sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OS ANOS EM QUE OS MÚSICOS VIVIAM PERIGOSAMENTE

Em 2003, quando eu começava a namorar a Juliana --hoje minha esposa e mãe da Laurinha--, ela estudava jornalismo e me pediu sugestão para um trabalho que precisava fazer com urgência.

Conversa vai, conversa vem, pintou a   solução caseira  de ela juntar minhas lembranças com trechos de uma longa entrevista do Zuza Homem de Mello sobre os grandes festivais de música popular brasileira.

Como eu usava o pseudônimo de André Mauro ao trabalhar nas revistas de música, foi também esta a minha identidade.

Eis o resultado.

OS ANOS EM QUE OS MÚSICOS VIVIAM PERIGOSAMENTE

O que levou a MPB a se colocar na linha de frente da
resistência ao regime militar na década de 1960? É o que analisam os
críticos musicais Zuza Homem de Mello e André Mauro.

Zuza: "A Banda" venceu "Disparada" por 6x5
Para o jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello, autor do livro mais completo até hoje escrito sobre a grande fase que a música popular brasileira viveu durante a ditadura -- A Era dos Festivais - Uma Parábola (Editora 34, 2003, 528 pág.) -- o que então aconteceu foi “um posicionamento social, político e musical da classe estudantil, a ponto de provocar uma reação nos militares”.

Próximo de completar 70 anos, Zuza estreou como crítico de jazz em 1956 na revista Folhas, atuando depois no Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, rádio Jovem Pan e revistas Down Beat, Som 3 e Nova, tendo, ainda, participado de vários projetos de resgate da história da MPB. Além disso, como o antigo Repórter Esso, ele também pode se considerar “testemunha ocular da História”, pois foi produtor e engenheiro de som da TV Record no período 1959/1969, o que lhe permite revelar agora um sem-número de informações de bastidores – por exemplo, a de que o célebre empate entre “A Banda” e “Disparada” no Festival da Record de 1966 foi uma imposição de Chico Buarque, que considerava sua composição inferior à de Geraldo Vandré/Théo de Barros, embora tivesse sido escolhida por seis jurados como vencedora (contra cinco votos dados  à “Disparada”).

Segundo Zuza, “nunca se vivera no País uma discussão cultural tão empolgante como aquela dos primeiros festivais”, mas depois o movimento entrou “numa curva descendente, em função da brutal pressão dos militares”.

Vandré, Elis e Chico numa foto rara
O que levou a esse agravamento da censura e pressões? “O governo sentiu que aquilo era uma coisa quase ameaçadora para o regime, embora ninguém tivesse nenhum revólver na mão. Só tinham a canção, a vaia e o aplauso. No entanto, isso ameaçou os militares. Tanto que foram impostas condições para a realização dos festivais. No 3º FIC - Festival Internacional da Canção Popular, os militares mandaram os diretores dizerem que Caminhando, de Geraldo Vandré, não podia ganhar.”

O grande temor dos militares, na avaliação de Zuza, era que as canções dessem a conhecer o que ocorria nos porões da ditadura. “Eles queriam passar a imagem de um país feliz. É por isso que, na fase do FIC, os festivais eram transmitidos para o exterior. Eles queriam mostrar a felicidade do povo brasileiro, que o Brasil era a  ilha da felicidade.

Os compositores, revela Zuza, tentaram reagir a isso com “uma conspiração” arquitetada por Gutemberg Guarabira, “que acumulava as funções de diretor artístico do 6º FIC e militante clandestino da Aliança Libertadora Nacional”:
– O plano era usar o festival para um protesto contra a censura. Por isso combinaram de inscrever as músicas, mas entregar as letras só no último momento, todas de uma vez. A censura não teria como barrar. Eles imaginavam que os organizadores e o governo teriam dificuldade de explicar para o mundo a desistência dos melhores compositores brasileiros num festival que era usado para fazer uma divulgação favorável e cor-de-rosa do País.
No entanto, os inimigos ficaram sabendo do que se planejava e tomaram medidas preventivas. E o desfecho do episódio, lembra Zuza, foi o seguinte: “Oito dias antes do 6º FIC, em 1971, 12 dos melhores compositores brasileiros, entre eles Chico Buarque, Paulinho da Viola, Tom Jobim e Edu Lobo, cancelaram sua participação em razão da ‘exorbitância, intransigência e drasticidade do Serviço de Censura’ que impedia a livre produção artística”.

Zuza conclui: “O governo militar interferiu na MPB, chegando a ceifar a carreira de artistas como Toni Tornado e, de certa forma, o Geraldo Vandré, que ficou atemorizado. Com isso, perdeu-se o ritmo. Não só a vida pessoal dos compositores, mas a MPB como um todo. Ela ficou como um trem que parou numa estação e ficou esperando a hora de sair de novo do lugar. Durante anos, os compositores tiveram de manter uma luta contra a censura para poder fazer valer a sua obra. Perdeu-se todo o estímulo. Essa geração tem um vazio num período de suas vidas que é refletido na obra. O período que o Caetano Veloso ficou em Londres, por exemplo, é um vazio, um buraco na obra dele.”

