terça-feira, 31 de agosto de 2010

A LEITORA, O TÚNEL DO TEMPO E O SABÃO EM PÓ

Eulália Moreno, minha leitora nos longínquos tempos em que eu atuava em revistas de música, procurou-me pelo meu pseudônimo de então (André Mauro) e acabou chegando ao meu blogue.

Queria mais informações sobre uma edição dedicada à cantora Simone, em que o desfecho do texto principal (por mim redigido) foi, em sua opinião, "premonitório".

Quase trés décadas depois, ainda se lembrava dessas maltraçadas linhas e as queria reler. Com as indicações que forneci, acabou conseguindo um exemplar na editora.

Escaneou e me mandou tudo, capa, entrevista e considerações finais.

Foi com um misto de nostalgia e amargura que reli esse velho escrito, dando-me conta de que, já naquela época, tinha coisas diferentes para dizer, capazes de interessar às pessoas sensíveis.

Mas, tanto como agora, estavam bloqueados os caminhos que conduziam a públicos mais amplos, pois este tipo de reflexão crítica não convém ao sistema.

Eis a passagem que Eulália nunca esqueceu:
"Embriagada pelo sucesso, [Simone] chegou a prometer que se equipararia ao 'Rei', vendendo também 1 milhão de LP's. Com inteira razão, Caetano Veloso observou que se estava encarando um disco como uma caixa de sabão em pó. Simone não arredou pé de sua posição: 'Gente sou eu, o disco é um produto. Como o sabão em pó'.

"(...) Na verdade, essa simpática baiana é uma cantora razoável, ultimamente crescendo como intérprete, e que tem se beneficiado de um bom repertório, produções esmeradas e considerável estoque de truques promocionais. Acima de tudo, é uma pessoa comum, com a qual as pessoas comuns se identificam facilmente.

"Tem, portanto, as condições ideais para ser o médium em que o espírito da indústria cultural baixará por algumas temporadas. E, se não se acautelar, será usada e jogada fora, como tantos outros.

"Sua permanência depende da capacidade de imbuir-se do sentido maior da arte, instância intermediária entre o sonhado e o vivido, que carrega nossas paixões e esperanças, nossos gritos e êxtases, nossa dor e revolta.

"Artista é quem corre riscos, aventura-se pelos meandros do inconsciente, em busca de dávidas para repartir com seu público.

"Pode perder a lucidez, como Syd Barrett ou Arnaldo Dias Baptista. Pode perder a vida, como Janis Joplin [foto acima] ou Elis Regina. Mas deixa sua marca indelével no tempo, através de uma obra arrancada das profundezas do seu ser e que, por isso mesmo, abala, emociona e transforma as pessoas.

"Isso não é questão de técnica. E de nada adiantam os holofotes da indústria cultural, hoje apontados numa direção, amanhã noutra.

"É preciso, primeiro, se convencer de que a arte se constitui em finalidade última, vocação e sacerdócio, e não num meio para se conseguir acesso aos brinquedos da vida.

"E que o disco não é uma caixa de sabão em pó, pois deve conter o que de melhor o artista tem em si".

OS ABERRANTES E OS FARSANTES

"Eu sou a favor da proibição de fazer humor com candidatos, portanto, a favor da proibição imediata do horário político."

A frasezinha sarcástica é de uma leitora catarinense da Folha de S. Paulo e tem muito a ver: boa parte dos candidatos estaria melhor num espetáculo de aberrações do Rancho Fundo, bem pra lá do fim do mundo.

Piores ainda, entretanto, são os que enganam bem, conseguindo convencer o eleitorado de que farão e acontecerão.

Graças a eles, a maioria bovinizada continua ignorando quão avassalador é o poder econômico e quão pouco sobra para governos decidirem.

Se hoje temos eleições despolitizadas, pasteurizadas e abastardadas, tão inócuas como placebo, a propaganda eleitoral gratuíta é uma dos maiores culpadas.

Pois, ao franquear câmeras e microfones às mensagens eleitoreiras, transformou os pleitos em meros confrontos de ilusões forjadas por marqueteiros.

Isso pretendia ser  democrático, colocando todos os agrupamentos políticos em igualdade de condições.

Acabou se tornando demoníaco, ao vender candidatos como sabonete e estabelecer definitivamente a política como embuste... além de consolidar a desigualdade, estipulando tempo diferente para cada partido.

A esquerda, então, não precisou mais mobilizar as massas para vencer eleições.

E, como em A Revolução dos Bichos, acabou gostando tanto das facilidades do capitalismo que se esqueceu de que deveria lutar contra ele.

Se o reformismo é suficiente para franquear-lhe os palácios e as sinecuras do poder, por que remar contra a corrente? Tudo se torna menos trabalhoso quando se tem os banqueiros como aliados...

Hoje, ao vermos os grandes partidos no horário gratuíto, ficamos tão perplexos como os animais que, no livro famoso de George Orwell, espreitam a reunião dos seus líderes suínos com os inimigos humanos e já não conseguem mais discernir quem é porco e quem é homem.

Se queres um monumento, olha... o México.

Com uma pseudo-esquerda (revoluções inconclusas se institucionalizam?) no governo e o capitalismo no poder durante sete décadas consecutivas, o país chegou ao que é hoje: um narcoestado pior ainda que a Colômbia. 

Onde os fracos nâo têm vez, sendo abatidos como moscas.

 
Há 30 anos, estava bem claro para nós 
quem era o inimigo. Ahora, no más...

VENDIDO COMO LEBRE, O NOVO 'KARATE KID' MIA...

Para a indústria cultural, do boi só se perde o berro.

Então, qualquer música pode ser regravada, qualquer filme refeito, qualquer peça remontada, mesmo que o resultado seja desastroso.

Quando eu escutei pela primeira vez "Don't Le Me Be Misunderstood" interpretada por uma bandinha discothèque chamada Santa Esmeralda, não acreditei: além de medíocres, esses caras não tinham o menor simancol?!

Por que evidenciarem sua insignificância, expondo-se a um confronto com Eric Burdon e Joe Cocker, que lhes eram estratosfericamente superiores? O punhado de dólares terá compensado o ridículo artístico?

E que dizer dos patéticos remakes de fitas como Matar ou Morrer, Jesus Christ Superstar e Psicose?! Não se davam conta, os perpetradores dessas bobagens, que se tratava de obras emblemáticas dos períodos históricos correspondentes e deles inseparáveis?

P. ex., afora ser um filmaço, o High Noon de 1952 se constituiu num ato de coragem de Fred Zinneman, equipe e atores, irmanados num altaneiro repúdio ao macartismo.

Quando a caça às bruxas grassava nos EUA, eles ousaram responder com uma história de simbolismo transparente: a cidade que amava seu xerife Will Kane, abandona-o covardemente quando ele está prestes a ser desafiado pela gangue de Frank Miller, assim como Hollywood estava covardemente abandonando seus ídolos à sanha do bando de Joseph McCarthy e Richard Nixon.

Hair, vira e mexe, volta aos palcos. Mas, depois da  geração das flores, é só mais uma peça.

Quando da primeira encenação, muito mais do que uma peça, era o manifesto de um novo tempo: daquela arrebatadora primavera que, infelizmente, não se consolidaria, pois o sistema tudo fez para trazer de volta o inverno de nossa desesperança.

Estas elocubrações me ocorreram ao ler uma entrevista do cineasta Harald Zwart, tentando convencer o distinto público de que o novo Karate Kid seja algo além de um caça-níqueis.

Em vão. E até caça-níqueis há melhores.

Zwart conseguiu o prodígio de, com a tecnologia moderna e orçamento muito superior, nem chegar perto do  simpático  divertissement de 1984.

