Sérgio Ricardo, aos 79 anos bem vividos, continua firme e forte, como um dos artistas mais dignos e talentosos que este país já produziu.Andou fazendo apresentações ao vivo, lançou em 2008 o ótimo CD Ponto de Partida e é capaz de escrever textos emocionantes como o que reproduzirei abaixo.
Para os jovens, informo: ele já era um dos principais nomes da Bossa Nova quando houve o golpe militar de 1964.
Aí, radicalizou seu trabalho criativo, partindo para o confronto artístico com a ditadura em elepês antológicos como A Grande Música de Sérgio Ricardo (1967) , Arrebentação (1969) e Sérgio Ricardo (1973).
Paralelamente, fez músicas inesquecíveis para o cinema, inclusive dois clássicos absolutos de Glauber Rocha: Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe. A trilha do primeiro, inspirada na literatura de cordel, é simplesmente primorosa, servindo como fio condutor para a história.
E ele próprio foi também diretor competente de vários curta-metragens e de quatro longas: O Menino de Calça Branca (1961), Esse Mundo É Meu (1964), Juliana do Amor Perdido (1968) e A Noite do Espantalho (1973).
Este último é o meu preferido. Mostra a disputa pelo amor de uma mulher, em meio a coronelismo, jagunçagem e exploração dos camponeses, contada em músicas -- na linha, p. ex., das ópera-rocks como Tommy e Evita, ou da Cantata Santa Maria de Iquique.
As filmagens foram efetuadas em Nova Jerusalém, o maior teatro ao ar livre do mundo. O filme deu grande impulso à carreira de Alceu Valença, que interpretou o espantalho (narrador).
Além de pelas prisões e perseguição que sofria dos censores, Sérgio é também muito lembrado por sua reação viril às vaias recebidas no Festival de MPB da Record de 1967.
Impossibilitado de interpretar sua canção face à intransigência do público (que, elitista, não admitia a temática futebolística da "Beto Bom de Bola", na verdade um tributo aos craques espremidos e jogados fora pela cartolagem, como Garrincha), acabou fazendo um discurso irado, quebrando o violão e atirando-o na platéia.
Ano seguinte, lembro-me dele apresentando suas principais composições no Teatro de Arena (SP), com uma novidade: utilizou um ainda precário equipamento de vídeo para fazer uma pioneira incorporação de imagens gravadas no seu recital.
Na década de 1970, indignado com a descaracterização da sociedade pelo regime militar e o milagre brasileiro, optou por viver ao lado do povo humilde numa favela (isto, claro, antes que os morros cariocas fossem, por sua vez, descaracterizados pelo crack).
Exemplar como artista e como cidadão, Sérgio Ricardo merece nosso total reconhecimento. Daí eu prestar-lhe este pequeno tributo, reproduzindo o texto que ele leu para o público do Teatro Casa Grande (RJ), durante um espetáculo em homenagem ao inesquecível Victor Jara.
ESTIRPE ELIMINADA
"Há um tipo de artista que, movido pela relação com o semelhante, empenha-se na denúncia dos males que corroem seu gueto, sua cidade, seu pais ou o planeta.
Rompe o casulo da própria individualidade e, liberto de seus queixumes ou de suas conquistas estéticas, amplia o espectro de seu universo criador, desovando obras de significado abrangente.
Seu dom comunicador sensibiliza seus iguais à procura de novos caminhos e novos horizontes. Nada é mais poderoso do que a arte, para abrir a cortina do entendimento.
Despojados, se expõem sem medir as consequências. Propiciam uma estética diversificada, liberta das prisões esquemáticas de um determinado modismo.
Apartidários ou não, agem como livres atiradores, harmonizando-se com a evocação vigente.
São como afluentes que desembocam no mesmo rio, a buscar o mar do bem comum. E, pelo caminho, vão colhendo a pedra bruta da linguagem de seu povo, para devolvê-la lapidada mais adiante, envolta na pororoca da evolução cultural de seu pais.
O entendimento atingido pela mágica poética reveladora de seu verbo é a grande paga de seu ofício, que o estimula a prosseguir na empreitada.
Não é o artista que busca o poder, a fama ou a fortuna. Não busca auferir, busca doar. Não compete, soma-se.
Só em nosso pais temos centenas deles. Na música, no teatro, na poesia, no cinema, em todas as artes. O chamado cantor de protesto é a síntese dos demais.
Este artista, imprescindível nos momentos cruciais e duros pelos quais passa seu povo é, via de regra, censurado, proibido, preso e/ou torturado em regimes ditatoriais.
No nosso continente, em vários países vitimados por cruéis ditaduras, este artista provocou a ira, quase sempre exacerbada dos governantes.