“Circunstâncias excepcionais”

Foto que achei na web, do meu tempo
de prisão, no fim da "era dos festivais"
“A importância e o papel da MPB durante a ditadura se deve a algumas circunstâncias excepcionais”, avalia o jornalista e crítico musical André Mauro. “Até os  Anos JK  o Brasil não tinha uma classe média numericamente significativa e a música se direcionava quase toda para o povão. O desenvolvimentismo, entretanto, deu a muitas famílias a condição de mandarem seus filhos para as faculdades. Surgiu uma geração de jovens compositores mais sofisticados, fazendo música de uma qualidade bem superior à daquela que era acolhida pelas gravadoras, rádios e tevês. Os festivais de MPB permitiram que essa fornada de talentos se tornasse conhecida... da própria classe média, começando pelos estudantes, que com eles logo se identificaram.”

André Mauro foi editor-chefe de várias publicações musicais paulistanas no período 1980/84, tendo dedicado três edições da revista Especial, com longos textos (de sua autoria) e cifras de canções, aos “Festivais” (nº 26), ao programa “O Fino da Bossa” (nº 49) e aos “Festivais: A Época de Ouro da MPB” (nº 54). “Além de fazer um exaustivo trabalho de pesquisa, que até então nossa imprensa não empreendera, eu fui muito na linha interpretativa, buscando dimensionar esses fenômenos em termos mais amplos”.

Ele explica que, em 1965, a repressão do regime militar reduzira ao silêncio os partidos políticos, sindicatos e entidades estudantis, mas as manifestações artísticas ainda não eram particularmente visadas. “Os milicos não tinham medo daqueles jovens que poderiam ser seus filhos. Pensavam que música, teatro e cinema eram inofensivos e serviam como uma espécie de catarse, para manter os estudantes longe das ruas.”

Então, lembra André Mauro, o Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, começou a promover noitadas musicais no Teatro Paramount, com forte clima de protesto. “A extinta TV Excelsior percebeu o potencial e reuniu aqueles jovens talentos no 1º Festival de MPB, que projetou nacionalmente Elis Regina. A poderosa TV Record entrou na jogada e encampou o festival, contratando seu idealizador e produtor. Do 2º festival em diante, ficou tudo na Record (tendo a Globo e seu FIC como concorrente menor). E ainda lançou o programa semanal ‘O Fino da Bossa’, vitrine do movimento da então chamada moderna música popular brasileira.”

Reações díspares às vaias: Caetano Veloso
discursou, Sérgio Ricardo quebrou o violão
Segundo ele, foi bom enquanto durou. “Em 1967 os estudantes voltaram a fazer manifestações de rua em São Paulo {as chamadas  setembradas} e os militares perceberam que a MPB não estava servindo para evitar que os estudantes agissem concretamente contra a ditadura, mas, pelo contrário, fazia a cabeça das novas gerações, engrossando o exército que combateria o regime.”

Aí o torniquete foi sendo apertado, com uma censura cada vez mais rigorosa e intimidações à classe artística (como a invasão de um teatro por parte de militantes do Comando de Caça aos Comunistas, que espancaram os artistas). “Finalmente, quando veio o Ato Institucional nº 5, o Vandré, o Chico Buarque, o Caetano Veloso e o Gilberto Gil tiveram de passar um bom tempo fora do País. E os artistas que aqui ficaram, estavam sem nenhuma condição para expressar o que sentiam. Os festivais morreram de inanição em 1972 e a MPB nunca mais foi a mesma”, garante.

Uma forte lembrança é de como “Caminhando” se tornou o hino da luta contra a ditadura:
-- O governador Abreu Sodré tentou discursar no 1º de maio dos trabalhadores e foi expulso do palanque a pedradas. O Vandré, estranhamente, apareceu numa fotografia de jornal ajudando o governador a escafeder-se e isso deixou seu prestígio com os estudante a zero. Cheguei a ver universitárias chamando-o de ‘traidor’ na rua Maria Antônia. Então, ele fez aquela canção para reafirmar sua crença na revolução e provar que não havia mudado. A final do FIC aconteceu alguns dias depois de estudantes serem terrivelmente humilhados pela repressão nas ruas do Rio de Janeiro. Os cariocas estavam indignados e acolheram “Caminhando” como símbolo do seu protesto, ainda mais quando a música foi injustiçada e ficou em segundo lugar. Eu escrevi numa revista que, “em alguns bairros da Zona Sul, as pessoas saíram às janelas quando Vandré bisava ‘Caminhando’ e cantaram a plenos pulmões, descobrindo uma comunhão cimentada pela dor e revolta – e que jamais se repetiria”. E foi assim mesmo... de arrepiar!

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