Porque, como diretor, ele é mesmo muito inferior a John G. Avildsen (nada além de um artesão, mas com aquele bom gosto e bom senso básicos que hoje andam tão em falta).

Porque havia química entre Ralph Macchio e Pat Morita, inexistente na dupla Jaden Smith-Jackie Chan.

Porque Ralph Macchio tinha carisma e o o filho de Will Smith, previsivelmente, nenhum.

Porque Pat Morita era mesmo idoso como o papel exigia, enquanto Jackie Chan, além de não sê-lo, jamais consegue disfarçar sua inadequação ao personagem.

Porque ambientar a história no Japão foi idéia de jerico; melhor ficaria em Hong Kong, como outras muambas de lojas de 1 real.

Porque o duelo final faz lembrar aqueles bangue-bangues em que os colts disparam 50 tiros sem serem recarregados: como um lutador com a perna seriamente lesionada conseguiria tomar impulso para a execução de um salto acrobático?

De resto, sabem por que me dei ao trabalho de detonar esse filmeco?

Porque não há mais críticos de cinema com conhecimentos e independência para o fazerem.

Os que passam por sê-lo, estão quase todos acumpliciados com a indústria cultural, ajudando a impingir gato por lebre.

Que falta faz um Rubem Biáfora!!!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

NENHUM HOMEM É UMA ILHA

Já houve um tempo em que a totalidade da esquerda sabia qual trincheira deveria ocupar, entre a de  um Cesare Battisti e a de um Silvio Berlusconi; ou entre a de um Celso Lungaretti e a de um Boris Casoy.

Atualmente, os justos, os coerentes e os abnegados, nossos  imprescindíveis, continuam honrando a opção que fizeram na vida.

Mas, existem também os que se omitem -- e são muitos, tornando as vitórias bem mais difíceis.

Não tenho dúvidas de que, se a solidariedade revolucionária continuasse determinando as ações de todos que se dizem herdeiros de Marx e/ou Proudhon, Battisti já estaria em liberdade e eu nada teria a temer de um processo com tão evidentes inspiração e carga simbólicas.

Não é o que ocorre, infelizmente.

Então, a esses outros eu proponho uma reflexão sobre os valores que abandonaram ao longo do trajeto: não seriam exatamente os que dignificavam seu objetivo, fazendo-os portadores das esperanças da humanidade?

Como disse John Donne:
“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti".

domingo, 29 de agosto de 2010

EU, CELSO L., 59 ANOS, ANISTIADO... E BLOGUEIRO (AGORA CONVICTO!)

Este blogue acaba de completar dois anos. É um momento oportuno para se fazer um balanço do caminho percorrido, em relação às expectativas que eu tinha quando o lancei, expressas no primeiro post.

Bem, os desígnios do destino agora estão bem mais claros.

A volta à imprensa era uma ilusão que eu acalentava apenas por ter-me preparado durante muito tempo para nela desempenhar um papel.

Dei meus primeiros passos no jornalismo quando, aos trancos e barrancos, grandes talentos da esquerda ainda conseguiam ser publicados, encaixando na imprensa burguesa suas críticas à sociedade capitalista.

Eu me via fazendo parte de redações gloriosas, como a do Correio da Manhã da década de 1960 ou a da Folha de S. Paulo que Cláudio Abramo comandou até ser detonada pela intervenção do II Exército.

Vã ilusão. Deveria ter lido melhor Marcuse, um dos meus autores de cabeceira: a indústria cultural tende a atuar cada vez mais como reprodutora dos valores capitalistas e exterminadora do pensamento crítico, mesmo ao preço de alijar profissionais que poderiam aumentar a receita do veículo.

Por uma ironia da História, repeti o destino do meu pai.

Obrigado a ingressar numa tecelagem aos 11 anos de idade, ele imaginava-se ascendendo aos patamares mais elevados da atividade e esforçou-se muito nesse sentido.

Depois da jornada de trabalho extenuante, ainda fazia curso para mestre, tendo de beliscar-se para não pegar no sono.

Conseguiu, foi promovido a contramestre e, depois de muitos anos, ascendeu ao topo da carreira.

Só que, nesse ínterim, os cotonifícios haviam decaído irremediavelmente, nada restando do seu esplendor da década de 1930. Era mestre, mas não o mestre que queria ser; pois este não existia mais.

Foi, mais ou menos, o que aconteceu comigo.

Meu primeiro e maior projeto, que rege minha vida até hoje, não frutificou de imediato.

Depois da minha sofrida passagem pela luta armada, perdi todas as ilusões quanto a uma revolução em futuro próximo.

Percebi que teria de encontrar jeito para seguir vivendo até o advento da nova maré revolucionária que reatasse os fios da História, com a humanidade retomando a caminhada interrompida em 1968.

[O refluxo já ultrapassou quatro décadas, mas isto é um nada no calendário revolucionário. Não é sempre que se se consegue dar a volta por cima meros 12 anos depois, como aconteceu com a Rússia em 1917.]

Meu  plano B  foi o jornalismo. Mas, os próprios obstáculos remanescentes da minha militância na vanguarda armada dificultaram e atrasaram a trajetória opcional, até que a imprensa ficou blindada contra o tipo de profissional que eu erigi como meta.

Hoje, seguramente, eu o poderia ser. Hoje, nenhum veículo do sistema o admite mais. Pelo contrário, quer  é vê-lo longe.

Pelo menos, algo a mais que meu pai eu tenho: a percepção de que os caminhos que se abrem não são, necessariamente, um desvio do rumo certo.

Assim, conforme minha participação na web foi crescendo, passei a vê-la com outros olhos: é a ferramenta que hoje me resta para seguir tentando concretizar meus sonhos.

As lições que extraí da cruzada para mudar o mundo, posso transmiti-las nestes textos que, bem ou mal, atingem cidadãos idealistas de todos os quadrantes.

As sementes são espalhadas. Se servirem para uma finalidade maior, o acaso acabará as levando na direção certa.

O projeto de fazer um segundo livro em condições mais propícias do ponto de vista da indústria cultural, era também uma tolice.

Na verdade, o livro já está escrito: a visão revolucionária que eu pretendia transmitir, está toda ela expressa/dispersa nos artigos que tenho escrito.

Ainda pretendo juntar as peças do quebra-cabeças, organizar melhor o material, apresentando-o de forma mais essencializada, didática.

Mas, com a exata noção de que só acontecerá -- se acontecer -- nos circuitos paralelos.

A indústria cultural não disponibilizará seus holofotes para quem pretende livrar a humanidade do pesadelo capitalista. Ponto final.

E, no front virtual, há também tarefas hercúleas por desenvolvermos; principalmente a de o direcionarmos cada vez mais para a gestação de uma  alternativa  ao sistema (ao capitalismo e ao Estado que o expressa). Torná-lo cada vez menos  complementar  e cada vez mais  antagônico  ao sistema.

O papo é longo e não caberia neste post.

O certo é que meu  plano C  está em curso, tendo a meta luminosa do  plano A  como ponto de chegada e as habilidades que adquiri durante o   plano B  como ferramentas.

A luta continua. Sempre!

sábado, 28 de agosto de 2010

"O ESTADO A SERVIÇO DO CIDADÃO"?! NEM A PAU, JUVENAL...

A Receita Federal é um órgão estranho.

Alguns dados que estão lá -- exatamente os que deveriam permanecer sigilosos --, vazam e se tornam conhecidos por Deus e o mundo.

Outros -- os que nada têm de confidenciais -- permanecem tão sigilosos que até seus próprios analistas os ignoram por completo.

Caso de uma ação simplérrima, à qual dei entrada em dezembro/2003.

