sábado, 31 de julho de 2010

O FLAMENGO JÁ JULGOU E CONDENOU O GOLEIRO BRUNO

Segundo o vice-presidente jurídico do Flamengo, Rafael de Piro, a demissão por justa causa do goleiro Bruno foi decidida numa reunião que ele manteve neste sábado (31) com a presidente Patrícia Amorim:
“Eu e a presidente nos reunimos e conversamos sobre a demissão de Bruno. Ele vai seguir o parecer da comissão de juristas formada pelo clube, que a orientou a demitir o jogador. A presidente vai assinar a demissão, mas não me disse quando. Pode ser semana que vem ou na outra”.
Parece que tal comissão de juristas esqueceu de uma coisinha de nada:
"Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa".
Uma irrelevância que, sabe-se lá por que, ainda consta do artigo XI da Declaração Universal dos Direitos Humanos...

VIVA LULA!

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente vai interceder junto às autoridades iranianas pela vida de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada, como adúltera, à execução por apedrejamento.

Ele se dispõe até a conceder-lhe asilo no Brasil, conforme declarou neste sábado (31) em Curitiba:

"Se vale a minha amizade com o presidente do Irã e se ela estiver causando incômodo lá, nós a receberemos no Brasil de bom grado".
Prometendo telefonar ao premiê Muhammad Ahmadinejad para discutir o assunto, Lula acrescentou:
"Acho que nada justifica o Estado tirar a vida de alguém. Só Deus pode fazer isso".
Evidentemente, haverá os que depreciarão a atitude de Lula, enxergando motivações mesquinhas por trás do gesto nobre.

No entanto, se isso salvar Sakineh de uma morte horrível, danem-se os críticos!

Já estou cansado daqueles que, com motivações igualmente mesquinhas, mantêm sua oposição raivosa aos mandatários mesmo nas vezes em que eles agem corretamente.

Quando Lula reconheceu em Carlos Marighella e Gregório Bezerra dois heróis nacionais, sua fala deveria ser aplaudida por todos os homens de esquerda deste país.

No entanto, boa parte não disse uma palavra a respeito.

E houve os que se fixaram num aspecto desta vez secundário -- se é melhor reverenciarmos nossos heróis do que tentarmos condenar nossos antigos algozes --, ao invés de aproveitarem para exigir dos brasileiros respeito por quantos sacrificaram a carreira, a liberdade, a integridade física e psicológica, e até mesmo a vida, para que o Brasil saísse de uma bestial ditadura.

Não levaram em conta o quanto uma posição como a expressa por Lula ainda escandaliza e provoca rejeições neste Brasil mesmerizado por uma reacionaríssima indústria cultural.

Torço para que Sakineh viva.

Ficarei muito feliz se ela viver no Brasil.

Pouco me importa quem venha a capitalizar tal feito.

Agradecerei de coração a Lula, se o nó for desatado graças a ele.

Assim como lhe agradecerei quando ele der um fim ao pesadelo de Cesare Battisti.

Porque coloco e sempre colocarei o destino dos seres humanos acima dos interesses políticos.

Estamos conversados.

BAIXARIA COLLORIDA

Fernando Collor continua metido a galo de briga.

Na campanha de 1989, teimou em fazer sua campanha presidencial num subúrbio do Rio de Janeiro onde o brizolismo imperava.

Durante a passeata, mostrava o punho fechado para os manifestantes adversários que o vaiavam e lhe faziam ameaças.

Os ricaços adoraram. Ainda estavam em dúvidas sobre a quem apoiar, mas aí vislumbraram em Collor coragem para enfrentar as forças populares. Não se deram ao trabalho de ler as demais especificações do produto...


Então, não é surpresa que agora tenha reagido como reagiu à publicação de uma notícia sobre a impugnação de sua candidatura ao governo de Alagoas.

"Quando eu lhe encontrar, vai ser para enfiar a mão na sua cara, seu filho da p...", trovejou o senador da República ao jornalista Hugo Marques, da IstoÉ, por telefone.

A Associação Nacional de Jornais divulgou a nota de repúdio de praxe.

É claro que acabará dando em nada.

Também nada acrescenta ao perfil que já tínhamos de Collor. O sinhôzinho do engenho ainda não amadureceu, continua com rompantes de menino mimado.

Então, só me resta recomendar aos colegas mais jovens uma postura alternativa à que eles costumam adotar nesses casos.

Quando fazia revistas de música, no início da década de 1980, li num jornalão que determinado crítico fora entrevistar certo cantor/compositor no quarto de hotel em que estava hospedado.

O dito cujo ficou furibundo com uma pergunta, agarrou o jornalista pelo pescoço, arrastou-o até a porta e o expulsou com um chute no traseiro.

A única reação do fulano, que não aparentava ser mais fraco do que o agressor, foi relatar o episódio numa matéria que ficou ridícula para ambos.

"Olha como o músico é bruto!", esperava ele que os leitores concluíssem.

"Olha como o jornalista é bunda-mole", foi a conclusão seguinte de outros leitores, inclusive eu.

Nunca enfrentara uma situação dessas. Mas, ao ler aquele texto, decidi que o meu papel de jornalista terminaria sempre quando acabasse o respeito.

Tratado como jornalista, responderia como jornalista.

Destratado como homem, reagiria como homem, na mesmíssima altura do insulto ou da agressão.

Nunca me arrependi.

P.S. - A bem da verdade, vale ressalvar que o pontapé no traseiro não saiu no jornal. Quem me contou foi o assessor de imprensa da gravadora que acertara a entrevista...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

UMA REDE DE E PARA QUEM É LOCO POR TI, AMERICA

Logo mais decolarei para Porto Alegre, onde vou participar de mesa-redonda no evento de lançamento do portal da Red Por Ti America, às 16h, na Assembléia Legislativa gaúcha.

Os companheiros que me convidaram são muito cordiais e empolgados, de forma que tenho certeza de passar bons momentos (com direito a uma visita a assentamento do MST) nesse Estado de tantas e tão gloriosas tradições nas lutas políticas e sociais.

Lendo o boletim meteorológico, entretanto, veio-me o temor de que, como da última vez que voei para o RS, já lá vão uns 10 anos, esteja à minha espera um frio de fazer paulista virar picolé.

Seguia no final de uma tarde de domingo e, a cada 10 minutos, o piloto comunicava que a temperatura em Porto Alegre tinha baixado mais um grau. Desembarquei tiritando e, no hotel, tive de pedir cobertor adicional...

Eis como os companheiros da Red apresentam seu trabalho:
"Somos muchos los que, desde nuestros países, nos comunicamos com los compañeros de los países vecinos (incluso com varios países en Europa) y al diário, intercambiamos informaciones sobre la lucha por la integración latinoamericana. Firmamos cartas de apoyo, cartas de repúdio, cartas de adhesión…

"Hemos exigido protección a alcaldes, diputados, presidentes (para compañeros en diferentes actividades y países, marchando por el derecho a la vida, por justicia, por la liberación de presos políticos, por la búsqueda de familiares desaparecidos, compañeros secuestrados, etc…)

"Ya son muchos los Comités, Circulos Bolivarianos, Asociaciones de Solidaridad, Centros Culturales, Redes de Informaciones Nacionales y Internacionales, con quienes intercambiamos informaciones, producimos recolección de firmas, cuadramos actividades en várias ciudades de muchos países de América Latina , Caribe, Europa…

"Les invitamos a todos ustedes, queridos compañeros, a participar de la construcción de una gran Red de comunicación , de producción y apoyo de actividades para fortificar la lucha por la integración de esa nuestra Gran Pátria América".

ECOS DO CASO DREYFUS NA PERSEGUIÇÃO A BATTISTI

"É meu dever: não quero ser cúmplice. Todas as noites eu veria o espectro do inocente que expia, cruelmente torturado, um crime que não cometeu. Por isso me dirijo a vós, gritando a verdade com toda a força da minha rebelião de homem honrado." (Emile Zola, carta ao presidente Felix Paure)
Já lá se vão mais de 30 anos desde os episódios atribuídos a Cesare Battisti. O que ficou insofismavelmente estabelecido -- inclusive na brilhante justificativa do ex-ministro Tarso Genro ao lhe conceder refúgio humanitário -- foi o clima de caça às bruxas em que transcorreram os julgamentos dos ativistas da ultra-esquerda italiana na década de 1970, semelhante ao período macartista nos EUA, atropelando o direito de defesa dos acusados.