Prova concreta de sua eficácia ante os desmandos e prepotências de uma deteriorada parcela que detém o poder e que entrega seu país à ambição desenfreada de um regime que destrói os valores essenciais da dignidade humana, disseminando a fome e a miséria, a destruição do semelhante e do próprio planeta. Mazelas que se tornam o cerne dos temas das chamadas canções de protesto.
No Brasil, a última penca desses artistas, surgia no fim dos anos 50, com outros setores que sonhavam levar o País à sua emancipação.
Perdida a batalha no golpe de 64, daí em diante permaneceu atuando, durante a ditadura, resistindo, denunciando e driblando a censura, até quedar-se vencida pela repressão que amordaçou-lhe a boca.
Finalmente, na abertura politica, quando se supunha que, passada a tormenta, ele fosse voltar enaltecido, reconhecido e aclamado, livre da mordaça, em seu lugar surgia a moda nova de um rosário de futilidades. Endossada pela engrenagem que, manipulando o destino da cultura, visava o lucro e apagar da memoria da população a sua verdadeira história.
Assassinatos, torturas, prisões, exílios, todo e qualquer ato de resistência havidos nos negros tempos, passaram a ser assuntos tão indigestos que, automaticamente, foram atirados no esquecimento. Poucos e renitentes focos de resistência tentam ainda hoje manter viva a memoria e, a duras penas, conseguem sucesso numa ou noutra reivindicação.
Aquele artista que arriscou a vida pela causa, terá de contentar-se com os que o abordam, agradecidos pelo enriquecimento de sua formação, influenciados por suas canções.
Uns conseguem adaptar-se aos novos tempos e dar a volta por cima, retomando seu caminho, ou recriando novos afluentes ao passar o bastão às novas gerações. Outros contentam-se com o orgulho de seu passado atuante.
Não carregam mágoas. Cumpriram seu papel e, mesmo enfrentando as dificuldades decorrentes, nada cobram pela falta do reconhecimento.
A mais chocante das criticas é a atribuição endossada pelos puristas, de que a queda desses artistas deveu-se à sua desimportância estética e não à prepotência do poder. Querem tapar o sol com a peneira, ou não entenderam nada.
É comum pular-se da bossa nova à tropicália como se nada de importante houvesse acontecido entre os dois movimentos. Ficou por isso mesmo, porque ninguém foi cobrar seu lugar na história. Nomes como Sydnei Miller, Taiguara, Theo de Barros, Chico de Assis, Marília Medalha, Torquato Neto, João do Vale, Guerra Peixe e tantos outros, alem dos que alcançaram maior notoriedade, mas a cujas obras não se dá o relevo que merecem.
Especificamente, aquelas obras cuja estética vinha impregnada de uma evolução de nossa linguagem, dando prosseguimento ao processo cultural responsável pela fisionomia do País. Como as de Vandré, Chico Buarque, Paulinho Pinheiro, Baden Powell, Aldir Blanc, Edu Lobo, Guarnieri, Thiago de Mello, Ferreira Gular, Drummond de Andrade e tantos outros. Porque não tocam mais no rádio, não estão na telinha, nas telonas, com o devido destaque. A arte eliminada.
O tom aparentemente saudosista que se derrama por esta falação pode parecer superado, ultrapassado, datado. Sucede que o Brasil ainda é o mesmo. Suas queixas se agravaram e, a cada dia que passa, mais se ressente da presença de arautos que denunciem, para ajudar a tirar nosso povo de sua apatia, de sua atuação atomizada por falta de um pensamento unificado no qual ele possa confiar.
Está culturalmente embaralhado com a descartabilidade de um besteirol sem par em nossa história. Muito do que se produziu na arte eliminada é até mais atual hoje do que no passado. Muitas obras chegaram a ser proféticas. Se elas estivessem tocando hoje no rádio, imagino que o povo não teria ido às urnas com a indecisão que o levou.
O sentimento impregnado naquela criação traduzia, nas entrelinhas de seus versos, e sons, um amor maior, que não cobrava nem fidelidade nem dividendos pela extensão de seu alcance. Um amor de entrega total, fosse qual fosse o risco, a resposta ou o castigo.
Castigo como aquele sofrido pelo símbolo dos mártires contemporâneos dessa estirpe iluminada, que, por ordem do truculento ditador Pinochet , teve suas mãos decepadas diante de uma multidão, para que não dedilhasse mais seu instrumento.
Subitamente, jorrou de suas veias o calor de seus versos, a doçura de sua voz e o sangue de seu povo.
Falo do cantador chileno Victor Jara, em respeito às lágrimas que escorrem pelo rosto da memoria."


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