sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

BOTARAM FANTASIA DE PRESO NO ARRUDA

“Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores”, avaliou a pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca.

Bem dentro desse espírito, o Superior Tribunal de Justiça colocou o (des)governador do Distrito Federal José Roberto Arruda atrás de grades -- apenas simbólicas, já que passou a noite de 5ª para 6ª feira confortavelmente instalado no gabinete da diretoria do Instituto Nacional de Criminalística.

E ninguém duvida de que o Supremo Tribunal Federal acabará soltando Arruda, cujo azar foi seu pedido de habeas corpus ter caído nas mãos do ministro Marco Aurélio Mello, um dos que honram a toga.

Ele adiou a decisão por faltarem alguns elementos para análise liminar da ação... e, provavelmente, para que Arruda recebesse ao menos uma punição moral.

Em último caso, entretanto, o presidente Gilmar Mendes dará um jeito de restabelecer a ordem natural das coisas.

Até nosso bom Lula teria lamentado, segundo um assessor próximo, que os acontecimentos houvessem chegado ao ponto de ser pedida a prisão de um governador.

Cá com meus botões, apostaria que a possibilidade de Arruda ser finalmente expelido do governo é muito maior do que a de passar uma temporada preso.

Fico me lembrando de como os militantes revolucionários dos anos 60 encarávamos tais casos de corrupção: nós os víamos como intrínsecos ao capitalismo, e não meramente circunstanciais.

Ou seja, só teriam fim a partir de uma mudança profunda da organização econômica, política e social do País.

Para quem considera que a propriedade é o roubo (anarquistas) ou que o capitalismo se alicerça sobre a usurpação individual de parte do produto do trabalho coletivo (marxistas), é esta a distorção suprema de nossa sociedade, não a corrupção dos políticos -- os quais devem ser tidos como meros ladrões de galinhas, na comparação com os banqueiros e os grandes empresários.

Os tão alardeados prejuízos que os políticos causam aos pagadores de impostos são irrisórios, insignificantes ao extremo, em relação à rapinagem legalizada que o capital pratica contra a totalidade dos brasileiros.

Mas, claro, interessa ao sistema, por meio de sua indústria cultural, manter a plebe ignara sempre mesmerizada pela árvore e incapaz de perceber a floresta por trás dela.

O combate à corrupção fornece catarse para as massas e, em momentos de crise, enseja mobilizações golpistas. Não por acaso, foi um dos principais motes da quartelada de 1964, apelidada de redentora porque se propunha a moralizar os costumes políticos brasileiros.

Daí a amarga crítica feita pelos revolucionários mais consequentes aos agrupamentos de esquerda que, embarcando nos desvarios populistas, ajudaram a minar o governo João Goulart, ao fazerem coro às acusações lançadas pela direita. No fundo, só serviram para colocar azeitona na empada dos golpistas.

O "HOMEM DA VASSOURA" E O "ROUBA-MAS-FAZ"

As desventuras momentâneas do Arruda lembram episódios do populismo pré-1964, como a acusação feita a Adhemar de Barros (o rouba-mas-faz anterior a Paulo Maluf), de que em 1949 abusara de seu poder como governador paulista para obter um empréstimo irregular do Banco do Estado de São Paulo, visando à aquisição de dez automóveis Chevrolet.

A denúncia foi exumada em 1956 por Jânio Quadros, que se definia politicamente como o anti-Adhemar.

Jânio tinha como símbolo a vassoura, que serviria para varrer a roubalheira do rato Adhemar. E, na esperança de liquidar politicamente o rival, arrancou do Tribunal de Justiça de São Paulo sua tardia condenação a dois anos de reclusão, por peculato.

Acabaram sendo apenas dois meses de exílio na Bolívia, para onde fugiu.

Beneficiado por habeas corpus do STF (Gilmar Mendes teve predecessores...), Adhemar de Barros voltou em triunfo, elegeu-se prefeito da capital e, em seguida, governador do Estado, posição a partir da qual apoiou fortemente o esquema golpista de 1964.