Em qualquer outra circunstância, é universalmente respeitada e acatada a autoridade do pensador Norberto Bobbio, expoente maior da Filosofia do Direito. No entanto, italianos rancososos e quinta-colunas brasileiros insistiram em negar a verdade histórica de que o assassinato do político democrata-cristão Aldo Moro foi o ponto de partida para um festival de aberrações jurídicas, assim resumido por Bobbio:
- A magistratura italiana foi então dotada de todo um arsenal de poderes de polícia e de leis de exceção: a invenção de novos delitos como a "associação criminal terrorista e de subversão da ordem constitucional" (...) veio se somar e redobrar as numerosas infrações já existentes – "associação subversiva", "quadrilha armada", "insurreição armada contra os poderes do Estado" etc. Ora, esta dilatação da qualificação penal dos fatos garantia toda uma estratégia de "arrastão judiciário" a permitir o encarceramento com base em simples hipóteses, e isto para detenções preventivas, permitidas (...) por uma duração máxima de dez anos e oito meses.
Quem, como Mino Carta e Walter Maierovitch, garante que nada havia de arbitrário na legislação caracteristicamente de exceção que a Itália introduziu para julgar os ultras, deveria passar dez anos e oito meses mofando numa masmorra, sem ter sido condenado, apenas porque o Estado o acusou de um crime!

E foi "com base em simples hipóteses" que Battisti recebeu a pena máxima: a hipótese de que as palavrsa de um delator premiado e outros interessados nos favores da justiça italiana fossem confiáveis. Julgado à revelia, não pôde sequer contrapor-lhes a própria palavra. E acabou condenado à prisão perpétua, mediante o enquadramento numa lei inexistente quando ocorreram os crimes que depois foram atirados nas suas costas.

Daí os paralelos que brilhantes intelectuais europeus traçaram com o Caso Dreyfus, tão injustiçado por ser judeu quanto Battisti foi injustiçado por haver integrado as fileiras dos ultras.

Pois é este o pano de fundo sobre o qual se projetou a atuação de vários atores políticos neste caso, começando pelo presidente italiano Giorgio Napolitano, que pertencia ao Partido Comunista Italiano quando este, aliado à democracia-cristã, avalizou todos os excessos cometidos contra os radicais de esquerda.

É uma briga de família -- sempre as mais exacerbadas!

Durante a onda contestatória do final da década de 1960, a esquerda ortodoxa tomou o partido da ordem, ajudando a abortar a nova forma de revolução que estava nas ruas. O episódio mais conspícuo foi o da Primavera de Paris, em que jovens proletários somaram forças com os estudantes rebelados e os quadros do Partido Comunista Francês tudo fizeram para a derrota de ambos, agindo como sustentáculos de De Gaulle.

Inconformados com o que consideraram uma traição à causa, cometida em maior ou menor escala pelos partidos comunistas, muitos esquerdistas concluíram que a revolução se tornara impossível nos quadros da democracia burguesa, resolvendo então recorrer à ação direta.

Só na Itália, ao longo da década de 1970, cerca de 500 grupúsculos encarnaram essa opção. E, por se colocarem frontalmente contra o compromisso histórico firmado pelo PCI, foram por este combatidos como o pior dos inimigos.

Valia tudo para erradicar o mau exemplo, pois o que estava em jogo, para os comunistas italianos, era sua própria identidade como força integrante do campo da esquerda, negada pelos ultras. Urgia tirá-los de cena, e foi o que o PCI fez, mancomunado com a direita italiana.

Essa aliança espúria repercute até hoje, na ênfase desmedida que os italianos deram a um episódio secundário.

Battisti era apenas o integrante de um desses 500 grupúsculos, sem nenhuma participação em episódios realmente marcantes. Só que, com seu êxito literário, deixou de ser um foragido anônimo e se tornou uma ameaça para quantos querem manter a sujeira do passado escondida sob os tapetes:
"Estou passando por isso porque falei muito, escrevi e contei sobre os anos de chumbo. Isso na Itália é um buraco negro, não se sabe de nada. O país lida mal com seu passado. Eles não aceitaram um romancista escrevendo sobre aqueles anos".
É como último símbolo do martírio desatinado dos ultras que o fanfarrão Berlusconi, sempre ávido por holofotes, fez de Battisti seu alvo.

E é como testemunha viva da torpeza outrora consentida pela esquerda ortodoxa, pesando até hoje em sua (má) consciência, que o patético Napolitano lhe serviu de escudeiro na perseguição a Battisti.

A aliança espúria, ontem e hoje.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

CIVILIZADOS NÃO PODEM SER CONIVENTES COM A BARBÁRIE

O companheiro Carlos Lungarzo, da Anistia Internacional, conclamou os brasileiros a também se posicionarem contra os crimes abomináveis que são perpetrados pelo estado teocrático do Irã, excrescência medieval sem lugar no século XXI.

Referindo-se à condenação à morte de duas mulheres, uma por adultério (!), outra por inimizade com Deus (!!), Lungarzo disse o óbvio: trata-se de "duas condutas de estrita índole pessoal, cuja punição no Ocidente pertence aos períodos mais bárbaros e selvagens da história, mas que são considerados 'normais' na teocracia iraniana e em algumas outras".

O caso que comoveu a opinião pública internacional é o da primeira, Sakineh Mohammadi Ashtiani. Ela já recebeu 99 chibatadas e deverá ser apedrejada até a morte se as pessoas civilizadas do planeta não conseguirem impedir tal chacina.

Espantosamente, ainda existem defensores da integridade das culturas primitivas, segundo os quais elas se desintegrarão caso impeçamos que imponham sofrimentos inenarráveis a outros seres humanos, pratiquem o canibalismo, etc.

Mas, se absolvermos as práticas hediondas quando têm lugar nos agrupamentos que estacionaram em estágios há muito superados pela marcha da civilização, seremos obrigados, por coerência, a fazer o mesmo com indivíduos que, mesmo vivendo em países ditos civilizados, continuam relegados à mais extrema miséria e à mais crassa ignorância, só conhecendo os direitos da força e a
lei do cão.

Não, mil vezes não! Em casos como o de Sakineh, omitir-se é ser cúmplice. Não há desculpa para um ser humano olhar para outro lado enquanto uma mulher sofre uma morte tão terrível em decorrência do moralismo mais rançoso, boçal e infame, bem como do fanatismo mais ensandecido e cruel.

Vou além: o mesmo se aplica aos executados por participarem de meras manifestações pacíficas contra uma fraude eleitoral.

São práticas nas quais nenhum país deveria jamais reincidir, depois que elas foram condenadas e punidas exemplarmente no julgamento de Nuremberg.

Então, só tenho a lamentar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva haja respondido de maneira tão equivocada quando lhe perguntaram se intercederia por Sakineh:
"As pessoas têm leis, as pessoas têm regras, as pessoas, sabe... Se começam a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, vira uma avacalhação".
Não há conciliação possível com a barbárie. Só conivência.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

FRASE DO DIA

Gueto de Varsóvia:
para nossa vergonha
e opróbrio, qualquer
semelhança NÃO é
mera coincidência...






"A situação em Gaza precisa mudar. Não se pode
permitir que continue um campo de prisioneiros."

(David Cameron, premiê britânico)

MÁQUINA DE FAZER DOIDO

Respondendo ao Data Folha, 65% dos entrevistados afirmaram que a TV é sua mídia preferida para obter informações sobre os candidatos às próximas eleições. Na sequência vêm jornais (12%), internet (7%), rádio (7%) e conversas com amigos ou familiares (6%).

Ai de nós! Está explicado porque a campanha é direcionada para quem tem QI negativo: trata-se do mesmíssimo público das telenovelas...

O HUMOR POLÍTICO NÃO SUBVERTERÁ MAIS NOSSO REICH!

Leio que os programas humorísticos da TV estão terminantemente proibidos de ridicularizar os ridículos candidatos às ridículas eleições que se avizinham, por uma resolução que não é ridícula, mas sim sinistra, do Tribunal Superior Eleitoral.

Virou caso de polícia qualquer fala ou cena que "degrade ou ridicularize candidato, partido político ou coligação".

Assim, ai de quem criticar o amado Führer, o ministro da propaganda Goebbels, o grande arquiteto Speer, nosso marechal de campo Goering ou qualquer outro luminar do nosso Reich de mil anos! Irá para os campos de concentração, fazer companhia aos judeus e aos ciganos...

Nunca mais alguém poderá dizer que um nobre líder ariano como Jânio Quadros era mais feio ainda por dentro do que por fora.

Nem fazer musiquinhas zombeteiras, como a de um tal Juca Chaves que, apesar do nome, deve ter algum sangue de raça inferior misturado, pois ousava se referir ao führer de então como
presidente bossa nova e insinuar uma rima chula para o sobrenome do cidadão Lacerda.

A ordem foi dada e será obedecida, doa a quem doer. Heil, Hitler!

terça-feira, 27 de julho de 2010

PRESIDENTE DA FERRARI JUSTIFICA FRAUDE

O papel dos brasileiros, na Ferrari,
é guardar o lugar para os europeus...

Depois de seus paus mandados tentarem estoicamente sustentar a cascata de que o piloto Felipe Massa não teria facilitado a ultrapassagem de Fernando Alonso no GP alemão de Fórmula Um do último domingo, o presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, abriu o jogo: foi mesmo armação da equipe e os que criticam tal atitude não passam de hipócritas.

