quinta-feira, 24 de junho de 2010

A FALTA QUE FAZ UM BOM RP NA SELEÇÃO

Nunca suportei ver um homem sendo obrigado a admitir de público erros verdadeiros ou supostos. Lembra demais confessionário, Santa Inquisição, stalinismo.

Então, detestei que Robinho haja sido obrigado a pedir desculpas ao grupo de jogadores por ter concedido uma entrevista que não estava prevista nas rígidas normas de comportamento impostas aos recrutas... digo, aos boleiros.

E detestei igualmente que o técnico Dunga haja sido obrigado a pedir desculpas aos torcedores por seu descontrole na coletiva da Fifa.

Nos dois casos, o destinatário foi errado.

Duvido que o grupo tenha se incomodado com o fato de o Robinho ter falado à imprensa. Só o Dunga se incomodou.

E também duvido que que os torcedores se tenham escandalizado com os palavrões do Dunga. Quem não os ouve a todo momento, no mundo de hoje?

É ao jornalista Alex Escobar que Dunga devia (e ainda deve!) desculpas.

Se houvesse profissionais de relações públicas competentes na CBF, a remoção das farpas que sobraram daquele episódio seria bem diferente.

O encontro entre ambos deveria parecer casual.

Dunga deveria parecer que reconsiderou as coisas com a cabeça fria e resolveu acertar-se com Alex, pois é um homem de bem.

Isto deveria ser feito de forma descontraída. "Vamos tomar um cafezinho e esquecer o mau jeito, OK?".

E aí ele aproveitaria para dizer algo tipo "ah, fala pros seus colegas não levarem essas coisas tão a sério. De vez em quando a gente acorda com a bola virada".

Se quem está lá para apagar incêndios fosse um RP de primeira, o script seria mais ou menos este. Menos solenidade, mais simpatia.

De resto, bem ou mal, Dunga irá até o fim desta campanha.

Então, melhor seria os dois lados, Dunga e a imprensa, seguirem o conselho do Felipão, evitando hostilidades e suportando-se mutuamente até que a participação brasileira na Copa acabe.

Aí, cada um poderá mandar o outro para o inferno.

Dunga também tem algo a aprender com o técnico inglês, que promoveu uma cervejada na véspera do jogo decisivo da 1ª fase, para descontrair o elenco, que andava tenso demais.

Funcionou: os ingleses tascaram 1x0 nos eslovenos e se classificaram.

No caso dos brasileiros, creio que, mais do que uma cervejinha, estejam faltando os carinhos de esposas e namoradas. Deveriam ser chamadas com urgência.

No futebol, monges nunca deram no couro.

3 comentários:

wilson cunha junior disse...

As posições políticas do Dunga, ou a falta delas, não é razão para demonizá-lo. Penso que esse episódio talvez o faça rever algumas coisas. Se não, paciência.

Vi hoje "Tudo pode dar certo" do Woody Allen. Tem uma personagem muito tosca no filme que acaba se transformando após conviver com outras mentalidades. Igual a tudo na vida, como diria o próprio Allen.

Quanto a lutar contra o capitalismo e ignorar seus tentáculos acho isso imaterial. Vejo duas coisas sustentando ainda o capitalismo: A apatia humana e imprensa corporativa. E uma alimenta a outra. Essas pequenas batalhas contra globo e afins são o nosso combustível Celso. Não é mais como o que você fazia há algum tempo mas a gente se sente agindo entende?

Abração

Celso Lungaretti disse...

Wilson,

sei lá a quem você se refere, mas EU não estou demonizando o Dunga, apenas ajudando a entender por que é quem é e faz o que faz.

Para mim, alguém estar de bem com a vida, como o Maradona atual, é a norma; ser reprimido, autoritário, ranzinza, etc., é a anomalia.

Assim como o Drogba, acho que Copa do Mundo é para festejarmos e dançarmos, não para fazermos barracos...

O que sustenta o capitalismo, mais do que tudo, é o medo que as pessoas ainda têm da liberdade e da responsabilidade de construir seu destino. Não se iluda. Fora da internet quase ninguém pensa como nós. Querem mesmo é um Dunga mandando, para obedecerem e ficarem resmungando.

Quanto à Globo, leia o que Marx escreveu sobre uma função histórica. A que a Globo está desempenhando, caso detonemos a credibilidade da Globo, será assumida por qualquer outro grupo de comunicação.