Já Jânio Quadros, o caçador de roedores que inspiraria o caçador de marajás, alcançou a Presidência em 1960, com a maior votação até então obtida por um candidato ao posto máximo da República, vencendo de forma esmagadora o marechal Henrique Lott.

Fez um governo anedótico, entre 31/01/1961 e 25/08/1961, ocupando-se de ninharias como a proibição das rinhas de galo, do lança-perfume nos bailes de carnaval e do televisionamento de concursos de miss nos quais as ditas cujas trajassem biquinis.

Ao renunciar na esperança de que o povo o reconduzisse ao poder com poderes ampliados, abriu, isto sim, as portas para as duas tentativas dos conspiradores militares: a que fracassou em 1961 e a que resultou em 1964.

Invertendo a frase célebre de Hegel, as farsas do populismo criaram condições para a tragédia que se abateu por 21 anos sobre o Brasil.

IMPUNIDADE APÓS A REDEMOCRATIZAÇÃO

É claro que a atual impunidade dos poderosos -- de Pimenta Neves até José Sarney, passando por banqueiros como Dantas e mensaleiros como Palocci -- ofende profundamente o espírito de justiça de que todos nós somos dotados, segundo Platão.

O Brasil consegue ser o pior dos mundos possíveis, com a inclemência capitalista elevada ao máximo e nem sombra da igualdade de todos perante a lei que é erigida em valor importante nos países capitalistas avançados (muito deixa de vir à tona, claro, mas quando figurões são flagrados, dificilmente escapam da punição).

Vai daí que que o opróbrio de um Arruda nos lava a alma, depois de tantos episódios que tiveram desfechos pífios.

Mas, é pouco e por aí não chegaremos a lugar nenhum: o verdadeiro desafio continua sendo o de mudarmos as estruturas.

P.S.: no início da tarde, saiu a decisão do ministro Marco Aurélio, negando o habeas corpus a Arruda, que permanecerá preso pelo menos até a 4ª feira de cinzas, quando o STF vai apreciar seu caso. Aí, a tendência é de que poderes mais altos se alevantem, como diria Camões...

9 comentários:

wilson cunha junior disse...

Muita gente embarca na onda dos jornais nacionais da vida que fazem o maior barulho contra a corrupção dos políticos enquanto penduram bem mais alto a cortina que cobre seus próprios crimes que, de fato, são bem maiores do que as dos Arrudas da vida.

Arruda preso é um avanço nesse país. Vamos em busca dos maiores.

Marcos D. disse...

"Até nosso bom Lula teria lamentado, segundo um assessor próximo, que os acontecimentos houvessem chegado ao ponto de ser pedida a prisão de um governador.".

Já está provado que essa foi mais uma mentira divulgada pela Grande Mídia Golpista. O que Lula lamentou foi a situação de roubalheira e de corrupção generalizadas instaladas por Arruda e seua aliados do DEM, PSDB, PPS e outros partidos no governo do Distrito Federal.

E é claro que essa Grande Mídia nojenta e mentirosa não irá corrigir a divulgação desta notícia totalmente falsa. Canalhice e desonestidade estão no código genético do PIG.

Particularmente, eu não acredito em uma única informação divulgada pela Grande Mídia a respeito do governo Lula. Não é que esse não deva ser criticado... Deve, bem como TODOS os governos e a própria imprensa, jornalistas e blogueiros, também são passíveis de ser criticados, pois também erram o tempo inteiro e não apenas os governos.

O problema são as mentiras contínuas que o PIG divulga a respeito do governo Lula, da Dilma (ficha falsa... reunião inexistente com Lina Vieira, etc), do PT, do Chávez, do MST, bem como a respeito das idéias Socialistas e de Esquerda.

Esta foi mais uma tentativa do PIG de tentar desgastar Lula através de uma mentira abjeta. Aliás, essa permanente desonestidade talvez ajude a explicar porque Lula é tão popular. Afinal, se essa gentalha repugnante do PIG é contra o Lula, vai ver porque ele faz um bom governo. Se fizesse uma porcaria de governo, como foi o do FHC, essa Grande Mídia iria adorar.