Comprovando que o imoralismo assumido e ostentado virou característica nacional na melancólica
Era Berlusconi, Montezemolo soltou o verbo:
"Essas coisas acontecem desde os tempos de [Tazio] Nuvolari e eu mesmo passei por essa experiência quando era diretor esportivo (...). Portanto, chega de hipocrisia. Algumas pessoas podem gostar de ver nossos pilotos eliminando um ao outro, mas este não é definitivamente meu caso e de nossos torcedores".
É mais um afeto que se encerra para muitos aficionados do esporte, que inundaram as seções de cartas dos jornais com declarações de que não assistiriam mais à F-1.

O capitalismo tem o toque de Midas ao contrário: transforma ouro em fezes.

Falei sobre isso no caso do futebol. A submissão dos valores esportivos à fria lógica capitalista impede até que a competição suprema, o Mundial Fifa de Seleções, tenha um campeão de verdade, quando os finalistas empatam na partida normal e também na prorrogação.

Antigamente se disputava novo jogo, dias depois. Hoje, parte-se para a loteria dos pênaltis, paliativo abastardado que propicia injustiças como a conquista italiana de 2006, quando a França reunia muito mais méritos.

Quanto à F-1, por que, afinal, as equipes não se contentam em priorizar o título de fabricantes, deixando os pilotos competirem lealmente pela glória de melhor do mundo?

Porque o ser humano é fascinado pelo ser humano.

Então, para o torcedor o que importa é a vitória do piloto, não a da escuderia.

Vai daí que os interesses econômicos que gravitam em torno da F-1 têm, como principal meta, produzir o campeão da temporada.

E, neste afã, passam como um rolo compressor sobre a ética esportiva... de forma tão destrambelhada que acabam matando a galinha dos ovos de ouro, como fizeram em Hockenheim.

LUNGARZO DETONA NOVA FALÁCIA CONTRA BATTISTI

Embora haja arrogância de imperador entre os

linchadores de Battisti, sua faina cada vez mais
faz lembrar o
Incrível Exército Brancaleone...



Da mesma forma que a CartaCapital insiste em tentar impingir a brasileiros as falácias italianas a respeito do escritor e perseguido político Cesare Battisti, eu e o bravo companheiro Carlos Lungarzo, da Anistia Internacional, continuamos a reduzi-las a pó de traque, em nome do espírito de justiça, da dignidade e da soberania nacional.

Assim, a nova investida de Walter Maierovitch, escudeiro do Mino Carta, acaba como todas os anteriores: por mais que ele e seu cavaleiro da triste figura insistam em que os moinhos de vento são dragões, as pessoas conscientes e ponderadas continuam vendo apenas moinhos.

Segue a íntegra do artigo demolidor de Carlos Lungarzo.

CASO BATTISTI: 'VENDETTAS' SEM FÉRIAS

Nos últimos meses, a grande imprensa deu algum sossego à campanha de difamação e ódio contra o escritor italiano Cesare Battisti. A Folha de S. Paulo chegou a abrir sua frequentada sessão Tendências/Debates a Luís Barroso, um dos advogados defensores. Uma exceção é uma revista de atualidade muito lida por executivos, empresários e classe média fascistoide, cujo conteúdo prima pela grosseria, a injúria, e a agressão procaz.

Há outra exceção, mas esta não pertence à grande mídia, nem faz parte do chamado Partido da Imprensa Golpista. É uma revista de média circulação, que apoia o governo, e representa os interesses dos empresariados nacionalistas. Um número significativo de intelectuais tem considerado esta publicação como um órgão de centro-esquerda, e se sentiram traídos quando a revista empreendeu uma campanha obsessiva contra Cesare Battisti, não poupando seus amigos, seus defensores, e até aos indiferentes.

Esse órgão continua no ataque, e esta semana apresentou uma matéria reforçando suas já recorrentes acusações contra o romancista latino. A causa de me referir a isto não é prazer masoquista, mas o fato de que as antigas acusações encontraram uma fonte nova. Desta vez, as velhas histórias estão temperadas com as fofocas sobre Cesare escritas por um apresentador italiano de rádio e TV. Ele se chama Giuseppe Cruciani, e sua fabricação da história de Battisti foi compilada no livro Os Amigos do Terrorista, que ainda não foi traduzido, talvez porque a Embaixada Italiana no Brasil desistiu de gastar dinheiro.

Não posso colocar scans desse livro em meu site, porque está protegido por direitos autorais, mas você talvez se arrependa de comprá-lo, gastando 15 euros mais o frete. Não quero analisar o livro todo, senão apenas a matéria dessa revista progressista, cujos editores tiraram alguns fragmentos do livro para se inspirar. [Nem revista nem o autor do artigo são relevantes.]

O livro de Giuseppe Cruciani

Giuseppe Cruciani (n. 1966) é um jornalista romano, apresentador de rádio e televisão, que se ocupa de assuntos gerais e mantém diálogos com telespectadores. Seus programas tanto por rádio como em TV, são semelhantes a alguns programadas de rádio no Brasil, nos quais o apresentador atende perguntas da audiência sobre coisas diversas: futebol, sexo, política, etc.

Mas, não há um programa idêntico na TV brasileira. O mais parecido a Cruciani, numa versão muito menos educada, poderia ser o jornalista José Luiz Datena. Creio que dificilmente algum leitor consiga imaginar Datena escrevendo um livro sobre um complexo assunto jurídico que envolve delicadas questões históricas e políticas.

Num país onde é surpreendente que um membro da mídia não seja de direita, Cruciani foi acusado de ser incondicional do premiê, mas ele se defendeu dizendo: “Qualquer um que não diga que Berlusconi é um monstro é rotulado dessa maneira” (vide). Seu livro foi publicado pela Sperling-Kupfer, um ramo da editora Mondadori, que, por sua vez, é controlada pela holding Fininvest, da família Berlusconi, que ganhou o controle da editora após uma sentença contra Carlo de Benedetti, em 1991, num escândalo de propinas e subornos.

O livro de Cruciani é um acúmulo de anedotas, alinhavadas por uma trama que lembra, numa qualidade infinitamente menor, as narrações históricas de John Forsyth. (Quem leia isto, não pense que vai obter a mesma emoção que lendo O Dossiê Odessa, por exemplo.) As anedotas não apenas visam mostrar uma imagem maniqueísta de Battisti, pintado como um sujeito diabólico, no estilo Bin Laden, como também denegrir alguns (os mais conhecidos) dos milhares de intelectuais, artistas, jornalistas e políticos prestigiosos franceses e italianos que apoiaram Battisti Cesare entre 1990 e 2005, e os brasileiros a partir de 2007.

Não é difícil perceber que o livro tem o forte toque racista e (para usar um termo vulgar) invejoso, que sempre opôs os grupos semibárbaros da direita italiana à França em geral e, em particular, à esquerda. Tampouco os mais conhecidos amigos de Battisti no Brasil se salvam da ira de Cruciani, que parece mais misericordioso conosco: porque, se os franceses são arrogantes e vaidosos, nós somos um país de miseráveis e bandidos que só pode ser tratado com desprezo.

Na matéria que estou analisando, se mencionam algumas poucas das numerosas descobertas de Cruciani. Vou referir-me apenas a essa matéria, e se for necessário, deixo para o futuro o resto do livro, embora haja muitos que entendem que não vale a pena.

O caso de Saviano

Cruciani revela. com grande alvoroço, que Roberto Saviano, jovem autor do livro Gomorra sobre a máfia napolitana (Camorra), que inicialmente tinha assinado um manifesto em favor de Battisti, retirou recentemente sua assinatura, aduzindo que ele assinara sem conhecer quem era o imputado e porque foi pressionado por amigos. E daí? Por que é tão importante que Saviano se tenha arrependido e agora “apoie as vítimas de Battisti”?

Aceitar um critério de autoridade (isto é bom porque o mestre disse) saiu da moda já em 1789, e hoje só é sustentado por fanáticos incapazes de pensar, sejam fundamentalistas católicos, xiitas ou stalinistas. Mas, se acreditarmos realmente que é possível aceitar critérios de autoridades balançados por dados reais, e levar em conta a opinião de pessoas tidas por esclarecidas, devemos pensar o que significa este simpático garoto (que escreveu, com muita coragem, uma denúncia da Camorra), comparado com os grandes escritores que apoiaram Cesare.

Só para dar os exemplos mais importantes: temos Fred Vargas, que além de ser a mais lida e traduzida romancista da França atual, é arqueóloga e historiadora; Valerio Evangelista e Roberto Bui, ambos italianos, a celebérrima Jeanne Moreau, que fez mais feliz a adolescência da minha geração, e muitos outros. E, como broche de ouro: Quantos Savianos cabem num Gabriel Garcia Márquez? [Bom, esta última comparação foi covardia da minha parte.]