Nestes anos todos, sempre que eu ia pedir informações sobre o andamento, recebia, depois de um  chá de cadeira  de uma hora ou mais, a mesmíssima resposta: "ainda está em análise".

No mês passado, informaram-me que eu poderia pedir vistas do meu processo. Deve ser um procedimento novo.

Pedi e constatei que, em exatos seis anos e meio, não tinha havido movimentação nenhuma. Nada. Permanecia na estaca zero, virgem como as moças não são mais...

Então, todas as vezes em que me disseram estar em análise, mentiram. Descaradamente. Melhor seria dizerem: "está no limbo".

Perguntei se havia ouvidor, ombudsman ou coisa que o valha, para eu apresentar queixa. Não há.

Então, resolvi recorrer à Ouvidoria Geral da União, o ombudsman supremo.

Constatei que é complicadíssimo encontrar o caminho até ela, pelo labirinto virtual. Não querem mesmo que os queixosos tenham vida fácil.

Perseverei. Com muita paciência, acabei achando o questionário, preenchendo e enviando a reclamação.

Deve estar fazendo um mês. Nada de resposta.

Se bem me lembro, a propaganda oficial já andou trombeteando o slogan "o Estado a serviço do cidadão".

Faltou um adjetivo: "longevo".

Quem não o é, morre antes que o Estado lhe garanta seus mais elementares direitos.

Kafka explica.

AS MONTANHAS CONTINUAM DESABANDO E HÁ CADA VEZ MAIS ABUTRES

A vida repete novamente a arte.

O filme a que o Chile e o mundo assistem, de 33 mineiros aprisionados há mais de três semanas por um desabamento, é um  remake  de A Montanha dos Sete Abutres (1951), do genial Billy Wilder.

Aumentou o número de vítimas, mas o motivo do infortúnio é o mesmo: a ganância, mola mestra do capitalismo.

Na arte, o vilão é um jornalista (Kirk Douglas) que descobre como chegar ao trabalhador soterrado mas prefere não resgatá-lo imediatamente, mantendo-o mais um pouco onde está para capitalizar ao máximo a repercussão sensacionalista do caso.

Resultado: o mineiro morre e ele sente enorme remorso, que o acaba levando também à destruição.

Na vida, a vilã é a empresa de mineração, cujos chefões não mostram nenhum remorso.

Dois meses atrás haviam sido constatadas irregularidades no local, como a falta de fortificação dos tetos e de sinais alertando sobre zonas de risco, além da ausência de comitês paritários para investigar as causas de acidentes e doenças profissionais.

Pior: em 2007 já ocorrera uma morte na mina, obrigando a suspensão das atividades por um ano.

Foi, portanto, a chamada tragédia anunciada -- que, por pouco, não causou a morte estúpida de 33 humildes trabalhadores.

Por culpa da ganância e da insensibilidade capitalistas.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

VIVA O HUMOR, ABAIXO A CARRANCA!

Desde os tempos de Aparício Torelly (o mui digno Barão de Itararé), a sátira política é um respiradouro para cidadãos sem meios mais efetivos para confrontarem os poderosos.

"Manda quem pode e obedece quem tem juízo", diziam os antigos. Mas, submeter-se ao mandonismo ofende e amargura homens livres. O desabafo na forma de humor é o paliativo que desopila seu fígado e lhes permite conservar o amor próprio.

Vai daí que, depois de um longo e tenebroso inverno, posso finalmente elogiar uma decisão de ministro do Supremo Tribunal Federal: a de Carlos Ayres Britto, concedendo liminar contra o dispositivo casmurro da Justiça Eleitoral, tentando impedir que as emissoras de rádio e TV ridicularizem os sumamente ridículos candidatos ao próximo pleito.

O único erro dos humoristas é a redundância: os integrantes dessa inacreditável legião de feios, sujos e malvados tudo fazem para desmoralizar a si próprios, na caça sôfrega aos votos.

As imagens do programa eleitoral gratuito superam as mais grotescas aberrações concebidas pela genialidade delirante de Federico Fellini.

E, como as ervas daninhas crescem com mais vigor e os maus exemplos sempre frutificam nestes tristes trópicos, sabe-se lá até onde uma escalada censória poderia chegar. Melhor esmagarmos o quanto antes o ovo da serpente.

Preservemos o que ainda resta de cordialidade no brasileiro!

E prestemos tributo a heróis esquecidos como Alvarenga e Ranchinho que, por volta de 1940, depois de exporem em suas apresentações a nudez do ditador Getúlio Vargas, fugiam antes da chegada da Polícia.

[Cheguei a assisti-los, já idosos, detonando o  homem da vassoura  com uma paródia da clássica "Menino de Braçanã", de Luiz Vieira. Em vez de "quem anda com Deus não tem medo de assombração", cantavam "quem já viu o Jânio Quadros não tem medo de assombração"...]


Glória eterna ao grande Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta, cuja série Febeapá (Festival de Besteiras Que Assola o País) disse tudo que havia a dizer-se sobre a ditadura militar, no tempo em que ela se caracterizava mais pelo besteirol -- a bestialidade só passou a dar a tônica depois da morte do Lalau.

À extraordinária equipe de humoristas de O Pasquim, com destaque para o benjamim que acabou se tornando o melhor da turma: Henfil.

E, claro, também ao menestrel Juca Chaves, autor de sátiras inspiradíssimas como Dona Maria Tereza (conselhos à esposa do então presidente), que bem merece encerrar esta digressão:

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango Goulart
que a vida está uma tristeza,
que a fome está de amargar.

E o povo necessitado
precisa um salário novo,
mais baixo pro deputado,
mais alto pro nosso povo.

Dona Maria Tereza,
assim o Brasil vai pra trás,
quem deve falar, fala pouco,
Lacerda já fala demais.

Enquanto feijão dá sumiço,
e o dólar se perde de vista,
o Globo diz que tudo isso
é culpa de comunista.

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango porque
o povo vê quase tudo,
só o Parlamento não vê.

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango Goulart,
lugar de feijão é na mesa,
Lacerda é noutro lugar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"ESSE MAJOR MATAVA OS NOSSOS COMPANHEIROS COM UM TIRO NA NUCA"

Achei, no site da Fundação Perseu Abramo, um interessantíssimo depoimento  do ator Renato Consorte, que vale a pena reproduzir de imediato, deixando meus comentários para o final:
"Fui preso na rua, no dia do meu aniversário de casamento (31/1/69), por três tenentes do exército, sendo que, um deles, reconheci como participante das [infilitrado nas] nossas assembléias. Este, depois de me dar voz de prisão, me levou, dentro de um jipão com mais 10 soldados fortemente armados, para o quartel do REC-MEC no Ibirapuera. Chegando lá, fui entregue a a dois majores: um muito boçal que disse ter-me visto no teatro 'fazendo papel de gorila'. Isso tinha sido na peça de Plínio Marcos, 'Verde que te quero verde', em que eu fazia um gorila com uniforme do exército e censurava tudo quanto era texto, rasgando e riscando, isto sem falar em muitos outros detalhes incluídos com intuito de desmoralizar os censores da época. Esse major me martirizou muito, mentalmente, tentando me atemorizar.

