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| O Pink Floyd foi profético em "The wall": os shows de rock se tornaram mesmo megaespetáculos com características nazistóides. |
Quando foi, exatamente, que o rock começou a deixar de lado o inconformismo e se tornar megaespetáculo inofensivo (e com um quê de Alemanha anos 30) no Brasil?
O melhor divisor de águas talvez seja a apresentação do Queen no estádio do Morumbi, em março de 1981. Foi a primeira vez que cá vimos um conjunto exibir-se em estádio de futebol, com telão e toda aquela parafernália infernal.
Na década anterior, os ideais e posturas da contracultura ainda inspiravam alguns roqueiros viscerais, como Neil Young, Eric Burdon e Joe Cocker. E os produtos típicos da indústria cultural eram pop stars como Peter Frampton e Paul McCartney.
Foi em 1979 que comecei a escrever sobre rock na editora Imprima. Os sócios-proprietários surpreenderam-se com a receptividade, pois aquelas músicas pouco executados nas rádios ainda tinham insuspeitados contingentes de fãs.
Eu sabia disto, via-os sempre na Galeria do Rock, no centro velho de São Paulo, cujos sebos frequentava. Neles ainda subsistia o espírito de diferenciação em relação aos caretas do sistema, a mentalidade de tribo minoritária e discriminada.
Passei a ter duas páginas fixas, depois quatro, no carro-chefe da editora, a revista Música. E se lançaram novas publicações, que eu criei e editava: Internacional Extra, Rock Stars, Rock Show, Rock Passion.
Quando soube da vinda do Queen, escrevi a obrigatória matéria de apresentação. Lá pelas tantas, informei o óbvio: que o nome do conjunto se devia a queen ser uma gíria para bicha. Sem preconceito, apenas um dado informativo a mais.
O fã-clube ignorava e escreveu cartas raivosas à editora, acusando-me de difamador. Pediu minha visita para discutir o assunto.
Como não sou bobo nem nada, preferi que a meninada viesse à editora. Aí, claro, o papo transcorreu civilizadamente, na sala de reuniões.
Junto com dezenas de convidados da Emi-Odeon, assisti à apresentação de Fred Mercury & cia. no gramado do Morumbi. As novidades me surpreenderam, mas a descaracterização não me escapou. Percebi que a emoção cedia lugar à coreografia bem ensaiada, e que não haveria mais interação entre palco e platéia, e sim veneração dos astros.
Que nunca se repetiriam temporadas como aquela do Cream em que Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, dia após dia, apresentavam de forma diferente as mesmas músicas, de forma que a duração nunca era idêntica. Que improvisos magníficos!
Também me lembrei dos idos de 1973, quando o rock estava tão por baixo que só tinha espaço no dia morto da 2ª feira, no Teatro Oficina. Eu ia quase sempre.
Certa noite choveu, o público era pequeno e a aparelhagem de som estava dando defeito. Enquanto os artistas se apresentavam, havia um montão de bicões tentando consertar o equipamento, no fundo do palco; sua falação atrapalhava os números. o espetáculo parava 10 minutos, continuava, parava de novo. Algumas atrações desistiam, outras só batiam ponto, com o enfado estampado no rosto.
Aí entrou o argentino Tony Osanah (que antes integrara os Beat Boys ao acompanharem Caetano Veloso em "Alegria, alegria" e, depois, acabaria redescobrindo suas raíces de america), com sua guitarra e pedal para controlar sintetizadores.
A performance foi furiosa, no melhor estilo Jimi Hendrix. Ao final, trovejou: "Poderia ganhar mais nas boates, mas vim aqui atrás de um bom astral. E o que encontrei? A mesma merda. Som a gente tira na raça, basta ter tesão!". Atirou a guitarra no chão e foi embora batendo portas.
O certo é que, naquela noite de 30 anos atrás no Morumbi, ficou claro para mim que o rock voltaria a ser um grande negócio. E eu, que mantivera a chama roqueira acesa em anos de vacas magras, passei a me sentir cada vez mais um estranho no ninho, cada vez mais entediado com as matérias cada vez mais consumistas que era obrigado a escrever e editar.
Aí, em dezembro de 1984, deixei a editora Imprima e parti pra outra, sem alegria e sem fantasia, sepultando definitivamente o crítico de rock André Mauro, o último alinhado com a contracultura, de saudosa memória para alguns leitores que até hoje o citam na internet.


5 comentários:
Adorei o post, mestre.
Os argentinos que acompanharam Caetano eram os Beat Boys, se não me engano.
Beach Boys é outra coisa, californiana e surfista, ainda que genial.
Abs,
Sérgio
Corretíssimo, Sérgio, já corrigi.
Engraçado: na revista que eu fiz em 1980 sobre os festivais, coloquei correto o nome. Depois troquei as bolas...
Um abração!
Celso, o que você achou do punk? Eles eram contra tudo isso!
Sim, o movimento punk tinha uma boa atitude. Mas, talvez por vir num momento de exaustão e refluxo dos movimentos contestatórios, não produziu talentos tão fulgurantes quanto os das décadas de 1950 e 60.
Um Jimi Hendrix catalizava as energias da "nação Woodstock". O Jefferson Airplane expressava musicalmente a San Francisco psicodélica. Já The Clash & cia. refletiam, de novo, pequenos agrupamentos, minorias. A volta ao tempo do rock de garagem.
Depois daquele incrível final dos '60 e início dos '70, foi algo meio anticlímax. Eu, p. ex., concordava com os fundamentos, mas não conseguia gostar do som.
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