O caso de Guido Rossa

O articulista da revista brasileira menciona (como também fez em muitos outros locais), o sindicalista Guido Rossa, que foi executado por membros das Brigadas Vermelhas.

Guido Rossa (1934-1979) foi membro da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) e representante sindical na siderúrgica IItalsider de Cornigliano, uma vila de Genova. Ele devia ter algum posto distinguido, pois era conhecido como figura de destaque no principal clube de alpinismo e era quase impossível que um operário médio pudesse financiar esportes como alpinismo e fotografia naquela época.

Em outubro de 1978, Rossa viu Francesco Berardi, um operário do mínimo escalão, que tentava distribuir panfletos num local da empresa. Ações como estas durante a ditadura brasileira foram amiúde ignoradas ou punidas com alguns dias de detenção em delegacias. Mas, na Bela Democracia, a coisa foi diferente.

Sabe-se pouco de Berardi, estigmatizado por jornalistas e intelectuais do sistema. Em mais de 1300 documentos sobre Rossa, Berardi é descrito como títere da esquerda, fraco, miserável, analfabeto e marginal. Também é injuriado por sua condição de operário não qualificado, um insulto esquisito em membros de um partido comunista, que se gabava de defender as classes exploradas. Só sabemos que chegou a Genova no começo da década de 50, que tinha pertencido à Luta Contínua, e que nunca militou nas Brigadas Vermelhas. Mas, para enlamear sua memória, é qualificado às vezes de brigadista.

Quando Rossa viu Berardi colocando os panfletos perto do bebedouro, este tentou fugir com natural medo de ser delatado. Guido foi mais rápido e o fez deter pela guarda da fábrica. Conduzido à justiça, onde foi indiciado por distribuir propaganda terrorista (o texto dos volantes não aparece nas crônicas sobre o caso), foi condenado a 4 anos e 6 meses de prisão especial (especial quer dizer isolamento e tortura). Rossa levou seu deduração a todos os limites, e confirmou o crime de Berardi na polícia e nos juizados. Tempo depois, a polícia declarou que Berardi tinha cometido suicídio, mas uma pesquisa pedida por organismos de Direitos Humanos foi impedida.

As Brigadas Vermelhas pensaram vingar Berardi, apesar de ser um simpatizante sem nenhuma militância. Houve muita discussão porque, apesar da repugnância que inspirava o Partido Comunista em seu papel de alcaguete, todos respeitavam o legado histórico do antigo comunismo, cuja tradição revolucionária continuava viva em alguns países da América Latina.

Decidiu-se aplicar de novo uma praxe absurda dos grupos armados: ferir levemente o delator como advertência. Rossa foi emboscado por dois brigadistas, mas a tensão levou um deles a disparar um tiro mortal. A autopsia encontrou projéteis nas pernas, mas apenas um no coração. Apesar disso, Vincenzo Guagliardo, responsável só pelas feridas leves estava ainda preso em 2008, ou seja, 31 anos após o atentado. Membros da Brigadas que não tinham participado no crime também foram condenados a penas draconianas.

Na matéria da revista que comentamos, distorcem-se vários fatos: (1) Oculta-se totalmente o caráter de delator de Rossa, que não apenas passava informação aos patrões, mas perseguia os membros da esquerda até conseguir sua prisão.(2) Sonega-se que tinha um altíssimo nível de vida, incompatível com o melhor salário de operário. (3) Oculta-se que foi morto pelas Brigadas, e não pelos PAC, que nunca foram processados por isso, nem mesmo acusados, apesar do acúmulo de culpas que a justiça italiana colocou sobre eles. (4) Distorce-se a autoria do ataque, que não foi feito pela Prima Linea, como diz o libelo, mas pelas Brigadas, cuja estrutura autoritária e militarista, própria da esquerda católica, era repudiada pelos outros grupos. (5) Omite-se o dado importante de que as Brigadas não tencionavam matar Rossa, mas apenas feri-lo, o que, sem dúvida, é uma aberração, mas de menor tamanho.

Há algumas semanas, em outra das recorrentes citações de Rossa por parte do libelista, eu escrevi um e-mail perguntando: “Você atribui a Battisti a morte de Rossa?”. Um auxiliar dele me respondeu: “Não, imagina, ninguém disse isso. Apenas mencionamos o assunto, porque o assassinato dele e parecido aos que cometeu Battisti!”.

Parecido? Os crimes que se atribuem a Battisti tiveram como vítima dois policiais e dois empresários. Qual é a analogia com a morte de um sindicalista? Por que não incluir o nome de Rossa, então, em qualquer outro anúncio fúnebre?

Se quiser ver uma matéria redigida na Itália, e que não é de esquerda (pelo contrário, seus autores elogiam Rossa), veja isto. Neste texto, você pode ver, entre outras coisas, que é falso que o assassinato de Rossa fosse executado por Prima Linea; eles deixam claro que foram as Brigadas. Informação adicional pode ser vista no blog de nada menos que Luciano Violante, um magistrado italiano que já foi deputado pelo stalinismo, e um dos mais acérrimos inimigos da esquerda. Por que ele preferiria culpar as Brigadas e não Prima Linea, sendo que esta tinha alojado ex membros do PAC?

Se você quiser escolher e gerar sua própria opinião dentre mais de 2.000 artigos sobre Rossa, veja aqui. Acredito que fica claro que esta história de Prima Linea como assassina de Rossa (que aparece em todos os artigos do libelista sobre o tema) tem por objetivo vincular esse crime com uma organização que parece ter relação com os PAC e, ao mesmo tempo, criar um sentimento subliminar de que Battisti colaborou nesse crime.

Eu acho interessante o caso Rossa porque mostra de que maneira é manipulada a informação para sujar o máximo possível a imagem de Battisti.

O libelista disse que Rossa era o Lula da época. Independentemente de apreciações políticas (que não são relevantes à minha atividade), Lula é conhecido como uma pessoa que sempre foi leal a seus companheiros. Compará-lo com um delator é ofensivo.

O caso de Pietro Mutti

Cruciani, em seu livro, e o autor da matéria comentada, enfatizam a mentira de que Battisti fosse condenado pelo único delator, Pietro Mutti, e que também é falso que tenha sido premiado com a liberdade.

Eventualmente, algumas pessoas do círculo de apoio a Battisti mencionam apenas Mutti, porque foi o mais importante, e quem inventou junto com os promotores toda a armação. Mas não negamos que houve outros. Dissemos e comprovamos com citações das sentenças, que os delatores foram vários, sendo Mutti o principal. Os outros delatores foram Sante Fatone e Maria Cecília Barbetta, cujos testemunhos foram corroborados por outros que também estavam presos e precisavam descontos nas suas penalidades. Por exemplo, Tirelli, e possivelmente Memeo e Grimaldi.

Pessoalmente, penso que houve entre 6 e 8 delatores e não apenas um. Então, concordo com o libelista do magazine: não foi apenas Mutti. O que nós afirmamos é que não houve nenhuma testemunha, objetiva, isenta, presencial, documentada, etc. Será que o libelista pode dar algum exemplo?

Também não dissemos que Mutti ganhou a liberdade. Ele teve sua pena de prisão perpétua comutada a oito anos. Calculando que sua expectativa de sobrevida na época fosse de 48 anos (tinha uns 27 ou 28, e chegar aos 80 anos na Europa não é excepcional), ele teve uma redução de 80% (4/5). Estão achando pouco?

As garantias de Battisti

O libelista cita os processos originais contra Battisti, como provas de que ele esteve bem defendido e teve todas as garantias. Em meu site, pode encontrar-se a totalidade dos documentos que a Itália liberou ao público, e alguns que pude obter por via de contatos. Talvez o libelista e o escritor Cruciani tenham outros documentos, que a justiça italiana lhes confiou sigilosamente, quem sabe? Seja como for, esses documentos não podem ser aduzidos como provas se não foram divulgados. O que se conhece publicamente é:
  1. Mais de 400 intelectuais e políticos franceses protestaram várias vezes pela inusitada cumplicidade de Chirac com o governo italiano, em troca de vantagens econômicas, o que constitui um grande motivo de vergonha para a brilhante cultura francesa, tão rica em libertários e iluministas. A Liga dos Direitos do Homem, a mais antiga organização de DH fundada no século 19, enviou duas cartas às autoridades brasileiras.
  2. A organização Antígone, a mais importante OGN de DH de prisioneiros (políticos ou comuns) que opera na Itália, enviou em novembro de 2009, uma nota ao presidente Lula, advertindo sobre o péssimo estado das garantias individuais no estado italiano.
  3. Os advogados de Battisti, Pellaza e Fuga, que já tinham intervindo num julgamento anterior, não foram autorizados pelo réu para representá-lo. As procurações foram falsificadas como denunciou Fred Vargas numerosas vezes, sem obter a menor atenção do Supremo Tribunal Federal do Brasil nem da mídia.
  4. Argumenta-se que o processo de Battisti foi analisado por mais de 60 juízes togados, e o libelista acusa de caraduras e de outras obscenidades aos que não leram os autos nem atentaram para esse aspecto. De fato, é verdade que foram muitos os que aparecem mencionados na sentença de 1988, mas não sabemos quem redigiu o relatório, e o único protagonista do caso Battisti que mostra frequentemente as caras é Armando Spataro. Não é evidente, mas um raciocínio detalhado mostra que o discurso de Spataro é contraditório, embora possa ter, sem dúvida, algumas afirmações verdadeiras.
  5. A displicência da Corte Europeia de DH no caso Battisti não é um argumento que mostre que foi desprezado porque ele era culpado. Talvez isso fosse sensato, se essa corte estivesse muito preocupada realmente com a defesa dos cidadãos. Já em 2008, a Corte arquivava cerca de 95% dos processos sem tê-los monitorado. [1.543 casos atendidos sobre cerca de 32 mil ignorados.] Os únicos casos que funcionam nessa Corte são os que têm grande repercussão como foi o dos crucifixos em locais públicos da Itália. Textos do próprio Conselho da Europa se referem com alarma a esta irregularidade. [vide]
Os Crimes

Cruciani e o libelista reiteram o que a justiça italiana já afirmou milhares de vezes: que Santoro e Campagna foram assassinados por Battisti.