"O outro major, de nome Beltrão, me tratou delicadamente, se dizendo meu admirador desde o tempo em que eu trabalhava no Rio, e fazia questão de me tratar por Senhor e acrescentava sempre: 'o senhor vê que eu o trato com educação'. Eu soube, depois, que esse major matava os nossos companheiros com um tiro na nuca. Naturalmente, antes de atirar ele devia pedir 'licença' ao sacrificado. Ele me perguntou, entre tantas coisas, o que eu achava do CCC. Me fazendo de ingênuo, eu disse que 'se tratava de um grupo de estrangeiros com o intuito de lançar brasileiros contra brasileiros'. Ao que ele observou, espantado: 'Não, senhor Roberto! Eles são daqui do nosso quartel mesmo!'. Aquele major boçal chegou a me dizer: 'O exército brasileiro, senhor Renato Consorte, está com o senhor por aqui'. E fez aquele gesto tocando na testa".
Lembro-me muito bem do narigudo Renato Consorte, que teve atuação das mais marcantes numa peça teatral seminal para mim, aos 17 anos: Arena Conta Tiradentes.

Só em 1968 eu a assisti três vezes, com o elenco completo: Gianfrancesco Guarnieri (à esq., na foto),  David José, Antonio Fagundes, Dina Sfat e Jairo Arco e Flexa, entre outros.

Na melhor delas, um chuvoso sábado à noite, havia pouco público e o elenco resolveu brincar um pouco com os personagens e situações, fazendo improvisos hilários e lançando insinuações transparentes sobre os acontecimentos políticos daquele momento. Inesquecível.

Eu nunca vira uma troupe fazer isso, praticamente sair da peça e voltar a ela, sem deixar a peteca cair em nenhum momento. [Depois o Oficina foi muitíssimo além, em Gracias, Senhor, outro dos grandes marcos teatrais da minha mocidade.]

Até hoje guardo as melhores lembranças de Arena Conta Tiradentes, tanto que já escrevi várias vezes sobre ela neste blogue: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Quanto ao Renato Consorte (à dir., na foto), era um intérprete cômico por excelência, que caiu como uma luva na anarquia criativa do Teatro de Arena (em cujas encenações os atores iam assumindo vários papéis ao longo da história, bastando trocar algumas peças da indumentária e as características da interpretação).

A fantasia de gorila, ele a utilizou na Feira Paulista de Opinião, uma coletânea de peças curtas de vários autores.

No depoimento acima não mencionou o que havia de mais debochado: o símio usava um penico na cabeça (representando, obviamente, o capacete militar).

A certa altura, colocava o penico no chão, sentava nele (ajeitando a cauda para o lado), fingia fazer suas necessidades, levantava, sacudia rapidamente o utensílio e o colocava de volta na cabeça.

O teatro vinha abaixo de tantas gargalhadas.

Foi porque não estavam conseguindo mais segurar a onda que os militares tiveram um chilique e promulgaram o AI-5.

RESISTIR É PRECISO!

Estão cristalizando-se dois universos ao mesmo tempo complementares e antagônicos, o da indústrial cultural e o da blogosfera.

O primeiro tem influência muito maior, expressando/reproduzindo os valores do capitalismo, para formatar a maioria bovinizada.

O segundo é o espaço em que uma minoria inconformista ainda consegue manter vivos o pensamento crítico e a possibilidade de gestação de alternativas ao  status quo.

A escalada de ataques de expoentes do sistema ao livre trânsito de informações e opiniões na web pode ser mera coincidência... ou ação concertada.

Como Marcuse profetizou, eles tentarão fechar toda e qualquer brecha que permita aos videotas chegarem à consciência de si próprios, da exploração que sofrem e da manipulação que os zumbifica.

Resistir é preciso. Sempre!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

AOS COMPANHEIROS, AMIGOS E CIDADÃOS SOLIDÁRIOS

Agradeço as manifestações de apoio a esta causa, que vai além das pessoas de Celso Lungaretti e Boris Casoy.

O que está em jogo é a liberdade de informação e opinião, pois o sucesso do querelante restringiria drasticamente os limites de atuação de jornalistas e blogueiros.

Os primeiros não poderiam mais adotar como verdadeiras as afirmações de fontes pertinentes e consistentes, nem aquilo que tenha sido publicado em veículos de circulação nacional.

Teriam, talvez, de escrever seus textos baseados unicamente no que presenciassem com seus olhos e escutassem com seus ouvidos...

Já os blogueiros se veriam obrigados a consultar figuras públicas cada vez que quisessem postar qualquer texto passível de lhes cair no desagrado.

A grande maioria, que não tem o blogue como atividade rentável nem pode contratar auxiliares, perderia pessoalmente um tempo precioso correndo atrás de celebridades/personalidades que tudo fazem para dificultar o acesso à  plebe ignara.

Mesmo superando tais obstáculos, em 99% dos casos esperariam em vão pela resposta, olimpicamente ignorados, enquanto os assuntos fossem caducando.

E os poderosos, quando se sentissem incomodados, não se contentariam sequer com direitos de resposta, o meio mais adequado para a parte que se julga atingida apresentar sua versão na blogosfera.

Imporiam, com o chicote judicial, a obrigação de o blogueiro se retratar humilhantemente, como alternativa à possível prisão.

É isto que realmente está em jogo, não as reminiscências de um passado que teima em voltar à tona exatamente porque, naquela época, imperava o arbítrio e não foi feita Justiça.

Se a organização criminosa, nazistóide, homicida, terrorista e racista conhecida como CCC tivesse respondido judicialmente por seus muitos e hediondos crimes, hoje se saberia quem a integrou... ou não.

Quando o regime militar acobertou os grupos paramilitares que complementavam a repressão política oficial, não só livrou os culpados do merecido castigo, como pode ter propiciado a estigmatização de inocentes. Quem sabe?

O certo é que essas pessoas devem apresentar suas versões a historiadores, jornalistas e à opinião pública, com as provas e testemunhos cabíveis, ao invés de simplesmente tentarem proibir que se toque no assunto. Censura nunca mais!

E, se têm alguma queixa a fazer, que escolham o alvo certo: a ditadura militar, responsável por todas as atrocidades, injustiças e aberrações daquele período tenebroso de nossa História.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CARLOS LUNGARZO: "DEVEMOS REAGIR CONTRA A PUNIÇÃO DO PENSAMENTO!"

O fato que motiva a exacerbação da extrema direita contra o comunicador, escritor e blogueiro Celso Lungaretti, deflagrada pela tentativa de censura lançada por um representante da grande mídia e de seus aliados no meio jurídico, é de extrema gravidade.

Em muitos assuntos humanitários, às vezes as pessoas se furtam de agir, mesmo que possuam boa vontade, fazendo um diagnóstico sobre os perigos, que, para os defensores de direitos humanos, nunca são poucos. Muitos conhecem os versos do célebre poema de Brecht, onde se fala de alguém que não se importou quando foram detidos os judeus, nem quando foram capturados os católicos, nem quando foram perseguidos os comunistas, etc., porque ele não pertencia a nenhuma dessas comunidades, mas, num certo momento ele também foi detido, e ninguém o ajudou. A figura poética se aplica perfeitamente neste caso.

Com efeito, talvez seja verdade que não seremos perseguidos por nossa raça, religião, ou nacionalidade aqui no Brasil, pois a maioria dos intelectuais ainda são brancos, de classe média e de nacionalidade diversa. Talvez possamos pensar que não estamos entre as que hoje são comunidades castigadas: índios, negros, favelados, vítimas da polícia, etc.

Mas, todos nós opinamos, todos nós falamos, todos nós escrevemos. Se for castigada a opinião, sem dúvida estaremos entre as vítimas.

Na rede há dúzias de milhões de blogs, e talvez haja vários milhares de blogs brasileiros. Há blogs de todos os níveis e perfis, mas a maioria deles são blogs progressistas, que transmitem mensagens pela democracia, contra o autoritarismo, contra o fascismo. Isso se entende facilmente: como dizia o grande marxista Hilferding.

As elites podem comprar tudo, menos a inteligência e a sensibilidade; e raramente conseguem comprar os que a possuem, pois eles não se vendem.”

