Devido à minha proximidade com vários dramas que Jacob Gorender enfeixou no seu clássico Combate nas Trevas: A Esquerda Brasileira das Ilusões Perdidas à Luta Armada (Ática, 1987, 290 p.), é óbvio que, ao lê-lo pela primeira vez, sensibilizou-me demais. Fiquei ora nostálgico, ora emocionado, ora entristecido, nunca indiferente.
Mas, não houve capítulo que me marcasse tanto quanto um que estava teoricamente bem distante da minha militância --e, ao mesmo tempo, muito próximo, "pela verdade em questão" (como dizia um tema musical da peça Arena conta Zumbi).
Fiquei contente em encontrá-lo disponibilizado por inteiro na web, para o poder dividir com vocês.
EPÍLOGO PARA UM ROMANCE À REVELIA DO AUTOR
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| O digno Hermínio Sacchetta |
O contencioso entre ambos remontava aos anos 30. Após a derrota do levante de novembro de 1935, o jornalista Sacchetta (nome de guerra Paulo) dirigia o Comitê Regional de São Paulo e foi cooptado para o Birô Político do Comitê Central do PCB. Mais jovem, Câmara Ferreira (nome de guerra Alberto) trocou o curso de engenharia pela profissão de revolucionário. Em 1937, o Comitê Regional Paulista divergiu da linha preconizada pelo Comitê Central a respeito das eleições presidenciais. A divergência se aprofundou e levou a discussões agressivas e intransigentes. Com o apoio da Internacional Comunista, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), secretário-geral do Comitê Central, venceu a disputa: os divergentes de São Paulo foram expulsos do partido sob a acusação de renegados trotskistas, a mais infamante para um militante comunista. Acontece que, ao travar-se a luta interna – conforme relata Heitor Ferreira Lima –, nenhum dos divergentes do Comitê Regional paulista era trotskista e, em seguida, apenas um deles – Sacchetta, precisamente – aderiu ao trotskismo.
Tendo tomado posição ao lado do Comitê Central, Câmara Ferreira não podia mais continuar amigo de Sacchetta, com o qual se iniciara na vida partidária. A amizade se transformou em rancorosa inimizade. Da qual compartilhou Carlos Marighella, enviado a São Paulo pelo Comitê Central, em 1938, a fim de fortalecer a direção regional na luta contra os “fracionistas trotskistas”.
Expulso do PCB, Sacchetta esteve entre os fundadores do Partido Socialista Revolucionário (PSR), ligado à Quarta Internacional (trotskista), com pouco mais de uma centena de adeptos em São Paulo e no Rio, quase todos intelectuais. Na atividade de jornalista, seu ganha-pão, fez bem-sucedida carreira. Arraigada talvez pelo hábito da clandestinidade, mantinha imperturbável postura discreta.
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| O lendário Carlos Marighella |
No começo dos anos 60, formou-se o Movimento Comunista Internacional (MCI), cujos escassos adeptos projetavam convertê-lo em partido. Embora não adotasse o trotskismo de maneira escrita, o MCI conservou seus princípios doutrinários fundamentais: prioridade ao internacionalismo, revolução permanente, ditadura do proletariado como objetivo direto.
Nos anos 1967-1969, já sob a ditadura militar, o MCI publicou o jornal clandestino Bandeira Vermelha, do qual saíram doze números. Comumente com dez ou doze páginas mimeografadas, difundia denúncias e argumentos contra o regime nascido do golpe de 1964. Ao mesmo tempo, tomava posição na explosiva controvérsia entre as correntes de esquerda. Principal redator do jornal, Sacchetta atacou o reboquismo e o oportunismo do PCB. Reconheceu a seriedade das facções dissidentes, porém fez crítica cerrada ao foquismo de Guevara e a todas as concepções de luta armada imediata desvinculada da preparação através das lutas de massas.
Por que, então, Hermínio Sacchetta aceitou o convite que lhe trouxe Câmara Ferreira de colaborar com a ALN? Justamente com a ALN, cuja orientação estratégica (nacional-libertadora) e tática (luta armada imediatíssima) era tão oposta àquela que vinha expondo insistentemente no Bandeira Vermelha?
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| Toledo morreria como um bravo |
No final de janeiro de 1969, a direção da VPR teve urgente necessidade de tirar as armas expropriadas da Loja Diana do depósito secreto em que se encontravam. O depósito era conhecido de Hermes Camargo Batista, preso no episódio da pintura do caminhão em Itapecerica da Serra.
A direção da VPR pediu a ajuda da ALN e Câmara Ferreira recorreu a Sacchetta. Este arrumou às pressas um lugar seguro. Em três viagens do Fusca guiado por Renato Caldas, foi posto a salvo o arsenal de carabinas, revólveres .38 e caixas de munição.
Às oito e meia da manhã de 15 de agosto de 1969, um destacamento de doze guerrilheiros da ALN invadiu a estação transmissora da Rádio Nacional em Piraporinha, perto de Diadema (Grande São Paulo). Dominados os funcionários, um dos invasores interrompeu a ligação com o estúdio e ligou ao transmissor de ondas curtas uma gravação. Com o fundo musical do Hino da Internacional Comunista e do Hino Nacional, a gravação anunciou o nome de Carlos Marighella e reproduziu o manifesto lido por ele. Na meia hora em que a estação esteve sob controle da ALN, deu tempo para repetir a gravação.