No relatório da sentença do processo concluído em sua primeira instância em 1981 se deixa claro que Mutti foi o executor de Santoro, secundado por uma menina e com a cumplicidade de duas pessoas que guiavam o carro. Não se fala em absoluto de Battisti. Sugiro que o leitor se informe neste documento.

O caso de Campagna se atribui a Memeo, um membro da organização famoso por ter sido fotografado numa passeata com uma arma na mão. Ele e Mutti eram conhecidos por especial inclinação à violência. Na época (1979), ainda não existia nenhum interesse em culpar Battisti, pois os promotores não tinham pensado nas vantagens de ter um bode expiatório para todos os crimes. Portanto, os jornais da época, alguns dos quais o leitor pode encontrar na Internet, reproduzem a notícia assertivamente. Veja especialmente Corriere della Sera e Repubblica. Quem tiver acesso aos jornais italianos em papel, pode ver também Il Giornale e muitos outros diários menos famosos, porém todos eles comerciais e sem interesse partidário.

O caso de Sabbadin e o de Torregiani já foi discutido ad nauseam e polemizar sobre ele seria fazer o papel de ingênuo, o que não me parece respeitoso com o leitor.

A transferência das culpas a Battisti aconteceu em 1982, quando Mutti e os promotores decidiram colocar todos os crimes dos PAC numa única pessoa. O leitor pode ver que a sentença de 1988, que possui mais de 700 fólios, é muito confusa ao se referir a Mutti. Não se menciona que os crimes eram atribuídos, antes, a outras pessoas. Também aparecem muitos e redundantes elogios a Mutti, que, por sua condição de ultraesquerdista violento não deveria merecer, supomos, tanta simpatia dos juízes.

Uma leitura atenta (o que pode ser muito cansativo, mas a verdade exige esforço) mostra que a sentença de 88 foi forjada, pois é rica em inconsistências. O que não está provado fisicamente, embora existam alguns testemunhos de ativistas da época, é que Mutti tenha recebido dinheiro, mas nunca usamos esse argumento, justamente por não ser apodictico. Quanto a sua condição de delator, é reconhecida pela própria Itália, sob o eufemismo de pentito.

O Caso Barbetta

Maria Cecília Barbetta é uma jovem que estudava filosofia e entrou no PAC, como aconteceu em outros países com muitos estudantes de humanidades. Ela é atualmente professora em Verona, mas recusou conversar com qualquer contato nosso na Itália. Tanto a justiça, como Cruciani, como o STF brasileiro, como centenas de interessados na execução de Battisti, repetem uma declaração que ela fez em Milão em 1982, dizendo que Battisti lhe tinha confessado que tinha matado Santoro.

Qual é a validade dessa informação? Segundo os autos, Maria Cecília disse que ele lhe contou como era a sensação de ver sangue correndo, ou coisa semelhante. Se eu dissesse a alguém de minha intimidade que participei do atentado de 11 de setembro, seria levado a sério? Pode parecer ridículo que me detenha neste argumento absurdo, mas o caso de Barbetta foi citado digamos mais de 200 vezes, pelos mais variados panfleteiros.

O caso de Giacomini

O libelista cita como amostra de canalhice dos PAC que Giacomini tinha dito que eles consideravam o roubo como um método legítimo para pessoas que tinham sido privadas pela burguesia do direito de trabalhar. Qual é a novidade? Já os socialistas utópicos, em 1850, diziam que a propriedade privada era roubo. O direito a roubar dos ricos pelos pobres foi o motor da lenda de Robin Hood, que, mesmo que seja imaginária, reflete o espírito da época, e aquela fábula surgiu há mais de 3 séculos, pelo menos.

Ou seja, a ideia de que existe uma grande injustiça social e que a pessoa que rouba para sua subsistência apenas está reequilibrando as relações sociais, é tão velha como a sociedade de classes. Hoje em dia, há numerosos sociólogos, especialmente de países avançados, como a França, que defendem este ponto de vista. Ele também está implícito em alguém tão conhecido como Foucault, que coloca em juízo todo o sistema punitivo e prisional, e não apenas a punição de presos comuns.

Enfim, o caso Battisti está cheio de declarações e interpretações que se multiplicaram durante estes dois últimos anos, de maneira proporcional à vontade de Itália de investir em sua condenação. Essa vontade parece ter piorado. O serviço secreto de exército já perdeu em 2004 a soma de 2 milhões de Euros, ao encomendar o sequestro de Battisti, Loiacono e outro ex-ativista, a um grupo paramilitar neofascista. Os criminosos não fizeram nada, afinal, porque, como toda gangue, queriam mais dinheiro.

Vale também salientar que o ex embaixador no Brasil, Michel Valensisi, foi afastado do país e destinado a outra embaixada, em meados do 2009, quando se descobriu que tinha recebido uma pessoa do círculo de defesa de Cesare Battisti. A demora da decisão do presidente Lula no caso de Cesare preocupa a todos nós, mas há algo que preocupa ainda mais aos linchadores: o presidente não está disposto a entregar carniça aos abutres. Se quisesse, teria tido numerosas oportunidades para fazer isso desde dezembro de 2008, ganhando o aplauso da cúpula do STF e de milhares de neofascistas.

Daí que ainda existam essas fofocas histéricas tanto na Itália como no Brasil. É bom perceber, porém, que eles não confiam muito em sua vitória, e seus uivos são cada vez menores. O mesmo Cruciani respondeu a um jornalista italiano, quando lhe foi perguntado se ele acreditava na extradição de Battisti:
- Io non credo.
Nota Final

É interessante constatar que tal matéria está postada num dos sites do Ministério de Relações Exteriores, que sempre trabalhou pela extradição de Battisti, e por todas as causas reacionárias que estivessem por perto.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

CHÁVEZ ÀS FARC: SAIAM DA LUTA ARMADA!

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são um grupo guerrilheiro que teimou em continuar atuante após o término do ciclo das ditaduras militares sul-americanas e sua contrapartida, a opção das esquerdas pela via armada de libertação.

Pior: as Farc descaracterizaram-se como defensoras de valores nobres, ao estabelecerem relações promíscuas com o narcotráfico e ao criarem a indústria de seqüestros.


Uma prática tão vil e desumana só podia ser relevada no caso da troca dos reféns por presos políticos, ou seja, como alternativa extrema aos assassinatos e torturas a que estavam sujeitos os resistentes nas garras de regimes despóticos. Sua generalização como fonte de recursos financeiros e instrumento de chantagem política é inadmissível para quem foi formado na tradição marxista.


Os três parágrafos acima hoje talvez não encontrem mais tanta rejeição entre homens de esquerda. Mas, no início de março de 2008, fez desabar o mundo virtual na minha cabeça. Foi o primeiro dos rolos compressores que enfrentei em minha atuação na internet -- e o mais virulento deles.

O artigo em questão -- A guerra dos esfarrapados -- foi uma resposta à insanidade de esquerdistas brasileiros que pregavam uma guerra entre Equador e Colômbia, como resposta ao bombardeio colombiano que matou integrantes das Farc em território equatoriano.

Não via nem vejo motivos para revolucionários açularem conflitos bélicos entre nações; acabam sempre sendo matadouros de coitadezas que nem sequer sabem direito por que estão lutando. Não é na ponta das baionetas que espalhamos nossos ideais pelo mundo.

A grita contra a Colômbia veio acompanhada por um absurdo endeusamento das Farc, do qual só eu e o companheiro Ivan Seixas tivemos coragem de divergir.

O Ivan qualificou as Farc de uma guerrilha que ficara tempo demais na selva, acabando por esquecer o que estava fazendo lá, além de lembrar a regra de ouro da luta armada brasileira acerca de sequestros: vida só se troca por vida.

