Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: "rei, nada!".Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e uma pena imensa.
Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser verdadeiramente feliz.
Foi assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem que veio tentar a sorte no Brasil, trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.
Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.
Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.
Mas, em 1930, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.
Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde havia parentes para ajudá-la. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização.
Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.
O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.
Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais..."
Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).
Mas, a síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964.
Depois, como móveis e utensílios da velha fábrica, permaneceu lá, a serviço de quem arrematou parte da massa falida para montar uma indústria menor. E de quem adquiriu o negócio do anterior.
Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.
Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego, bêbado de sono, na escuridão da madrugada; afora a dificuldade para o corpo aceitar dormir ora de uma esticada só, ora em dois períodos.
Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos. Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.
Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia trabalhar de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.
Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem se sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou compaixão. Nunca saberei.
Casou mal, com uma mulher que queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para fornecer o capital inicial de seu próprio negócio.
Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde taxado de "acomodado".
Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.
Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. Pouco valeriam os cursos que concluíra brihantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência da atividade.
Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como "otários", também fez as apostas erradas na corrida da vida.
Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, voltando no mesmo dia.
Hoje se completam sete anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira das tecelagens.
O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, mas as palavras não me vieram. Percebia que nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça.
Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com que sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.
Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, em que quase todos perdem e só uns poucos se realizam verdadeiramente.
Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.
Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.
Mas, em 1930, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.
Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde havia parentes para ajudá-la. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização.
Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.
O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.
Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais..."
Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).
Mas, a síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964.
Depois, como móveis e utensílios da velha fábrica, permaneceu lá, a serviço de quem arrematou parte da massa falida para montar uma indústria menor. E de quem adquiriu o negócio do anterior.
Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.
Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego, bêbado de sono, na escuridão da madrugada; afora a dificuldade para o corpo aceitar dormir ora de uma esticada só, ora em dois períodos.
Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos. Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.
Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia trabalhar de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.
Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem se sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou compaixão. Nunca saberei.
Casou mal, com uma mulher que queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para fornecer o capital inicial de seu próprio negócio.
Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde taxado de "acomodado".
Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.
Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. Pouco valeriam os cursos que concluíra brihantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência da atividade.
Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como "otários", também fez as apostas erradas na corrida da vida.
Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, voltando no mesmo dia.
Hoje se completam sete anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira das tecelagens.
O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, mas as palavras não me vieram. Percebia que nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça.
Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com que sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.
Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, em que quase todos perdem e só uns poucos se realizam verdadeiramente.
7 comentários:
Belissímo post, Celso, talvez o melhor que eu tenha lido por aqui. A última parte é uma bela reflexão:"Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, em que quase todos perdem e só uns poucos se realizam verdadeiramente." - é a esquizofrênia provocada pelo capitalismo, uma realidade que vemos ainda de maneira pungente, especialmente na São Paulo dos dias de hoje.
um abraço
Repito e digo: Belíssimo texto!
Como morador da Moóca e conhecendo de perto o famoso quarteirão da Crespi, e tendo tido irmãs que na minha infância labutaram nesses turnos insanos, cruéis - destinados a aumentar os lucros do capitalista e a arrebentar o ânimo do empregado - percebo nisso algo de insano e cruel. Algo de truculento.
Lembro que mesmo criança, vendo que minhas irmãs numa semana estavam em casa de dia e na outra desapareciam para chegar alquebradas e olhos baços pela longa e penosa jornada em insalubres condições, já pressentia toda a inata indignidade - não do trabalho, óbvio - mas do dispor de seres humanos como se fossem animais de carga que podiam ser usados em turnos ao sabor da vontade do patrão.
Tenho um profundo nojo da sociedade de classes. Do cinismo que faz um capitalista que lucra com o desgaste mais continuado de outro ser humano, ainda se sentir como se favor fizesse por "dar empregos".
E continua assim ou ainda pior nessa era de excesso de mão-de-obra. Faltam trabalhadores mais qualificados porque educação de qualidade ainda é um privilégio de poucos que conseguem se formar em duas, três faculdades, enquanto outros mofam em escolas públicas de "aprovação continuada".
Celso, esse texto vou copiar e enviar pela rede. Muitos de nós somos "Reinaldos" e não nos damos conta. Espero estar contribuindo com seu velho, que deve, de onde está, ter-lhe inspirado nesse texto belíssimo!
Fico sensibilizado. Coloquei este texto no blogue por uma questão sentimental, mas não pensei que fosse interessar aos leitores.
Uma das grandes frases do Caetano foi: "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome".
É o que sempre achei. Gostaria de que as pessoas, no fim da vida, pudessem fazer um balanço positivo de sua trajetória.
Mas, isso dificilmente acontece.
É por isso que, próximo dos 60 anos, nem de longe eu penso em ficar um homem sensato, como o Lula falou.
Precisamos é de muito mais insensatez, para consertar esse mundo cruel e injusto...
Um forte abraço!
Achei seu blog por acaso, acabei de comprar uma mesa Arthur Vannuci & Filhos LTDA.
Muito bom texto!
Parabéns e um abraço!
Curioso você ter encontrado este texto, dentre tantos outros que, pelo contrário, divulguei amplamente, ao invés de deixar só no blogue.
Nem imaginava que os móveis do meu avô ainda pudessem ser encontrados por aí.
O velho era muito consciencioso. Cheguei a vê-lo mandar desembalarem uma mercadoria e substitui-la, por causa de um risquinho quase imperceptível.
"Tem meu nome e o meu nome não pode andar riscado por aí", disse.
Abs.
Lindo, tocante! Chorei ao ler... Pensei em seu pai, em meu pai, que ainda vive e tem 80 anos... A vida é tão ligeira e vivemos a nos perder nos descaminhos...
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