sábado, 31 de outubro de 2009

SOLUÇÃO SALOMÔNICA PARA A CRISE HONDURENHA

Foi uma solução salomônica, a que os EUA concertaram em Honduras.

Caberá ao Congresso decidir se o poder vai ou não ser restituído ao presidente legítimo Manuel Zelaya. É o que Zelaya propunha.

A Suprema Corte, na qual o presidente golpista Roberto Micheletti depositava suas esperanças, será consultada e vai emitir um parecer, que poderá ou não ser seguido pelo Congresso.

O mais tardar na 5ª feira, será empossado um governo de unidade e de reconciliação nacional, com representantes das duas partes.

Esse governo, ou reempossará Zelaya, ou empossará quem vencer as eleições, dependendo da decisão dos congressistas.

Se o Congresso optar pela volta de Zelaya ao governo, o que lhe restará de poder real?

As eleições se realizarão, como programado, no próximo dia 29. Ou seja, daqui a quatro semanas.

Tão logo se anuncie o vencedor, será ele o presidente de fato, embora tenha de esperar até 27 de janeiro para sê-lo de direito.

Elegendo-se um candidato apoiado por Zelaya, este sairá fortalecido e vai continuar exercendo forte influência no destino de Honduras.

Caso contrário, o golpe terá logrado o seu objetivo: evitar a continuidade das políticas de Zelaya.

A este, restaria o provável papel de líder da oposição.

De resto, o acordo prevê a futura instalação de uma Comissão da Verdade, para apurar os fatos relativos à deposição de Zelaya. O previsível é que venha a dividir as culpas também salomonicamente.

Não foi, nem de longe, o desfecho ideal. À primeira vista, parece que Zelaya perde mais do que Micheletti (começando pelos quatro meses de governo que já lhe foram surrupiados, desde o golpe de 28 de junho).

Mas, a política é uma caixinha de surpresas. Se reassumir a presidência antes das eleições, Zelaya poderá se apresentar ao povo como o grande vencedor do braço-de-ferro com os golpistas e, surfando nessa maré de popularidade, fazer o seu sucessor.

Quanto aos golpistas, aprenderam uma lição que poderiam ter lido em Napoleão: baionetas não servem como assento. Tinham a força das armas, mas a rejeição mundial, em última análise, os obrigou a ceder.

Quanto a Lula, também saiu metade vencedor e metade perdedor -- como todos os outros.

Acolhendo Zelaya na embaixada, foi o país com atuação mais decisiva para frustrar os planos dos golpistas, de levarem a situação em banho-maria até as eleições.

Mas, não teve força política suficiente para ser ele a impor uma solução a Micheletti.

Fez um lance ousado, aparentemente superestimando o efeito que a presença física de Zelaya teria sobre a mobilização popular.

Quando esta se mostrou insuficiente para abalar os golpistas, recuou para uma posição de imobilismo, deixando o palco livre para os Estados Unidos brilharem.

Foram estes, infelizmente, os únicos vencedores totais. Os EUA deixaram o impasse prolongar-se quanto quiseram e deram um basta no momento em que decidiram.

Obama mostrou que seus elogios são como confetes: alegram a festa, mas acabam varridos no dia seguinte.

Pois fez questão de mostrar que é ele o cara a quem cabe a palavra final nas Américas.

Poderia ter manobrado para os louros ficarem com Lula. Não o quis.

Espero que os sábios do Itamaraty façam a avaliação correta e a transmitam a Lula: nada devemos esperar de Obama além do que esperávamos de Bush.

Teremos o espaço e a influência que conquistarmos. Não nos serão repassados de mão beijada.

3 comentários:

Marcos D. disse...

Celso, o fato é que os EUA sempre tiveram a 'faca e o queijo' na mão em relação a Honduras.

O pobre país centro-americano não passa de um protetorado militar dos EUA e economicamente é, também, totalmente dependente dos EUA.

Afinal, 70% das exportações hondurenhas vão para os EUA e as remessas de hondurenhos que trabalham no exterior representam 23% do PIB do país e quase todo esse dinheiro vem dos EUA.

Assim, se os EUA tivessem adotado um embargo comercial e proibido a remessa de dinheiro para Honduras por parte dos hondurenhos que trabalham em terras ianques, o Golpe não teria durado nem 48 horas.