A direita não tem boas ideias, e raramente encontramos alguma figura de direita que teve algum talento como pensador (como Raymond Aaron ou Carl Schmidt). Mas eles têm armas muito poderosas: dinheiro, contatos, poder político, exércitos, polícias e juízes.

Então, todos nós somos alvos vulneráveis, todos nós somos Celsos Lungarettis, mesmo se divergirmos de sua ideologia, de seus procedimentos, de suas opções políticas específicas, e até da forma muito enérgica em que ele encarou a crítica contra o apresentador.

 Todos os que estamos contra a barbárie classista e racista, contra o genocídio social, contra a empáfia grosseira dos “coronéis” da mídia, contra a permanente faxina demográfica que se pratica no Brasil (seja com armas da polícia, com armas dos jagunços, com armas jurídicas, ou com armas verbais dos ideólogos), corremos perigo. Então, devemos aplicar o princípio que iluminou a conduta dos oprimidos desde a origem da humanidade:

“Se vamos ser castigados, reprimidos, brutalizados, que não seja em vão. Que tenha um alto custo para o inimigo.”

Há um exemplo histórico fundamental: a revolta do heroico Ghetto de Varsóvia durante a ocupação da Polônia. Os cativos dos nazistas sabiam que nada poderia salvá-los da morte, porque o poder das SS era superior ao deles em milhares de vezes. Mas, entre as duas opções, morrer mansamente ou resistir, preferiram resistir. Voltemos agora ao caso da censura e repressão da opinião.

Está ainda sobre a mesa do Senado uma proposta de uma obscura figura política, que propõe uma censura na Internet tão completa que poder estimular islâmicos e chineses a pedir bolsas brasileiras para se especializar em repressão (e talvez obter mestrado e doutorado). Este sujeito é o mesmo que foi indiciado, porém não julgado por liderar um esquema de corrupção num dos maiores estados do país, e o mesmo que propôs a supressão do direito de asilo, o substituindo por uma proteção fajuta que seria decidida pelo Senado (uma iniciativa tão descabida que nem os maiores capangas da oposição a levaram em conta).

Mas, já houve amostras mais concretas do perigo que corremos:
  1. Há alguns anos, um juiz decidiu punir o prestigioso escritor Ricardo Morais, porque em seu livro A Toca dos Leões, denunciava um senhor feudal do Centro Oeste brasileiro que propunha a esterilização das mulheres nordestinas. Em vez de investigar a denuncia, a “justiça” puniu o denunciante. Até onde eu sei, o escritor ainda está sob ameaça de pagar uma multa milionária.
  2. Em 2006, o professor Emir Sader denunciou como racista um senador que tinha manifestado sonoramente sua abominação “por aquela raça do PT”, sugerindo também que o país deveria “livrar-se dela”. Um juiz, que foi criticado até por outros magistrados, produziu uma sentença truculenta: um ano de prisão e demissão definitiva de seu posto de professor, porque “corrompia” a juventude. Um dos membros do ministério público qualificou este cara de “doente” e “teratológico”.
Os que somos originários de culturas onde prima a barbárie, temos grave dificuldade para reconhecer a dor de sermos dominados por um sistema jurídico iníquo, venal, subserviente, e alheio a qualquer forma de racionalidade e humanidade. Não queremos reconhecer que somos apenas objetos manipulados por uma casta de sujeitos elitistas e racistas, eleitos por ninguém, que se reproduzem à margem dos procedimentos usuais nas democracias, como as eleições.

Mas, temos de reconhecer que, se continuamos nos submetendo ao arbítrio dos donos da justiça, da fé e das ideologias, acabaremos perdendo todos os direitos, e estaremos na situação do personagem de Brecht. O Judiciário brasileiro, salvo uma esforçada minoria de magistrados progressistas que lutam contra o arbítrio com permanente risco, tem aprovado as maiores atrocidades nos últimos anos: inocentou genocidas em massa, deu HC para autores de genocídio no Pará, questionou a liberdade científica, condenou a morte mulheres com gravidez de risco máximo e, em forma espetacular, envenenou o direito de asilo, usurpando as funções do poder Executivo, e colocando o país num papel ridículo na cena internacional.

Temos alguns motivos recentes para sentir alguma esperança. Embora continuem controlando a mídia, a economia, as armas e o dinheiro, os setores mais bárbaros do país estão sofrendo a crescente repulsa da expressão popular. Não devemos aceitar nem a lei de “quanto pior, melhor”, nem a lei do “tudo ou nada”. Embora os DH não tem sido implementados corretamente, apesar da perfeição teórica do PNDH-3, obviamente sabemos que é preferível um governo que os respeite parcialmente, antes que um governo cujo objetivo seja destruí-los.

Propostas de Ação

Proponho a defensores da imprensa e da internet livre, ativistas dos Direitos Humanos, membros de ONGs humanitárias internacionais, políticos e magistrados progressistas, DENUNCIAR aos organismos internacionais, e às numerosas organizações não governamentais que defendem o direito de opinião e pensamento, a seguinte situação:
  1. O desprezo de judiciário pelas aplicações das leis contra o preconceito que vigoram em nosso país há 21 anos.
  2. As medidas que uma grande parte do Judiciário está adotando para estrangular a liberdade de expressão no Brasil.
  3. A aliança “virtual” entre magistrados e políticos da direita, junto com empresas e organizações neofascistas, para criminalizar a Internet, o mais importante recurso da liberdade de expressão desde a criação da imprensa no século 15º.
Outrossim, devemos adotar as seguintes ações:
  1. Pedir a organismos internacionais a aplicação de formas possíveis de boicote, contra magistrados que estão ao serviço da censura. (Por exemplo, excluí-los de organizações internacionais de magistrados, boicotar suas publicações, se as tiverem, separá-los de associações às que pertençam, denunciar a seus comunidades para eventuais boicotes no caso de visita, etc.) Estas medidas têm sido aplicadas muitas vezes com sucesso nos países desenvolvidos, conseguindo que cientistas, intelectuais e profissionais ao serviço de causas perversas (racismo, homofobia, censura, genocídio, etc.) sejam proibidos de visitar certos países. Até o poderoso genocida austríaco-americano Henry Kissenger, um dos homens mais influentes dos EEUU, está proibido de visitar alguns países da Europa onde poderia ser preso, como a Holanda.
  2. Fazer conhecer este caso de retaliação judicial contra o direito de denúncia (o relativo a Celso Lungaretti) junto com os outros que se conhecem, à Comissão Interamericana De Direitos Humanos, e aos organismos das Nações Unidas em defesa de liberdade de expressão.
Deve-se lembrar-se que a Lei 7716 proíbe a discriminação por raça, cor, etnia, religião e nacionalidade. Além disso, o artigo 20, §2, aumenta a pena quando se trata de discriminação ou preconceito difundido pela mídia, como foram as manifestações do apresentador contra os varredores municipais.

Deve enfatizar-se que, apesar de que tudo indica que o apresentador não era consciente de que seu microfone estava aberto, é uma responsabilidade das equipes técnicas do canal, ou talvez dele próprio, manter o suficiente sigilo sobre expressões de desprezo e de disseminação do ódio e o preconceito. Não estamos questionando uma pessoa porque deseje manifestar a seus amigos, em privado, todo seu desprezo e ódio de qualquer intensidade. Isso é a liberdade do foro íntimo. Mas se transforma em crime humanitário (e, em virtude da lei 7716, também em crime do direito positivo), quando é difundida, especialmente quando o meio é massivo, como a TV brasileira.