Haroldo M. Cunha disse...

Marcos, tenha inteira razão, até o Celso entrou nessa, mas ele critica por questões ideológicas, pois o que ele gostaria de ver é um Lula revolucionário e não um presidente tendo que engolir "sapo" pela governabilidade e é exatamente isso que faz de Lula um grande presidente.

Celso Lungaretti disse...

Não é bem por aí, companheiros. Há sucessivas declarações do Lula no sentido de que figurões crapulosos como Arruda e Sarney não devam ser julgados pela opinião pública com o rigor que caberia caso fossem "simples mortais"...

A frase a ele atribuída pelo assessor é coerente com muitas outras que Lula proferiu, inclusive em fases anteriores do Caso Arruda.

Então, temos de considerar a hipótese de que, como pegou mal, haja depois consertado, introduzindo uma versão conveniente.

Em política não há santos nem demônios, apenas pessoas que ora acertam, ora erram; ora dizem meias verdades, ora mentem descaradamente.

Abordá-la de forma maniqueísta é que constitui suprema ingenuidade.

Abs.

Marcos D. disse...

Lungaretti, entendo que você insiste em cometer um equívoco, que é o de atribuir veracidade à informação divulgada pela Grande Mídia Golpista e reacionária tupiniquim a respeito deste suposto 'assessor' que ninguém sabe quem é e que ninguém viu.

Afinal, quem é esse assessor que ninguém viu? Se você ou mais alguém sabe o nome dele, então que diga quem ele é, oras!

Então, é assim que se faz jornalismo? Inventa-se um assessor qualquer, atribui-se uma afirmação ao mesmo e, pronto, divulga-se a informação como sendo a pura expressão da 'Verdade'. Chamar isso de Jornalismo é piada e de muito mau-gosto.

É inacreditável que um jornalista diplomado e que já trabalhou nesse meio da Grande Mídia, como é o seu caso, dê algum crédito para o que essa Grande Mídia mentirosa e reacionária divulga, mesmo quando ela não apresenta uma única prova concreta do que afirma!

Parece que você já se esqueceu do episódio ‘Folha’/César Benjamim, no qual estes se uniram para acusar falsamente ao Presidente Lula e que não apresentaram uma única prova sequer e nem uma única testemunha confiável que confirmasse a acusação que fizeram.

Sinceramente, Celso? Para mim, acreditar nessa Mídia Reacionária, Golpista, mentirosa, que foi financiada pela Ditadura Militar (o que seria da Rede Globo e da Editora Abril se não fosse a Ditadura? nada!) , que mente na cara-dura, distorce os fatos ao seu bel-prazer e que manipula o noticiário o tempo inteiro, é que é uma clara demonstração de ingenuidade.

Esse caso do 'assessor' que ninguém sabe quem é (vai ver que é o Abominável Homem das Neves ou o Monstro do Lago Ness) é o típico caso do 'grampo sem áudio': A Grande Mídia divulga a 'informação', não apresenta nenhuma prova concreta de que a mesma é verdadeira, fica repetindo aquilo milhares de vezes e a mentira acaba se transformando numa verdade.

Isso demonstra, claramente, que esta Grande Mídia é controlada por alunos disciplinados e bem aplicados dos ensinamentos do ‘Grande Mestre’ deles, que é Joseph Goebbels, é claro.

Não acredito em nenhuma informação proveniente dessa Grande Mídia Golpista e reacionária, a não ser que a mesma seja devidamente confirmada por outras fontes confiáveis.

Você já se esqueceu da ficha falsa da Dilma? Do episódio da 'Ditabranda'? Da mentira dos dólares de Cuba na campanha de Lula? Da inexistente reunião entre a Lina Vieira e a Dilma? Da mentira das contas de Lula em paraísos fiscais?