Os golpistas somente ficaram no poder por tanto tempo porque os EUA permitiram. Os EUA tinham a 'faca e o queijo' na mão para acabar com o Golpe rapidamente, mas preferiram contemporiar com o mesmo, o que foi um grave erro.

Quanto ao Brasil, entendo que o seu papel foi fundamental para a solução da crise. Se o governo Lula não tivesse dado abrigo à Zelaya na embaixada brasileira, este acordo jamais seria assinado e os golpistas continuariam no poder e comandariam o país durante a próxima eleição presidencial, a ser realizada no dia 29/11.

Além disso, o Brasil nunca foi influente na América Central. A região sempre foi, de maneira trágica e infeliz, um 'quintal' dos EUA.

O simples fato de que o Brasil tenha exercido um papel importante na resolução de um grave conflito político num país que é, praticamente, uma semi-colônia dos EUA, já representou uma vitória política do governo brasileiro.

O mais importante, no entanto, é que o Golpe de Estado fracassou e isso irá desestimular novos Golpes pela América Latina afora.

Aliás, este é mais um golpe que fracassa na América Latina no começo do século XXI. Antes, tivemos o fracasso do Golpe contra Chávez, em 2002, e contra Evo Morales em 2008.

Estes golpistas reacionários que querem manter os latino-americanos como semi-escravos do Grande Império Ianque, enquanto pegam algumas migalhas para si, não passarão.

Abaixo a Ditadura! Viva a Democracia!

A Democracia venceu em Honduras!!

Celso Lungaretti disse...

No fundamental concordamos, Marcos.

Mas, como enxadrista que sou, avaliaria de outra forma o jogo dos EUA.

De um lado, não queria fortalecer Chávez.

Do outro, não podia deixar um golpe desses prevalecer, pois isto faria Obama parecer Bush.

Então, sua aposta foi de que a situação não se resolveria sem sua intervenção.

Infelizmente, foi o que aconteceu.

Quanto ao Brasil, eu reconheci seu mérito no texto. Quebrou o imobilismo daquele momento.

Mas, ainda recorrendo à metáfora enxadrística, não tinha uma boa resposta a dar caso a presença de Zelaya em Honduras não provocasse grandes manifestações populares, que abalassem seriamente o governo ilegítimo.

Faltou-lhe uma sequência que culminasse no xeque-mate. Mas, fez o possível.

De resto, procurei combater esse deslumbramento tolo com a frase "Lula é o cara", que me fez lembrar outra dos anos 70, "para onde o Brasil inclinar-se, vai se inclinar o resto da América do Sul".

Nas duas vezes, os bobos daqui pensaram que os EUA se dispunham a transferir liderança para nós.

Os militares quebraram a cara daquela vez.

E os EUA acabam de mostrar a Lula que não fazem questão nenhuma de que ele apareça bem na foto.

Pelo contrário, como nas tralhas de Hollywood, continuam reservando para si próprios o papel de "mocinhos".

Marcos D. disse...

Celso, concordo contigo de que os EUA não querem transferir liderança alguma para quem quer que seja, nem para 'Lula, O Cara'.

Mas, entendo que, atualmente, o cenário político latino-americano caminha numa direção radicalmente distinta da dos anos 1970.

Naquela época, a América Latina inteiramente era dominada por Ditaduras Militares totalmente apoiadas e financiadas pelos EUA.

E hoje vemos inúmeros governos nacionalistas e reformistas vencendo eleições e referendos por toda a região.

E tais governos estão, claramente, procurando diminuir a dependência em relação aos EUA, intensificando o processo de integração entre eles e estabelecendo relações mais fortes com países como China, Rússia, entre outros, que são potências regionais que os EUA tem que respeitar, gostem ou não disso, pois possuem armas nucleares.

Mesmo o governo Lula diminuiu a dependência do Brasil em relação aos EUA, estimulando o comércio com os países emergentes (América Latina, Oriente Médio, Rússia, China, África, etc).

Hoje, menos de 15% das exportações brasileiras vão para os EUA. Na época da Ditadura Militar mais de 50% iam para terras ianques. Antes, devíamos até as calças para o FMI. Hoje, somos credores do FMI.

Isso, sem dúvida alguma, permite uma margem de manobra bem maior para o Brasil do que tínhamos na época da Ditadura Militar.

Veja que o mais recente acordo militar brasileiro, e de grandes proporções, foi assinado com a França e não com os EUA.

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