Algumas pessoas poderão argumentar que a Lei 7716 não prevê o crime por discriminação ou preconceito por nível econômico, extração social e tipo de atividade, como aconteceu no caso do apresentador. Ele, de fato, manifestou seu desprezo não contra a etnia dos varredores (que, aliás, eram dois de etnias diferentes), mas contra sua condição social. Entretanto, isto pode ser tratado por analogia, como é frequente no Direito Humanitário.

Tendo em conta que a legislação sobre Direitos Humanos do Direito Humanitário Internacional é equivalente a preceitos Constitucionais, o escárnio público de pessoas em função de ter um trabalho humilde ou não qualificado, pode ser considerado equivalente a um preconceito de tipo racial ou étnico, já que em ambos os casos o intuito é discriminar e estigmatizar grupos sociais vulneráveis e explorados, com base na crença de privilégios de grupo.

Portanto, devemos pedir a aplicação da Lei 7716 neste caso, lembrando que delitos contra humanidade não prescrevem, e que o erro de não ter feito a denúncia sobre esta base não tolhe a possibilidade de uma ação futura. (De fato, todos os que se indignaram por este fato e se manifestaram na mídia, propuseram uma ação de injúrias contra o apresentador, mas não uma representação por violação da lei 7716).

Por sinal, isto nos faz refletir como somos totalmente inconscientes de nossos direitos. Aquela agressão contra pessoas humildes e trabalhadores, que tinham a gentileza de nos desejar felicidades, produziu uma enorme onda de indignação, mas nenhum de nós tomou a medida correta: denunciar seu autor por discriminação e preconceito contra condição social. Não se trata de uma injúria, que pode considerar-se uma ofensa à honra pessoal, cujo impacto depende da susceptibilidade da vítima. Trata-se de convocação ao desprezo massivo contra grupos sociais discriminados.

Deve ter-se em conta que, mesmo que a 7716 não inclua, talvez por erro dos legisladores, talvez por outros motivos, o preconceito por condição social ou trabalhista, é possível adaptar a legislação internacional humanitária sobre discriminação por etnia, nacionalidade ou grupo de procedência. Ambas se assimilam, já que em ambos os casos, a condição vulnerável dos agredidos provém de injustiças sociais históricas, da mesma maneira que acontece com a escravidão, a marginação de indígenas, a perseguição de imigrantes, etc.

Deve observar-se que existe certa jurisprudência internacional nestes casos. Por exemplo, não teria sido possível julgar alguns chefes da faxina étnica de Bósnia, se não fosse pela assimilação do direito humanitário existente, porque Servia não possuía leis contra a discriminação por origem racial ou religiosa. Outrossim, embora na prática seja difícil aplicar estes princípios, na teoria jurídica internacional é perfeitamente pacífico que a perseguição de crimes de lesa humanidade possui jurisdisção planetária.

Por outro lado, não pode argumentar-se que se trata de simples opinião, porque os grossos termos usados, ouvidos por alguns milhões de pessoas, podem ser interpretados como mensagens para contribuir à marginação social das vítimas. Lembremos, por exemplo, que a emissora Mil Colinas, de Ruanda, que em 1994 preparou a chacina contra a etnia tutsi (que custou 1 milhão de mortos) baseou suas mensagens em referências à “baixa” condição dos tutsis, e à superioridade dos hutus, embora houvesse também outros argumentos.

O caso deste apresentador responde, aparentemente, a uma reação espontânea, produto de preconceitos e elitismos consolidados pela cultura de classes do Brasil desde há séculos. Entretanto, mesmo que não seja uma ação deliberada, ela coincide, de maneira natural, com as continuadas, insistentes e exacerbadas amostras de discriminação e elitismo alardeadas pelas coletividades políticas mais extremas da direita das Américas.

Com efeito: nenhum projeto econômico das classes dominantes corre risco por causa do avanço das forças políticas que pertencem a um centrismo popular. (Não uso a palavra “centro-esquerda” porque não acho adequada a este contexto). Pelo contrário, setores do empresariado nacional estão tirando seus maiores proveitos. Entretanto, a direita brasileira se empenha em atacar este populismo centrista, inclusive simulando atos ilegais de seus inimigos, apresentando denúncias sem sentido, forçando provocações.

Por que? Porque não apenas de mais-valia vive a direita. Ela vive também de ódio. Não é por acaso que qualquer medida em favor dos DH encontra neles fechados inimigos: seja quando se quer denunciar os crimes militares, como quando se pretende garantir os direitos de todos os grupos religiosos e de todas as alternativas sexuais, como quando se tenta combater o racismo. É óbvio que leis antirracistas, antigenocidas e, em geral, em favor dos DH são obstruídas ou enfraquecidas e, se não podem evitar sua aprovação, pelo menos as privam de efetividade.

Agora há um problema que deve nos preocupar, mesmo que seja por egoísmo. O castigo da opinião prejudica a todos: de qualquer raça, religião, nacionalidade, opção sexual, nível econômico. Qualquer um de nós poderá ser multado, ir preso, sofrer tortura, se não impedimos que, usando a interpretação tortuosa das leis, sejamos impedidos de denunciar fatos como racismo e discriminação.


Carlos Lungarzo (Anistia Internacional)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

CASOY ME MOVE AÇÃO CRIMINAL POR ARTIGO SOBRE O EPISÓDIO DOS GARIS

Desde o último dia 17, estou sendo processado por Boris Casoy no Juizado Especial Criminal da Barra Funda (SP), por calúnia ou injúria, em razão do meu artigo de resposta aos gracejos  com que ele depreciou os garis. Quem me defende é o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, sempre coerente com suas gloriosas tradições.

Mais do que calar um articulista virtual e blogueiro, Casoy ameaça restringir a própria liberdade de opinião na internet, já que uma sentença a ele favorável abriria precedente para uma enxurrada de questionamentos judiciais a quem ousasse criticar figuras públicas.

Carecendo a ação de substância, eu tinha a esperança de que ele desistisse na audiência de conciliação; ou que juiz e promotor lhe fizessem ver quão descabida era sua pretensão.

Como nada disso ocorreu, serei obrigado a enfrentar mais um desafio, algo patético, pois estamos ambos na idade em que guerreiros costumam repousar.

Enfim, mesmo com os anos começando a me pesar, ainda não me resignei a travar minhas lutas através de terceiros, nos tribunais. Estes são e sempre serão palcos secundários para mim.

Como militante humanitário e como jornalista, é ao julgamento da cidadania que me submeto, em primeiro lugar;  e nunca tomo a iniciativa de procurar outros.

OS DOIS EXTREMOS DA ESCALA DO TRABALHO

Tudo começou quando, no dia 04/01/2010, assumi a defesa dos garis que, "do alto de suas vassouras", haviam ousado enviar suas saudações de Ano Novo aos brasileiros, esquecidos de que seus votos partiam de quem estava no "ponto mais baixo da escala de trabalho" e sempre haveria alguém situado no topo dessa escala para devolvê-los à sua insignificância. Lancei este artigo.

Não foi a primeira, nem será a última vez em que me coloco ao lado dos fracos, quando espezinhados pelos poderosos; faço isto sistematicamente desde que, aos 16 anos, dei meus primeiros passos no movimento estudantil, indignado com o arbítrio ditatorial. A solidariedade para com os humildes e os excluídos inspirou minhas atitudes ao longo de toda a existência adulta.

Ocorre que esse meu texto inicial motivou um site a desencavar, fotografar e espalhar por toda a web uma reportagem da revista O Cruzeiro, de novembro/1968, na qual Casoy era citado; e um respeitado articulista da internet postou, como comentário no meu blogue, um relato sobre ocorrências por ele presenciadas no clube A Hebraica.