Quantas mentiras mais eles terão que inventar para que você perceba que a Grande Mídia brasileira não age de maneira jornalística, mas que atua como um partido político de extrema-direita?

Celso Lungaretti disse...

Marcos,

não só trabalhei na grande imprensa, como atuei na assessoria de imprensa de um governador.

E é exatamente por isso que nunca dou crédito a tais desmentidos: sei como eles são produzidos.

O político diz uma bobagem, o coordenador de imprensa vai lá e bate um papo com ele, em seguida o político dá declaração pública corrigindo a bobabem.

Vi isto acontecer dezenas, quiçá centenas, de vezes.

E o Lula é useiro e vezeiro em pedir aos cidadãos para pegarem leve com políticos pilhados no flagra.

Eu não lhe atribuiria os maus motivos que a imprensa burguesa quer enxergar.

Apenas, acho que isto advem de suas raízes nordestinas. Por lá, realmente, um Sarney não é encarado como igual ao homem da rua.

Já um paulista, p. ex., tende a ver o Sarney como muito pior do que qualquer homem da rua...

Por último: mais do que quaisquer argumentos, o que contará mesmo é o desfecho do episódio.

Canto a bola desde já: o Supremo vai relaxar a prisão do Arruda sob qualquer pretexto (o Gilmar Mendes é imaginativo...), com discreto apoio do Planalto.

Que, aliás, não deve ser visto exatamente como um sustentáculo do Arruda. Apenas, não agiu nem agirá com firmeza, no sentido de que seja merecidamente punido.

Já no caso do Sarney, que eu considero muito pior, quem lhe atirou o salva-vidas foi mesmo o Lula.

Houve um momento em que o velho serviçal da ditadura esteve para cair e seu único verdadeiro apoio foi o Planalto.

Aí ele recuperou forças e virou o jogo, escapando da degola que, como ninguém, fazia por merecer.

Abs.

Haroldo M. Cunha disse...

Celso, o planalto não tem que agir com firmeza no caso Arruda. Isso é dever do Judiciário e, ao meu ver, do legislativo. O executivo só deve intervir, em um estado democrático de direto, depois das ações serem julgadas em definitivo pelo poder competente, caso contrário do que terá valido sua luta e de tantos outros companheiros seu, que perderam suas vidas (física e psicológica) nos porões da ditadura? Lula simplesmente joga o jogo democrático, pois o presidente da república não está lá para julgar nem condenar ninguém, repito, ele quer DEMOCRACIA, onde cada um cumpre seu papel que lhe foi destinado na Constituição.

Celso Lungaretti disse...

Na prática, a teoria é outra, Haroldo. Até as pedras sabem que a posição do Planalto foi determinante para a não punição do culpadíssimo Sarney e tende a sê-lo novamente agora no Caso Arruda.

Quem te lê, pensa que você está escrevendo sobre a Suíça ou a Dinamarca. Aqui o poder de fogo do Executivo é imenso, e não tem sido utilizado exatamente no sentido de que corruptos sejam expelidos da política...

Abs.

Haroldo M. Cunha disse...

Celso, graças q Deus que o executivo não usa esse poder. Pois do contrário ( e você sabe bem melhor do que eu) estariamos com um Jorge Bornhausen no poder. E essa história de prática eteoria e mera retórica discursiva, pois não penso que meu país seja uma Dinamarca ou Suiça, por que esses dois paises não chegam aos pés do Brasil e não possuem nossa história de vida, de expoliados, subjulgados e escravizados. Eles possuem centanas de ano de história (tô sendo repetitivo?) e nós, o que nós temos? Por favor, não se constroi uma nação democrática de um momento para o outro. Danton e Robespierre viveram isso, as dicotomias do poder. Eu e você, de certa forma, buscamos a utopia e eu irei encontrá-la no fim, se não, o fim ainda não terá chegado! Isso é sonhar? Lembra do Milton: "se o poeta é o que sonha o que vai ser real, vou sonhar coisas boas que o homem faz e esperar pelo frutos no quintal"

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