que não me deixava tempo para escrever. O Pasquim era assim --- tínhamos de estar desempregados para colaborar...
Em 1977, quando fui demitido do Jornal do Brasil, Jaguar e Ziraldo me chamaram e voltei a escrever semanalmente, o que se prolongou até fins de 1978, quando me mudei para São Paulo para ser editor de cultura da IstoÉ.   
Ao contrário do que se pensa, o Pasquim não nasceu com uma fórmula pronta --- mas foi o resultado da cabeça daqueles primeiros que o fizeram, e que vinham da Senhor [Jaguar, Paulo Francis], Pif-Paf [Millôr Fernandos], Última Hora [Tarso de Castro, Luiz Carlos Maciel], Fairplay [Ziraldo, Fortuna], JB [Sergio Cabral, Marta Alencar], Correio da Manhã [eu], Revista Diners [quase todos], publicações que já ousavam um jeito diferente de escrever e apresentar a matéria. Os outros é que, depois que o Pasquim se firmou, começaram a a escrever no  jeito do Pasquim..."

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

MAIS DO QUE UM FELIZ NATAL...

...eu lhes desejo um mundo redimido, no qual os sentimentos solidários, hoje restritos à época natalina, sejam a tônica e não a exceção.

O mundo que os melhores seres humanos estamos tentando construir, nesta luta tão desigual  contra as injustiças e a desumanidade.

O mundo pacificado e pleno que artistas como Paulo César Pinheiro e John Lennon vislumbraram, cumprindo seu papel de antenas da raça.

Um dia nele chegaremos. Ou nossos filhos. Ou nossos netos.

O importante é começarmos a dar os passos certos. 

TOADA BRASILEIRA

Eu fiz com meu trabalho
a vida inteira
uma casinha branca no sertão
de frente prum caminho de palmeira
do lado de nascente e ribeirão
De dia o galo canta na porteira
e a passarada vem comer na mão
e à sombra de uma jabuticabeira
passo a manhã contando uma canção

No almoço uma caninha costumeira
vem do fogão de lenha um cheiro bom
eu como uma comidinha mineira
pra cochilar sob o caramanchão
No fim da tarde um banho na ribeira
deitar na rede e olhar pra essa amplidão
a estrela Dalva é a estrela primeira
e o canto da cigarra é a saudação

De noite vem o perfume da roseira
e a lua tece rendas no portão
eu tenho a paz com minha companheira
mas muita mágoa no meu coração
Por que não ser assim com a Terra inteira
por que uns conseguem e outros, não?
Eu canto uma toada brasileira
pedindo um mundo
assim pros meus irmãos
IMAGINE

Imagine que não existe paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum Inferno abaixo de nós
Acima de nós, apenas o céu

Imagine todas as pessoas
Vivendo para o presente

Imagine se não houvesse nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião também

Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz


Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você se junte nós
E o mundo será como um só

Imagine que não ha posses
Eu me pergunto se você pode
Sem ganância ou fome
Uma irmandade dos homens

Imagine todas as pessoas
Partilhando o mundo

Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só

UMA VISÃO SARCÁSTICA DO STALINISMO DECRÉPITO

O espírito do saudoso Pasquim às vezes reencarna em Ruy Castro, que não era um dos membros mais destacados da equipe mas tinha lá seus momentos.

Sua coluna desta sexta-feira está pra lá de hilária. 

Trata-se de uma excelente lição de como devem ser tratados certos assuntos. Levando o stalinismo decrépito na galhofa, fica mais fácil convivermos com ele sem morrermos de vergonha.

Desta vez, o texto vai na íntegra. Merece.

CHORORÔ EM PYONGYANG 

Ao ver o chororô na Coreia do Norte provocado pela morte do líder Kim Jong-il (1942?-2011), entende-se por que ele era o "General Glorioso que Desceu do Céu", "Estrela Guia do Século 21", "Sol do Futuro Comunista", "Pai da Pátria Socialista", "General Invencível e Eternamente Triunfante", "Perfeita Encarnação da Aparência que um Líder Deve Ter" e "Maior Encarnação do Amor Companheiro Revolucionário". Ou, para os íntimos, "Querido Líder".