Como esses dois desdobramentos haviam sido suscitados por meu artigo, resolvi nele incorporá-los, mantendo o título e a redação originais, salvo num trecho: o parágrafo 12 foi substituído por seis outros (do 12º ao 17º). Além disto, acrescentei um intertítulo, no espírito das novas informações trazidas.

E atualizei, logo na abertura, o número de vezes em que os vídeos com as afirmações do Casoy sobre os garis haviam sido vistos no Youtube: o total crescera de cerca de 850 mil hits para 2,5 milhões de hits.

Lancei a 2ª versão, revista e ampliada, na noite do dia seguinte. Em alguns espaços virtuais simplesmente a 1ª versão foi tirada do ar, substituída pela 2ª. Outros, que não tinham dado a 1ª, publicaram só a 2ª.

E houve até um jornal eletrônico do interior paulista que, por já haver publicado o artigo da 1ª vez, deixou de fora os trechos repetidos e aproveitou só o que havia sido alterado, usando o intertítulo como se fosse título.

É POR ESTA VERSÃO INCOMPLETA DO ARTIGO QUE CASOY ME ACIONA, DE PREFERÊNCIA ÀS DEZENAS DE VERSÕES COMPLETAS AINDA ENCONTRADAS NA WEB!

No entanto, em plena audiência ele se queixou de que eu evocara toda sua carreira jornalística de forma negativa, candidamente revelando que conhecia, sim, a versão integral...

SAMBA DO CRIOULO DOIDO

O ridículo chega a ponto de a queixa omitir que a edição do texto que embasa a acusação foi tão confusa a ponto de constarem, no final, vários RECADOS PESSOAIS que eu mandei ao editor do jornal (!!!). Vide aqui.

Em função desse verdadeiro  samba do crioulo doido, Casoy me quer ver preso!

Mais: não aceita que eu haja citado e extraído conclusões do que me relataram duas fontes e do que saiu em reportagem de uma das principais revistas de circulação nacional à época.

E me recriminou por não tê-lo procurado para ouvir o outro lado, como se isto fosse viável em artigos de blogueiros, muitos dos quais (meu caso) não recebem um centavo por sua atividade, nem têm como manter equipes a seu serviço.

Se tivermos de consultar, a cada texto escrito, figuras públicas que quase nunca respondem, nossa atuação será extremamente prejudicada, quiçá inviabilizada.

Afora o fato de que se trata da transposição mecânica para a internet de regras do jornalismo -- o qual, aliás, foi  desregulamentado  pela decisão de 2009 do Supremo Tribunal Federal.

Daí ser muito perigoso o precedente que esse caso tenta abrir: o da obrigação de blogueiros a submeterem-se a regras jornalísticas, num momento em que até mesmo as regras jornalísticas estão confusas.

Direito de resposta, p. ex., ainda está por ser restabelecido. No entanto, ofereci-o a Casoy, pois respeito as boas práticas jornalísticas, independentemente de ameaças judiciais.

Ele exigiu  retratação, como se eu fosse obrigado a lhe dar um atestado de boa conduta sobre o que dele afirmaram/publicaram seus contemporâneos e eu só repeti.

Negativo, é aos historiadores e à opinião pública que ele deve apresentar sua defesa, como eu mesmo fiz, quando injustiçado a um ponto que Casoy jamais será.

E, como parece ser ao símbolo que ele tenta atingir, acionando um dentre milhares que o acusaram (até com grosserias e baixo calão, o que não foi meu caso), é como símbolo que travarei esta batalha: sem acordos, sem recuo de nenhuma espécie e percorrendo todas as instâncias necessárias para que a Justiça prevaleça.

De antemão, agradeço quaisquer apoios solidários. Há sempre riscos para um adversário do sistema quando enfrenta um favorito do sistema, por mais que a verdade e a razão estejam ao seu lado.

Então, é com os cidadãos dotados de espírito de justiça que conto para equilibrar os pratos da balança.

domingo, 22 de agosto de 2010

JORNADA À DISTÂNCIA = ESCRAVIDÃO DIGITALIZADA, AVALIA SOCIÓLOGO

A falsa terceirização foi vendida como favorável aos trabalhadores, por permitir que os empresários lhes repassassem uma parte do que despendiam com tributos.

Muitas categorias, inclusive os jornalistas, caíram no conto-da-pessoa-jurídica.

E ainda sentiram orgulho da nova (mas pretensa) condição de micros e pequenos empresários, que os distinguiria da gentinha assalariada.

Deu no que deu: viraram, sob novo rótulo, operários mais explorados ainda. E sem as garantias trabalhistas dos operários tradicionais.

Demissíveis quando dá na telha do patrão, que lhes paga apenas 30 dias extras, contados a partir da data do distrato.

O capitalismo não se mostrava tão selvagem desde aquele passado longínquo em que Marx se indignava com a desumanidade aberrante nas minas de carvão: mesmo quando o motivo é doença, vão para a rua da amargura sem dó nem piedade.

As categorias se fragmentaram, pulverizaram: colegas de infortúnio, irmanados pela exploração sofrida, passaram a ver a si próprios como concorrentes, não conseguindo mais concertar a resistência conjunta ao capital.

Nem mesmo, em muitos casos, manter a espinha ereta: boa parte passou a puxar o saco dos superiores e o tapete dos colegas.

Os sindicatos tiveram sua força reduzida a quase nada.

As centrais sindicais viraram tigres de papel.

A mais-valia foi maximizada.

AUMENTAM AS DOENÇAS E O ESTRESSE

A nova armadilha é o conto-do-trabalho-em-casa.

Ricardo Antunes, sociólogo da Unicamp e autor do livro Adeus ao Trabalho?, assim disseca a jornada à distância:
"O processo combina salto tecnológico com intensificação do trabalho. E com um envolvimento maior do trabalhador".

"Se você ganha um equipamento quando entra na empresa, não é a libertação, mas a sua escravização, ainda que digitalizada".

"O tempo de trabalho e o tempo de não trabalho não estão mais claramente demarcados.Significa que, estando na empresa ou fora dela, esse mundo digitalizado nos envolve durante as 24 horas [do dia] com o trabalho".

"O trabalhador perde o sentido da vida fora do trabalho. Aumentam os adoecimentos e o estresse. A aparência da liberdade do trabalho em casa é contraditada por um trabalho que se esparrama por todas as horas do dia e da noite".

sábado, 21 de agosto de 2010

HÉLIO BICUDO SE RECUPERA DE UM AVC

Um dos últimos gigantes da resistência à ditadura militar, o companheiros Hélio Bicudo, 88 anos, sofreu um Acidente Vascular Cerebral no último dia 11, quando fazia exercícios físicos num clube paulistano.

Internado no hospital Oswaldo Cruz, está lúcido e seu quadro é estável, mas sem previsão de alta.

Atuando como promotor no pior período do terrorismo de Estado, ele conseguiu golpear e desmoralizar a repressão política sanguinária, ao desbaratar a organização criminosa anterior à qual pertencera o delegado Sérgio Paranhos Fleury, assassino de Carlos Marighella: o Esquadrão da Morte, um bando de policiais a soldo de um grande traficante.

Passando-se por  justiceiros, os matadores do Esquadrão exterminavam os criminosos que estavam a serviço de outros traficantes.

Com lucidez e coragem, Bicudo conseguiu dobrar a resistência dos militares à  exposição pública dos pés de barro de um dos principais carrascos a serviço da tirania.

Detalhe: enquanto ainda não havia caído a máscara do Esquadrão da Morte, o regime chegou até a criar uma lei apenas para evitar que o chefão do Deops, pronunciado, tivesse de esperar preso o julgamento. Foi apropriadamente apelidada de Lei Fleury.