Enquanto existir a função, existirá quem a desempenhe.

Então, temos mesmo é de decepar a cabeça do monstro, não seus tentáculos, que crescem de novo.

Lutas dispersivas nos dão a ilusão de que estamos fazendo algo, mas não produzem rupturas históricas.

Por que, afinal, tão pouca gente hoje afirma em alto e bom som, como eu faço, que nosso real objetivo é substituir o capitalismo por uma organização da sociedade mais humana e justa?

Não, fica-se lutando contra os efeitos do capitalismo sem ir-se ao cerne da questão.

NÃO MARCHAMOS ESPONTANEAMENTE PARA A REVOLUÇÃO, TEREMOS DE A FAZER. 20 GOVERNOS SUCESSIVOS COMO O DO LULA, COM A POLÍTICA ECONÔMICA DO GOVERNO DO LULA, NÃO NOS APROXIMARÃO VERDADEIRAMENTE DO NOSSO OBJETIVO. É A TRISTE VERDADE.

Não creio que seja imaterial minha proposta de organizar os cidadãos de forma autônoma, para viverem (tanto quanto possível) à margem do Estado, lutando contra o capitalismo e contra o Estado.

Começamos a fazer isso em 1968, com nossas comunidades alternativas. Hoje poderíamos ir muito mais longe, se nos determinássemos a isso.

Lutar contra a ditadura era mesmo uma barra pesadíssima. Já tentar viver à margem do sistema, lutando contra o sistema, não é tão sacrificado assim. Mas nem isso se tenta seriamente, hoje.

O "viva Dunga, abaixo a Globo" é bem mais fácil, não obriga ninguém a sair do estilo de vida a que se habituou SOB O CAPITALISMO...

Só que, definitivamente, não levará a lugar nenhum.

Abs.

wilson cunha junior disse...

O momento "viva Dunga, abaixo a Globo" eu espero que dure pouco para que possamos ir adiante. É que percebi que você dedicou muito espaço para criticá-lo quando em outros episódios sempre li aqui que não adianta bater no indivíduo e que o foco deve estar sempre no sistema. Como no caso Daniel Dantas. E aí, como você viu em nós, vi incoerência.

Dunga é jogador de futebol. Na sua grande maioria jogadores de futebol são toscos, sem estudo, sem preparo, sem consciência política. Alguns evoluem com o tempo e a experiência de viver em vários países. Jogadores são ídolos e o sistema é o maior interessado em que eles permaneçam toscos. Já pensou se a maioria tivesse a mentalidade do Sócrates? Falo do jogador, não do grego. Sei que se alguém tomar o lugar da globo fará o mesmo. Mas se a globo perder este lugar por conta da consciência de seu público sua sucessora não terá o mesmo domínio absoluto que ela.

E sobre a coerência humana deixo este texto:

"Há uma passagem de Mahatma Gandhi, um dos seres mais perfeitos que esta Terra já conheceu, que se refere ao princípio da coerência humana.

Conta-se que uma mãe foi procurá-lo, lhe fazendo o seguinte pedido:

- Mestre! Eu gostaria que o Senhor ensinasse o meu filho a não comer açúcar.

O Mestre pensou um pouco e disse:

- Sim. Mas volte daqui há duas semanas e traga consigo o seu menino.

A mãe não soube bem entender o que o Mestre quis lhe dizer, mas acatou e esperou o intervalo que lhe fora solicitado.

Passadas as duas semanas a mãe retornou ao Mestre e lhe disse:

- Fiz conforme o Senhor me recomendara. Agora gostaria de lhe pedir para que ensine o meu filho a deixar de comer açúcar.

O Grande Mahatma olhou o menino, se aproximou dele e se colocou de cócoras, para que seu rosto fitasse o menino frente a frente. E carinhosamente balbuciou:

- Não coma açúcar!

Feito isso se levantou e já ia embora, quando a mãe do menino lhe interpelou:

- Mestre! Eu saí de casa de madrugada, andei quilômetros até chegar aqui. Enfrentei animais bravios, atravessei leito de rios com o menino no colo, carreguei-o após se cansar, para o Senhor fazer algo que eu mesma poderia ter feito, em casa, sem precisar passar por todo esse sacrifício. Por que o Senhor fez isso comigo!

- É porque antes eu comia açúcar, minha filha!

A coerência está entre as atitudes humanas mais difíceis de ser praticada."

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