Ou seja, trata-se de uma opção que um combatente revolucionário só faz em circunstâncias extremas, para garantir a integridade física e evitar a execução de militantes encarcerados.

Reforcei:
"Embora fosse mais fácil obter recursos financeiros para nossa luta por meio de sequestros com objetivos pecuniários, considerávamos tal prática indigna e preferíamos correr riscos bem maiores expropriando bancos".
Embora não fosse minha intenção falar com tamanha franqueza, a enxurrada de críticas despropositadas, tendenciosas e demagógicas, levou-me a colocar de vez os pingos nos ii, em Os homens unidimensionais ditos de esquerda:
"Seqüestrar centenas de pessoas para obter resgates e fazer chantagem é atitude de bandidos, não de revolucionários. Quem se propõe a conduzir a humanidade para um estágio superior de civilização não pode, jamais, sob justificativa nenhuma, incidir em práticas hediondas!"
E, aos que qualificavam minha postura de moralismo pequeno-burguês, ao mesmo tempo em que tentavam canhestramente defender os sequestros seriais da Farc alegando que quem os criticava era o PIG, retruquei:
"Não serão os homens unidimensionais ditos de esquerda que vão reconquistar o respeito da cidadania para nossas causas, tão abalado por acontecimentos recentes [o escândalo do mensalão]. Isto só poderão lograr aqueles que não negarem o óbvio ululante rotulando-o de 'propaganda burguesa', nem atropelarem os fundamentos da vida civilizada para defender bandos armados".
Sem conseguirem fazer com que suas posições prevalecessem na batalha dos argumentos, os sectários organizados foram eficientes em insuflar prevenções contra mim, fazendo com que alguns espaços da esquerda virtual se fechassem para meus textos.

Isso, aliás, tem acontecido com frequência nos últimos anos: aqueles a quem derroto nas polêmicas de peito aberto, atacam depois, sorrateiramente, pelas costas. As intrigas e maledicências são as armas dos covardes.

FIDEL: "NENHUM PROPÓSITO
REVOLUCIONÁRIO JUSTIFICA ISSO"


Alguns meses depois, entretanto, os próprios ícones dessa gente a deixaram falando sozinha.

Fidel Castro escreveu declaração bombástica quando da libertação de Ingrid Betancourt, vindo ao encontro do meu moralismo pequeno-burguês:
"Civis nunca deveriam ser sequestrados, nem militares deveriam ser mantidos como prisioneiros nas condições da selva. Eram fatos objetivamente cruéis. Nenhum propósito revolucionário justifica isto".
O PT, discretamente, já vinha há bom tempo se distanciando das Farc, tanto que tem vetado sua participação nas reuniões do Foro de São Paulo.

E Hugo Chávez desde 2008 aconselha as Farc a aceitarem negociar com o governo colombiano, para que possam depor as armas com segurança, voltando a participar da política convencional.

Tornou a fazê-lo na semana passada, culpando-as pela nova crise na região:
"...os movimentos armados na Colômbia deveriam reconsiderar sua estratégia armada. (...) Não há condições na Colômbia para que eles possam tomar o poder. (...) Pelo contrário, converteram-se na principal desculpa para o Império penetrar na Colômbia a fundo e, a partir de lá, agredir a Venezuela, agredir Equador, Nicarágua, agredir Cuba".

"O mundo de hoje não é o mesmo mundo dos anos 1960 [quando as guerrilhas combatiam as ditaduras latinoamericanas]. Aí está Pepe Mujica, está Daniel [Ortega], está Evo [Morales], está Lula e estará Dilma, enfrentando as oligarquias e o imperialismo".
Isso não quer dizer que eu, o Ivan, o PT, o Fidel e o Chávez estejamos necessariamente certos em nossas restrições às Farc.

Mas, se existe tal convergência de opiniões por parte de dirigentes, militantes e forças díspares do campo da esquerda, isto, no mínimo, indica que se trata de um assunto a ser discutido aberta e objetivamente, não de uma heresia a ser respondida com o atear de fogueiras.

Então, a lição a ser tirada deste caso emblemático é: já passou da hora de reaprendermos a dialogar respeitosamente com as tendências adversárias do nosso campo, deixando o tratamento de inimigos apenas para os adeptos do capitalismo e do neofascismo.

domingo, 25 de julho de 2010

COMPRIMIR CÉREBROS, AMOLDANDO-OS AO CAPITALISMO: ESTE É O OBJETIVO

Comecei a estudar no Cursinho do Grêmio em 1968, mas a participação nos movimentos contestatórios acabou prevalecendo sobre os projetos de conquistar um lugar ao sol na sociedade capitalista.

Decidi que queria mesmo era meu lugar ao sol num Brasil solidário e justo, que o capitalismo jamais propiciaria.


Fiquei, entretanto, tempo suficiente naquela instituição -- cujos proprietários e professores eram estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP -- para constatar que sua prioridade era formar cidadãos conscientes e dotados de espírito crítico, capazes de vencer os desafios da vida e não apenas de transpor a barreira do vestibular.

Finda minha sofrida passagem pela luta armada, quando juntava os cacos para seguir vivendo após meus sonhos maiores terem sido postergados por décadas, sem que sequer se vislumbrasse a luz no fim do túnel, fui buscar no Equipe Vestibulares o necessário para ingressar numa faculdade de Jornalismo.

Cisão do Cursinho do Grêmio, também o Equipe incutia nos alunos o interesse em irem muito além do estritamente necessário para o vestibular. Não era só o como que importava, havia uma infinidade de porquês sendo colocados, discutidos, aprofundados.

Contra essa visão do ensino como instrumental para a compreensão do mundo e participação crítica na sociedade, vicejou uma outra, utilitária, mesquinha, castradora: a linha de montagem de robozinhos chamada Curso Objetivo.

Usando e abusando de recursos da nascente informática, o Objetivo sistematizou o levantamento do que já havia caído em vestibulares e a projeção do que provavelmente cairia no seguinte, martelando na cabeça dos alunos esses retalhos de conhecimento por meio de shows-aulas, com os recursos audiovisuais e as performances canastrônicas dos professores servindos para tornar menos intragável a chatice. Decoreba modernizada, enfim.

Esta didática que desvirtuava a Educação foi alavancada pela redução do vestibular a um mero exercício de fincar cruzinhas em questões de múltipla escolha.

A ditadura sabia a quem lhe convinha facilitar o ingresso no curso superior: as chances dos c.d.f., dos esforçados mas não brilhantes, eram maximizadas por esses exames grotescos, em detrimento da capacidade de raciocínio e da criatividade -- as quais, não por acaso, eram características marcantes dos insatisfeitos com o regime.

E, como o Objetivo tinha bons resultados quantitativos para trombetear, sua metodologia Frankenstein ocupou espaços cada vez maiores no mercado, aplicada por si e pelos outros cursinhos que a copiaram.

Depois de alguns anos, entretanto, o ensino superior começou a despertar desse pesadelo, reintroduzindo questões dissertativas no vestibular, para preencher suas salas de aula com algo mais do que laranjas mecânicas.

O tempo passou, o país se redemocratizou, vivemos uma nova realidade, mas o leopardo não perde as pintas, nem o Objetivo deixa de corporificar a pior mentalidade capitalista aplicada ao ensino.

Assim é que, em anúncios de página inteira veiculados neste domingo (25) nos jornalões, crava: Objetivo cria escola só para bons alunos.

E, em letras garrafais, reproduz citações de uma daquelas matérias jornalísticas louvaminhas que são contratadas e detalhadas nos Departamentos Comerciais da grande imprensa, chegando às redações como tarefas a serem cumprida seguindo as especificações da bula.

É fácil identificá-las, pelo inconfundível estilo levanta-a-bola-do-enfocado, inclusive fornecendo dados que direcionem a clientela ao paraíso retratado:
"O Objetivo criou uma escola apenas para bons alunos. O Colégio Integrado Objetivo tem o mesmo endereço da tradicional unidade Paulista (avenida Paulista, 900) (...)

"A mensalidade (cerca de R$ 1.600) e a carga horária não mudam. A diferença é que no Colégio Integrado, criado em 2008, só entra aluno com nota alta. Além disso, ele oferece aulas extras para os alunos no período da tarde e os professores são 'especiais'."
O ridículo chega a ponto de o texto citado apresentar como verdades irrefutáveis as alegações do Objetivo sobre os motivos de tão prodigioso colégio, que se propõe a isolar os geniozinhos para melhor moldá-los como raça superior, não figurar bem no Enem.

Lendo esse repulsivo informe publicitário, veio-me à lembrança a apresentação de Cruz de Ferro (1977), monumento cinematográfico de Sam Peckinpah, conjugando ótimas imagens de arquivo do III Reich com uma musiquinha nazista cantada por crianças...