A proteção só retirada quando Bicudo conseguiu provar que, além de assassinos bestiais, os integrantes do Esquadrão eram assalariados da contravenção. Aí, prevaleceu o moralismo da caserna.

Torcemos por sua recuperação.

BAÚ DO CELSÃO: REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE ALTERNATIVA

No início dos anos 80, quando trabalhava em revistas de música, tive uma breve amizade com o Raul Seixas.

O que nos aproximou foi termos ambos 1968 como referencial maior de nossas existências. 

Músicas tipo "Metamorfose Ambulante", “Tente Outra Vez”, "Cachorro Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a velha esquerda rabugenta se reconstruía, passando como um rolo compressor sobre os sonhos da  geração das flores.

De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raulzito, posso dizer que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o de agruparmos as pessoas com boa cabeça em comunidades que estivessem, ao mesmo tempo, dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).

Essas comunidades existiram no Brasil, de 1968 até meados da década seguinte. Nelas praticávamos um estilo solidário de vida, buscando reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o necessário, evitando a ganância e o luxo.

Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria sendo, isto sim, mudado pelo mundo.

Então, em vez de conquistar o governo para tomar o poder e tentar implantar uma sociedade mais justa de cima para baixo, nós queríamos deslocar o eixo para o sentido horizontal: acreditávamos em ir praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e cresceriam aos poucos, até engolirem a sociedade antiga.

As teses e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60 continuam sendo uma das melhores tentativas que podemos fazer para sairmos deste  inferno pamonha  que o capitalismo globalizado engendrou. Daí o empenho dos conservadores de direita e de esquerda (eles existem, sim!) em relegá-las ao esquecimento. 1968 ainda é tabu.

O NÉO-ANARQUISMO 

Se, como todo mundo diz, a Sociedade Alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do bruxo Aleister Crowley (que ele e o Paulo Coelho andaram traduzindo do original), também se inspirava nas barricadas parisienses, nas comunidades hippies e na contracultura, o que poucos apontam.

Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos em que tentávamos nos tornar homens novos na convivência solidária com os irmãos de fé, em nossos territórios livres.

A referência ao maio/1968 francês é óbvia, por exemplo, na segunda estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou."

Os conservadores sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma provocação artística, sem maiores conseqüências políticas e sociais. Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento anárquico, como tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo.

Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era um estado policial, submetido a uma censura rígida, embora burra.

Este não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade – talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a ação no hoje e agora.

LIKE A ROLLING STONE  

Eu vivi na estrada e em comunidade alternativa, em 1971/72. Foi uma experiência riquíssima, num momento em que eu precisava extravasar as emoções represadas no cárcere e me reconstruir, já que o sonho de uma sociedade de liberdade e justiça social ficara adiado por décadas e eu, esperançoso como qualquer adolescente, não me preparara psicologicamente para suportar a sociedade unidimensional que a contra-revolução erigiu.

Atrapalhava muito, naquela terrível Era Médici, a tensão entre a liberdade que queríamos vivenciar em recinto fechado e o terror e o medo que grassavam lá fora.

Vivíamos acuados, os cidadãos comuns nos olhavam com receio ou rancor por causa de nossas cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a economia deslanchava e alguns sentiam-se tentados a ir buscar também o seu quinhão do  milagre brasileiro.

Hoje, quem tem olhos para ver já pode aquilatar o que é a sociedade de consumo e a posição de país periférico na economia globalizada: parafraseando Conrad, "o horror, o horror!".

Acostumado aos tempos em que se trabalhava para viver, eu não consigo aceitar que atualmente as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas por objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização profissional, etc.).

E tudo isso para quê? Para poderem comprar um monte de objetos supérfluos e quase nunca encontrarem relacionamentos gratificantes no dia-a-dia, pois já não sabem mais interagir – querem apenas usar umas às outras.

Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do sistema, poderíamos todos estar nos agrupando em casarões da cidade e sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando, levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um irmão e não um competidor.

Com as facilidades de comunicação atuais (que fizeram muita falta há quatro décadas), essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam, ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os ensinamentos de Thoreau em A Desobediência Civil.

Seria um ponto de partida. E, conforme os territórios livres fossem crescendo, poderiam até virar algo mais sério – uma alternativa para toda a sociedade.

COMO FAZER

Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos.

Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando ao som de "Let the sun shine in" (com inocência, pois não éramos dados ao sexo grupal).

Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.

Havia problemas, claro. Emprestávamos ao outro o que ele estava precisando mais, numa boa; só que, às vezes, descobríamos na enésima hora que alguém tinha levado sem pedir aquilo que a gente ia usar. Dava discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião coletiva da nossa comuna.

Também não era fácil administrarmos o jogo das paixões. Minha amizade com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles existiam e nos machucavam.

O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma generosa e solidária.

Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos fazer pelo outro, fazíamos.

Onde erramos? Duas vaciladas fatais implodiram nossa comuna. Uma foi deixarmos a droga correr solta – LSD e maconha, principalmente, pois o propósito era abrirmos as  portas da percepção, no dizer de Huxley. Isto, entretanto, trouxe à tona facetas da personalidade reprimida que o grupo não conseguia administrar. Acabaram ocorrendo conflitos, separações.

A outra foi recebermos de braços abertos todos os pirados que apareciam, vendo um amigo em cada pessoa que parecesse estar fora do sistema. Como sempre, apareceram os aproveitadores, os parasitas, os pequenos marginais. E a polícia veio atrás.

Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano valeu por uns cinco. Foi com imenso pesar que vimos aqueles laços se romperem, sendo obrigados a voltar, cada um por si, à luta inglória pela sobrevivência. É uma tortura ser obrigado a correr de novo atrás do ouro de tolo, quando não se tem mais  aquela velha opinião formada sobre tudo...

Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as comunidades ainda poderão ser viabilizadas. Há que se tentar outra vez. Mesmo porque, como disse o Raul, "basta ser sincero e desejar profundo/ você será capaz de sacudir o mundo".

O NOVO DESAFIO 

A tentativa de irmos engendrando uma alternativa ao sistema dentro do próprio sistema tem muito mais a ver agora do que no tempo do Raul, pois os homens precisarão unir-se para enfrentar a crise das alterações climáticas.

Na segunda metade deste século, o planeta será fustigado por terremotos, maremotos, furacões, tufões, tsunamis, inundações, fome e seca. As perdas poderão ser diminuídas se os homens se ajudarem mutuamente, sem o egoísmo e a competitividade capitalistas; caso contrário, até mesmo o fim da espécie humana não estará descartado.

O futuro da humanidade não pode ficar à mercê da ganância, sob pena de interesses mesquinhos acabarem destruindo o planeta.

Os homens têm de encontrar formas de organizar-se para a produção em termos solidários, visando o bem comum e não o lucro. Cooperarem em vez de competirem.

Mas, isso não pode ser imposto por uma burocracia. Chega de ditadura do proletariado, estatização compulsória da economia e outras experiências que tiveram maus resultados!

É uma mudança de cultura que teremos de efetuar voluntariamente, se quisermos legar aos nossos descendentes algo além de uma Terra arrasada.

Teremos de construir algo novo a partir da cooperação voluntária dos cidadãos. Mostrar que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses individuais. Convencer os recalcitrantes ou mantê-los fora da nova sociedade que estivermos criando. Mas, fazer o possível e o impossível para evitar que ela também descambe para a coerção e a repressão.

E não serão os podres poderes atuais que vão encabeçar essa luta. A união de que necessitamos deve ser forjada a partir de agora, como uma rede a ser montada pelas pessoas de boa cabeça, independentemente de governos e partidos políticos.

Se o enfrentamento da maior ameaça com que os homens já se depararam não propiciar o surgimento de uma sociedade melhor, nada mais o fará.
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