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| Jorge Amado: e a autocrítica? |
Tão grave infração da censura não podia ser tolerada. A Polícia Federal prendeu o diretor de redação e o indiciou em inquérito criminal. Apesar da ficha de antecedentes nada recomendáveis do indiciado, o inquérito deu em nada e o suspeito de conivência subversiva foi solto após algumas semanas. Mas perdeu o emprego.
Até hoje, corre a versão da casualidade da participação de Sacchetta no episódio. Agora, deve-se esclarecer em definitivo que não houve casualidade. Sacchetta recebeu previamente cópia do manifesto de Marighella das mãos de Câmara Ferreira, avisado do que ia ocorrer e da participação que a ALN esperava dele. Como não era iniciante inexperiente, Sacchetta tomou as precauções de cobertura, na previsão de que podia vir a enfrentar pesadas complicações. Orientou o setor de radioescuta do seu jornal para captar a transmissão da Rádio Nacional e, tão “surpreso” quanto os colegas, decidiu desafiar a censura: furo de reportagem é dever profissional de jornalistas.
O furo teve repercussão internacional e a prisão do jornalista brasileiro provocou o protesto da Associação Interamericana de Imprensa.
Romance histórico em que Jorge Amado criou uma trama ficcional inserida na reprodução da época do Estado Novo, Os Subterrâneos da Liberdade têm um dos fios da narrativa na luta interna do PCB em São Paulo, à qual me referi neste capítulo. Com facilidade se reconhecem muitas pessoas reais, que comparecem no romance como figuras de ficção. Vitor é Diógenes de Arruda, o primeiro dos honrados pela dedicatória do autor. O gigante Gonçalo é José Martins e o historiador Cícero d’Almeida é o historiador Caio Prado Jr. Filho de um operário italiano com uma negra brasileira, Carlos é Carlos Marighella, logo se vê. Apolinário é Apolônio de Carvalho, também logo se vê.
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| Jacob Gorender: espírito de justiça |
Identificação de tal maneira transparente e insultuosa obrigou Hermínio Sacchetta a sair da habitual discrição e publicar um artigo de revide ao glorioso romancista.
Os Subterrâneos da Liberdade representam a culminância da escola do realismo socialista na literatura brasileira. O autor pagou o preço que todos nós, militantes do PCB, pagamos ao stalinismo. Faltava-lhe a estatura psicológica e artística de Graciliano Ramos. Também militante do PCB e admirador de Stalin, Graciliano não se dobrou aos prejulgamentos e deu ao trotskista Gikovate tratamento amistoso em Memórias do Cárcere. Mas Jorge Amado tomou depois conhecimento dos crimes de Stalin, rompeu com o stalinismo e se afastou do PCB. Teria várias maneiras para reabilitar, não a Sacchetta, que não precisava ser reabilitado, mas a si próprio, com a admissão pública da injustiça cometida contra um homem de carne e osso. Nunca deu este passo.
Romance, mesmo histórico, é ficção. Nada há a alterar. Nas muitas reimpressões de Os Subterrâneos da Liberdade, o leitor sempre encontra o vilão Saquila inimigo do herói Carlos.
Na vida real, Sacchetta (modelo de Saquila) e Marighella (modelo de Carlos) se reconciliaram para travar o mesmo combate nas trevas da pior opressão que já se abateu sobre o povo brasileiro desde a conquista da Independência. À revelia do romancista, acrescentaram inesperado epílogo à sua narrativa.
Hermínio Sacchetta arriscou a vida na luta contra a ditadura militar.
E Jorge Amado: esteve à altura do personagem?






5 comentários:
faltou o velho, na melhor acepção do termo, Gorender nessa Comissão da Verdade.
A Máscara
Faz muito tempo que não o vejo. Mas, estando em condições físicas de assumir a tarefa, o Gorender seria melhor do que qualquer um dos sete escolhidos pela Dilma
Esse livro fez minha cabeça e aderir ao comunismo. Depois que li o livro do mestre Jacob Gorender, coloquei os pontos no i. Admiro Jorge Amado por sua linda obra, aqueles tempos foram duros para todo mundo.
abcs Lungaretti.
rui baiano santana do blog www.ananindeuadebates.blogspot
Como uma das netas do Sacchetta, agradeço sua postagem. E viva Jacob Gorender!
Vou contar algo que nunca havia mencionado.
Na 2a. série ginasial, com 12 anos, eu estudava no período noturno, porque era o único que havia; e me sentia um tanto intimidado por estar ao lado de colegas bem mais velhos e experientes, que já trabalhavam.
Então, quando as aulas se iniciaram com uma nova professora de Português, negra, a classe reagiu de forma horrível, infernizando-a com zombarias de todo tipo.
Não ousei destoar do grupo e também a ridicularizei, sem tanta agressividade, mas contribuindo para quebrar-lhe a moral.
Quando recebi a notícia de que ela não aguentara a barra e havia se demitido, senti-me terrivelmente culpado. Jamais fora preconceituoso, então que diabo me levara a fazer coro com aqueles racistas?!
Prometi a mim mesmo nunca mais ser maria-vai-com-as-outras. E, p. ex., dois anos mais tarde fui um dos únicos alunos da classe a não tratar desdenhosamente um colega afeminado.
Então, quando li "Os subterrâneos da liberdade", aos 17 anos, mesmo não tendo conhecimento nenhum do trotskismo, já senti certa repulsa pela forma grosseira com que Jorge Amado tratou o personagem que representava o Sacchetta. Parecia vilão dos bangue-bangue maniqueístas made in USA.
Quando fiquei conhecendo a história toda por meio do Gorender, não me surpreendeu. Já suspeitava de algo assim.
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