A MELHOR DEFINIÇÃO

"Mano é ponderado. Sabe impor
a disciplina sem pôr o atleta
numa camisa de força."
(William, jogador de Mano
Menezes no Grêmio e no Corinthians)

UMA IMAGEM VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS

A alegria, o companheirismo e a leveza de
espírito estão de volta à Seleção Brasileira.
É isto que o mundo espera de nós em 2014,
não carrancas, truculência e ordem unida.

sábado, 24 de julho de 2010

RICARDO TEIXEIRA ERRA ATÉ QUANDO ACERTA

Tão logo o Brasil entrou em parafuso contra um timeco da Holanda, tropeçando nas próprias pernas, eu adverti que não bastava expelirem-se os óbvios culpados diretos pela derrota, como o tiranete Dunga, a eminência parda Jorginho, o ferrabrás Felipe Melo, o limitadíssimo Michel Bastos e que tais.

Esses quatro e alguns outros jamais deveriam ter ido à África com o uniforme canarinho. Então, o verdadeiro culpado e a pior ameaça ao futebol brasileiro continuava sendo o cartola eterno Ricardo Teixeira, que fez ou avalizou todas as escolhas erradas.

No pastelão desta 6ª feira (23) isto ficou sobejamente comprovado, mais uma vez.

Primeiramente, a CBF andou cogitando técnicos inaceitáveis em termos morais, como Vanderlei Luxemburgo.

Depois, cansou de projetar a imagem de que seu favorito era Felipe Scolari, o modelo de quem Dunga foi a versão tosca: também discrimina craques e monta suas famílias com os jogadores que lhe são mais fiéis (não os melhores), também impõe restrições ridículas ao trabalho da imprensa, também transforma a concentração em internato, também privilegia o futebol de resultados (no seu caso, defesas bem fechadas e ataques com um especialista em alçar bolas e outro em cabecear).

Quando Felipão lhe aplicou um merecido pontapé no imenso traseiro, Teixeira emitiu todos os sinais na direção de Mano Menezes, mas acabou anunciando Muricy Ramalho, que lhe é imensamente inferior.

Muricy arma defesas cerradas, que seguram a onda. Mais nada. O tricampeonato brasileiro do São Paulo (2006 a 2008) foi a apoteóse do futebol mesquinho, calculista e tedioso.

O destaque do time era o goleiro e os torcedores ficavam sempre com a impressão de ter almoçado em restaurante chinês: faltava alguma coisa e sobrava alguma fome.

Quando tinha Telê Santana no banco, sabíamos como e por que o São Paulo conquistava seus títulos.

Com Muricy, parecia estar pousando de paraquedas na entrega do troféu: ganhava sem ser brilhante e sem jamais convencer.

A comédia de erros de Teixeira, que anunciou Muricy sem saber se o Fluminense liberaria seu técnico, serviu para escancarar a ausência de critérios (a prioridade não era resgatar a essência do futebol brasileiro, que deixamos de mostrar na África?) e o amadorismo nos encaminhamentos (por que não combinar direitinho com o Flu antes?).

Por mero acaso, a moeda acabou caindo em pé. Por problemas em relação aos dois preferidos pela CBF, a incumbência sobrou para o melhor.

Mano Menezes sabe tratar os jogadores como homens (não os infantiliza), consegue ser respeitado pela autoridade moral e não por meio de chicote, monta times com os melhores que tem, busca sempre o equilíbrio entre os três compartimentos (defesa, meio de campo e ataque) e se relaciona bem com imprensa, torcedores e quem mais surja.

Isso tudo ele mostrou, principalmente, nas belíssimas conquistas do Campeonato Paulista (invicto) e da Copa do Brasil em 2009, pelo Corinthians. Houve resultado e havia espetáculo, com direito até a gols de placa.

No entanto, o que passou para os torcedores brasileiros, graças à crassa incompetência de Teixeira, foi que Mano teria sido escolhido na base do "não tem tu, nem tu, então vem tu mesmo!".

Poderia estar iniciando cheio de moral seu trabalho, coroamento de uma brilhante carreira. Em vez disso, ficou com a imagem de ter aceitado aquilo que outros desprezaram.

Quantos outros erros Teixeira cometerá até a Copa de 2014?


Reta de chegada do Paulistão 2009: o 3º gol corinthiano é uma pintura.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

LULA EXALTA MARIGHELLA E BEZERRA, HERÓIS DA LUTA CONTRA DUAS DITADURAS











Dois dos vultos mais emblemáticos da resistência tanto à ditadura dos generais quanto à getulista, Carlos Marighella e Gregório Bezerra, foram reverenciados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os colocou no mesmo patamar de Tiradentes, Joana Angélica, Gregório de Matos, Maria Quitéria e Zumbi dos Palmares, como heróis brasileiros que ajudaram o País a conquistar sua independência.


Discursando nesta 5ª feira (22) em Salvador, onde recebeu a Grã-Cruz da Ordem dos Libertadores da Bahia, Lula disse que muitos heróis nacionais foram esquecidos ou apresentados como bandidos: "Isso é um equívoco histórico que foi incutido na nossa cabeça pela doutrina da elite dominante”.

Daí a necessidade, frisou Lula, de resgatar suas histórias e lutas, reconhecendo o que fizeram pelo País e o povo. E acrescentou:
“Nós ficamos às vezes martelando muito mais no castigo a quem matou do que em enaltecer a imagem das pessoas que morreram acreditando numa coisa.

"Vamos pegar por exemplo o Gregório Bezerra que foi arrastado pelas ruas de Recife. Ao invés de nós ficarmos querendo saber quem arrastou Gregório Bezerra, nós precisamos valorizar o significado do sacrifício a que ele foi submetido.

"Poderíamos pegar Marighella que é aqui desta terra. Ao invés da gente ficar querendo condenar eternamente o [seu assassino, delegado Sérgio] Fleury, vamos valorizar as razões pelas quais Marighella fez o que fez.

"E assim a gente iria construindo mais heróis neste País. Iríamos construindo mais gente que pudesse servir de exemplo".
MARIGHELLA: "COMPROMISSO INABALÁVEL
COM AS LUTAS DO NOSSO POVO"

Filho de imigrante italiano e de uma negra baiana, Carlos Marighella (1911-1969) ingressou jovem no PCB e já em 1932 era detido por protestar contra o interventor da ditadura getulista na Bahia, Juracy Magalhães.

Foi atuar como organizador do partido no RJ e novamente preso em 1936, quando a polícia política de Filinto Muller o torturou bestialmente.

Incluído na anistia de 1945, elegeu-se deputado em 1946, foi cassado em 1948 e se tornou, na clandestinidade, um dos principais dirigentes do PCB. Preso novamente em 1964, conseguiu reconquistar a liberdade por decisão judicial, em 1965.

Convertido às teses guerrilheiras, organizou a ALN e participou de ações armadas como o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, que resultou na libertação de 15 presos políticos.

Para evocar Carlos Marighella, nada melhor do que os parágrafos iniciais do manifesto divulgado quando do 40º aniversário de sua morte, sete meses atrás:
"Carlos Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada chefiada pelo mais notório torturador do regime militar. Revolucionário destemido, morreu lutando pela democracia, pela soberania nacional e pela justiça social.

"Da juventude rebelde, como estudante de Engenharia, em Salvador, às brutais torturas sofridas nos cárceres do Estado Novo; da militância partidária disciplinada, às poesias exaltando a liberdade; da firme intervenção parlamentar como deputado comunista na Constituinte de 1946, à convocação para a resistência armada, toda a sua vida esteve pautada por um compromisso inabalável com as lutas do nosso povo".
GREGÓRIO BEZERRA, EXIBIDO COMO TROFÉU
E TORTURADO EM PRAÇA PÚBLICA

Gregório Bezerra (1900-1983) foi uma lenda viva no seu tempo.

Nascido no Agreste pernambucano, começou a trabalhar na lavoura de cana com a idade de quatro anos, perdeu os pais antes dos dez, migrou para o Recife, trabalhou como carregador de bagagens e ajudante de obras, paupérrimo a ponto de dormir nas catacumbas de um cemitério.


Já em 1917, como jornaleiro, participou de manifestações de apoio à Revolução Bolchevique e de greves por direitos trabalhistas, sendo condenado a cinco anos de prisão.

Depois ingressou no Exército, alfabetizou-se e, já como militante comunista, liderou em Recife a chamada Intentona de 1935, que lhe acarretou uma sentença de 28 anos de prisão.

Anistiado ao final da ditadura getulista, elegeu-se como o deputado constituinte de maior votação em Pernambuco. Teve seu mandato cassado em 1948 e passou nove anos na clandestinidade, organizando núcleos sindicais.

Preso imediatamente após o golpe de 1964, foi não só torturado em Recife, como arrastado em praça pública com uma corda no pescoço; além disto, colocaram seus pés em solução de bateria de carro, deixando-os em carne viva. Tal espetáculo, exibido pelas televisões locais, provocou protestos em escala mundial.