Não admira. Seu pai, Kim Il-sung (1912-94) era o "Pai da Nação", "Grande Marechal" e "Divino Guardião do Planeta". E seu sucessor, o filho Kim Jong-un (n. 1981?), mal foi para o trono e já está sendo chamado de "O Grande Sucessor", "Grande Pessoa Nascida no Céu", "Eminente Líder do Exército e do Povo", "Pilar Espiritual" e "Farol da Esperança". A turma gosta de hipérboles.

Desde sábado, chora-se dia e noite, nas casas, nas escolas, nas ruas, sozinho ou em grupo, e ai de quem não estiver com vontade de chorar -seu nome vai para algum caderninho. Locutoras de TV interrompem a leitura do teleprompter para chorar, no que provocam tsunamis de lágrimas de esguicho, como no circo, só que de verdade, em todos os televisores ligados.

E por que não? Há 63 anos, ou desde que a Coreia do Norte existe, seu povo não vê imagens senão as desses líderes, em monumentos, estátuas, painéis, pôsteres, selos, cédulas, retratos oficiais e até pregadas em postes, como os nossos "Jogo tarô e búzios. Trago amor de volta. Mãe Fulana, tel. tal".

Mas não é preciso jogar tarô ou búzios para prever que a ditadura mais atrasada e corrupta do planeta está pela bola sete. Dinastias são como botequins: o pai abre um, o filho o leva à glória e o neto o enterra, porque estudou na Suíça e tem uma certa vergonha de vender pinga no balcão.

VEJA COMO A veja É RANCOROSA E VIL!

Por questão de princípio, não gasto um centavo na aquisição de lixo impresso.

Então, quando a Editora Abril passou a limitar o acesso on line à nauseabunda veja que era assegurado aos assinantes do Uol, só disponibilizando cada edição uma semana depois de entrar em banca, tirei-a de vez do meu dia a dia, com enorme ganho de salubridade.

A única exceção ficou sendo o dia do barbeiro, pois se trata da única opção à Caras que o salão oferece e nunca me interessou o exibicionismo fútil dos ricos e famosos.

Foi assim que, com atraso, tomei conhecimento da página dedicada à memória de Sócrates, com foto enorme e texto pequeno --em todos os sentidos.

A revista nem se preocupou em esconder sua hostilidade ao grande ídolo e extraordinário brasileiro que tombou:
Exposição dos princípios editoriais da veja
"Formado em medicina, gostava mesmo era de falar de política. Ganhou o apelido de Doutor e era chamado a opinar sobre qualquer assunto --ainda que, como pensador, tenha sido um grande jogador. Sócrates sempre fumou muito e bebeu ainda mais... morreu de infecção generalizada, aos 57 anos, horas antes de seu Corinthians conquistar o Campeonato Brasileiro --título que Sócrates nunca ganhou".
A opinião política mais conhecida de Sócrates foi sua apaixonada defesa da eleição direta para presidente da República, tendo discursado em várias manifestações de apoio à Emenda Dante de Oliveira. Não sabia o que falava?

Durante sua brilhante colaboração com a CartaCapital, Sócrates cansou de dar lições de jornalismo e de vida a esses reaças empedernidos e escribas de aluguel da veja, filhotes de Goebbels cuja missão é disseminar a visão fascistizada de mundo.

Assim como o próprio estado de Israel, a editora dos Civita hoje segue fielmente as pegadas nazistas, o que pode ser interpretado como um paradoxo ou como uma ignomínia.

O primeiro chega ao cúmulo de reeditar em Gaza o Gueto de Varsóvia.

E a segunda erigiu em principal princípio editorial a recomendação do ministro de Propaganda do Reich, de repetir uma mentira tantas vezes que acabe sendo tomada como verdade.
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