Permaneceu prisioneiro até 1969, quando foi resgatado no sequestro do embaixador estadunidense. Voltou ao Brasil em 1979, com a anistia.

É frequentemente comparado a Nelson Mandella, pelo longo tempo de prisão por motivos políticos: 22 anos, cinco a menos do que o grande líder africano.

O CASO ELISA: MAIS UM PASTELÃO POLICIAL-MIDIÁTICO

Acompanho à distância o trabalho de Ruy Castro desde O Pasquim. Já naquele tempo eu achava que ele escrevia bem, mas não o que me interessava. Preferia o Paulo Francis, o Luiz Carlos Maciel e as tiras do Henfil.

Suas biografias também nunca me fascinaram, inclusive a do Garrincha, pra lá de deprimente. O genial Mané merecia algo mais na linha do "imprima-se a lenda". Só mesmo um Nelson Rodrigues para dar o tratamento adequado às chuteiras imortais...

Daí ter sido uma agradável surpresa para mim ler nesta 6ª feira (23) uma coluna simplesmente irrepreensível, antológica, do Ruy castro: Pressa em condenar. Reproduzo-a na íntegra.
"O delegado encarregado do caso Bruno acaba de completar seus 30 dias de fama. Durante esse período, investigou, acusou, julgou, condenou e só faltou passar a sentença sobre o jogador. Muito além da sola, foi detetive, carcereiro, promotor, júri e juiz. Tal versatilidade pode representar uma economia para os cofres do Estado, mas está em desacordo com noções elementares de justiça.

"Ocupado em dar entrevistas, ele só não teve tempo de apresentar as provas de que necessitava -nem mesmo o corpo de Eliza Samudio, dado de barato desde o primeiro instante. Com isso, o advogado de defesa já conta com a vitória numa primeira instância, tantas são as supostas irregularidades técnicas.

"Aliás, este é dos raros casos em que o uso do 'suposto' - recurso adotado pela imprensa para noticiar sem se comprometer - se aplica. Enquanto não encontrarem o cadáver, Bruno deveria ser apenas o suposto assassino ou mandante. Ou nem isso, porque ainda não está configurado o crime. Pois, justamente neste caso, alguns tabloides e canais de TV já partiram para a acusação frontal: Bruno é tratado como assassino ou mandante, e não se discute.

"O curioso é que, um mês depois, o
imbróglio parece mais enrolado do que nunca. Pelos depoimentos, Bruno, três cúmplices, seis ou sete testemunhas e uma mulher diferente por semana entram e saem de carros, motéis e chácaras, e o bebê passa de mão em mão enquanto eles se acusam e se desdizem deixando todo mundo tonto. É Agatha Christie ao ritmo dos Irmãos Marx.

"No Brasil, temos pressa em condenar. Mas, uma vez estabelecida a condenação, não há pressa para executar a sentença. O jornalista Antonio Pimenta Neves, por exemplo, réu confesso, julgado e condenado pela morte de sua ex-namorada, arrisca-se a morrer de velhice fora da prisão onde deveria estar há dez anos."

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DILMA ENGOLE E NOS FAZ ENGOLIR SAPOS

Meu saudoso pai, que trabalhou 46 anos em fábrica, tinha uma frase curta e grossa para criticar quem faz concessões em demasia: "Quanto mais se curva, mais aparece o rabo"

Os responsáveis pela campanha de Dilma Rousseff, depois de descaracterizarem seu programa eleitoral registrado no TSE sob vara da grande imprensa, agora fazem a candidata dar declarações que equivalem a rendições.
Nesta 4ª feira (21), Dilma disse que, apesar de ter assinado embaixo, discorda do controle social da mídia, da taxação das grandes fortunas e da redução obrigatória da jornada de trabalho.

Sobre a primeira, afirmou:
"O único controle que existe é o controle remoto, na mão do telespectador, porque ele muda de canal. Sou contrária ao controle do conteúdo. No que se refere a controle social é impreciso. Não existe controle social que não seja público".
Também não concordo com a proposta de controle social da mídia, mas nunca adotaria o discurso que Dilma fez ontem, repetindo o do inimigo para o tranquilizar:
"É inadmissível a censura à imprensa, ao conteúdo, à critica. Sou rigorosamente contrária ao controle da imprensa".
A pecha de censores, que ela assim lançou sobre petistas há muito defensores de tal proposta, é extremamente injusta: antes de liberticidas, são, isto sim, idealistas indignados com a parcialidade, a tendenciosidade e a unilateralidade da indústria cultural que, sob o capitalismo putrefato, cumpre a função de bovinizar seus públicos por meio da manipulação ideológica dos acontecimentos.

Em lutas como a que travo em defesa do escritor e perseguido político Cesare Battisti, constatei o abandono brutal das boas práticas jornalísticas no Brasil.

A isenção e o equilíbrio foram para o lixo, a ponto de declaração de intelectual de renome mundial (pró Cesare) ser olimpicamente ignorada, enquanto se destaca qualquer irrelevância proveniente de vítima profissional ou inspetor de quarteirão (contra). Direito de resposta e de expressão do
outro lado viraram letras mortas.

Então, da Dilma que conheci durante a resistência à ditadura militar eu esperava que destacasse o fato de não estar existindo liberdade de imprensa propriamente dita, mas sim uma liberdade de desinformação, da qual a burguesia usa e abusa no seu afã de tanger os cidadãos para a aceitação passiva, acrítica e conformista do
status quo.

Só discordo do remédio proposto: o de usar-se a força do Estado para fazer com que a mídia volte a respeitar os limites entre informação, interpretação e opinião, ao invés de ideologizar as duas primeiras, deturpando-as para que se amoldem à opinião que os veículos já têm sobre o assunto enfocado.

Para mim, a verdadeira luta se trava nas ruas, não nos gabinetes do poder.

E não é para retocarmos aspectos do estado burguês sob o capitalismo, tentando torná-lo menos excludente, manipulador, injusto, predatório, parasitário, etc., etc.

É para substituirmos um sistema calcado na ganância, no privilégio e na competição zoológica entre os trabalhadores, por outro fundado no atendimento das necessidades humanas, na igualdade de oportunidades e na solidariedade universal.

Então, não se trata de moralizarmos a atuação da imprensa, mas de fazermos a revolução. Curto e grosso, como meu pai gostava.

A MAIS-VALIA É INTOCÁVEL?

No tocante às grandes fortunas, também vale tudo que eu disse acima; justiça social só haverá quando adotarmos um modelo de sociedade que a priorize, e não ao seu contrário.

Mas, vendo esse nosso povo sofrido dos grotões, socorrido por programas assistenciais que só lhe dão fôlego para continuar vegetando mais do que sobrevivendo, não consigo conter minha indignação e repulsa ao saber que há brasileiros com patrimônios pessoais na casa de US$ 27 bilhões (Elke Batista), US$ 11,5 bilhões (Jorge Paulo Lemann), US$ 10 bilhões (Joseph Safra)...

A liberdade de imprensa é sagrada para nós, revolucionários, sim!

Mas não a liberdade de empreender (no dizer dos propagandistas do capitalismo), de construir fortunas imorais e escandalosas como essas a partir da mais-valia expropriada dos trabalhadores (assim dizemos nós).

Então, abdicar da proposta de taxação das grandes fortunas equivale a uma capitulação ao inimigo. Curto e grosso.

Já foi difícil aceitarmos o recuo da revolução para a reforma. Que dizer do recuo da reforma para a conivência com os aspectos mais aberrantes e desumanos do capitalismo?!

NEM SEQUER 4 HORAS A MENOS?!

Por último, a redução da jornada de trabalho, que Dilma agora reduz a uma “questão de negociar entre patrões e empregados”.

Será que ela esqueceu tudo? Nosso bê-a-bá, as leituras de Marx (O Capital), Lênin (Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo) e tantos que tais?

Lutamos para conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização, dentre outros motivos, porque o capitalismo desperdiça criminosamente as possibilidades ora existentes de redução da jornada de trabalho a uma fração da atual, permitindo aos homens libertarem-se dos grilhões da necessidade e desenvolverem plenamente suas potencialidades.

Para produzir-se aquilo de que os seres humanos realmente precisam para uma sobrevivência digna – sendo, claro, extintas atividades nocivas, parasitárias e inúteis como as desenvolvidas pelos bancos –, menos da metade da jornada de trabalho atual seria mais do que suficiente.

E Dilma remete a mísera diminuição de 44 para 40 horas semanais a entendimentos com os patrões, como se as duas partes tivessem poder de fogo equivalente!

Sua campanha abusa do fato de a alternativa demotucana ser execrável a tal ponto de qualquer coisa, mesmo esse programa desfigurado e cúmplice do capitalismo, ainda representar mal menor.

Não teremos desculpa nem coragem para olhar no espelho se deixarmos de engendrar uma opção realmente satisfatória para 2014.

Chega de sermos obrigados a engolir a menos pior... ainda que, como no caso presente, tenha todas as características de um enorme batráquio!


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